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sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Georg Trakl: primavera da alma

 
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[versão de Roswitha Kempf]

Um brado no sonho; por becos negros precipita-se o vento,
o azul da primavera acena entre os galhos partidos,
o orvalho purpúreo e as estrelas esmorecem ao redor.
Esverdeado clareia o rio, prateadas as velhas áleas
e as torres da vila; ó suave embevecimento
no barco deslizante e os gritos sombrios do melro
em jardins infantis. Raleia a rósea florada.

Solenes murmuram as águas. Ó, as sombras úmidas do prado,
o animal que caminha; verdejantes ramos floridos
tangem a fronte de cristal; luminosa canoa balouçante.
Soa de leve o sol entre as nuvens rosadas que envolvem a colina,
grande é o silêncio do pinheiral, as graves sombras do rio.

Pureza! Pureza! Onde estão os terríveis caminhos da morte,
do silêncio cinzento de pedra, as rochas da noite
e as sombras sem paz? Abismo solar radiante.
Quando encontrei-te irmã, na erma clareira do bosque
e o sol estava a pino e grande era a mudez do animal;
brancas, sob carvalhos silvestres e os espinhos floriam prateados.
Um morrer imenso e a chama cantante na alma.

As águas cercam mais sombrias os belos folguedos dos peixes.
Hora de luto, um mudo contemplar do sol;
é a alma uma estranha na terra. Raia o azul
irreal sobre a mata massacrada e um sino grave
plange longamente na vila: um cortejo tranquilo.
Discreta floresce a murta alva sobre as pálpebras brancas do morto.

Soam de leve as águas na tarde que finda,
a selva verdeja mais intensa na margem do rio,
júbilo no vento rosado
e a canção suave do irmão no outeiro da noite.

Georg Trakl

Frühling der Seele

Aufschrei im Schlaf; durch schwarze Gassen stürzt der Wind,
Das Blau des Frühlings winkt durch brechendes Geäst,
Purpurner Nachttau und es erlöschen rings die Sterne.
Grünlich dämmert der Fluß, silbern die alten Alleen
Und die Türme der Stadt. O sanfte Trunkenheit
Im gleitenden Kahn und die dunklen Rufe der Amsel
In kindlichen Gärten. Schon lichtet sich der rosige Flor.

Feierlich rauschen die Wasser. O die feuchten Schatten der Au,
Das schreitende Tier; Grünendes, Blütengezweig
Rührt die kristallene Stirne; schimmernder Schaukelkahn.
Leise tönt die Sonne im Rosengewölk am Hügel.
Groß ist die Stille des Tannenwalds, die ernsten Schatten am Fluß.

Reinheit! Reinheit! Wo sind die furchtbaren Pfade des Todes,
Des grauen steinernen Schweigens, die Felsen der Nacht
Und die friedlosen Schatten? Strahlender Sonnenabgrund.

Schwester, da ich dich fand an einsamer Lichtung
Des Waldes und Mittag war und groß das Schweigen des Tiers;
Weiße unter wilder Eiche, und es blühte silbern der Dorn.
Gewaltiges Sterben und die singende Flamme im Herzen.

Dunkler umfließen die Wasser die schönen Spiele der Fische.
Stunde der Trauer, Schweigender Anblick der Sonne;
Es ist die Seele ein Fremdes auf Erden. Geistlich dämmert
Bläue über dem verhauenen Wald und es läutet
Lange eine dunkle Glocke im Dorf; friedlich Geleit.
Stille blüht die Myrthe über den weißen Lidern des Toten.

