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terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Auta de Souza: Natal

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É meia noite... O sino alvissareiro
Lá da Igrejinha branca pendurado,
Como num sonho místico e fagueiro,
Vem relembrar o tempo do passado.

Ó velho sino, ó bronze abençoado,
Na alegria e na mágoa companheiro,
Tu me recordas o sorrir primeiro
De menino Jesus Imaculado.

E enquanto escuto a tua voz dolente
Meu ser que geme dolorosamente
Da desventura aos gélidos açoites...

Bebe em teus sons tanta alegria, tanta!
Sino, que lembras uma noite santa,
Noite bendita em meio às outras noites!

[revista A Mensageira, de 30 de Junho de 1898,
Ano I, nº 18, São Paulo — SP]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Auta de Souza, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro expõe o que se segue: a poetisa ficou órfã de mãe, aos três anos de idade, e de pai, no ano seguinte, ambos vitimados pela tuberculose; aos doze anos, morreu seu irmão caçula, queimado por labaredas de um candeeiro derrubado acidentalmente; aos quatorze, ela própria recebeu o diagnóstico de tuberculose e teve que interromper os estudos; em 1895 conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público, se apaixonou, namorou mas, por pressão de seus irmãos e em razão de sua doença, acabou se separando e, depois, João Leopoldo veio a morrer também de tuberculose; todos estes acontecimentos acabaram sendo demarcadores de sua obra: religiosidade, orfandade, morte do irmão, desilusão amorosa, tuberculose.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Auta Henriqueta de Souza (1876 1901), potiguar de Macaíba, negra, foi poetisa da segunda geração romântica byroniana e com influência simbolista; na infância, criada pela avó materna e alfabetizada por professores particulares, foi matriculada, aos onze anos, no Colégio São Vicente de Paula dirigido por freiras vicentinas francesas, época em que aprendeu francês, Inglês, Literatura inclusive literatura religiosa , Música, Desenho, e leu, no original, obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon; aos quatorze anos, por ter contraído tuberculose, teve quer interromper os estudos no colégio religioso e prosseguiu seu formação intelectual de maneira autodidata; começou a escrever seus versos aos dezesseis anos, apesar da doença; frequentou o Clube do Biscoito, associação de amigos, no qual se promovia reuniões dançantes com recitação de poemas de vários autores; aos dezoito anos colaborou com a revista Oásis, aos vinte passou a escreveu para a República, jornal de maior circulação, o que a tornou visível para a imprensa de outras regiões, teve também poemas publicados em O País, do Rio de Janeiro e escreveu com assiduidade para o jornal A Tribuna, de Natal, tendo sido publicada também  n’A Gazetinha, de Recife, no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte; a poetisa encerrou seu primeiro livro de manuscritos, com o título Dhálias, mas a publicação se deu de fato em 1900, e com o título mudado para Horto, cuja edição recebeu o prefácio de Olavo Bilac e acabou se tornando sua única obra deixada em vida. Entre 1899 e 1900, Auta de Souza também publicou poemas com os pseudônimos Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum no período; além de versos escritos em português, também os escreveu em francês; consta de sua biografia ter sido considerada uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas do país, Luís da Câmara Cascudo a chamou de “a maior poetisa mística brasileira.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Auta de Souza: No Jardim das Oliveiras

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 “Minh’alma é triste até à morte…” Doce
Jesus falou… E o Nazareno Santo
Chorava, como se su’alma fosse
Um mar imenso de amargura e pranto.

Depois, silencioso, ele afastou-se
E foi rezar no mais sombrio canto.
Seu grande olhar formoso iluminou-se
Fitando o etéreo e estrelejado manto.

 “Pai, piedade…” E a sua vez plangente
Tremia, enquanto pelas trevas mudas
Baixava manso o triste olhar dolente.

Pobre Jesus! Como n’um sonho via:
Em cada sombra a traição de Judas,
Em cada estrela os olhos de Maria!

