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domingo, 9 de julho de 2023

Fagundes Varela *: Visões da noite

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Passai, tristes fantasmas! O que é feito
das mulheres que amei, gentis e puras,
umas devoram negras amarguras,
repousam outras em marmóreo leito!

Outras no encalço de fatal proveito
buscam à noite as saturnais escuras,
onde empenhando as murchas formosuras
ao demônio do ouro rendem preito!

Todas sem mais amor, sem mais paixões!
Mais uma fibra trêmula e sentida!
Mais um leve calor nos corações!

Pálidas sombras de ilusão perdida,
minh’alma está deserta de emoções,
passai, passai, não me poupeis a vida!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos, registra acerca de Fagundes Varela: “ [...] se casou com uma artista de circo, escandalizando sua família conservadora. Com a morte prematura do filho, a má saúde da esposa e as agruras da subsistência, recorreu ao álcool e sua vida se desregrou. Em 1865, o pai o enviou para Recife e lá cursou o 3º ano do Direito, mas com a morte da esposa, que ficara em São Paulo, retornou e, entre uma bebedeira e outra, inscreveu-se no 4º ano. Logo desistiu e, em 1866, voltou a morar com os pais. Em 1869 casou-se com uma prima, com a qual teve duas meninas e outro menino, que também faleceu. Já residia em Niterói, onde morreria aos 33 anos de apoplexia. Nome celebrado de nosso romantismo, era um poeta eclético. Segundo o professor Celso Luft, era naturista e indianista como Gonçalves Dias, byroniano como Álvares Penteado e poeta social como Castro Alves.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 1875), nascido em Rio Claro RJ, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no 4º ano, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo); obras poéticas: Noturnas (1860), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas patrióticos), Cantos e Fantasias (1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou O Evangelho nas Selvas (publicação póstuma, 1875), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre França); morreu de alcoolismo.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Álvares de Azevedo *: Pálida à luz da lâmpada sombria, . . . [soneto]

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Pálida, à luz da lâmpada sombria,
sobre o leito de flores reclinada,
como a lua por noite embalsamada,
entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti as noites eu velei chorando,
por ti nos sonhos morrerei sorrindo!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos, registra acerca da morte de Álvares de Azevedo: “Com 20 anos veio a falecer, em decorrência de perfuração intestinal em acidente cirúrgico. Outra versão indica que era portador de tuberculose pulmonar e grave lesão na fossa ilíaca, derivada de uma queda de cavalo. Foi o primeiro a morrer entre nossos principais poetas românticos, inaugurando aquilo que alguém chamou ‘a escola de morrer cedo’.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, estudou no Stoll e no Pedro II (ambos, colégios do Rio de Janeiro), foi poeta, cronista e ensaísta, cursou a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade, isso somado a uma queda de cavalo quando em passeio pelas ruas do Rio e à descoberta de um tumor na fossa ilíaca; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886) e outros textos; o poeta foi patrono da Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Junqueira Freire *: Arda de raiva contra mim a intriga, . . . [soneto]

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Arda de raiva contra mim a intriga,
morra de dor a inveja insaciável;
destile seu veneno detestável
a vil calúnia, pérfida, inimiga.

Una-se todo, em traiçoeira liga,
contra mim só, o mundo miserável.
Alimente por mim ódio entranhável
o coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;
sei desprezar um nome não preciso;
sei insultar uns cálculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso
de uns lábios de mulher gentis, ufanos;
e o mais que os homens dão, desprezo e piso.


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos, registra acerca de Junqueira Freire: “Após dois anos de contrariedades, angústias e martírios no Mosteiro de São Bento, na Bahia, em 1853 solicitou a secularização, que lhe permitia abster-se da severidade monástica, embora permanecesse sacerdote por ter feito votos perpétuos. E voltou para casa. Fez bem ao poeta, haja vista a trágica força dos versos que produziu na abordagem de temas que o desesperavam, como horror da vida celibatária, os desejos reprimidos, a revolta contra o mundo e o arrependimento por ter feito votos que o aprisionavam. Mas o poeta era cardíaco e morreu com apenas 23 anos.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Luis José Junqueira Freire (1832 1855), baiano e soteropolitano, chegou a ingressar na Ordem Beneditina mas abandonou-a, pois não se considerou vocacionado para a vida monástica; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855) e, postumamente, seguiu-se Contradições Poéticas (1868).

