domingo, 31 de outubro de 2021

Gabriela Mistral: Dá-me Tua Mão

 
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[traduzido por Tasso da Silveira]

Dá-me tua mão, e dançaremos;
dá-me tua mão, e me amarás.
Uma flor única seremos,
uma só flor, e nada mais...

a mesma estrofe1 cantaremos,
ao mesmo passo bailarás2.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais...

Chamas-te Rosa, eu Esperança;
mas o teu nome olvidarás3,
porque seremos uma dança
sobre a colina, e, nada mais...


Dame la mano

Dame la mano y danzaremos;
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...

El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.

Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina, y nada más...

Notas da edição:
1. estrofe: conjunto de versos
2. bailarás: dançarás
3. olvidarás: esquecerás
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada em sua cidade natal, foi poetisa, educadora, diplomata e feminista; tornou-se referência em pedagogia ao trabalhar nos Planos de Reforma Educacional no Ministério de Educação do México; a poeta foi redatora da revista El Tiempo, de Bogotá, e colaborou no Jornal do Brasil; obras: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Lecturas para Mujeres (1923), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Recados Contando a Chile (1957), Poema de Chile (1967), e outros títulos; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

sábado, 30 de outubro de 2021

Mário de Sá-Carneiro: Pied-de-nez

 
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Lá anda a minha Dor às cambalhotas
No salão de vermelho atapetado
Meu cetim de ternura engordurado,
Rendas da minha ânsia todas rotas…

O Erro sempre a rir-me em destrambelho
Falso mistério, mas que não se abrange…
De antigo armário que agoirento range,
Minha alma atual o esverdinhado espelho…

Chora em mim um palhaço às piruetas;
O meu castelo em Espanha, ei-lo vendido
E, entretanto, foram de violetas,

Deram-me beijos sem os ter pedido…
Mas como sempre, ao fim bandeiras pretas,
Tômbolas falsas, carrossel partido…

Paris, novembro de 1915

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; obras: Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

William Carlos Williams: Quando a estrutura falha, a rima tenta vir em socorro

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

O cavalo velho morre devagar.
Gradativamente
o fervor de suas veias
compara-se ao estiramento

das folhas, dia a dia. Mas
o passo que sua
mente mantém, é o passo
dos seus sonhos. Ele

faz o que pode, com
inabalável fleugma,
olá! mas o passo que
sua carne mantém

inclinada, inclinada sobre
barras mendiga
praticamente todo o passo e todos
os refúgios de seus sonhos.


When structure fails rhyme attempts to come to the rescue

The old horse dies slow.
By gradual degrees
the fervor of his veins
matches the leaves’

stretch, day by day. But
the pace that his
mind keeps is the pace
of his dreams. He

does what he can, with
unabated phlegm,
ahem! but the pace that
his flesh keeps

leaning, leaning upon
the bars beggars
by far all pace and every
refuge of his dreams.
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Antologia da Nova Poesia Norte-Americana — Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, escritor e poeta do modernismo e do imagismo norte-americano; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An Early Martyr and Other Poems (1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906-1938 (1938), The Wedge (poesias, 1944), Paterson — Book I (1946), The Desert Music and Other Poems (1954), Autobiography (1951), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Bukowski: um para a dente-acavalado*

 
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[traduzido por Rodrigo Breunig]

conheço uma mulher
que fica comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que afinal se encaixam
numa espécie de ordem.
ela monta tudo
matematicamente
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive junto ao mar
deixa açúcar fora para as formigas
e acredita
fundamentalmente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
ela raras vezes o penteia
seus dentes são acavalados
e ela usa macacões frouxos e disformes
sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
por vários anos ela me irritou
com aquilo que eu considerava como sendo
suas excentricidades 
tipo mergulhar cascas de ovo na água
(alimentando as plantas para que
absorvessem cálcio).
mas afinal quando penso em sua
vida
e a comparo com outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela teve alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
pois ela é a mãe da minha única
filha
e outrora fomos grandes amantes,
mas ela superou os obstáculos
como eu disse
ela machucou menos gente do que
qualquer pessoa que conheço,
e se você olhar por esse ângulo,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.

Frances, este poema é pra
você.

Charles Bukowski

one for old snaggle-tooth

I know a woman
who keeps buying puzzles
chinese
puzzles
blocks
wires
pieces that finally fit
into some order.
she works it out
mathematically
she solves all her
puzzles
lives down by the sea
puts sugar out for the ants
and believes
ultimately
in a better world.
her hair is white
she seldom combs it
her teeth are snaggled
and she wears loose shapeless
coveralls over a body most
women would wish they had.
for many years she irritated me
with what I consider her
eccentricities —
like soaking eggshells in water
(to feed the plants so that
they’d get calcium).
but finally when I think of her
life
and compare it to other lives
more dazzling, original
and beautiful
I realize that she has hurt fewer
people than anybody I know
(and by hurt I simply mean hurt).
she has had some terrible times,
times when maybe I should have
helped her more
for she is the mother of my only
child
and we were once great lovers,
but she has come through
like I said
she has hurt fewer people than
anybody I know,
and if you look at it like that,
well,
she has created a better world.
she has won.

