Nós somos as mulheres da vid’airada,
as pálidas famintas
que quando o nosso corpo não dá nada,
recorremos ao lápis e à pomada,
aos pós-de-arroz e às tintas!
Somos os lírios da miséria escura,
os lírios do cancã...
Nosso corpo é a negra sepultura
Onde mataram nossa alma pura
os risos de Satã!
Somos aquelas cujo amor sagrado
alguém estrangulou.
Sentimos nosso peito apunhalado...
É pra nós um mistério desgraçado
quem foi que nos gerou!
À luz crua do sol, a populaça
insulta-nos com vaias...
Mas, quando é noite, misera e devassa,
vem comprar-nos o corpo e a desgraça,
vem beijar-nos as saias!
Filhos-famílias, quando acompanhados,
não nos conhecem não!
E às horas dos fantasmas evocados,
vem pedir-nos o leito, embriagados,
e pedem-nos perdão!
Sacerdotes, no púlpito praguejam
contra o nosso pecado...
Mas à noite, de modo que os não vejam,
destrançam nossas tranças e desejam
dormir ao nosso lado!
Somos as filhas da miséria doida,
as rosas dos esgotos.
Mas somos nós quem implanta a moda...
Embora enxovalhadas pela roda
e as pedras dos garotos!
Burgueses sensuais deixam seu lar
e o calor do seu leito,
e vêm-nos, alta noite, procurar,
pra terem o amor do nosso olhar,
o amor do nosso peito...
Somos aquelas que passamos rindo,
aos bandos, pela rua...
Temos o aspecto de quem vai fugindo
a alguém que quer o nosso corpo lindo,
a nossa carne nua.
Mas não! Eis que está aqui para vender
o nosso corpo branco!
Vendemo-lo, burgueses! Quem o quer?
Lançai o preço! Vai para quem der
maiores notas de banco!...
Se vós quereis nossas ternuras falsas
e o nosso coração,
q’remos vestidos pra bailar nas valsas,
nossos botins pra não andar descalças...
e mais que tudo pão!
Nós temos fome! E o Don Juan canalha
que, um dia, nos beijou,
nesse beijo legou-nos a mortalha
que a nossa alma tristíssima enxovalha
e onde ele a sepultou!...
Tu que estás farto já, que estás cansado
do amor de tua mulher,
caminha ao nosso corpo perfumado!
Insulta-o ainda mais — ao desgraçado! —,
mas dá-nos que comer!
Somos aquelas que passamos loucas,
a rir no macadam*...
Andamos de cantar fracas e roucas,
todos querem dormir nas nossas bocas
até pela manhã!
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Ó pálidas vencidas das vielas,
bendigo vosso olhar!
Sois maiores que as anêmicas donzelas
que encontro debruçadas nas janelas,
à luz crepuscular!
Ó prostitutas! Desfolhadas flores!
Bendigo a vossa cruz!
Bendigo as vossas lagrimas e dores!
Rosas do macadam, vós
sois maiores
que T’reza de Jesus!
* Nota do Organizador Sérgio Faraco: No caso, rua
empedrada com macadame. A expressão deriva do nome do engenheiro inglês John
London Mac Adam.
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Livro das Cortesãs 1500
— 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de
Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão),
L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Alfredo Augusto Lopes Pimenta (1882 —
1950), português de Guimarães, formado em Direito pela Universidade de Coimbra,
foi historiador, professor, escritor e poeta; colaborou com as revistas Arte e Vida, Luz e Vida, Ideia Nacional, Contemporânea, Feira da Ladra, Revista de Arqueologia e com o jornal A República Portuguesa; sua bibliografia — poesias: Eu.
Coimbra (1904), Na Torre da Ilusão (1912), Alma Ajoelhada (1914), Paisagem de
Orquídeas (1917), Últimos Echos de Um Violino partido, ensaios: Palavras de
Arte, Cartas a um Estheta, Sombras de príncipes, Páginas Minhotas (crônicas),
e outros textos em verso e prosa, históricos, políticos e crítica; Alfredo
Pimenta, um anarquista nas origens, tornou-se republicano conservador e reacionário
e, depois, monarquista com elogios ao salazarismo, nazismo e fascismo.