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Antero de Quental *: Divina Comédia

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Erguendo os braços para o céu distante
e apostrofando os deuses invisíveis,
os homens clamam: Deuses impassíveis,
a quem serve o destino triunfante,

porque é que nos criastes?! Incessante
corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
num turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
do nada e do que ainda não existe,
ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
dizem: Homens, por que é que nos criastes?


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos registrou acerca de Antero de Quental: “Em 1865 foi um dos debatedores na Questão Coimbrã, em que se enfrentaram paladinos da escola romântica de Lisboa, capitaneados por Antônio Feliciano de Castilho, e os da escola realista de Coimbra, que Antero liderava, polêmica que só terminou na cidade do Porto com o duelo a espada entre Antero e Ramalho Ortigão. [...] Foi o fundador do Partido Socialista Português. Em 1874 começou a ter sintomas de depressão. Em 1891, de volta aos Açores, já não suportava as contínuas perturbações psíquicas e, em 11 de setembro, às oito horas da noite, num banco defronte ao muro do Convento de Nossa Senhora da Esperança, detonou a arma contra o céu da boca.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada, Açores Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Camilo Pessanha *: Caminho — I

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Tenho sonhos cruéis; n’alma doente
sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
do peito afugentar bem rudemente,
devendo, ao desmaiar sobre o poente,
cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d’harmonia,
toda a luz desgrenhada que alumia
as almas doidamente, o céu d’agora,

sem ela o coração é quase nada:
um sol onde expirasse a madrugada,
porque é só madrugada quando chora.


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos registrou acerca do poeta Camilo Pessanha: “O professor Celso Luft, em seu Dicionário de literatura portuguesa e brasileira, sintetiza o prestígio dele [Camilo Pessanha] entre os estudiosos: ‘é o representante máximo da estética simbolista em Portugal’ [...] se formou em Direito e após algumas desilusões amorosas foi trabalhar em Macau, colônia portuguesa na China, como professor, em seguida como conservador do registro predial e juiz. Seus versos só não se perderam graças a um menino de 17 anos, João de Castro Osório. Ele os reuniu e os entregou à mãe, a escritora e editora Ana de Castro Osório, que os editou em livro com o título de Clepsidra. Na época, o poeta já trazia a saúde comprometida pelo vício do ópio e os pulmões destroçados pela tuberculose.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

domingo, 26 de março de 2023

Carvalho Junior *: Après le combat


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Quando, pela manhã, contemplo-te abatida,
amortecido o olhar e a face descorada,
imersa em languidez profunda, indefinida,
o lábio ressequido e a pálpebra azulada,

relembro as impressões da noite consumida
na lúbrica expansão, na febre alucinada,
do gozo sensual, frenético, homicida,
como a lâmina aguda e fria de uma espada.

E ao ver em derredor o grande desalinho
das roupas pelo chão, dos móveis no caminho,
e o boudoir enfim do caos um fiel plágio,

suponho-me um herói da velha antiguidade,
um marinheiro audaz após a tempestade,
tendo por pedestal os restos dum naufrágio!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos, registra acerca do poeta Carvalho Junior: “Foi um dos nossos primeiros parnasianos, oposto aos românticos por um traço que um crítico chamou de realismo urbano. Ele chocou os contemporâneos pelo naturalismo com que abordava temas eróticos, mas não chocou quem era sábio: foi elogiado por Machado de Assis, que comentou seus sonetos no livro Crítica [e variedades], nos seguintes termos: ‘Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu essa nota violenta, tão exclusivamente carnal (...). Crus em demasia são os seus quadros; mas não é comum aquele vigor, não é vulgar aquele colorido’. E conclui: ‘Um poeta de raça’. Carvalho Junior é o nosso Baudelaire. Esse poeta soberbo morreu quando era pouco mais do que um menino e nos legou apenas duas dúzias de poemas."
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), nascido no Rio de Janeiro, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado um dos precursores do simbolismo; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; foi colaborador do jornal paulistano A República; morreu jovem, sofria do coração.

