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Neste momento,
último, supremo,
Dizendo ao
nosso amigo o adeus extremo,
Amigos,
não chorai!
Ele
passou da vida nos caminhos
Os pés
dilacerando nos espinhos,
Demais...
não teve pai!
Oh, sim! na infância, do viver a aurora,
Na juventude não tiveste uma hora,
Que não fosse de dor!
Uma esperança, que não fosse rola,
E na taça da vida uma só gota,
Que não fosse amargor!
Se um dia no horizonte escuro e
triste
Uma estrela de luz brilhando viste,
E adorando-a, talvez,
Fitaste nela leu olhar contente,
O fugaz meteoro de repente
Nas sombras se desfez.
A arvore fatal donde brotaste
Nos ramos afogou-te a frágil haste,
Privando-a do sol.
Mas, ao sopro cruel da desventura
Elevou-se lua alma inda mais pura
Das mágoas no crisol!
Pensando em Deus, passaste pelo
mundo,
Sem as asas manchar no lodo imundo
De fétido paul;
Como por sobre lodaçal impuro
Voa a garça, esquecendo o charco
escuro,
Olhando o céu azul.
E cansaste por fim! Então voando
Foste dos justos reunir-te ao bando
Junto ao trono de Deus;
E ao mundo, que só dera-te veneno,
Sem pesares, com ânimo sereno
Disseste o último adeus!
Nada esperavas dele! Se uma trança
De cabelos te dava inda esperança
De um amor de mulher,
Guardaste no teu peito este
segredo,
Ninguém ouviu-te murmurar a medo
O seu nome sequer.
Nessa agonia, que o viver consome,
Na hora de morrer somente um nome
Em teus lábios soou.
Era de tua mãe o nome santo,
Que lua alma de filho amava tanto,
Que, chamando-a, voou!
Foi longo teu sofrer; descansa
agora
Onde ludo sorri e ninguém chora,
Onde tudo é fiel.
Terás por cada dor mil alegrias,
Por cada gota amarga, que bebias,
Mil ânforas de mel.
Como o cativo na estrangeira praia
As cadeias depõe, se o dia raia
Que à pátria o reconduz,
Depuseste no exílio um corpo frio,
Ninho sem rouxinol, templo vazio,
Alâmpada sem luz!
Sobre ele o adeus extremo te
dirijo;
Se o mar foi tormentoso e o vento
rijo,
Bonança lá terás.
Da virtude seguiste o duro trilho;
Foste amigo fiel, foste bom filho;
Adeus, repousa em paz!
Meu Deus, se em minha vida agora
calma
Lançares provações, dá que minh’alma
Saia delas assim!
E que um amigo sobre a minha lousa,
Invocando leu nome, a mesma cousa
Dizer possa de mim!
(Parnaso Maranhense, Tip. do Progresso,
São Luís do Maranhão, 1861, págs. 35/38.)
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Panorama da
Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia:
vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de
Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Antônio Joaquim Franco de Sá (1836 — 1856), maranhense
de Alcântara, fez seus primeiros estudos no Maranhão e no Rio de Janeiro, frequentou
o curso de Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Recife, foi poeta e não
teve obra publicada em vida; seus poemas foram reunidos postumamente e editados
em Poesias de Antônio Joaquim Franco de Sá (1867); dele, constam composições no
Parnaso Maranhense (1861), além de versos esparsos e traduções de trechos de Childe
Harold, de Byron, e de Sganarelle, de Moliére, não reunidos em Poesias; o poeta veio
a falecer em 28 de janeiro de 1856, ainda estudante do 4º ano de Direito e muito
jovem, sem ter completado seus vinte anos de idade.
