sábado, 30 de novembro de 2019

Sosígenes Costa: O triunfo do amarelo

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Luta o amarelo contra o verde, agora,
no esforço de vencê-lo e confundi-lo.
E assim derrama, esdrúxulo, na flora
sépia, topázio, abóbora, berilo.

Transforma o bronze e anula o jade: e aquilo
que é verde-negro, aurífero, colora.
No esforço de vencê-lo e confundi-lo
luta o amarelo contra o verde agora.

Aves azuis se pintam chinesmente
de jalde. E a própria flor da rubra amora
toda se pinta de âmbar louro, ardente.

E a luz do sol, sinfônica e sonora,
dos céus rolando, em mágica torrente,
a gama inteira do amarelo explora.

(1928)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Jorge de Lima: A noite desabou sobre o cais

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A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.
Rangem guindastes na escuridão.
Para onde vão essas naus?
Talvez para as Índias.
Para onde vão?

Capitão-mor, capitão-mor,
quereis me dizer onde é que fica
a ilha de São Brandão?

A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.
Rangem guindastes na escuridão.
Donde é que vêm essas naus?

Serão caravelas? Serão negreiros?
São caravelas e são negreiros.
Há sujos marujos na caravelas.

Há estrangeiros que ficaram negros
de trabalharem no carvão.
Homens da estiva trabalham, trabalham,
sobem e descem nos porões,
Para onde vão essas naus?

Saltam emigrantes embuçados,
mulheres, crianças na escuridão.
De onde vêm essa gente?
Não há mais terras de Santa Cruz gente valente!

Ó indesejáveis qual o país,
qual o país que desejais?
Como é o nome dessas naus
que não se lê na escuridão?
Vão descobrir o Preste João?
Na minha geografia existe apenas
perdido no mar o cabo Não.

A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.

Essas naus vão para o Congo?
Castelo de Sagres ficou aonde?
Capitão-mor onde é o Congo?
Será no leste, no mar tenebroso?
Capitão-mor perdi-me no mar.
Onde é que fica a minha ilha?

Para onde vão os degredados,
os que vão trabalhar dentro da noite,
ouvindo ranger esses guindastes?
Capitão-mor que noite escura
desabou sobre o cais,
desabou nesse caos!

(Tempo e eternidade)

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, 2016, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Friedrich Nietzsche: O que não me mata me faz mais forte & outros aforismos

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[traduzido por Claudio Carina]
  1. O Abismo*: O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem uma corda sobre um abismo. (Assim falou Zaratustra, parte 1, seção 4)
  2. Fama: Eu não sou homem, eu sou dinamite. (Ecce homo, “Por que sou um destino”, seção I)
  3. Deus: Deus está morto; mas em vista da atitude dos homens, ainda pode haver cavernas por milhares de anos em que sua sombra será mostrada. E nós ainda precisamos conquistar essa sombra também. (A Gaia Ciência, livro III, seção 108)
  4. Vida: O que não me mata me faz mais forte. (Crepúsculo dos Ídolos, “Máximas e flechas, seção 8.)
  5. Filosofia: Para se viver sozinho é preciso ser um animal ou um deus, diz Aristóteles. Mas você pode ser as duas coisas um filósofo. (Crepúsculo dos Ídolos, “Máximas e flechas”, seção 3.)
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Friedrich Nietzsche
  1. Der Mensch ist ein Seil, geknüpft zwischen Tier und Übermensch  — ein Seil über einem Abgrunde. (Also sprach Zarathustra: Zarathustras Vorrede — 4)
  2. Ich bin kein Mensch, ich bin Dynamit. (Ecce homo, “Warum ich ein Schicksal bin — 1)
  3. Gott ist tot: aber so wie die Art der Menschen ist, wird es vielleicht noch jahrtausendelang Höhlen geben, in denen man seinen Schatten zeigt. Und wir wir müssen auch noch seinen Schatten besiegen! (Die fröhliche Wissenschaft “la gaya scienza”: Drittes Buch — 108)
  4. Aus der Kriegsschule des Lebens.  Was mich nicht umbringt, macht mich stärker. (Götzen-Dämmerung oder Wie man mit dem Hammer philosophiert: Sprüche und Pfeile 8)
  5. Um allein zu leben, muß man ein Tier oder ein Gott sein sagt Aristoteles. Fehlt der dritte Fall: man muß beides sein —  Philosoph. (Götzen-Dämmerung oder Wie man mit dem Hammer philosophiert: Sprüche und Pfeile — 3)