Leise tönen die Wasser im sinkenden Nachmittag
Und es grünet dunkler die Wildnis am Ufer, Freude im rosigen Wind;
Der sanfte Gesang des Bruders am Abendhügel.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores), Versão de Roswitha Kempf, 1981 — Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Goethe: O aprendiz de feiticeiro *


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[traduzido por Roswitha Kempf]

Eis que o velho feiticeiro
Finalmente foi-se embora
E os gênios a seu mando
Me atenderão agora.
Gestos e conjuras
Eu memorizei,
Pela mão dos gênios
Milagres eu farei.
Ferva, ferva
Pelo espaço.
Neste intento
Corra água
E em torrente abundante
Para o banho se derrame.
Te aproxime, vã vassoura,
Pegue estes velhos trapos.
Servo foste há muito tempo,
Servirás a mim agora.
Firme em dois pés,
Encima a cabeça.
Apressa-te e traga
O balde cheio d’água.
Ferva, ferva
Pelo espaço.
Neste intento
Corra água
E em torrente abundante
Para o banho se derrame.
Vede, à margem ele desce,
À ribeira já chegou
E com a rapidez do vento
Com a água retornou.
Veio outra vez!
Como o vaso cresce,
Como cada concha
De água se abastece!
Pára, pára!
Pois já temos
O bastante
Destas águas.
Aí percebo, ai que mágoa,
Esqueci-me da palavra.
A palavra que a torna
Outra vez no que já era.
Ai, lá vai e traz correndo,
Fosse outra vez vassoura!
Sempre novas águas
Traz com rapidez,
Centenas de riachos
Derrama sobre o chão.
Não, não mais
Posso deixá-la
Vou pegá-la.
Que perfídia!
Meus receios ainda aumentam.
Ó que gestos, que olhares!
Excremento do inferno,
Inundarás a casa toda?
Rios de água já envolvem
E transpassam as soleiras.
Ó vassoura infame
Que não quer saber,
Vara que tu foste,
Pare de trazer!
Será que queres
Trapacear-me?
Vou pegar-te,
Segurar-te
E rachar o velho lenho
Com o gume do machado.
Eis que volta carregada.
Vou jogar-me sobre ela,
Logo estará deitada
Atingido pelo ferro.
Deveras, acertei.
Vede, se partiu.
Que alívio, eu respiro,
Livre outra vez.
Que desgraça!
Duas partes
Se levantam
Como servos
Totalmente acabados,
Ajudai-me, ó divinos!
Como correm! Mais molhada
E mais molhada está a casa,
Que terríveol aguaceiro!
Senhor e mestre, escutai-me!
Eis, que vem aí!
Mestre que desgraça,
Os gênios que chamei,
Não querem mais se ir.
“Vai embora,
Sê vassoura
Como sempre
Pois qual duende
Só te chama do teu canto
A contento o velho mestre.”

