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Morto.
Como também já morre o dia.
Mas
continua a ser noutros lugares?
Ou morto
diariamente nos altares,
por ser
diversa a morte que morria?
O corpo
morto: azul melancolia
do mesmo
azul perdido pelos ares,
vivo azul
sobre os campos, sobre os mares,
sobre a
clara manhã e a hora tardia.
Um corpo
morto. Um corpo morto de homem,
igual a
esses cadáveres da guerra
que as
batalhas atraem e consomem?
Ou um que
junta o mundo à sua sorte,
contempla
a sombra em torno e desce à terra
e morre
em solidão e vence a morte?
* Nota
de Vasco de Castro Lima, organizador deste O Mundo Maravilhoso do Soneto: O
original deste soneto foi encontrado “no bolso da calça” do poeta, quando este,
no Recife, em 27 de junho de 1960, sofreu o acidente de automóvel de que
resultaria sua morte, em 1º de julho seguinte (pág. 52 de “O Livro de Carlos”,
de Edilberto Coutinho).
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O Mundo Maravilhoso
do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio
de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Carlos
Souto Pena Filho (1929 — 1960), pernambucano de Recife, formou-se pela Faculdade
de Direito de Recife, foi advogado, poeta, jornalista e autor de letras de música;
ainda criança, dos 8 aos 12 anos, residiu em Portugal com a mãe e irmãos, ali cursou
o primário e de retorno a Recife cursou o secundário no Colégio Nóbrega; como jornalista,
atuou no Diário de Pernambuco, no Diário da Noite e no Jornal do Commércio, de Recife,
neste último era responsável por duas colunas: ‘Literatura’ e ‘Rosa dos Ventos’,
fez reportagens, crônicas e veiculou alguns de seus poemas; suas obras: O Tempo
de Busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A Vertigem Lúcida (1958), Livro
Geral (1959); no círculo literário conviveu estreitamente com Manuel Bandeira, Joaquim
Cardoso, João Cabral do Melo Neto, Gilberto Freire, Jorge Amado e outros; como compositor,
fez parceria com Capiba, músico pernambucano, e letras de sua autoria também foram
gravadas por Vanja Orico, Tito Madi, Nelson Gonçalves etc.; o poeta-compositor
veio a morrer precocemente, vitimado por acidente automobilístico quando o carro
em que estava foi atingido por um ônibus desgovernado.