Frances, this poem is for
you.

* Nota do editor Abel Debritto: "um para a dente-acavalado", 23 de janeiro de 1976; manuscrito; coletado em O amor é um cão [dos diabos]...
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Bukowski — Sobre o amor, Tradução de Roberto Breunig, Anotação de fontes e edição de Abel Debritto, 2019, Coleção L&PM Pocket volume 1300, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Ascânio Lopes: Sanatório

 
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Logo, quando os corredores ficarem vazios,
e todo o Sanatório adormecer,
a febre dos tísicos entrará no meu quarto,
trazida de manso pela mão da noite.

Então minha testa começará a arder,
todo meu corpo magro sofrerá.
E eu rolarei ansiado no leito
com o peito opresso e de garganta seca.

Lá fora haverá um vento mau
e as árvores sacudidas darão medo.
Ah! os meus olhos brilharão, procurando

a Morte que quer entrar no meu quarto.
Os meus olhos brilharão como os da fera
que defende a entrada do seu fojo.


* Nota de Joaquim Branco: Transcrito de Verde nº 1 (2ª fase), maio de 1929. No livro Ascânio Lopes — vida e poesia, este poema apresenta variações anotadas por Delson G. Ferreira de manuscritos fornecidos por Francisco Inácio Peixoto. São as seguintes: 1) “e todo meu corpo magro sofrerá:”; 2) e lá fora haverá um vento mau:”; 3) “Os meus olhos brilharão como os de uma fera:”; e 4) “que defende a entrada da sua morada.” (FERREIRA, 1967: 74)
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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano publicou o jornalzinho O Eco, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; bibliografia: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (em conjunto com Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

Olavo Bilac: Cantilena

 
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Quando as estrelas surgem na tarde, surge a esperança...
Toda alma triste no seu desgosto sonha um Messias:
quem sabe? o acaso, na sorte esquiva, traz: a mudança
e enche de mundos as existências que eram vazias!

Quando as estrelas brilham mais vivas, brilha a esperança...
Os olhos fulgem; loucas, ensaiam as asas frias:
tantos amores há pela terra, que a mão alcança!
E há tantos astros, com outras vidas, para outros dias!

Mas, de asas fracas, baixando os olhos, o sonho cansa;
no céu e na alma, cerram-se as brumas, gelam as luzes:
quando as estrelas tremem de frio, treme a esperança...

Tempo, o delírio da mocidade não reproduzes!
Dorme o passado: quantas saudades, e quantas cruzes!
Quando as estrelas morrem na aurora, morre a esperança...


* Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página expõe que Vasco de Castro Lima, autor de O Mundo Maravilhoso do Soneto, registra sobre Cantilena: (“Cada verso — que tem 14 sílabas — é composto de três quadrissílabos, sem elisões; e o poeta repete, nas rimas, quatro vezes, a palavra “esperança”. Essas singularidades lembram, de fato, uma cantilena).
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O Mundo Maravilhoso do Soneto [inúmeros sonetistas e tradutores], de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; colaborou em jornais, como a Gazeta de Notícias, e em outras publicações periódicas, como as revistas A Imprensa, A Leitura, Branco e Negro, Brasil—Portugal e Atlântida; obras: Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira; juntamente com os poetas Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, veio a formar o que ficou conhecido como a Tríade Parnasiana; no Rio de Janeiro e em São Paulo, estudou Medicina e Direito sem no entanto concluir nenhum dos cursos.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Giacomo Leopardi: A si mesmo

 
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[traduzido por Alexei Bueno]

Enfim repousas sempre
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Quem em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera
A última vez. À nossa espécie o fado
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera
E a vacuidade sem final de tudo.

Giacomo Leopardi

A se stesso

Or poserai per sempre,
Stanco mio cor. Perì l’inganno estremo,
Ch’eterno io mi credei. Perì. Ben sento,
In noi di cari inganni,
Non che la speme, il desiderio è spento.
Posa per sempre. Assai
Palpitasti. Non val cosa nessuna
I moti tuoi, nè di sospiri è degna
La terra. Amaro e noia
La vita, altro mai nulla; e fango è il mondo.
T’acqueta omai. Dispera
L’ultima volta. Al gener nostro il fato
Non donò che il morire. Omai disprezza
Te, la natura, il brutto
Poter che, ascoso, a comun danno impera,
E l’infinita vanità del tutto.
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Cinco séculos de poesia (diversos autores) — poemas traduzidos, Tradução e Prefácio de Alexei Bueno, edição bilíngue, 2013, Editora Record, São Paulo — SP; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Rafael Alberti: Os anjos embolorados

 
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[traduzido por Amálio Pinheiro]

Houve luz que trouxe*
amêndoa amarga por osso.

