sexta-feira, 29 de abril de 2016

Raul Pederneiras: Farmacopéia

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Ela reside em frente à minha casa,
Tem loja de farmácia e drogaria,
E as receitas de amor nunca me avia,
Pois remédio não dá ao peito em brasa...

Consolo esta paixão que a vida arrasa
Fitando a farmacêutica Luzia
A vender xaropada à freguesia,
Que nunca em procurá-la perde vaza;

Quando seus olhos lânguidos avisto
Fico em piramidal desnorteamento,
Da nostalgia achego ao peristilo!

Se ela não der remédio a tudo isto,
Se acaso der em droga o casamento,
Vou ter na morte um bálsamo tranqüilo.

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Sonetos Brasileiros — Séculos XVII ao XX, Coletânea organizada por Laudelino Freire, 1929, F. Briguiet & Cia. Editores, Rio de Janeiro — RJ; Raul Paranhos Pederneiras (1874 1953), carioca, formado em Direito, foi caricaturista, ilustrador, pintor, professor, jornalista, teatrólogo, compositor, escritor e poeta; iniciou sua carreira como cartunista no periódico O Mercúrio e atuou assídua e extensivamente como colaborador nos periódicos Revista da Semana, O Tagarela, D.Quixote, Fon-Fon, O Malho e Jornal do Brasil, todos do Rio de Janeiro, Correio Paulistano, de São Paulo e Eco do Sul, de Porto Alegre RS; de seus pseudônimos, os mais conhecidos foram Luar e César João Fernandes; participou em exposições do Rio de Janeiro e de São Paulo, com seus quadros, pinturas, desenhos e caricaturas; lecionou na Escola Nacional de Belas Artes e na Faculdade Nacional de Direito (Universidade do Brasil, atual UFRJ), no Rio de Janeiro; escreveu e publicou Com Licença (versos humorísticos, 1899), Versos (humorístico, 1900), Cenas da Vida Carioca 1º. Volume (1924), O Chá de Sabugueiro (comédia em 3 atos sobre costumes cariocas, 1931), Cenas da Vida Carioca 2º. Volume (1935), Musa Travessa (versos de humor, 1936); além das artes gráficas e autor de revistas, Raul Pederneiras também escreveu livros na área jurídica. 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Charles Bukowski: então você quer ser escritor?

Amor é Tudo que Nós Dissemos que não Era | Amazon.com.br
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[traduzido por Fernando Koproski]

se não estiver explodindo em você
apesar de tudo,
não faça.
a não ser que saia espontâneo de seu
coração e de sua mente e de sua boca
e de suas entranhas,
não faça,

se você tiver que passar horas
encarando a tela do computador
ou encurvado sobre sua
máquina de escrever
procurando palavras,
não faça.
se você estiver fazendo isso por dinheiro ou
fama,
não faça.
se você estiver fazendo isso porque deseja
mulheres em sua cama,
não faça.
se você tiver que sentar ali e
reescrever mais uma vez e mais uma vez,
não faça.
se der o maior trabalho só de pensar em fazer,
não faça.
se você estiver tentando escrever como outra
pessoa,
esqueça.

se você tiver que esperar até isso rugir em
você,
então espere com paciência.
se isso nunca rugir em você,
faça outra coisa.
se você tiver que ler primeiro para sua esposa
ou para sua namorada ou para seu namorado
ou para seus pais ou para qualquer um,
você não está pronto.

não seja como tantos escritores,
não seja como tantas milhares de
pessoas que se dizem escritores,
não seja chato e estúpido e
pretensioso, não se deixe consumir pela
vaidade.
as bibliotecas do mundo
bocejam até
dormir
sobre tipos assim.
não aumente isso.
não faça.
a não ser que saia de
sua alma como um foguete,
a não ser que ficar parado te
leve à loucura ou
ao suicídio ou assassinato,
não faça.
a não ser que o sol dentro de você esteja
queimando suas vísceras,
não faça.

quando for realmente o momento,
e se você for escolhido,
isso irá acontecer por
conta própria e continuará acontecendo
até você morrer ou isso morrer em
você.
não há outro jeito.

e nunca houve outro.