Goethe

Der Zauberlehrling

Hat der alte Hexenmeister
Sich doch einmal wegbegeben!
Und nun sollen seine Geister
Auch nach meinem Willen leben.
Seine Wort´ und Werke
Merkt ich und den Brauch,
Und mit Geistesstärke
Tu ich Wunder auch.
            Walle! Walle
            Manche Strecke,
            Daß, zum Zwecke,
            Wasser fließe
            Und mit reichem, vollem Schwalle
            Zu dem Bade sich ergieße.
Und nun komm, du alter Besen!
Nimm die schlechten Lumpenhüllen;
Bist schon lange Knecht gewesen:
Nun erfülle meinen Willen!
Auf zwei Beinen stehe,
Oben sei ein Kopf,
Eile nun und gehe
Mit dem Wassertopf!
            Walle! Walle
            Manche Strecke,
            Daß, zum Zwecke,
            Wasser fließe
            Und mit reichem, vollem Schwalle
            Zu dem Bade sich ergieße.
Seht, er läuft zum Ufer nieder,
Wahrlich! ist schon an dem Flusse,
Und mit Blitzesschnelle wieder
Ist er hier mit raschem Gusse.
Schon zum zweiten Male!
Wie das Becken schwillt!
Wie sich jede Schale
Voll mit Wasser füllt!
            Stehe! stehe!
            Denn wir haben
            Deiner Gaben
            Vollgemessen! 
            Ach, ich merk es! Wehe! wehe!
            Hab ich doch das Wort vergessen!
Ach, das Wort, worauf am Ende
Er das wird, was er gewesen.
Ach, er läuft und bringt behende!
Wärst du doch der alte Besen!
Immer neue Güsse
Bringt er schnell herein,
Ach! und hundert Flüsse
Stürzen auf mich ein.
            Nein, nicht länger
            Kann ichs lassen;
            Will ihn fassen.
            Das ist Tücke!
            Ach! nun wird mir immer bänger!
            Welche Miene! welche Blicke!
O, du Ausgeburt der Hölle!
Soll das ganze Haus ersaufen?
Seh ich über jede Schwelle
Doch schon Wasserströme laufen.
Ein verruchter Besen,
Der nicht hören will!
Stock, der du gewesen,
Steh doch wieder still!
            Willsts am Ende
            Gar nicht lassen?
            Will dich fassen,
            Will dich halten
            Und das alte Holz behende
            Mit dem scharfen Beile spalten.
Seht, da kommt er schleppend wieder!
Wie ich mich nur auf dich werfe,
Gleich, o Kobold, liegst du nieder;
Krachend trifft die glatte Schärfe.
Wahrlich! brav getroffen!
Seht, er ist entzwei!
Und nun kann ich hoffen,
Und ich atme frei!
            Wehe! wehe!
            Beide Teile
            Stehn in Eile
            Schon als Knechte
            Völlig fertig in die Höhe!
            Helft mir, ach! ihr hohen Mächte!
Und sie laufen! Naß und nässer.
Wirds im Saal und auf den Stufen.
Welch entsetzliches Gewässer!
Herr und Meister! hör mich rufen! 
Ach, da kommt der Meister!
Herr, die Not ist groß!
Die ich rief, die Geister
Werd ich nun nicht los.
            "In die Ecke,
            Besen! Besen!
            Seids gewesen.
            Denn als Geister
            Ruft euch nur, zu diesem Zwecke,
            Erst hervor, der alte Meister."

(1797)

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: O aprendiz do feiticeiro (Der Zauberlehr[l]ing). Esta balada de Goethe, escrita quando se aproximava dos 50 anos de idade, foi posta em músicas por Loewe, Zelter e Zaumsteeg, antes de se converter no famoso Scherzo sinfônico de Dukas em 1897, que Disney popularizou em seu filme de animação Fantasia. A balada é inspirada num texto do escritor grego Luciano, traduzido para o alemão por Wielund [Wieland?], tendo como personagens o sábio Pâncrates (o feiticeiro) e seu aprendiz Êucrates. Temos aqui, segundo P. A. Moura, “uma advertência para que ninguém invoque ou desencadeie forças, que não disponha do poder suficiente para dominá-las, no momento oportuno” — advertência mais atual que nunca.
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Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

domingo, 15 de outubro de 2023

Bertolt Brecht: O barco

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[traduzido por Roswitha Kempf e Margarida Finkel]

Flutuando em águas claras de muitos mares
desprendi-me balouçando de meta e peso.
ao seguir com os tubarões sob a lua vermelha.
Desde que meu lenho apodrece e as velas puem,
desde que o mofo rompe as amarras que à praia me prendiam,
mais distante e esmaecido me parece o horizonte.

E desde que aquele esmaeceu e me abandonaram
e estas águas, os céus distantes,
senti no fundo que devia acabar.
E desde que sabia sem me revoltar
que havia de afundar-me nestes mares,
entreguei-me às águas sem ressentimento.

E as águas vieram e logo trouxeram
muitos animais para o meu bojo
que entre as paredes se aproximavam.
O céu já varara o convés podre,
a amizade nascia em cada canto;
até mesmo os tubarões tornaram-se bons em mim.

E na quarta lua as algas flutuavam
na minha madeira e verdejavam nos vaus;
meu aspecto mudou-se mais uma vez.
Oscilante e verde em minhas entranhas
seguia devagar sem muito padecer,
pesado de lua, tubarão e baleia.