* Nota deste Verso e Conversa: este atrevido aprendiz de blogueiro transcreveu as palavras/itens 'O Abismo', 'Fama', 'Deus', 'Vida' e 'Filosofia', tal como elas se apresentam na seção Aforismos (pág. 373 e seguintes) da obra Eu sou Dinamite! — A vida de Friedrich Nietzsche, de Sue Prideaux, e respeitando a catalogação por itens constante na tradução de Claudio Carina; este aprendiz de blogueiro não consultou tal obra no original em inglês (I am Dynamite!: A life of Nietzsche) e estabeleceu a numeração contínua de 1 a 5; na transcrição dos aforismos em alemão, o blogueiro consultou páginas do site  zeno.org/Philosophie/M/Nietzsche,+Friedrich
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Eu sou dinamite! — A vida de Friedrich Nietzsche, Sue Prideaux, Tradução de Claudio Carina, Editora Planeta do Brasil Ltda., 2019, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Antônio Ferreira: Aquela, cujo amor a meus escritos . . . [soneto]

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Aquela, cujo amor a meus escritos
Que a meu amor dará melhor ventura,
Toda a virtude, toda a formosura,
Qu’após si leva os olhos, e os espritos,

Aquela, branda em tudo, só aos gritos
Meus surda, áspera aos rogos, a Amor dura,
Podia com sorriso, ua brandura
D’olhos curar meu mal, ornar meus ditos.

Mas que dará de si ua estéril veia?
Um desprezado amor? ua cruel chama?
Senão desconcertado e triste pranto?

Quem de tristezas vive, só me leia:
Cante a quem inspire Amor mais doce canto,
Busco piedade só, não glória, ou fama.

(Poemas Lusitanos — vol. I.
Lisboa, Liv. Sá da Costa, 1939.)

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Antônio Ferreira (1528 1569), português de Lisboa, formado em Humanidades e Leis (Direito) na Universidade de Coimbra, foi desembargador e poeta; tido como um dos maiores representantes do Classicismo Renascentista em língua portuguesa, é considerado o discípulo mais famoso de Sá de Miranda, renomado poeta dessa geração Seiscentista; conhecedor dos idiomas Grego e Latim, escreveu elegias, éclogas, epístolas, epigramas, odes, epitalâmios, tragédias e comédias; obras publicadas postumamente: Tragédia Mui Sentida e Elegante de Dona Inês de Castro (1587), Poemas Lusitanos (coletânea de quase toda sua obra, 1598), Bristo e Cioso (comédias, 1622).

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Friedrich Schiller: saudade

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[versão de Roswitha Kempf]

Do profundo deste vale
Que a fria névoa oprime,
Pudesse eu achar saída,
Quão feliz me sentiria.
Lá veria lindos morros
Sempre verdes, juvenis,
Tivesse asas, voaria
Às colinas tão gentis.

Harmonias doces ouço,
Sons de paz celestial
E as leves brisas trazem
Um balsâmico olor.
Pomos d’ouro fulgenteiam
Entre o verde da folhagem
E as flores que lá floram
O inverno não vitima.

Que prazer eu sentiria
Nesta eterna luz do sol,
E o ar daqueles morros
Refrigério me traria.
Mas o rio furioso
Veda-me a travessia,
Suas águas estão revoltas
E minha alma se angustia.

Vejo um barco sobre as ondas,
Mas falta, ai, quem o navegue.
Corajosos embarquemos,
Seu velame já se anima.
Deves crer e arriscar-te
Pois os deuses não ajudam,
Só um milagre pode dar-te
A bela terra dos milagres.

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Friedrich Schiller

Sehnsucht

Ach, aus dieses Tales Gründen,
Die der kalte Nebel drückt,
Könnt ich doch den Ausgang finden,
Ach wie fühlt ich mich b
eglückt!
Dort erblick ich schöne Hügel,
Ewig jung und ewig grün!
Hätt ich Schwingen, hätt ich Flügel,
Nach den Hügeln zög ich hin.

Harmonien hör ich klingen,
Töne süßer Himmelsruh,
Und die leichten Winde bringen
Mir der Düfte Balsam zu,
Goldne Früchte seh ich glühen,
Winkend zwischen dunkelm Laub,
Und die Blumen, die dort blühen,
Werden keines Winters Raub.

Ach wie schön muß sichs ergehen
Dort im ewgen Sonnenschein,
Und die Luft auf jenen Höhen,
O wie labend muß sie sein!
Doch mir wehrt des Stromes Toben,
Der ergrimmt dazwischen braust,
Seine Wellen sind gehoben,
Daß die Seele mir ergraust.

