____________________
O poeta-menor
s o n h a v a
ser poeta-maior.
No desfile-do-dia-da-independência
se apresentou com um estandarte
defensor do homem
como homem.
O poeta-maior
considerou
por
algum
tempo
o poeta-menor
e o aplaudiu pelo seu altruísmo.
O poeta-menor,
que era um poeta-suicida,
antes que viesse
o dia-de-outra-independência
tragicomicamente
morreu.
(Explico: cômico,
porque, no asfalto,
depois de despencar-se
por vinte e três andares
seu rosto,
d e s - f i g u r a d o,
parecia desafiar
algum outro rosto
vivo,
morto,
morto-vivo
que o contemplava
e o outro rosto
vivo,
morto,
morto-vivo
não entendeu o seu desafio;
trágico,
porque era poeta.)
O poeta-maior
chorou
e se angustiou
por
algum
tempo
quando
o jornal
o rádio
a revista
a televisão
o vizinho
noticiaram
a morte do poeta-menor.
O poeta-menor
c o n t i n u o u
no anonimato e,
com o passar dos anos,
virou estória.
O poeta-maior,
que tinha um olho-clínico,
depois-do-dia-de-outra-independência,
escreveu um livro
cujo personagem central
era o poeta menor
e que virou best-seller.
Ganhou o prêmio Nobel de Literatura,
vendeu os direitos de filmagens
à Warner Bros. Communications,
virou capa do New York Times,
montou peça no Municipal
com os atores mais badalados,
aos setenta anos publicou sua autobiografia
Número Um, 1978, Edição do Autor, São Paulo — SP; Genésio dos Santos é poeta e cronista.