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[traduzido
por Geraldo Galvão Ferraz]
Em troca
eu, pecador pescador,
ex-vanguardista
já passado de moda,
daqueles
anos mortos e remotos
hoje
estou à entrada do milênio
anarcopitalista
furibundo,
disposto
com as duas bochechas a morder
a maçã do
mundo.
Idade mais
florescente nem Florença
conheceu.
Mais florida que Florida,
mais Paraíso
que Valparaíso.
Respiro a
plenos pulmões
no jardim
bancário deste século
que é por
fim uma grande conta corrente
em que
por sorte eu sou credor.
Graças à
inversão e à subversão
faremos mais
higiênica esta idade,
nenhuma
guerra colonial terá essse nome
tão
desacreditado e repetido,
a
democracia pulverizadora
tomará a
cargo o novo dicionário:
é belo
este 2000 igual a 1000:
os três
zeros iguais nos resguardam
de toda
insurreição desnecessária.
Los otros hombres
En cambio yo, pecador pescador,
ex vanguardero ya pasado de moda,
de aquellos años muertos y remotos
hoy estoy a la entrada del milênio,
anarcopitalista furibundo,
dispuesto a dos carrillos a morder
la manzana del mundo.
Edad más floresciente ni Florencia
conoció, más florida que Florida,
más paraíso que Valparaíso.
Yo respiro a mis anchas
en el jardín bancario de este siglo
que es por fin una gran cuenta
corriente
en que por suerte soy acreedor.
Gracias a la inversión y subversión
haremos más higiénica esta edad,
ninguna guerra colonial tendrá este
nombre
tan desacreditado y repetido,
la democracia pulverizadora
se hará cargo del nuevo diccionario;
es bello este 2000 igual a 1000;
los tres ceros iguales non
resguardan
de toda insurrección innecesaria.
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Defeitos Escolhidos & 2000 — Pablo
Neruda, Tradução de Geraldo Galvão Ferraz, edição bilíngue, volume 451, Coleção
L&PM Pocket, reimpressão em 2011, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido
e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 — 1973), nascido Ricardo Eliécer
Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade
do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a contribuir com alguns textos
para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado
um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou
Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa
del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general
(1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958),
Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las
manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida
(1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; foi laureado com
o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio
Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão,
Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.