Asilo, fui para gaivotas e algas,
sem culpa porém por não salvá-las
quando afundar-me pesado e cheio.
Agora, na oitava lua, as águas
penetram mais amiúde em mim,
minha face empalidece e rogo que tudo termine.

Pescadores de outras águas atestaram: Viram
algo indefinível boiar no alto mar.
Uma ilha? Uma balsa abandonada? Algo
fosforescente de excremento de gaivotas,
repleto de lua, algas e morte,
dirigia-se calado ao pálido céu.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 24.03.85

Bertolt Brecht

Das Schiff

Durch die klaren Wasser schwimmend vieler Meere
Löst ich schaukelnd mich von Ziel und schwere
Mit den Haien ziehend unter rotem Mond.
Seit mein Holz fault und die Segel schlissen
Seit die Seile modern, die am Strand mich rissen
Ist entfernter mir und bleicher auch mein Horizont.

Und seit jener hinblich und mich diesen
Wassern die entfernten Himmel ließen
Fühl ich tief, daß ich vergehen soll.
Seit ich wußte, ohne mich zu wehren
Daß ich untergehen soll in diesen Meeren
Ließ ich mich den Wassern ohne Groll.

Und die Wasser kamen, und sie schwemmten
Viele Tiere in mich, und in fremden
Wänden freundeten sich Tier und Tier.
Einst fiel Himmel durch die morsche Decke
Und sie kannten sich in jeder Ecke
Und die Haie blieben gut in mir.

Und in vierten Monde schwammen Algen
In mein Holz und grünten in den Balken:
Mein Gesicht ward anders noch einmal.
Grün und wehrend in den Eingeweiden
Fuhr ich langsam, ohne viel zu Leiden
Schwer mit Mond und Pflanze, hai und Wal.

Möw' und Algen war ich Ruhestätte
Schuldlos immer, daß ich sie nicht rette.
Wenn ich sinke, bin ich schwer und voll.
Jetzt, im achten Monde, rinnen Wasser
Häufiger in mich. mein Gesicht wird blasser.
Und ich bitte, daß es enden soll.

Fremde Fischer sagten aus: Sie sahen
Etwas nahen, das verschwamm beim Nahen.
Eine Insel? Ein verkommnes Floß?
Etwas fuhr, schimmernd von Möwenkoten
Voll von Alge, Wasser, Mond und Totem
Stumm und dick auf den erbleichten Himmel los.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

domingo, 5 de julho de 2020

Heinrich Heine: a flor de lótus teme . . .

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[versão de Roswitha Kempf]

A flor de lótus teme
O esplendor do sol,
Pendendo a cabecinha
Visiona o seu amor.

A lua* é o amado
Que a desperta com fulgor
Para a lua, o lótus desvela
Seu rosto devoto de flor.

Floresce, arde e brilha
Olhando para os céus.
Rescende, choca e treme
De amor e pena de amor.

Heinrich Heine

Die Lotusblume fürchtet . . .

Die Lotosblume ängstigt
Sich vor der Sonne Pracht,
Und mit gesenktem Haupte
Erwartet sie träumend die Nacht.

Der Mond, der ist ihr Buhle,
Er weckt sie mit seinem Licht,
Und ihm entschleiert sie freundlich
Ihr frommes Blumengesicht.

Sie blüht und glüht und leuchtet,
Und starret stumm in die Höh;
Sie duftet und weinet und zittert
Vor Liebe und Liebesweh.


* Nota de Roswitha Kempf: No alemão, lua é masculino.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores), Versão de Roswitha Kempf, 1981, Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Shubert, Robert Schumann, Brahms, Felix Mendelssohn, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (poesias, Livro das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Romanzero (poesias, Romanceiro, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma, Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.

domingo, 10 de maio de 2020

Friedrich Schiller: A forasteira

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[versão de Roswitha Kempf]

Em cada nova primavera,
Com o canto do rouxinol
Vinha ao vale dos pastores
E jovem bela como o sol.

Não nascera neste vale,
Ninguém sabia de onde veio.
Seu rastro logo se perdia
Nas colinas rumo ao céu.

