____________________
[traduzido por Augusto de
Campos]
Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo...
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, —
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho —
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Pare,
basta!
Você perdeu o senso?
Deixar
que a cal
mortal
lhe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível,
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
—
É o vinho!
— a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.
Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe,
A classe agiria em você,
e lhe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber —
nada tem de abstêmia.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto"1 —
ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin2.
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio!
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra"3;
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.
E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, —
é assim
que se honra
um poeta?
— Não
te ergueram ainda um monumento —
onde
o som do bronze
ou o grave granito? —
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov4 os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas —
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!5
Saltaria
— escândalo estridente:
—
Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan6
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
O tempo é escasso —
mãos à obra,
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la —
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
— Verbo —
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.
как говорится,
в мир иной.
Пустота...
Летите, в звёзды врезываясь.
Ни тебе аванса,
ни пивной.
Трезвость.
Нет, Есенин,
это
не насмешка.
В горле
горе комом —
не смешок.
Вижу —
взрезанной рукой помешкав,
собственных
костей
качаете мешок.
— Прекратите!
Бросьте!
Вы в своем уме ли?
Дать, чтоб щёки
заливал
смертельный мел?!
Вы ж
такое
загибать умели,
что другой
на свете
не умел.
Почему?
Зачем?
Недоуменье смяло.
Критики бормочут:
— Этому вина
то...
да сё...
а главное,
что смычки мало,
в результате
много пива и вина. —
Дескать, заменить бы вам
богему
классом,
класс влиял на вас,
и было б не до драк.
Ну, а класс-то
жажду
заливает квасом?
Класс — он тоже
выпить не дурак.
Дескать,
к вам приставить бы
кого из напостов —
стали б
содержанием
премного одарённей.
Вы бы
в день
писали
строк по сто,
утомительно
и длинно,
как Доронин.
А по-моему,
Осуществись
такая бредь,
на себя бы
раньше наложили руки.
Лучше уж
от водки умереть,
чем от скуки!
Не откроют
нам
причин потери
ни петля,
ни ножик перочинный.
Может,
Окажись
чернила в "Англетере",
вены
резать
не было б причины.
Подражатели обрадовались:
бис!
Над собою
чуть не взвод
расправу учинил.
Почему же
увеличивать
число самоубийств?
Лучше
увеличь
изготовление чернил!
Навсегда
теперь
язык
в зубах затворится.
Тяжело
и неуместно
разводить мистерии.
У народа,
у языкотворца,
умер
звонкий
забулдыга подмастерье.
И несут
стихов заупокойный лом,
с прошлых
с похорон
не переделавши почти.
В холм
тупые рифмы
загонять колом —
разве так
поэта
надо бы почтить?
Вам
и памятник еще не слит, —
где он,
бронзы звон
или гранита грань? —
а к решеткам памяти
уже понанесли
посвящений
и воспоминаний дрянь.
Ваше имя
в платочки рассоплено,
ваше слово
слюнявит Собинов,
и выводит
под берёзкой дохлой —
"Ни слова,
о дру-уг мой,
ни вздо-о-о-о-ха".
Эх,
поговорить бы иначе
с этим самым
с Леонидом Лоэнгринычем!
Встать бы здесь
гремящим скандалистом:
— Не позволю
мямлить стих
и мять!
Оглушить бы
их
трехпалым свистом
в бабушку
и в бога душу мать!
Чтобы разнеслась
бездарнейшая погань,
раздувая
темь
пиджачных парусов,
чтобы
врассыпную
разбежался Коган,
встреченных
увеча
пиками усов.
Дрянь
пока что
мало поредела.
Дела много —
только поспевать.
Надо
Жизнь
сначала переделать,
переделав —
можно воспевать.
Это время —
трудновато для пера,
но скажите
вы,
калеки и калекши,
где,
когда,
какой великий выбирал
путь,
чтобы протоптанней
и легше?
Слово —
Полководец
человечьей силы.
Марш!
Чтоб время
сзади
ядрами рвалось.
К старым дням
чтоб ветром
относило
только
путаницу волос.
Для веселия
планета наша
мало оборудована.
Надо
вырвать
радость
у грядущих дней.
В этой жизни
Помереть
не трудно.
Сделать жизнь
значительно трудней.
[1926]
Notas do tradutor Augusto de
Campos:
1. Alusão à revista Na Postu (De Sentinela),
órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos
colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes
pareciam transgredir a moral proletária;
2. Referência ao poeta
soviético I. I. Dorônin (n. em 1900);
3. Hotel em que Iessiênin se
suicidou;
4. O famoso cantor L. V.
Sóbinov (1872—1934) foi
um dos participantes da homenagem à memória de Iessiênin, que teve lugar no
Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma
canção de Tchaikóvski;
5. O papel de Loengrim, da
ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira
artística de Leonid Sóbinov;
6. O crítico P. S. Kógan (1872—1932), representante da
crítica mais dogmática, com quem Maiakóvski manteve freqüentes polêmicas.
____________________
Poemas: Maiakóvski — Apresentação/Estudo de Boris Schnaiderman, Tradução
e Notas de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman e Apêndice
[textos de Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman], Coleção Signo,
1989, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski
(1893 — 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos
expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos
de idade filiou-se ao partido bolchevique e teve presença ativa no movimento
revolucionário russo de 1917; em Moscou, ingressou na Escola de Belas Artes e
fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo; ao
serem expulsos da Escola, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia
objetivando difundir suas concepções artísticas; durante a Guerra Civil, o
poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no
início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de
produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e
debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos
sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista
LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e
artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de
renovação social; por razões estéticas e
na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos
de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; obras:
livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de
Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo
(1922), A propósito disto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), À Plena Voz
(1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um
livro; para o teatro, publica Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo
(1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, para circo, argumentos para
cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de
abril de 1930.