quinta-feira, 2 de março de 2023

Batista Cepelos *: Nas ondas de uns cabelos

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Soltos, ombros abaixo, os revoltos cabelos,
que te envolvem num longo e veludoso abraço;
e, como um rio negro, os seus negros novelos
rolam no vale em flor do teu brando regaço.

E na louca embriaguez dos meus sentidos, pelos
cinco oceanos do sonho o meu roteiro faço,
a senti-los na mão, beijá-los e mordê-los
até morrer de amor, sucumbir de cansaço!

E pousando a cabeça em teu seio, que estua,
sinto um sono ligeiro, um sussurro de brisa,
que me suspende ao céu e pelo céu flutua...

E num sonho feliz, como num mar profundo,
a minha alma desliza, a minha alma desliza
como as naus de Colombo, à procura de um mundo...


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos registrou acerca do poeta Batista Cepelos: “De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), paulista de Cotia, formado em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, tradutor, romancista e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, 1906), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire e Paul Verlaine.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Gonçalves Dias: Baixel veloz, que ao úmido elemento . . . [soneto]


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Baixel veloz, que ao úmido elemento
a voz do nauta experto afoito entrega,
demora o curso teu, perto navega
da terra onde me fica o pensamento!

Enquanto vais cortando o salso argento,
desta praia feliz não se desprega
(meus olhos, não, que amargo pranto os rega)
minha alma, sim, e o amor que é meu tormento.

Baixel, que vais fugindo despiedado,
sem temor dos contrastes da procela,
volta ao menos, qual vais tão apressado.

Encontre-a eu gentil, mimosa e bela!
E o pranto que ora verto amargurado,
possa eu verter então nos lábios dela!

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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Antônio Gonçalves Dias (1823 1864), maranhense nascido em Caxias, advogado de formação, foi poeta, etnógrafo e jornalista; iniciando seus estudos em Latim, Francês e Filosofia em escola particular no Brasil, partiu para a Europa, concluiu seus estudos secundários e bacharelou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, Portugal (1840); teve presença nos meios literários e na imprensa, lá e cá; no Brasil, juntamente com José de Alencar, desenvolveu o Indianismo, uma sua marca na literatura brasileira; em 1862, viajou outra vez à Europa, agora para buscar tratamento para seus pulmões e lá permaneceu por dois anos; em 1864, já desenganado, na viagem de volta ao Brasil, o vapor que o trazia afundou na costa maranhense, com a marinhagem tratando de se salvar e esqueceram o poeta, que morreu afogado em sua cabine de doente e foi a única vítima do naufrágio; algumas de suas obras: Primeiros Cantos (Laemmert, Rio de Janeiro RJ, 1846), Segundos Cantos (Ferreira Monteiro, Rio de Janeiro RJ, 1848), Últimos Cantos (Paula Brito, Rio de Janeiro RJ, 1851), Cantos (todos os cantos anteriores e mais 16 novas composições sob o título de "Novos Cantos", Brockhaus, Leipzig, Alemanha, 1857), Dicionário da Língua Tupi (Brockhaus, Leipzig, Alemanha, 1858), etc.

domingo, 4 de julho de 2021

Filinto Elísio*: Epigrama

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Este aqui, tenda, aquele assenta banca;
um ganha com padeiro, outro com tranca**,
Cada um labora nesse escasso mundo
com mister, com ofício, ou benefício.
Clori acertou, que com saber profundo,
na alcova a loja abriu do seu ofício.