Charles Bukowski

so you want to be a writer?

if it doesn’t come bursting out of you
in spite of everything,
don’t do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don’t do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don’t do it.
if you’re doing it for money or
fame,
don’t do it.
if you’re doing it because you want
women in your bed,
don’t do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don’t do it.
if it’s hard work just thinking about doing it,
don’t do it.
if you’re trying to write like somebody
else,
forget about it.


if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.
if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you’re not ready.

don’t be like so many writers,
don’t be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don’t be dull and boring and
pretentious, don’t be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don’t add to that.
don’t do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don’t do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don’t do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.
there is no other way.

and there never was.
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Amor é tudo que nós dissemos que não era — Charles Bukowski, Seleção e tradução de Fernando Koproski, 2012, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro — RJ; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, contista e romancista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Gilka Machado: Amei o amor, ansiei o amor, sonhei-o . . . [soneto]

Bandeira, Manoel. (org) - Obras-primas Da Lírica Brasileira - R ...
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Amei o Amor, ansiei o Amor, sonhei-o
uma vez, outra vez (sonhos insanos)!...
e desespero haja maior não creio
que o da esperança dos primeiros anos.

Guardo nas mãos, nos lábios guardo em meio
do meu silêncio, aquém de olhos profanos,
carícias virgens, para quem não veio
e não virá saber dos meus arcanos.

Desilusão tristíssima, de cada
momento, infausta e imerecida sorte
de ansiar o Amor e nunca ser amada!

Meu beijo intenso e meu abraço forte,
com que pesar penetrareis o Nada,
levando tanta vida para a Morte...

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Obras Primas da Lírica Brasileira — Volume XII, Seleção de Manuel Bandeira e Notas de Edgard Cavalheiro, 1943, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Gilka da Costa Melo Machado (1893 1980), nascida no Rio de Janeiro RJ, vinda de numa família de artistas, também trazia a arte nas veias: desde criança fazia versos; escreveu e publicou Cristais Partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); foi premiada por sua obra (Revista O Malho, 1933, e Academia Brasileira de Letras, Prêmio Machado de Assis, 1979).

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Aguinaldo de Góes: A Justiça

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Eu te julgava deusa errando muito acima
Das humanas paixões! Eu te julgava pura,
Como o orvalho do céu que os vegetais anima,
Como os raios do sol que pelo azul fulgura!

Eu te julgava altiva, independente e opima,
Serena como a lei que o direito assegura;
Eu te julgava ainda a sentença que arrima
O justo e o equilíbrio, a verdade e a lisura!

Enganei-me, porém! Na prática forense,
Nem sempre é a razão a única que vence,
Nem se vê um Juiz tão rijo quanto a morte!

Quanta vez, acolhendo astúcias de velhaco,
Tua espada aniquila o interesse do fraco,
Tua balança pende em favor do mais forte!...
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Lírica do Direito — Antologia de Versos Jurídicos — Conexão Migalhas — Organizador: Miguel Matos, Ano 2, n.2 (diversos poetas e tradutores), sem data, Millenium Editora Ltda., Campinas — SP; sobre Aguinaldo de Góes, nesta presente antologia, não constou nenhum traço biográfico e/ou bibliográfico; o organizador Miguel Matos anotou o seguinte: ‘Em 1954, Aguinaldo de Góes publicava uma reunião de versos  que incluía o soneto ‘A Justiça’  com o título Mundo Interior (poesias, Editora Guia Fiscal, 1954). Sobre a escolha do nome, Luciano Gualberto, imortal da Academia Paulista de Letras, dizia ao autor no prefácio que “o nome que escolhestes para vosso livro, onde a alma entra com extraordinário contingente, ora vestida de galharda alegria, ora enlutada de pessimismo incompreensível, é dos mais expressivos.’; em pesquisa na internet, este aprendiz de blogueiro também não logrou êxito na busca de algum dado relativo ao poeta; fica a dica para algum estudioso ou curioso, amante da poesia, auxiliar na pesquisa e comunicar ao blogue.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Luís Delfino: Os Seios

Nunca te vejo o peito arfar de enleio,
Quando de amor, ou de prazer te ebrias,
Que não ouça lá dentro as fugidias
Aves, baixo alternando algum gorjeio...

Aves são, e são duas aves, creio,
Que em ti mesma nasceram, e em ti crias,
Ao arrulhar de castas melodias,
No aroma quente e ebúrneo do teu seio;

Têm de uns astros irmãos o movimento,
Ou de dois lírios, que balouça o vento,
O giro doce, o lânguido vaivém.