Voz que por cantiga
a madeixa da chuva
cortada por machado.

Alma que por corpo
a bainha arejada
de uma dupla espada.

Veias que por sangue
fel de mirra e de retama.

Corpo que por alma
o vazio, nada.

Rafael Alberti

Los ángeles mohosos

Hubo luz que trajo
por hueso una almendra amarga.

Voz que por sonido,
el fleco de la lluvia,
cortado por un hacha.

Alma que por cuerpo,
la funda de aire
de una doble espada.

Venas que por sangre,
Y el de mirra y de retama.

Cuerpo que por alma,
el vacío, nada.

* Nota do tradutor Amálio Pinheiro: O que a conhecida fala bíblica (“Disse Deus: ‘Haja luz’; houve luz”, Gênesis, I, v. 3) introduz aqui é justamente a ocupação dos sentidos pela herança religiosa, da vista ao tato, estrofe a estrofe.
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902 1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte Horizonte, Alfar, Revista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; obras: Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928 1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933), Entre el clavel y la espada, La arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987) e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

sábado, 23 de outubro de 2021

hart crane *: louvor a uma urna

Poesia da recusa - Livros na Amazon Brasil- 9788527307666
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[traduzido por Augusto de Campos]

In Memoriam: Ernest Nelson

Era do norte o rosto terno
De falso exilado, juntando
De Pierrô o olhar eterno
E a gargalhada de Gargântua.

Os sonhos que me confiava
Do travesseiro branco, insone,
Agora eu sei, eram heranças 
Corcéis suaves do ciclone.

No monte oblíquo a lua oblíqua
Nos deu presságios indistintos
Do que ainda vivo o morto abriga,
Questões da alma e dos instintos.

Iguais às que, no crematório,
Do alto o relógio remoía
Sem poupar nosso obrigatório
Louvor às glórias desse dia.

Mas ao lembrar a mecha de ouro,
Já não suporto o rosto baço
Nem as abelhas, surdo coro,
Atravessando a luz do espaço.

Espalha a cinza destes versos
Pelos subúrbios, no arrebol
Onde se perderão, dispersos.
Estes não são troféus do sol.

[1921-22]

Hart Crane

Praise for an urn

In memoriam: Ernest Nelson

It was a kind and northern face
That mingled in such exile guise
The everlasting eyes of Pierrot
And, of Gargantua, the laughter.

His thoughts, delivered to me
From the white coverlet and pillow,
I see now, were inheritances 
Delicate riders of the storm.

The slant moon on the slanting hill
Once moved us toward presentiments
Of what the dead keep, living still,
And such assessments of the soul

As, perched in the crematory lobby,
The insistent clock commented on,
Touching as well upon our praise
Of glories proper to the time.

Still, having in mid gold hair,
I cannot see that broken brow
And miss the dry sound of bees
Stretching across a lucid space.

Scatter these well-meant idioms
Into the smoky spring that fills
The suburbs, where they will be lost.
They are to trophies of the sun.

[1921-22]

* Nota do Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz notar que Augusto de Campos, tradutor e organizador deste poesia da recusa, nos traços biobibliográficos de Crane, a poesia sem troféus, expõe ser o autor “um dos mais notáveis poetas norte-americanos da nossa época. Um poeta que, se não se alçou às alturas de Pound, Eliot ou Cummings, não fica nada a dever a Wallace Stevens, Marianne Moore ou William Carlos Williams. E que pode conversar de igual para igual com o poeta galês Dylan Thomas, a personalidade que mais se lhe assemelha, em vida e obra.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Harold Hart Crane (1899 1932), estadunidense de Garretsville, Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos, ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com a avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez daí derivasse a raiz de seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; obras: White Buildings (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930), The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio atirando-se às águas.

W. B. Yeats: Morte*

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
Sabe ele a morte até os ossos
Foi o homem quem criou a morte.

W. B. Yeats

Death

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone —
Man has created death.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: O poema, de The Winding Stair and Other Poems (1933) foi escrito em 13 de dezembro de 1927, diz Yeats que motivado pelo assassínio de Kevin O’Higgins, por ele considerado o intelecto mais perfeito da vida pública irlandesa. O’Higgins (1892 — 1927), foi ministro da Justiça e Exterior do Estado Livre da Irlanda. Mataram-no em 10 de julho de 1927. O poema reafirma, quanto à morte, os famosos versos de “The Tower” sobre ser tudo criação da alma humana.
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Poemas de W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, Coleção Toda Poesia 4, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.