Notas de Sergio Faraco:
* Pseudônimo de Francisco Manuel do Nascimento;
** Carregador “de pau e corda”, moço de fretes, mariola.
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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Filinto Elísio (1734 1819), ou Niceno, pseudônimos de Francisco Manuel do Nascimento, português e lisboeta, foi sacerdote, poeta do Arcadismo e tradutor; o poeta, perseguido pela Inquisição, teve que se exilar em Paris França, ali tendo se ocupado como tradutor, para sobreviver; obras: Obras Completas (11 tomos, 1817 1819); traduziu La Fontaine ('As Fábulas', 1816), Chateaubriand (‘Os Mártires’), Sílio Itálico (‘Púnica’) etc. e verteu para o francês, Mariana Alcoforado (‘Lettres Portugaises’).

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Mário de Sá-Carneiro: Salomé

 
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Insônia roxa. A luz a virgular-se em medo,
luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
alastra-se pra mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro!... A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projetar estátuas...

Ela chama-me em íris. Nimba-se a perder-me,
golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

mordoura-se a chorar  há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto e vou arder-me
na boca imperial que humanizou um santo...

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Livro das Cortesãs, 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português de Lisboa, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; são de sua autoria Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Junqueira Freire: A Sultana

 
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Sultana!  por que teus olhos
pululam choro tão triste?
No vôo de ave sinistra
algum mau agouro viste?
Ou dos lábios do teu mago
más profecias ouviste?

Que tens que choras, sultana,
co’as mãos no queixo  tão bela?
Tanto palor nestas faces,
que foram cor de canela?
Desalinhada a madeixa,
sentada junto à janela?

Sultana!  por que dedilhas
os bilros nesse tear?
Os dedos correm e correm
à toa, sem acertar!
Os dedos erram pontos
bem fora de seu lugar!

Sultana!  que dor tamanha
que te esmaga o coração?
Que te pode armar nas faces
tão estranha contração?
Que pode arrojar-te a mente
em tão vaga distração?

 Meu senhor hoje chamou-me:
quando mais me chamará?
Meu senhor hoje falou-me:
quando mais me falará?
Meu senhor hoje abraçou-me:
quando mais me abraçará?

Naquele colchão macio
eu junto dele dormi;
eu vi o céu do profeta,
o céu verdadeiro eu vi:
oh! que bela a noite de ontem!
 Não terei mais noite assi!

Beijou-me co’a sua boca
macia como cetim
abraçou-me com seus braços
mais lindos do que o marfim:
reclinou minha cabeça
em cima de seu coxim.

Eu ficava toda fria,
se ele se achegava a mim:
minhas faces palejavam,
como cândido jasmim:
 e depois... ficava ardente,
vermelha  como um rubim.

Eu lhe ouvi a voz sonora,
como a voz de um querubim,
que doce roçar de beijos
macios como o cetim!
Que dedos tão delicados,
que se imprimiram em mim!

Julguei eterna a ventura,
 fui louca  pobre de mim!
Não luzem mais de uma noite
as lâmpadas do festim!
 Revelai-me ó grão profeta,
se terei mais noite assim!

Meu senhor tem mil mulheres
tão doces como o maná;
amante de coisas novas,
as novas chamando irá:
meu senhor  de mim, coitada,
de mim não se lembrará!

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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Luis José Junqueira Freire (1832 1855), nascido em Salvador BA, chegou a ingressar na Ordem Beneditina mas abandonou-a, pois não se considerou vocacionado para a vida monástica; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855) e, postumamente, seguiu-se Contradições Poéticas (1868).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Casimiro de Abreu: Dores *

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Há dores fundas, agonias lentas,
dramas pungentes que ninguém consola,
             ou suspeita sequer!
Mágoas maiores do que a dor dum dia,
do que a morte bebida em taça morna
             de lábios de mulher!

. . .

Oh! ninguém sabe como a dor é funda,
quanto pranto s’engole a quanta angústia
             a alma nos desfaz!
Horas há em que a voz quase blasfema...
E o suicídio nos acena ao longe
             nas longas saturnais!

Definha-se a existência pouco e pouco,
E ao lábio descorado o riso franco
             qual dantes, já não vem;
um véu nos cobre de mortal tristeza,
e a alma em luto, despida dos encantos,
             amor nem sonhos tem!

