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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Arthur Rimbaud: Os pobres na igreja *

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[traduzido por Ivo Barroso]

Amontoados a um canto, entre os bancos da igreja,
Que seu fétido bafo aquece, olhos curiosos
Postos no coro oirado e no mestre que harpeja
De vinte goelas vis os cantos piedosos.

Sentindo o odor da cera igual perfume a pão,
Felizes, como cães humilhados, acuando,
Os Pobres do bom Deus, seu amo e seu patrão,
Vão risíveis améns e oremus recitando.

Às mulheres faz bem esse alisar dos bancos
Depois que Deus lhes deu seis dias de penar!
E berçam, enrolando em tristes cueiros brancos,
Espécies infantis que choram sem parar;

Comedoras de sopa, o sujo seio arqueando,
Uma prece no olhar mas nunca orando aos céus,
Observam desfilar maldosamente um bando
De meninas com seus excêntricos chapéus.

Lá fora, o frio, a fome, o marido na farra.
É bom. Uma hora mais. Depois, pobres coitadas!
 Enquanto isso, ao redor, sussurra, geme, escarra
A pobre coleção de velhas de papadas:

Os estupores lá estão e os epilépticos,
Dos quais, nalguma esquina, ao vê-los, se desvia;
E raspando o nariz em seus missais caquéticos,
Esses cegos que o cão conduz à sacristia.

Todos, babando fé de mendicante e inválido,
Recitam sua queixa infinita a Jesus
Que sonha, amarelado à luz do vitral pálido,
Longe dos magros maus e dos hostis pandus,

Do bafo da carne e das roupas infectas,
Farsa prostrada e triste em gestos repugnantes:
 E a oração desabrocha em expressões seletas,
E o misticismo assume uns tons atormentantes,

Quando no adro sombrio, o riso verde, erráticas,
As Damas da Paróquia a ostentar a sebenta
Seda banal,  Jesus!  as senhoras hepáticas
Os longos dedos põem na pia de água-benta.

1871

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Rimbaud

Les pauvres à l'église

Parqués entre des bancs de chêne, aux coins d'église
Qu'attiédit puamment leur souffle, tous leurs yeux
Vers le choeur ruisselant d'orrie et la maîtrise
Aux vingt gueules gueulant les cantiques pieux;

Comme un parfum de pain humant l'odeur de cire,
Heureux, humiliés comme des chiens battus,
Les Pauvres au bon Dieu, le patron et le sire,
Tendent leurs oremus risibles et têtus.

Aux femmes, c'est bien bon de faire des bancs lisses,
Après les six jours noirs où Dieu les fait souffrir!
Elles bercent, tordus dans d'étranges pelisses,
Des espèces d'enfants qui pleurent à mourir.

Leurs seins crasseux dehors, ces mangeuses de soupe,
Une prière aux yeux et ne priant jamais,
Regardent parader mauvaisement un groupe
De gamines avec leurs chapeaux déformés.

Dehors, le froid, la faim, l'homme en ribote:
C'est bon. Encore une heure; après, les maux sans noms!
— Cependant, alentour, geint, nasille, chuchote
Une collection de vieilles à fanons:

Ces effarés y sont et ces épileptiques
Dont on se détournait hier aux carrefours;
Et, fringalant du nez dans des missels antiques,
Ces aveugles qu'un chien introduit dans les cours.

Et tous, bavant la foi mendiante et stupide,
Récitent la complainte infinie à Jésus,
Qui rêve en haut, jauni par le vitrail livide,
Loin des maigres mauvais et des méchants pansus,

Loin des senteurs de viande et d'étoffes moisies,
Farce prostrée et sombre aux gestes repoussants;
— Et l'oraison fleurit d'expressions choisies,
Et les mysticités prennent des tons pressants,

Quand, des nefs où périt le soleil, plis de soie
Banals, sourires verts, les Dames des quartiers
Distingués, 
— ô Jésus! — les malades du foie
Font baiser leurs longs doigts jaunes aux bénitiers.

1871


Comentário de Ivo Barroso: ... nesta poesia, enviada a Demeny na carta de 10 de junho, há um ataque feroz contra o conformismo religioso, em que a sátira é acentuada pela utilização de palavras inusuais ao lado de termos eclesiásticos e populares. Mas o sarcasmo transborda dos pobres miseráveis e conformados, das mulheres do povo interioranas que freqüentam a igreja como uma espécie de estação de repouso para os seus labores domésticos, e vai atingir a fatuidade  das patronesses que vêm exibir seus vestidos de seda, bem como as crianças ricas que entram desfilando com enormes chapéus. De início, há uma oposição entre os pobres que estão embaixo, acurralados entre os bancos, como se fossem animais, e os meninos-cantores, no alto do coral reluzente de ouropéis.
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Poesia Completa — Arthur Rimbaud, Edição Bilíngüe Comemorativa do sesquicentenário, Tradução, Prefácio, Organização e Comentários de Ivo Barroso, 1995, 3ª edição definitiva, Topbooks Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Charles Baudelaire, Paul Verlaine e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém, escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, Allen Ginsberg, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, William Burroughs etc.