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sábado, 25 de janeiro de 2025

Carlos Pena Filho: Soneto da Sexta-Feira da Paixão *

 
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Morto. Como também já morre o dia.
Mas continua a ser noutros lugares?
Ou morto diariamente nos altares,
por ser diversa a morte que morria?

O corpo morto: azul melancolia
do mesmo azul perdido pelos ares,
vivo azul sobre os campos, sobre os mares,
sobre a clara manhã e a hora tardia.

Um corpo morto. Um corpo morto de homem,
igual a esses cadáveres da guerra
que as batalhas atraem e consomem?

Ou um que junta o mundo à sua sorte,
contempla a sombra em torno e desce à terra
e morre em solidão e vence a morte?


* Nota de Vasco de Castro Lima, organizador deste O Mundo Maravilhoso do Soneto: O original deste soneto foi encontrado “no bolso da calça” do poeta, quando este, no Recife, em 27 de junho de 1960, sofreu o acidente de automóvel de que resultaria sua morte, em 1º de julho seguinte (pág. 52 de “O Livro de Carlos”, de Edilberto Coutinho).
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Souto Pena Filho (1929 1960), pernambucano de Recife, formou-se pela Faculdade de Direito de Recife, foi advogado, poeta, jornalista e autor de letras de música; ainda criança, dos 8 aos 12 anos, residiu em Portugal com a mãe e irmãos, ali cursou o primário e de retorno a Recife cursou o secundário no Colégio Nóbrega; como jornalista, atuou no Diário de Pernambuco, no Diário da Noite e no Jornal do Commércio, de Recife, neste último era responsável por duas colunas: ‘Literatura’ e ‘Rosa dos Ventos’, fez reportagens, crônicas e veiculou alguns de seus poemas; suas obras: O Tempo de Busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A Vertigem Lúcida (1958), Livro Geral (1959); no círculo literário conviveu estreitamente com Manuel Bandeira, Joaquim Cardoso, João Cabral do Melo Neto, Gilberto Freire, Jorge Amado e outros; como compositor, fez parceria com Capiba, músico pernambucano, e letras de sua autoria também foram gravadas por Vanja Orico, Tito Madi, Nelson Gonçalves etc.; o poeta-compositor veio a morrer precocemente, vitimado por acidente automobilístico quando o carro em que estava foi atingido por um ônibus desgovernado.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Carlos Pena Filho: Soneto das metamorfoses

 
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A Edmundo Morais

Carolina, a cansada, fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que então era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Carlos Souto Pena Filho (1930 1960), pernambucano de Recife, formado pela Faculdade de Direito de Recife, foi advogado, poeta, jornalista e autor de letras de música; escreveu para jornais e, no Jornal do Commércio, de Recife, publicava duas colunas: ‘Literatura’ e ‘Rosa dos Ventos’; obras: O Tempo de Busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A Vertigem Lúcida (1958), Livro Geral (1959); morreu de acidente automobilístico, quando o carro em que estava foi atingido por um ônibus desgovernado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Carlos Pena Filho: Testamento do homem sensato

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Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “ Ele era assim...
mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se, um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em voo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.

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Os Sonetos (Antologia — Diversos autores), Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S.A., LR Editores Ltda, São Paulo — SP; Carlos Souto Pena Filho (1930 1960), pernambucano de Recife, formado pela Faculdade de Direito de Recife, foi advogado, jornalista, poeta e autor de letras de música; obra poética: O Tempo de Busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A Vertigem Lúcida (1958), Livro Geral (1959); escreveu para jornais e, no Jornal do Commércio, de Recife, publicava duas colunas: ‘Literatura’ e ‘Rosa dos Ventos’.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Carlos Pena Filho: A Solidão e sua Porta

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Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

e arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é solvente e provisório 
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

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Grandes Sonetos da Nossa Língua Seleção, Organização e breve Prefácio, de José Lino Grünewald, 1987, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Carlos Souto Pena Filho (1930 1960), pernambucano de Recife, formado pela Faculdade de Direito de Recife, foi advogado, poeta, jornalista e autor de letras de música; obra poética: O Tempo de Busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A Vertigem Lúcida (1958), Livro Geral (1959); escreveu para jornais e, no Jornal do Commércio, de Recife, publicava duas colunas: 'Literatura' e 'Rosa dos Ventos'.

domingo, 3 de agosto de 2014

Carlos Pena Filho: Soneto do Desmantelo Azul

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Então, pintei de azul os meus sapatos 
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos 
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


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Grandes Sonetos da Nossa Língua Seleção, Organização e breve Prefácio, de José Lino Grünewald, 1987, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Carlos Souto Pena Filho (1930 1960), pernambucano de Recife, formado pela Faculdade de Direito de Recife, foi advogado, poeta, jornalista e autor de letras de música; obra poética: O Tempo de Busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A Vertigem Lúcida (1958), Livro Geral (1959); escreveu para jornais e, no Jornal do Commércio, de Recife, publicava duas colunas: 'Literatura' e 'Rosa dos Ventos'.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Carlos Pena Filho: A Charles Baudelaire

Livro - Anatologia Escolar Brasileira 1977 - Marques Rebelo
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Carlos também
embora sem
flores nem aves,
vinho nem naves,

eu te remeto
este soneto
para saberes,
se acaso o leres,

que existe alguém
no mundo, cem
anos após

que não vaiou
e nem magoou
teu albatroz.
Livro Geral  1959

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Antologia Escolar Brasileira — Marques Rebelo, primeira edição, 1967, Companhia Nacional de Material de Ensino MEC, Rio de Janeiro RJ; Carlos Souto Pena Filho (1930 1960), pernambucano de Recife, formado pela Faculdade de Direito de Recife, foi advogado, poeta, jornalista e autor de letras de música; obra poética: O Tempo de Busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A Vertigem Lúcida (1958), Livro Geral (1959); escreveu para jornais e, no Jornal do Commércio, de Recife, publicava duas colunas: 'Literatura' e 'Rosa dos Ventos'.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Carlos Pena Filho: Para fazer um soneto (*)

Carlos Pena Filho









Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
Antes, deixe levá-lo à correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.
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Antologia de Antologias 101 poemas brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e prefácio de Alfredo Bosi, 1ª edição (2ª reimpressão), Musa Editora, 2004, São Paulo SP; Carlos Souto Pena Filho (1930 1960), pernambucano de Recife, formado pela Faculdade de Direito de Recife, foi advogado, poeta, jornalista e autor de letras de música; obra poética: O Tempo de Busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A Vertigem Lúcida (1958), Livro Geral (1959); escreveu para jornais e, no Jornal do Commércio, de Recife, publicava duas colunas: 'Literatura' e 'Rosa dos Ventos'.

(*) Conforme as organizadoras de Antologia das Antologias, este poema foi transcrito de Antologia Escolar Brasileira, de Marques Rebelo, 1a. edição, MEC, 1967, p.9, e conferido com Carlos Pena Filho, Livro Geral, Livraria São José, 1959, p.80, e com Livro Geral, Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1969.