Murcha-se o viço do verdor dos anos,
dorme-se moço e despertamos velho,
             sem fogo para amar!
E a fronte jovem que o pesar sombreia
vai, reclinada sobre um colo impuro,
             dormir no lupanar!

Ergue-se a taça do festim da orgia,
gasta-se a vida em noites de luxúria
             nos leitos dos bordéis,
e o veneno se sorve a longos tragos
nos seios brancos e nos lábios frios
             das lânguidas Frinés!

Esquecimento  mortalha para dores 
aqui na terra é a embriaguez do gozo,
             a febre do prazer:
a dor se afoga no fervor dos vinhos,
e no regaço das Marcôs modernas
             é doce então morrer!

Depois o mundo diz:  Que libertino!
a folgar no delírio dos alcouces **
             as asas empanou! 
como se ele, algoz das esperanças,
as crenças infantis e a vida d’alma
             não fosse quem matou!...


Notas do Organizador Sergio Faraco:
* Fragmento do segundo canto do Livro negro;
** Prostíbulos.
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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), recebeu tão somente instrução primária (de 1849 a 1852); foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa, também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau — representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); obras literárias: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesia, 1859); morreu de tuberculose, aos 21 anos de idade.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Júlio Dantas: Demóstenes

 
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Em casa de Laís, Demóstenes entrara:
como Atenas inteira, o supremo orador
vinha comprar também, nuns minutos de amor,
o corpo escultural dessa beleza rara.

Quase a possuíra já, de tanto que a sonhara:
e ao ver, gloriosa e nua, em todo o seu esplendor,
cingido o strophion* de ouro aos dois seios em flor,
essa linda mulher que se vendeu tão cara,

tímido perguntou:  "Um só beijo fugaz,
por quanto o vendes, grega?" E ela, num gesto lento:
 "Conta mil dracmas, velho, e tu me possuirás!”

 "Quê? Pagar por tanto ouro o beijo de um momento?
Dar mil dracmas por ti? Não, mulher; fica em paz:
eu não compro tão caro um arrependimento".


* Nota do organizador Sergio Faraco: Em latim, strophion, faixa usada pelas mulheres para segurar os seios.
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Livro das Cortesãs, 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Júlio Dantas (1876 1962), português de Lagos Algarve, formado em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, foi médico, político, diplomata, jornalista, dramaturgo, escritor polígrafo, tradutor e poeta; colaborou em inúmeros periódicos portugueses e estrangeiros, dentre os quais Diário Ilustrado, Novidades, Correio da Manhã e Renascença, nas revistas Branco e Negro, Serões, Azulejos Atlântida, todos de Portugal, no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro e no La Nación, de Buenos Aires; bibliografia: em poesia, Nada (1896), Sonetos (1916), em prosa, Outros Tempos (1909), Figuras de Ontem e de Hoje (1914), O Amor em Portugal no Século XVIII (1915), Mulheres (1916), Arte de Amar (1922), O Heroísmo, a Elegância, o Amor (conferência, 1923) etc., em dramaturgia, O Que Morreu de Amor (1899), A Severa (1901), A Ceia dos Cardeais (1902), Crucificados (1902), Rosas de Todo Ano (1907), O Reposteiro Verde (1921) e outros; traduziu Shakespeare (Rei Lear), Edmond Rostand (Cyrano de Bergerac), Paul Saunière (O Azougue), Jean Richepin (O Caminheiro).

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Cruz e Sousa: Lubricidade

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Quisera ser a serpe venenosa
que dá-te medo e dá-te pesadelos
para envolver-me, ó flor maravilhosa,
nos flavos turbilhões dos teus cabelos.

Quisera ser a serpe veludosa
para, enroscada em múltiplos novelos,
saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
e babujá-los e depois mordê-los...

Talvez que o sangue impuro e flamejante
do teu lânguido corpo de bacante,
da langue ondulação de águas do Reno,

estranhamente se purificasse...
Pois que um veneno de áspide vorace
deve ser morto com igual veneno.

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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).