____________________
[traduzido por Aleksandar Jovanović
*]
Peço comiseração
pelas mulheres que não deram
nem a Deus o que é divino nem a
César o que é de César,
para as que não embalaram
uma criança no berço,
para as mulheres
que diante de si próprias levam
transparências
de sonhos e devaneando ficam,
em cujas veias somente os poemas
ecoam,
para aquelas cujos corações
multiplicam
odores e de água torrentes,
cujos colos estão povoados apenas
de nuvens,
para as que fazem ninhos sobre a
terra, como pássaros,
e, feito flores aquáticas, geram
belezas.
Para todo aquele que sai da ordem
do cotidiano,
habitual,
que semi-cego erra
para fora da secular estrada.
Peço clemência, imperador querido,
para aquelas que desde a tenra
juventude
se apaixonaram pelo império da
poesia,
para aquelas que sempre tremulam,
feito bétulas,
e que o luar perseguem, feito
barcarolas,
para Iefímia,**
para Santa Tereza,
para todas as Safos,
e lovankas de Arak,
para todas as esquivas e
inacabadas,
e para mim também.
Za nerotkinje
Blagorazumevanje tražim
za žene koje nisu dale
bogu božjje ni caru carevo,
koje nisu zanihale
u kolevci dete,
za neblagoslovene,
za žene
koje pred sobom nose transparente
snova i mašte,
u čijem krvotoku samo pesme šume,
za one čija srca plode
mirisi i žubori vode,
čija su naručja puna samo oblaka,
koje kao ptice nad zemljom prave gnezda
i vodeno cveće lepote rode.
Za svakoga koji izlazi iz reda
svakodnevna,
naviknuta,
koji opčinjen luta
nekud van druma drevna.
Tražim pomilovanje, dragi care,
za one koji su od mladosti rane
privolele se carstvu poezije,
koji trepere vazdan kao breze
i mesečinom se zanose kao barka,
za Jefimije,
za svete Tereze,
za svaku Safo,
za Jovanku od Arka,
za sve zanete i nedovršene,
i za mene.
Notas:
* do atrevidíssimo aprendiz de
blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović,
no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo
transcrito:
“O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.”
** do organizador e tradutor Aleksandar
Jovanović: referência a Iefímia Menhatvchevitch (aproximadamente 1349 — 1404),
primeira poetisa em servo-croata e monja.
____________________
Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto
A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić,
edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora
Meca, São Paulo — SP; Desanka Maksimović (1898 — 1993), nascida em Rábrovo — Valjevo,
Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia),
estudou no Departamento de Literatura Mundial, História Geral, História da Arte
e Literatura Comparada na Universidade de Belgrado — Sérvia, e na Sorbonne — Paris,
foi poetisa, contadora de histórias, romancista, escritora infantil, professora
e tradutora; em 1920, ainda estudante, teve seus primeiros poemas publicados na
revista literária Misao (Pensamento); obteve reconhecimento acentuado no
ambiente literário sérvio com a publicação de seus poemas no jornal “mais respeitado
e influente de Belgrado”, o Srpski knjizevni glasnik (Boletim Literário Sérvio),
e teve vários de seus poemas publicados “em forma de livro em uma antologia de
poesia lírica iugoslava”; em 1927, a revista Misao foi responsável pela publicação
de sua primeira obra, Vrt detinjstva (O jardim da infância, poemas infantis); Desanka
Maksimović lecionou em escolas secundárias de Dubrovnik e Belgrado,
aposentou-se involuntariamente no início da segunda guerra com a invasão das
tropas nazistas e fascistas, voltou a lecionar em 1944 na mesma escola de Belgrado,
Primeira Escola Secundária Feminina, e ali, em 1953, se aposentou em definitivo;
traduziu poemas e outros textos dos idiomas russo, esloveno, búlgaro e francês,
entre os quais de Chekhov, Dostoiévski, Pushkin, Anna Akhmatova e Balzac; suas obras:
publicou mais de 50 livros — Pesme (coleção de poemas, 1924), Vrt detinjstva, pesme
(O jardim da infância, poemas, 1927), Srce lutke spavaljke i druge priče za decu
(O coração da boneca adormecida e outras histórias para crianças, 1931, 1943), Pesnik
i zavicaj (coleção de poemas, O Poeta e sua Terra Nativa, 1946), Tražim pomilovanje,
lirska diskusija s Dušanovim zakonikom (Eu busco clemência, discussão lírica
com o código de Dušan, 1964), Nemam više vremena,
pesme (Não tenho mais tempo, canções, poemas, 1973), Letopis Perunovih potomaka, pesme (Anais
dos Descendentes de Perun, poemas, 1976), Pesme iz Norveške (Canções da Noruega,
1976), Bajke za decu (Contos de fadas para crianças, 1977), Snimci iz Svajcarske
(livro de viagens, Snapshots from Suíça [Imagens da Suiça], 1978), Ničija zemlja
(Terras de ninguém, 1979), Vetrova uspavanka, pesme za decu (Canção de ninar do
vento, canções para crianças, 1983), Pamtiću sve (Eu lembrarei de tudo, coleção
de poemas, 1988) ...; a poeta foi eleita para a Academia Sérvia de Ciências e Artes,
primeiro como membro correspondente, depois como membro regular; Desanka Maksimović
teve obras reimpressas, outras novamente editadas, muitas traduzidas para o
russo e outras línguas eslavas, como também para o inglês, francês, alemão, húngaro/magiar,
norueguês, português e espanhol; recebeu várias premiações e honrarias por sua
atividade literária.