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Amigos, estas canções
são simples como os descantes
que à tarde vibram, distantes,
levados nas virações.
São como o canto que entoa
são simples como os descantes
que à tarde vibram, distantes,
levados nas virações.
São como o canto que entoa
o lavrador pela estrada,
e de quebrada em quebrada
plangentemente ressoa.
pois solto-as também ao vento
ao pisar a estrada breve
onde a Ilusão nos deteve
a marcha por um momento;
ao ver já sumir-se ao largo
a terra da mocidade,
quando o pranto — orvalho amargo —
quando o pranto — orvalho amargo —
faz vicejar a Saudade.
Ao lê-las talvez, um dia,
dias vos lembrem risonhos,
em que bordáveis de sonhos
a teia de fantasia,
nessa “terra prometida”,
onde a nossa boca em flor
bebe na taça da vida
o doce néctar do amor.
Talvez ao lê-las oiçais
— como num eco vibrar —
à hora crepuscular
vossas canções matinais.
Talvez que então do porvir
no deserto desnudado
ainda vos venha sorrir
a miragem do passado...
Amigos, estas canções
são simples, banais descantes,
como os que passam vibrantes,
à tarde, nas virações.
São como estranha cadência
que recordasse, através
da saudade, a limpidez
da voz d'oiro — adolescência,
na singeleza lembrando
também rimadas cantigas,
que ao longe fosse entoando
um coro de raparigas.
E se as vou soltando ao vento
ao pisar a estrada breve,
em que a Ilusão nos deteve
a marcha por um momento,
— é que dá prazer ignoto
repetir na vida inteira
a mesma canção ligeira
do tempo alegre e remoto,
a doce canção de outrora,
que todos juntos cantamos
cada dia e cada hora,
nos vergéis
que atravessamos.
Amigos, estas “canções”
São simples como os descantes,
que à tarde morrem, distantes,
nas serenas virações...
1887
Poesias. Canções do Mondego,
Rimas Escolhidas — Coimbra,
França Amado, 1892

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Presença da Literatura
Portuguesa IV — Simbolismo, por Antonio Soares Amora, 1969,Difusão Européia
do Livro, São Paulo — SP; Manuel da Silva Gaio (1860 — 1934), português coimbrense, formado
em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta, teorizador e ensaísta; iniciador do Neo-lusitanismo, movimento que trouxe para as artes a poesia nacionalista e regionalista, produziu a revista Arte (1895 — 1896), juntamente com Eugênio de
Castro, e através dela procurou integrar Portugal nos movimentos de
vanguarda da arte, da literatura e da crítica europeias; colaborou com jornais e
revistas da época; escreveu e publicou Primeira Rimas (1880), Poesias — Canções do Mondego, Rimas Escolhidas (1892), Os Novos I — Moniz Barreto. Estudo Crítico (1894), O Mundo vive de Ilusão (poesia, 1896), Na Volta da Índia (drama histórico, 1898), A Encruzilhada (drama, 1903), Novos Poemas (1906), Torturador (romance, 1911), Chave Dourada (poesia, 1916), Sulamite (poema, 1928) e outros títulos.