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[versão de Roswitha Kempf]
Um brado no sonho; por becos
negros precipita-se o vento,
o azul da primavera acena
entre os galhos partidos,
o orvalho purpúreo e as
estrelas esmorecem ao redor.
Esverdeado clareia o rio,
prateadas as velhas áleas
e as torres da vila; ó suave
embevecimento
no barco deslizante e os
gritos sombrios do melro
em jardins infantis. Raleia a
rósea florada.
Solenes murmuram as águas. Ó,
as sombras úmidas do prado,
o animal que caminha;
verdejantes ramos floridos
tangem a fronte de cristal;
luminosa canoa balouçante.
Soa de leve o sol entre as
nuvens rosadas que envolvem a colina,
grande é o silêncio do
pinheiral, as graves sombras do rio.
Pureza! Pureza! Onde estão os
terríveis caminhos da morte,
do silêncio cinzento de pedra,
as rochas da noite
e as sombras sem paz? Abismo
solar radiante.
Quando encontrei-te irmã, na
erma clareira do bosque
e o sol estava a pino e grande
era a mudez do animal;
brancas, sob carvalhos
silvestres e os espinhos floriam prateados.
Um morrer imenso e a chama
cantante na alma.
As águas cercam mais sombrias
os belos folguedos dos peixes.
Hora de luto, um mudo
contemplar do sol;
é a alma uma estranha na
terra. Raia o azul
irreal sobre a mata massacrada
e um sino grave
plange longamente na vila: um
cortejo tranquilo.
Discreta floresce a murta alva
sobre as pálpebras brancas do morto.
Soam de leve as águas na tarde
que finda,
a selva verdeja mais intensa
na margem do rio,
júbilo no vento rosado
e a canção suave do irmão no
outeiro da noite.
Frühling der Seele
Aufschrei im Schlaf; durch schwarze Gassen stürzt der Wind,
Das Blau des Frühlings winkt durch brechendes Geäst,
Purpurner Nachttau und es erlöschen rings die Sterne.
Grünlich dämmert der Fluß, silbern die alten Alleen
Und die Türme der Stadt. O sanfte Trunkenheit
Im gleitenden Kahn und die dunklen Rufe der Amsel
In kindlichen Gärten. Schon lichtet sich der rosige Flor.
Feierlich rauschen die Wasser. O die feuchten Schatten der Au,
Das schreitende Tier; Grünendes, Blütengezweig
Rührt die kristallene Stirne; schimmernder Schaukelkahn.
Leise tönt die Sonne im Rosengewölk am Hügel.
Groß ist die Stille des Tannenwalds, die ernsten Schatten am Fluß.
Reinheit! Reinheit! Wo sind die furchtbaren Pfade des Todes,
Des grauen steinernen Schweigens, die Felsen der Nacht
Und die friedlosen Schatten? Strahlender Sonnenabgrund.
Schwester, da ich dich fand an einsamer Lichtung
Des Waldes und Mittag war und groß das Schweigen des Tiers;
Weiße unter wilder Eiche, und es blühte silbern der Dorn.
Gewaltiges Sterben und die singende Flamme im Herzen.
Dunkler umfließen die Wasser die schönen Spiele der Fische.
Stunde der Trauer, Schweigender Anblick der Sonne;
Es ist die Seele ein Fremdes auf Erden. Geistlich dämmert
Bläue über dem verhauenen Wald und es läutet
Lange eine dunkle Glocke im Dorf; friedlich Geleit.
Stille blüht die Myrthe über den weißen Lidern des Toten.
Leise tönen die Wasser im sinkenden Nachmittag
Und es grünet dunkler die Wildnis am Ufer, Freude im rosigen Wind;
Der sanfte Gesang des Bruders am Abendhügel.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores),
Versão de Roswitha Kempf, 1981 —
Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887
— 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia,
foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício
de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro,
Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista
austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais;
logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915);
de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã
mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento
esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a
decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos,
cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada,
em 1917.