Ditosa era sua presença,
E os corações se lhe abriam.
Mas dignidade emanava
E altivez, que distanciam.

Trazia flores e belos frutos
Crescidos em ignoto país,
Em outro sol amadurados,
E natureza mais feliz.

A todos ela presenteava
De flor ou fruto, um por vez,
Ao lar volviam agraciados,
Anciões e jovens satisfez.

Com graça acolhia a todos,
Mas reservava o melhor:
Das flores dava a mais bela
Aos unidos no amor.

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Friedrich Schiller

Das Mädchen aus der Fremde

In einem Tal bei armen Hirten
Erschien mit jedem jungen Jahr,
Sobald die ersten Lerchen schwirrten,
Ein Mädchen, schön und wunderbar.

Sie war nicht in dem Tal geboren,
Man wußte nicht, woher sie kam,
Und schnell war ihre Spur verloren,
Sobald das Mädchen Abschied nahm.

Beseligend war ihre Nähe,
Und alle Herzen wurden weit,
Doch eine Würde, eine Höhe
Entfernte die Vertraulichkeit.

Sie brachte Blumen mit und Früchte,
Gereift auf einer andern Flur,
In einem andern Sonnenlichte,
In einer glücklichern Natur.

Und teilte jedem eine Gabe,
Dem Früchte, jenem Blumen aus,
Der Jüngling und der Greis am Stabe,
Ein jeder ging beschenkt nach Haus.

Willkommen waren alle Gäste,
Doch nahte sich ein liebend Paar,
Dem reichte sie der Gaben beste,
Der Blumen allerschönste dar.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores), Versão de Roswitha Kempf, 1981, Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Johann Christoph Friedrich von Schiller (1759 1805), alemão de Marbach am Neckar, inicia o curso de Direito, abandona, e forma-se em Medicina; foi poeta, filósofo, médico, professor, dramaturgo e historiador; considerado grande homem das letras, foi um dos principais representantes do Romantismo e do Classicismo alemão; sua obra: em dramaturgia: Os Bandoleiros (1781), Wallestein (1799), Maria Stuart (1800), A Noiva de Messina (1803), Guilherm Tell (18031804) etc., em poesia: Os Artistas (1788), Ode à Alegria (1785), A Luva (1797), O Canto do Sino (1799) e outros, em prosa: Cartas Filosóficas (1786), Da Arte Trágica (1792), Do Patético (1793), Poesia Ingênua e Sentimental (1796), História da Separação dos Países Baixos (1788), História da Guerra dos Trinta Anos (inacabada, 17911793) e outros títulos.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Georg Trakl: sussurrado para uma tarde

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[versão de Roswitha Kempf]

Sol de outono, tímido e fino
E os frutos caindo ao solo.
O silêncio habita as moradas azuis
Por uma longa tarde.

Sons fúnebres de metal,
Um branco animal colapsa.
Os cantos roucos das moças morenas
Esmaecem como as folhas.

Sonha em cores a face de Deus
E sente o toque da loucura.
As sombras gravitam em torno do morro
Beiradas putrefatas, de preto,

O crepúsculo pleno de paz e de vinho,
Guitarras tristes escorrem.
À luz suave do aposento
Retornas como em sonhos.

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An den Nachmittag geflüstert

Sonne, herbstlich dünn und zag,
Und das Obst fällt von den Bäumen.
Stille wohnt in blauen Räumen
Einen langen Nachmittag.

Sterbeklänge von Metall;
Und ein weißes Tier bricht nieder.
Brauner Mädchen rauhe Lieder
Sind verweht im Blätterfall.

Stirne Gottes Farben träumt,
Spürt des Wahnsinns sanfte Flügel.
Schatten drehen sich am Hügel
Von Verwesung schwarz umsäumt.

Dämmerung voll Ruh und Wein;
Traurige Guitarren rinnen.
Und zur milden Lampe drinnen
Kehrst du wie im Traume ein.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores), Versão de Roswitha Kempf, 1981, Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em agosto de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.