Oh! quem me dera ver no próprio ninho
Se brancas são, como o mais branco arminho,
Ou se asas, como as outras pombas, têm...

(Íntimas e Aspásias. Irmãos Pongetti,
 Rio de Janeiro, 1935, p. 76)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Luís Delfino dos Santos (1834  1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis  SC, formado em Medicina, pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-Flor, Diário do Rio de Janeiro, Revista PopularA Estação, A Gazetinha, A Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A Meridional, Revista Contemporânea, Rosa Cruz e Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra  mais de mil poemas  considerada perfeita, a qual só postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.

sábado, 16 de abril de 2016

Joel Silveira *: Poema

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Porque não há trégua na quotidiana amargura,
os versos nascem todos desgraçados
e possivelmente maus.

Os caminhos estão gastos,
as mulheres se repetem
e é ridículo dar amor a alguém que amanhã estará murcho
e que jamais devolverá nossas cartas.
Para as horas, tão inúteis,
vale apenas a solução dos bêbedos.

Onde estão os perigos desta vida?
Quero-os todos para mim, aqui ou longe,
a eles o melhor estilo e o melhor entusiasmo.
E que sobre eles o amor e a alegria se debrucem
como rosas abertas num campo minado.

Julho, 1945



* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Joel Silveira (1918  2007), sergipano de Aracaju, foi jornalista, tradutor, escritor e poeta bissexto *; teve seu primeiro emprego no semanário Dom Casmurro, Rio de Janeiro, e foi repórter e secretário da revista Diretrizes, semanário de propriedade de Samuel Wainer; trabalhou ainda para os Diários Associados, Última Hora, O Estado de São Paulo, Correio da Manhã e revista Manchete; foi correspondente de guerra pelos Diários Associados, junto à FEB; sua obra: reportagens, As duas guerras da FEB (1965), Tempo de contar (1985), Você nunca será um deles (1988), O pacto maldito (1989), Segunda Guerra Mundial (1989), Presidente no jardim (1991), Conspiração na madrugada (1993), e outros títulos; ficção, Dias de luto (1985), O dia em que o leão morreu (1986), Não foi o que você pediu? (1991), Os melhores contos de Joel Silveira (1998); foi ganhador dos prêmios ‘Líbero Badaró’, ‘Prêmio Esso Especial’, ‘Prêmio Jabuti’ e ‘Golfinho de Ouro’, além de ter sido agraciado com o ‘Prêmio Machado de Assis’ (Academia Brasileira de Letras, 1998), pelo conjunto da obra.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Luís Guimarães Júnior: O Filho

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A vida dele era uma gargalhada,
A vida dela um pranto. Ela chorava
Sob o cruel trabalho que a matava,
Ele ria na tasca enfumaçada.

Jamais nos lábios dela a asa doirada
De um sorriso passou; jamais na cava
E horrenda face dele resvalava
Sequer de um pranto a pérola nevada.

Mas Deus, que deu à entranha de Maria
O redentor dos homens, Deus lhes fez
Uma esmola: — Deus fê-los pais um dia;

E, enfim, beijando ao filho os níveos pés,
Pela primeira vez ela sorria
E ele chorou pela primeira vez.

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Poetas Cariocas em 400 Anos — Frederico Trotta, 1966, Casa Editora Vecchi, Rio de Janeiro — RJ; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845 ?  1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata; escreveu e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

domingo, 10 de abril de 2016

Zalina Rolim: Pomba ferida

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Ela veio cair trêmula, exangue, 
Junto a um craveiro aberto em rubras flores;
Tinha entre as penas úmidas de sangue, 
Das pétalas do cravo as rubras cores. 
.
O moribundo olhar enevoado, 
Toda a tremer de inquietação, volvia
Para beirais fronteiros do telhado, 
De onde queixoso pipilar partia...
.
Batendo as asas, arquejante, ansiado, 
Rápido chega, exausto, alucinado, 
O companheiro que o lamento ouvira; 
.
E a pobre que a esperá-lo à dor resiste, 
Soergue, ao vê-lo, a cabecinha triste,
E, as brancas asas agitando, expira...

