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Ontem de noite...
— Na
noite negra o inverno branco.
Negro e branco d’água forte —
Ontem de noite,
Ardia ainda o meu Círio branco;
À meia-noite,
Veio e soprou-o a feia Morte.
À meia-noite,
Bateu à porta bem de mansinho,
Como um mendigo desgraçadinho
Que pela esmola,
(Ai! feia Morte,
por que apagaste os Olhos Noivos?
Ontem de noite,
O Padre veio d’hissope e estola...
— Eu
aspergi-A, depois cobri-A de dor e goivos.
À meia noite,
(Doze corujas piando, as carnes arrepiando...)
Um cão negro veio uivar à porta
Da minha Noiva morta;
Ontem de noite,
—
Noite de agoiros roxos corvejando —
No meu peito (inda as tenho cravadas!)
Sete assassinos cravaram Sete Espadas!
(Palavras que o Vento leva..., págs. 151-153.)
Panorama do Movimento Simbolista
Brasileiro — Volume 1, (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio,
Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 2ª edição, 1973, Ministério
de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Adalberto
Guerra-Duval (1872 — 1947), gaúcho de Porto Alegre, graduado em Direito por São
Paulo, seguiu carreira diplomática, foi poeta e secretário do semanário Rua do Ouvidor,
de duração efêmera; Guerra-Duval não só é considerado “o introdutor do verso livre
na poesia brasileira, mas também um virtuoso da métrica, que usou versos longos
e curtos segundo técnicas diversas e com igual perícia”; como diplomata, serviu
em capitais da Europa (Roma, Londres, Haia, Berlim, Lisboa) e da América Latina
(Assunção e Buenos Aires), aposentando-se como embaixador em Roma; escreveu e publicou
Palavras que o Vento Leva... (Oficinas de Ad. Mertens, Bruxelas, 1900), além de
textos dispersos, quase sempre poesias, em gazetas e revistas da época; restaram
inéditos, um volume de versos, e dois de prosa: Conceito Moral do Esporte e Cifra,
coletânea de recordações de sua vida literária e diplomática; faleceu em Petrópolis.







