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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Artur Eduardo Benevides: Tanto mais perto quanto mais distante


Tanto mais perto quanto mais distante
 Eis a face do amor, em seu feitio
De ser longo e perene como um rio,
Ou vário, belo e estranho a cada instante.

Iluminado, o amor é qual navio
Aumentando a beleza do horizonte.
E mais veraz será se bem galante
Jamais sentir desânimo ou fastio.


Ao renovar-se permanece igual
À voz do vilancete ou madrigal
Há tanto ouvida e cada vez mais viva.

Luz que nos vem salvar da solidão,
Transmuda-se em saudades ou canção
E preso a ela estou, de alma cativa.
A Noite em Babylônia e Outros
  Relatos ao Eterno (1998)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 40, Seleção e Prefácio de Luciano Rosa, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2010, São Paulo SP; Artur Eduardo Benevides, cearense de Pacatuba, nascido em 1923, bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Ceará, licenciou-se em Letras e foi professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFC  Universidade Federal do Ceará; poeta, ensaísta e contista, escreveu e publicou Navio da Noite (1944), A Valsa e a Fonte (1950), Canção da Rosa dos Ventos (1969), Viola de Andarilho (1975), Canto de Amor ao Ceará (1975), As Deltas do Sono e o Navegar das Tardes em Setembro (1988, Prêmio Olavo Bilac da Academia brasileira de Letras e Prêmio Bienal Nestlé) entre outros.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mário Quintana: O Autorretrato


No retrato que me faço
 traço a traço 
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
 pouco a pouco 
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!
Apontamentos de História Sobrenatural (1976)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 40, Seleção e Prefácio de Luciano Rosa, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2010, São Paulo SP; Mário de Miranda Quintana (1906 — 1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etc, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

terça-feira, 17 de julho de 2012

João Cabral de Melo Neto: Catar Feijão


a Alexandre O'Neill

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

                              2

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.
A educação pela pedra (1966)
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Roteiro da Poesia Brasileira Anos 40, Seleção e Prefácio de Luciano Rosa, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2010, São Paulo SP; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países, foi poeta, e considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc.; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Lago Burnett: Soneto para a Poesia


Se te acumulo, irrompes imprevista,
áspera até, mas sempre feminina,
deixando esta impressão de quem domina
àquele que supõe que te conquista.

Por merecer-te, impus-me a disciplina
com que te atraio à solidão de artista
e se acaso não pode alçar-te a vista
me invades com teus olhos de assassina.

Quando te esqueço, vens a meu encalço
e teu beijo é tão íntimo e insonoro
que nem posso julgar um beijo falso.

Eu te colho no tempo, por descuido,
mas, se não vens, a lágrima que choro
bebo pensando que é teu próprio fluido.
O Amor e seus Derivados (1984)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 40, Seleção e Prefácio de Luciano Rosa, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2010, São Paulo SP; José Carlos Lago Burnett (1929 — 1995), maranhense de São Luís, foi poeta, cronista, jornalista e locutor de rádio; nos anos 40, participou do lançamento do jornal Letras da Província e das revistas O Saci e Afluente, na capital maranhense, e, no Rio de Janeiro, colaborou em diversos periódicos: Jornal do Brasil, Diário de Notícias e Última Hora; publicou Estrela do Céu Perdido (1949), O Ballet das Palavras (1951), Os Elementos do Mito (1953), 50 Poemas de Lago Burnett (1959), O Amor e seus Derivados (1984) etc.