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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Cassiano Ricardo: Metamorfose

Resultado de imagem para Poesia Brasileira para a Infância Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito
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Meu avô foi buscar prata
mas a prata virou índio.

Meu avô foi buscar índio
mas o índio virou ouro.

Meu avô foi buscar ouro
mas o ouro virou terra.

Meu avô foi buscar terra
e a terra virou fronteira.

Meu avô, ainda intrigado,
foi modelar a fronteira:

E o Brasil tomou a forma de harpa.

Cassiano Ricardo (1895-1974)
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Poesia Brasileira para a Infância (diversos autores), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Cassiano Ricardo Leite (1895 1974), paulista de São José dos Campos, formado em Direito, foi poeta, ensaísta e jornalista; trabalhou como redator no Correio Paulistano, dirigiu o A Manhã, do Rio, fundou a Novíssima, revista literária focada no modernismo, e criou as revistas Planalto e Invenção; o poeta inicia-se na arte literária com Dentro da Noite (versos parnasianos e neo-simbolistas, 1915) e A Frauta de Pã (1917), e a partir daí define-se como modernista; bibliografia: Borrões de Verde e Amarelo (1926), Vamos Caçar Papagaios (1926), Martim Cererê (1927), Deixa Estar, Jacaré (1931), A Academia e a poesia moderna (ensaio, 1939), O Sangue das Horas (1943), Um Dia Depois do Outro (1947), A Face Perdida (1950), Poemas Murais (1951), O Arranha-céu de Vidro (1956), João Torto e a Fábula (1956), 22 e a poesia de hoje (ensaio, 1962), O Indianismo de Gonçalves Dias (ensaio, 1964), Jeremias sem-chorar (1964), Os sobreviventes (1971), entre tantos outros títulos.

domingo, 6 de novembro de 2016

Gilberto Mendonça Teles: Pavloviana

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No ar vou árvore vou ave vou
ando só e noturno, passageiro
inquieto e sombrio, como o touro
lendo o vermelho aéreo das sereias.

Antes, falo do amor que se debruça
na seta deste enigma e não se cala
nem se cobre de medo ou de medusa
depois de tanta musa e tanta fala.

A língua não se volta contra o céu
da boca, nem o timbre das palavras
muda o gosto das frutas pelo inverno.

Só o amor e seu mar, suaventura
e tédio, ordenam esse sinal de baba
nos seus cachorrosnando, mas de gula.

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A Raiz da Fala — Gilberto Mendonça Teles, Apresentação/Prefácio de Cassiano Ricardo, 1972, Edições Gernasa, Rio de Janeiro — RJ; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra  Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

domingo, 4 de setembro de 2016

Gilberto Mendonça Teles: Sintagmas

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Língua de boi
língua de vaca
língua de todos
os animais.

Língua de sogra
língua de sabre
língua de sobra
língua de mais.

Língua de menos
língua de palmo
língua de extremos
universais.

Língua de ouro
língua de prata
língua de forças
eventuais.

Língua de trapos
línguas de tropos
língua de loucos
originais.

Língua de igreja
língua do língua
língua de trava
língua geral.

Língua do tempo
língua do exílio
língua do exemplo
língua da vida.

Língua do poema
duro como íngua
que só lateja
enquanto míngua

na fala e lambe
a língua oca
que pende
                  langue
do céu da boca.

Resultado de imagem para A raiz da fala Gilberto Mendonça Teles
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A Raiz da Fala — Gilberto Mendonça Teles, Apresentação/Prefácio de Cassiano Ricardo, 1972, Edições Gernasa, Rio de Janeiro — RJ; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Cassiano Ricardo: Compromisso

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Eu serei um túmulo
Para o teu segredo,
Que guardado está
A noite mais negra
Baterá o martelo
Do vento mais rijo
Nesta pedra muda:
Quem será que mora,
Nesta pedra muda,
Que tão muda está?

Mas o meu silêncio
Nada lhe dirá.

E já as formigas
Cobrirão meus olhos
E estes musgos verdes
Estarão crescendo
Fora das paredes.
Mas o meu silêncio
Nada lhes dirá.

Virá a alva louca:
Quem será que mora
Nesta pedra tosca
Que tão muda está?
Mas o meu silêncio
Nada lhe dirá.

Boca costurada
Pelo meu silêncio,
Pode a madrugada
Me trazer seus pássaros,
Suas rosas rubras,
Que serão perguntas
Sem repercussão.

Mesmo algum cipreste
Crescerá alto e fino
Como longa espada
Por alguém cravada
No meu coração.

Mas o meu silêncio
Nada lhe dirá.