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Sonetos Brasileiros — Séculos XVII ao XX, Coletânea organizada por Laudelino Freire, 1929, F. Briguiet & Cia. Editores, Rio de Janeiro — RJ; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; como educadora do Jardim da Infância de São Paulo, traduziu obras dos idiomas inglês e italiano e colaborou com a Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo; são de sua autoria O Coração (1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); viveu em Itapetininga durante parte de sua vida, inicialmente acompanhando o pai, juiz de Direito que para ali fora nomeado; viveu também em São Paulo.

sábado, 9 de abril de 2016

Murilo Mendes: Poema lírico

Nossos Clássicos - Murilo Mendes
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Amiga, amiga! De braço dado atravessamos o arco-íris.
Quem nos dá esta força que nos impele acima do mar e das montanhas?
Deixamos lá embaixo os bens materiais e a violência da vida.
Amiga, amiga! Teu rosto é semelhante à lua moça,
Há nas tuas roupas um cheiro bom de mato virgem.
Tua fala saiu da caixinha de música dos meus sete anos,
E te empinas no azul com a graça dos papagaios que eu soltava.
Ó amiga! Deixamos o reino dos homens bárbaros
Que fuzilam crianças com bonecas ao colo,
E eis-nos livres, soprados pelos ventos,
Até onde não alcançam os aparelhos mecânicos.
Unidos num minuto ou num século, que importa.

Agarrados à cauda de um cometa percorremos a criação.
Teu rosto desvendou os olhos comunicantes.
Não há mistério: só nós dois sabemos nosso nome,
E as fronteiras entre amor e morte.
Eu sou o amante e tu és a amada.
Para que organizar o tempo e o espaço?

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Murilo Mendes — Poesia, Volume 111 da Coleção Nossos Clássicos, por Maria Lúcia Aragão, 1983, Livraria Agir Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Murilo Monteiro Mendes (1901 1975), mineiro de Juiz de Fora, inicialmente arquivista do Ministério da Fazenda e bancário do Banco Mercantil, exerceu variadas funções em missão cultural, tanto no país como no exterior; foi professor, poeta e prosador, iniciando-se na literatura com textos divulgados nas revistas modernistas Terra Roxa e Outras Terras, Verde e Antropofagia; seu livro de estréia, Poemas (1930), foi premiado na categoria poesia da Fundação Graça Aranha; depois vieram outros títulos: Tempo e Eternidade (em conjunto com Jorge de Lima, 1935), A Poesia em Pânico (1937), O Visionário (1941), As Metamorfoses (1944), Mundo Enigma (1945), Poesia Liberdade (1947), Janela do Caos (França, 1949), Office Humain (França, 1954), Siciliana (Itália, 1959), Poesie (Itália, 1961), Finestra del Caos (Itália, 1961), Siete Poemas Inéditos (Espanha, 1961), A Idade do Serrote (prosa, 1968) etc.; no exterior, entre outras missões culturais, trabalhou na Universidade de Roma como professor na cadeira de Cultura Brasileira.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Camilo Pessanha: Interrogação

Nossos Clássicos 75: Camilo Pessanha
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Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar, 
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo; 
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar 
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito. 
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos. 
Nem depois de acordar te procurei no leito, 
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno,
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio 
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca. 
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio 
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente... 
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Dezembro, 1889

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Camilo Pessanha — Poesia e Prosa, Volume 75 da Coleção Nossos Clássicos, por Bernardo Vidigal, 1965, Livraria Agir Editora Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura e foi professor de Filosofia; ao longo do seu período acadêmico publica poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal e em 1894 parte para Macau; foi pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório que, a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram, assim, do esquecimento.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Junqueira Freire: Arda de raiva contra mim a intriga, . . . [soneto]

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Arda de raiva contra mim a intriga,
morra de dor a inveja insaciável;
destile seu veneno detestável
a vil calúnia, pérfida inimiga.

Una-se tudo em traiçoeira liga,
contra mim só, o mundo miserável;
alimente por mim ódio entranhável
o coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;
sei desprezar um nome não preciso;
sei insultar uns cálculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso
de uns lábios de mulher gentis, ufanos;
e o mais que os homens dão, desprezo e piso.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Luis José Junqueira Freire (1832  1855), nascido em Salvador  BA, chegou a ingressar na Ordem Beneditina mas abandonou-a, pois não se considerou vocacionado para a vida monástica; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855); seguiu-se, postumamente, Contradições Poéticas (1868).

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Florbela Espanca: A minha tragédia

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Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste, noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

Livro das Mágoas  1919

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Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).