[Macaíba — 7 de Abril de 1898.]
[Horto — 1900]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Auta de Souza, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro expõe o que se segue: a poetisa ficou órfã de mãe, aos três anos de idade, e de pai, no ano seguinte, ambos vitimados pela tuberculose; aos doze anos, morreu seu irmão caçula, queimado por labaredas de um candeeiro derrubado acidentalmente; aos quatorze, ela própria recebeu o diagnóstico de tuberculose e teve que interromper os estudos; em 1895 conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público, se apaixonou, namorou mas, por pressão de seus irmãos e em razão de sua doença, acabou se separando e, depois, João Leopoldo veio a morrer também de tuberculose; todos estes acontecimentos acabaram sendo demarcadores de sua obra: religiosidade, orfandade, morte do irmão, desilusão amorosa, tuberculose.
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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Auta Henriqueta de Souza (1876 1901), potiguar de Macaíba, negra, foi poetisa da segunda geração romântica byroniana e com influência simbolista; na infância, criada pela avó materna e alfabetizada por professores particulares, foi matriculada, aos onze anos, no Colégio São Vicente de Paula dirigido por freiras vicentinas francesas, época em que aprendeu Francês, Inglês, Literatura inclusive literatura religiosa , Música, Desenho, e leu, no original, obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon; aos quatorze anos, por ter contraído tuberculose, teve que interromper os estudos no colégio religioso e prosseguiu seu formação intelectual de maneira autodidata; começou a escrever seus versos aos dezesseis anos, apesar da doença; frequentou o Clube do Biscoito, associação de amigos, no qual se promovia reuniões dançantes com recitação de poemas de vários autores; aos dezoito anos colaborou com a revista Oásis, aos vinte anos passou a escreveu para a República, jornal de maior circulação, o que a tornou visível para a imprensa de outras regiões, teve também poemas publicados em O País, do Rio de Janeiro, e escreveu com assiduidade para o jornal A Tribuna, de Natal, tendo sido publicada também  n’A Gazetinha, de Recife, no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte; a poetisa encerrou seu primeiro livro de manuscritos, com o título Dhálias, mas a publicação se deu de fato em 1900, e com o título mudado para Horto, cuja edição recebeu o prefácio de Olavo Bilac e acabou se tornando sua única obra deixada em vida. Entre 1899 e 1900, Auta de Souza também publicou poemas com os pseudônimos Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum no período; além de versos escritos em português, também os escreveu em francês; consta de sua biografia ter sido considerada uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas do país, Luís da Câmara Cascudo a chamou de “a maior poetisa mística brasileira.

sábado, 4 de novembro de 2023

Auta de Souza: Caminho do Sertão

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(A meu irmão João Cancio)

Tão longe a casa! Nem sequer alcanço
Vê-la através da mata. Nos caminhos
A sombra desce... E sem achar descanso
Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos.

É noite já. Como em feliz remanso
Dormem as aves nos pequenos ninhos...
Vamos mais devagar... de manso e manso,
Para não assustar os passarinhos.

Brilham estrelas. Todo o céu parece
Rezar de joelhos a chorosa prece
Que ensina a Crença ao desespero e à dor...

Ao longe, a Lua vem dourando a treva;
Turíbulo imenso, para Deus eleva
O incenso agreste da Jurema em flor.

[revista A Mensageira, de 15 de Junho de 1898,
Ano I, nº 17, São Paulo — SP]
[Horto — 1900]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Auta de Souza, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro expõe o que se segue: a poetisa ficou órfã de mãe, aos três anos de idade, e de pai, no ano seguinte, ambos vitimados pela tuberculose; aos doze anos, morreu seu irmão caçula, queimado por labaredas de um candeeiro derrubado acidentalmente; aos quatorze, ela própria recebeu o diagnóstico de tuberculose e teve que interromper os estudos; em 1895 conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público, se apaixonou, namorou mas, por pressão de seus irmãos e em razão de sua doença, acabou se separando e, depois, João Leopoldo veio a morrer também de tuberculose; todos estes acontecimentos acabaram sendo demarcadores de sua obra: religiosidade, orfandade, morte do irmão, desilusão amorosa, tuberculose; enfim, a poeta se foi em 07 de fevereiro de 1901, em decorrência da tuberculose; tinha 24 anos de idade.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Auta Henriqueta de Souza (1876 1901), potiguar de Macaíba, negra, foi poetisa da segunda geração romântica byroniana e com influência simbolista; na infância, criada pela avó materna e alfabetizada por professores particulares, foi matriculada, aos onze anos, no Colégio São Vicente de Paula dirigido por freiras vicentinas francesas, época em que aprendeu francês, Inglês, Literatura inclusive literatura religiosa , Música, Desenho, e leu, no original, obras de Victor Hugo, Chateaubriand, Fénelon e Lamartine; aos quatorze anos, por ter contraído tuberculose, teve quer interromper os estudos no colégio religioso e prosseguiu seu formação intelectual de maneira autodidata; começou a escrever seus versos aos dezesseis anos, apesar da doença; frequentou o Clube do Biscoito, associação de amigos na qual se promovia reuniões dançantes com recitação de poemas de vários autores; aos dezoito anos colaborou com a revista Oásis, aos vinte anos passou a escreveu para A República, jornal de maior circulação, o que a tornou visível para a imprensa de outras regiões, teve também poemas publicados em O País, do Rio de Janeiro e escreveu com assiduidade para o jornal A Tribuna, de Natal, tendo sido publicada também  n’A Gazetinha, de Recife, no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte; a poetisa encerrou seu primeiro livro de manuscritos, com o título Dhálias, mas a publicação se deu de fato em 1900, e com o título mudado para Horto, cuja edição recebeu o prefácio de Olavo Bilac e acabou se tornando sua única obra deixada em vida. Entre 1899 e 1900, Auta de Souza também publicou poemas com os pseudônimos Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum no período; além de versos escritos em português, também os escreveu em francês; consta de sua biografia ter sido considerada uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas do país, Luís da Câmara Cascudo a chamou de “a maior poetisa mística brasileira".