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Obras Primas da Lírica Brasileira  Volume XII, Seleção de Manuel Bandeira e Notas de Edgard Cavalheiro, 1943, Livraria Martins Editora, São Paulo  SP; Cassiano Ricardo Leite (1895  1974), paulista de São José dos Campos, foi poeta, ensaísta e jornalista; trabalhou como redator no Correio Paulistano, dirigiu o A Manhã, do Rio, fundou a Novíssima, revista literária focada no modernismo, e criou as revistas Planalto e Invenção; escreveu e publicou Borrões de Verde e Amarelo (1926), Vamos Caçar Papagaios (1926), Martim Cererê (1927), Deixa Estar, Jacaré (1931), A Academia e a poesia moderna (ensaio, 1939), O Sangue das Horas (1943), Um Dia Depois do Outro (1947), A Face Perdida (1950), Poemas Murais (1951), O Arranha-céu de Vidro (1956), João Torto e a Fábula (1956), 22 e a poesia de hoje (ensaio, 1962), O Indianismo de Gonçalves Dias (ensaio, 1964), Jeremias sem-chorar (1964), Os sobreviventes (1971), entre tantos outros títulos.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Cassiano Ricardo: Translação

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[Jeremias sem-chorar  1964]


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Roteiro da Poesia Brasileira — Modernismo, Seleção e Prefácio de Walnice Nogueira Galvão, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Cassiano Ricardo Leite (1895  1974), paulista de São José dos Campos, foi poeta, ensaísta e jornalista; publicou Borrões de Verde e Amarelo (1926), Vamos Caçar Papagaios (1926), Martim Cererê (1927), Deixa Estar, Jacaré (1931), A Academia e a poesia moderna (ensaio, 1939), O Sangue das Horas (1943), Um Dia Depois do Outro (1947), A Face Perdida (1950), Poemas Murais (1951), O Arranha-céu de Vidro (1956), João Torto e a Fábula (1956), 22 e a poesia de hoje (ensaio, 1962), O Indianismo de Gonçalves Dias (ensaio, 1964), Jeremias sem-chorar (1964), Os sobreviventes (1971), entre tantos outros títulos.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Cassiano Ricardo: Ladainha

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Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.

Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
                       corporal?

Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós.

Jeremias sem-chorar — 1964

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Roteiro da Poesia Brasileira — Modernismo, Seleção e Prefácio de Walnice Nogueira Galvão, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Cassiano Ricardo Leite (1895 1974), paulista de São José dos Campos, foi poeta, ensaísta e jornalista; publicou Borrões de Verde e Amarelo (1926), Vamos Caçar Papagaios (1926), Martim Cererê (1927), Deixa Estar, Jacaré (1931), A Academia e a poesia moderna (ensaio, 1939), O Sangue das Horas (1943), Um Dia Depois do Outro (1947), A Face Perdida (1950), Poemas Murais (1951), O Arranha-céu de Vidro (1956), João Torto e a Fábula (1956), 22 e a poesia de hoje (ensaio, 1962), O Indianismo de Gonçalves Dias (ensaio, 1964), Jeremias sem-chorar (1964), Os sobreviventes (1971), entre tantos outros títulos.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Cassiano Ricardo: Poética

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            1
Que é a Poesia?
                            uma ilha
                            cercada
                  de palavras
                            por todos
                            os lados.

            2
Que é o poeta?
                          um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                          Um homem
                   que tem fome
          como qualquer outro
                          homem.

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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Cassiano Ricardo Leite (1895  1974), paulista de São José dos Campos, foi poeta, ensaísta e jornalista; publicou Borrões de Verde e Amarelo (1926), Vamos Caçar Papagaios (1926), Martim Cererê (1927), Deixa Estar, Jacaré (1931), O Sangue das Horas (1943), Um Dia Depois do Outro (1947), A Face Perdida (1950), Poemas Murais (1951), O Arranha-céu de Vidro (1956), João Torto e a Fábula (1956) etc.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cassiano Ricardo: Relógio


Diante de coisa tão doida
conservemo-nos serenos.

Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser.

Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.
(Um Dia Depois do Outro — S. Paulo — 1947)
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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Cassiano Ricardo Leite (1895  1974), paulista de São José dos Campos, foi poeta, ensaísta e jornalista; publicou Borrões de Verde e Amarelo (1926), Vamos Caçar Papagaios (1926), Martim Cererê (1927), Deixa Estar, Jacaré (1931), O Sangue das Horas (1943), Um Dia Depois do Outro (1947), A Face Perdida (1950), Poemas Murais (1951), O Arranha-céu de Vidro (1956), João Torto e a Fábula (1956) etc.