Einen Nachen seh ich schwanken,
Aber ach! der Fährmann fehlt.
Frisch hinein und ohne Wanken,
Seine Segel sind beseelt.
Du mußt glauben, du mußt wagen,
Denn die Götter leihn kein Pfand,
Nur ein Wunder kann dich tragen
In das schöne Wunderland.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores), Versão de Roswitha Kempf, 1981, Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Johann Christoph Friedrich von Schiller (1759 1805), alemão de Marbach am Neckar, inicia o curso de Direito, abandona, e forma-se em Medicina; foi poeta, filósofo, médico, professor, dramaturgo e historiador; considerado grande homem das letras, foi um dos principais representantes do Romantismo e do Classicismo alemão; sua obra: em dramaturgia: Os Bandoleiros (1781), Wallestein (1799), Maria Stuart (1800), A Noiva de Messina (1803), Guilherm Tell (18031804) etc., em poesia: Os Artistas (1788), Ode à Alegria (1785), A Luva (1797), O Canto do Sino (1799) e outros, em prosa: Cartas Filosóficas (1786), Da Arte Trágica (1792), Do Patético (1793), Poesia Ingênua e Sentimental (1796), História da Separação dos Países Baixos (1788), História da Guerra dos Trinta Anos (inacabada, 17911793) e outros títulos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Gilberto Mendonça Teles: Linguagem

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A Claro Augusto de Godoy

I

Faço boca-de-pito para a fala
descansada da gente que proseia,
que faz questão de prosear na sala
sob o silêncio oleoso da candeia.

E ponho assunto no homem que se cala
quando a viola do sertão ponteia
na fiúza do amor, como uma bala
zunindo no clarão da lua-cheia.

Algumas vezes eu me alembro duma
tarde na roça: a poeira da boiada
e o berrante cortando e dando nó...

É aí que a palavra se avoluma
mas não chega a sair, atravessada
como espinha de peixe no gogó.

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Saciologia Goiana — Poesia: Gilberto Mendonça Teles, Coleção Poesia Hoje — Volume 53, Texto/Apresentação: O Poeta Crítico, artigo de Tristão de Athayde, 1982, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

domingo, 24 de novembro de 2019

Colombina: A Carne

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Exiges. És ciumenta e egoísta. Não admites
qualquer rivalidade, ou que algo te suplante.
És forte e audaz no teu domínio sem limites,
capaz de transformar a vida, num instante.

És mísera e brutal. Mas nada obsta que agites
e açambarques o mundo! E que essa alucinante
e estranha sensação, que aos humanos transmites,
tenha, como nenhuma, um halo deslumbrante.

Ó carne que possuis no teu imo maldito
mais lodo que contém um charco pantanoso,
mais esplendor também que os astros do Infinito!

Rugindo de volúpia e de sensualidade,
espalhando na terra apoteoses de gozo,
ó carne, serás tu, a única verdade?

(Distância — 1947/1953 — 2ª ed.; p.32)

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Colombina — Yde Schloenbach — e sua poesia romântica e erótica (esboço biográfico e seleção de poemas), por Maria Thereza Cavalheiro, 1987, João Scortecci Editor, São Paulo — SP; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em Lá menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.

sábado, 23 de novembro de 2019

Paul Valéry: Vento do Nordeste

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[traduzido por Michel Déguy (?)]

                    O homem ainda não começou seu trabalho: está ainda preparando suas ferramentas. Quando chegar o momento, dificilmente conservará o nome de homem…
                    (O grande vento que faz, que assobia na lareira, me sopra insanidade.)
                     Que aquisição a memória!…
                    Quando o homem tiver reconhecido que é nada, então poderá começar. Poderá a inteligência ou desaparecer ou substituir tudo? Ela começará a construir.
                    As questões, os enigmas necessários terão sido rebaixados. Nascer, sofrer, morrer não serão mais dificuldades. Haverá muito que a energia, os materiais, os seres vivos auxiliares estarão à disposição. O comércio e a indústria não mais existirão. Haverá uma única ciência e ela será quase inata.
                    A terra será apenas uma cidade. Nada mais se fará naturalmente isto é, às cegas.

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Paul Valéry

Vent du Nord-Est

                    L’homme n’a pas encore commencé son travail: il en est encore à préparer ses outils. Quand le temps sera venu, à peine gardera-t-il ce nom d’homme…
                    (Le grand vent qu’il fait, qui crie dans la cheminée, me souffle des insanités.)
                     Quelle acquisition, la mémoire!…
                    Quand l’homme aura reconnu qu’il n’est rien, alors cela pourra commencer. Alors l’intelligence pourra ou disparaître, ou tout remplacer? Elle commencera à bâtir.
                    Les questions, les énigmes nécessaires auront été avalées. Naître, souffrir, mourir ne feront plus de difficultés. Il y aura longtemps que l’énergie, les matières, les êtres vivants auxiliaires seront à disposition. Le commerce, l’industrie, ne seront plus. Il y aura une seule science et elle sera presque innée.
                    La terre ne sera qu’une ville. Rien ne se fera plus naturellement c’est-à-dire aveuglément.

                    Paul Valéry, VI, 255 [1916], em Poésie perdue,
Paris, Gallimard, 2000, p. 118.
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Poetas que pensaram o mundo — Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas atividades na vida pública francesa, foi filósofo, escritor e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; bibliografia: A Jovem Parca (1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942) etecétera etecétera; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke...