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domingo, 20 de julho de 2025

Lima Barreto: O momento

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          Sempre fui contra a república. Tinha sete anos e vinha do colégio primário, do grande colégio de que me lembro sempre com ternura e cheio de saudades da minha boa professora, dona Teresa Pimentel do Amaral, quando me disseram que se havia proclamado a república.
          Não tinha naqueles tempos outras cogitações que não fossem a de glória, a da grande, imensa glória, feita por mim, sem favor, nem misericórdia, e vi que a tal da república, que tinha sido feita, espalhava pelas ruas soldados embalados, de carabinas em funeral.
          Nunca mais a estimei, nuca mais a quis.
          Sem ser monarquista, não amo a república.
          João Ribeiro disse-me, certa vez, que a república era a cultura parda; pois sou como o senhor João Ribeiro; nunca houve anos no Brasil em que os pardos, os malditos do seu Haeckel, fossem mais postos à margem.
          O nosso regímen atual e da mais brutal plutocracia, e da mais intensa adulação aos elementos estranhos, aos capitalistas internacionais, aos agentes de negócios, aos charlatães tintos com uma sabedoria de pacotilha.
          Não há entre os ricos, entre os poderosos, nenhuma generosidade; não há piedade, não há vontade, por parte deles, desejo de atenuar a sua felicidade, que é sempre uma injustiça, com a proteção aos outros, com o arrimo aos necessitados, com o fervor religioso de fazer bem.
          Têm medo de ser generosos, tem medo de dar uma esmola, tem medo de ser bons.
          Se a dissolução de costumes que todos anunciam como existente, há, antes dela houve a dissolução do sentimento, do inacessível, sentimento de solidariedade entre os homens.
          Eu, há mais de vinte anos, via a implantação do regímen. Vi-a com desgosto e creio que tive razão.
        
Correio da Noite, Rio [de Janeiro], 3-3-[19]15

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Lima Barreto: Os pintores

 
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          A coisa pior que há aqui, de charlatães artísticos, são os pintores.
          Eles não têm nenhum ideal, nenhuma concepção artística, nada que dizer nas telas; são uns simples copistas de pouco ou algum talento, que forçam o Estado ou o governo a comprar-lhes os quadros por preços fabulosos.
          Todos eles são ricos, vivem nas salas, viajam pela Europa e... se queixam.
          Que é que o governo faz pela literatura? Nada.
          Eu não quero mesmo que ele faça qualquer coisa, porque, se ele fizer alguma coisa, dá na droga do Hélio Lobo, o tal de secretário da presidência, ou no filho do Leão Veloso.
          O governo sempre protegeu os imbecis e sempre acoroçoou as mediocridades.
          A condessa de Sousa Dantas deve saber perfeitamente disto.
          Digo isto aqui por causa da exposição do senhor Antônio Parreiras.
          Este senhor é o maior cabotino da pintura, que o Brasil conhece.
          Paisagista de algum valor, mas, mascate, como o diabo, o senhor Parreiras deu um dia para pintar quadros históricos, nus e outras coisas por fotografia.
          Os nus do senhor Parreiras parecem ter por modelo os corpos de mulheres do Paulo Gardênia, ou, melhor, Benedito Costa, o romancista de Coelho Neto.
          Nunca se viu uma coisa tão errada, tão estúpida, e tão sem senso.
          As pernas se encaixam... Oh! Meu Deus!
          Os quadros históricos do senhor Dair são os maiores conto do vigário que se possam imaginar. Que perspectiva! Que grupamento!
          O senhor Parreiras pinta para impingir quadros ao governo, pinta para ganhar dinheiro, o que não seria defeito, se o fizera com consciência.
          O meu vendeiro, o “Galego”, como vocês chamam, tem mais moralidade nos seus negócios, que o senhor Parreiras nas suas telas históricas.
          Todo nele é cálculo, e “avanço”.
          Pare!

Correio da Noite, Rio [de Janeiro], 5-3-[19]15

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

terça-feira, 4 de março de 2025

Lima Barreto: Mais uma vez


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          Este recente crime da Rua da Lapa traz de novo à tona essa questão do adultério da mulher e seu assassinato pelo marido.
          Na nossa hipócrita sociedade, parece estabelecido como direito, e mesmo dever do marido, o perpretá-lo1.
          Não se dá isto nesta ou naquela camada, mas de alto a baixo.
          Eu me lembro ainda hoje que, numa tarde de vadiação, há muitos anos, fui parar com o meu amigo, já falecido, Ari Toom, no necrotério, no Largo do Moura por aquela época.
          Uma rapariga nós sabíamos isso pelos jornais , creio que espanhola, de nome Combra, havia sido assassinada pelo amante e, suspeitava-se, ao mesmo tempo maquereau2 dela, numa casa da Rua de Sant’Ana.
          O crime teve a repercussão que os jornais lhe deram, e os arredores do necrotério estavam povoados da população daquelas paragens e das adjacências do Beco da Música e da Rua da Misericórdia, que o Rio de Janeiro bem conhece.
          No interior da morgue3, era a frequência algo diferente sem deixar de ser um pouco semelhante à do exterior, e, talvez mesmo, em substância igual, mas muito bem vestida. Isto enquanto às mulheres bem entendido!
          Ari ficou mais tempo a contemplar os cadáveres. Eu saí logo. Lembro-me só do da mulher que estava vestida com um corpete e tinha só a saia de baixo. Não garanto que estivesse calçada com as chinelas, mas me parece hoje que estava. Pouco sangue e um furo bem circular no lado esquerdo, com bordas escuras, na altura do coração.
          Escrevi cadáveres pois ­o amante-cáften4 se havia suicidado após matar a Combra — o que me havia esquecido de dizer.
          Como ia contando, vim para o lado de fora e pus-me a ouvir os comentários daquelas pobres pierreuses5 de todas as cores sobre o fato.
          Não havia uma que tivesse compaixão da sua colega da aristocrática classe. Todas elas tinham objurgatórias6 terríveis, condenando-a, julgando o seu assassínio coisa bem feita; e, se fosse homens, diziam, fariam o mesmo tudo isso entremeado de palavras do calão obsceno7 próprias para injuriar uma mulher. Admirei-me e continuei a ouvir o que diziam com mais atenção. Sabem por que eram assim tão severas com a morta?
          Porque a supunham casada com o matador, e ser adúltera.
          Documentos tão fortes como este não tenho sobre as outras camadas da sociedade; mas, quando fui jurado e tive por colegas os médicos da nossa terra, funcionários e doutos de mais de três contos e seiscentos mil réis de renda anual, como manda a lei sejam os juízes de fato escolhidos, verifiquei que todos pensavam da mesma forma que aquelas maltrapilhas rôdeuses8 do Largo do Moura.
          Mesmo eu já contei alhures9 servi num conselho de sentença que tinha de julgar um uxoricida, e o absolvi. Fui fraco, pois a minha opinião, se não era fazer-lhe comer alguns anos de cadeia, era manifestar que havia, e no meu caso completamente incapaz de qualquer conquista, um homem que lhe desaprovava a barbaridade do ato. Cedi a rogos e, até, alguns partidos dos meus colegas de sala secreta.
          No caso atual, nesse caso da Rua da Lapa, vê-se bem como os defensores do criminoso querem explorar essa estúpida opinião de nosso povo que desculpa o uxoricídio quando há adultério, e parece até impor ao marido ultrajado (sic) o dever de matar a sua ex-cara-metade.
          Que um outro qualquer advogado explorasse essa abusão bárbara da nossa gente, vá lá; mas que o senhor Evaristo de Morais, cuja ilustração, cujo talento e cujo esforço na vida me causam tanta admiração, endosse10, mesmo profissionalmente, semelhante doutrina é que me entristece.
          O liberal, o socialista Evaristo, quase anarquista, está me parecendo uma dessas engraçadas feministas do Brasil, gênero professora Daltro, que querem a emancipação da mulher unicamente para exercer sinecuras11 do governo e rendosos cargos políticos; mas que, quando se trata desse absurdo costume nosso de perdoar os maridos assassinos de suas mulheres, por isto ou aquilo, nada dizem e ficam na moita12.
          A meu ver, não há degradação maior para a mulher do que semelhante opinião quase geral; nada a degrada mais do que isso, penso eu. Entretanto...
          Às vezes mesmo, o adultério é o que se vê, e o que não se vê são outros interesses e despeitos13 que só uma análise mais sutil podia revelar nesses lagos.
          No crime da Rua da Lapa, o criminoso, o marido, o interessado no caso, portanto, não alegou quando depôs sozinho que a sua mulher fosse adúltera; entretanto, a defesa, lemos nos jornais, está procurando “justificar” que ela o era.
          O crime em si não me interessa, se não no que toca à minha piedade por ambos; mas se tivesse de escrever um romance, e não é o caso, explicaria, ainda me louvando14 nos jornais, a coisa de modo talvez satisfatório.
          Não quero, porém, escrever romances e estou disposto a não escrevê-los mais, se algum dia escrevi um, de acordo com os cânones15 da nossa crítica; por isso guardo as minhas observações e ilusões para o meu gasto e para o julgamento da nossa atroz sociedade burguesa, cujo espírito, cujos imperativos da nossa ação na vida animaram o que parece absurdo, mas de que estou absolutamente certo o protagonista do lamentável drama da Rua da Lapa.
          Afastei-me do meu objetivo, que era mostrar a grosseria, a barbaridade desse nosso costume de achar justo que o marido mate a mulher adúltera ou que a crê tal.
          Toda a campanha para mostrar a iniquidade16 de semelhante julgamento não será perdida; e não deixo passar vaza17 que não diga algumas toscas palavras, condenando-o.
          Se a coisa continuar assim, em breve, de lei costumeira18 passará a lei escrita, e retrogradamos19 às usanças selvagens que queimavam e enterrava vivas as adúlteras.
          Convém, entretanto, lembrar que nas velhas legislações havia casos de adultério legal. Creio que Sólon e Licurgo os admitia; creio mesmo ambos. Não tenho aqui o meu Plutarco. Seja, porém, como for, não digo que todos os adultérios são perdoáveis. Pior do que o adultério é o assassinato; e nós queremos criar uma espécie dele baseado na lei.

[revista] A. B. C., 1920


Notas da edição:
1. Perpetrá-lo: praticá-lo
2. Maquereau (fr.): cafetão
3. Morgue: necrotério
4. Amante-cáften: amante e, ao mesmo tempo, explorador de mulheres
5. Pierreuses (fr.): prostitutas de rua
6. Objurgatórias: censuras
7. Calão obsceno: xingamentos
8. Rôdeuses (fr.): prostitutas
9. Alhures: em outro lugar
10. Endosse: aprove
11. Sinecuras: emprego de favor, bem pago e sem obrigações
12. Ficam na moita: ficam escondidas, ocultas
13. Despeitos: ressentimentos, invejas
14. Louvando: com base em
15. Cânones: conjunto de regras
16. Iniquidade: injustiça
17. Vaza: oportunidade
18. Lei costumeira: legislação baseada nos usos e costumes
19. Retrogradamos: voltamos atrás
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Lima Barreto: A Amazônia

 
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          Nessa nossa vida de expediente, vida que nós levamos desde a descoberta, os Estados do extremo Norte, Pará e Amazonas, contribuíram nos últimos decênios com a sua borracha.
          Já tive ocasião de notar que nunca a nossa vida econômica se baseou na exploração e trabalho de um produto indispensável à vida e que, procurados como país de especiarias, continuamos a ser país de especiarias.
          Numa malograda publicação semanal que fiz há dois ou três anos, explanei, de acordo com o gênero da publicação, essa simples observação e lhe dei o desenvolvimento compatível pela boca do doutor Bogoloff.
          José Veríssimo, com aquela honestidade intelectual que o caracteriza, com aquela penetração que põe nos seus julgamentos, vem mostrando, em uma série de artigos, no Jornal do Commercio, o erro em que sempre andaram os da Amazônia, procurando somente na seringa a riqueza e a fortuna.
          Eu não o posso seguir nos detalhes, mas louvo a sua orientação, garantida pela sua sagacidade e independência de espírito.
          Outro publicista que, desde muito, se vem batendo pelos interesses daquela curiosa região brasileira, é o capitão Félix Amélio, ou melhor, Félix Amélio, tout court.
          Félix tem o espírito da velha Escola Militar. É patriota, crê na pátria, crê no Brasil e se esforça para solver os seus problemas de modo que continuemos sempre unos e associados.
          O seu pensamento constante é evitar que se realize a profecia de Mitre, isto é, que nos separemos, que nos dividamos em pequenas pátrias, que ficarão mais fracas ainda que as próprias repúblicas espanholas.
          Tem posto, Félix, este pensamento em toda a sua atividade de jornalista; e aqui, no centro da república, procura encaminhar a opinião para os interesses da região em que nasceu.
          É justo que ele o faça com o seu ardor peculiar, pois obedece ao postulado da sua atividade mental: é preciso que o todo se interesse pelas partes, para que as partes não se separem do todo.
          A sua campanha contra a blague da valorização da borracha ficou famosa e agora acaba de firmar nos admiráveis artigos, no O País, mostrando as necessidades vitais da região do Pará ribeirinha ao Tapajós a Tapajônia.
          Félix é assim: estuda, pensa, escreve e revela ao Brasil, que ele quer sempre unido, as necessidades da região que conhece, para que o Brasil auxilie o que é e deve continuar a ser Brasil.

Correio da Noite, Rio [de Janeiro], 8-1-[19]15.

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

domingo, 26 de janeiro de 2025

Lima Barreto: O cemitério

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          Pelas ruas de túmulos, fomos calados. Eu olhava vagamente aquela multidão de sepulturas, que trepavam, tocavam-se, lutavam por espaço, na estreiteza da vaga e nas encostas das colinas aos lados. Algumas pareciam se olhar com afeto, roçando-se amigavelmente; em outras, transparecia a repugnância de estarem juntas. Havia solicitações incompreensíveis e também repulsões e antipatias; havia túmulos arrogantes, imponentes, vaidosos e pobres e humildes; e, em todos, ressumava o esforço extraordinário para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas.
          Amontoavam-se esculturas de mármore, vasos, cruzes e inscrições; iam além; erguiam pirâmides de pedra tosca, faziam caramanchéis extravagantes, imaginavam complicações de matos e plantas coisas brancas e delirantes, de um mau gosto que irritava. As inscrições exuberavam; longas, cheias de nomes, sobrenomes e datas, não nos traziam à lembrança nem um nome ilustre sequer; em vão procurei ler nelas celebridades, notabilidades mortas; não as encontrei. E de tal modo a nossa sociedade nos marca um tão profundo ponto, que até ali, naquele campo de mortos, mudo laboratório de decomposição, tive uma imagem dela, feita inconscientemente de um propósito, firmemente desenhada por aquele acesso de túmulos pobres e ricos, grotescos e nobres, de mármore e pedra, cobrindo vulgaridades iguais umas às outras por força estranha às suas vontades, a lutar...
          Fomos indo. A carreta, empunhada pelas mãos profissionais dos empregados, ia dobrando as alamedas, tomando ruas, até que chegou à boca do soturno buraco, por onde se via fugir, para sempre do nosso olhar, a humildade e a tristeza do contínuo da Secretaria dos Cultos.
          Antes que lá chegássemos, porém, detive-me um pouco num túmulo de límpidos mármores, ajeitados em capela gótica, com anjos e cruzes que a rematavam pretensiosamente.
          Nos cantos da lápide, vasos com flores de biscuit e, debaixo de um vidro, à nívea altura da base da capelinha, em meio corpo, o retrato da morta que o túmulo engolira. Como se estivesse na rua do Ouvidor, não pude suster um pensamento mau e quase exclamei:
           Bela mulher!
          Estive a ver a fotografia e logo em seguida me veio à mente que aqueles olhos, que aquela boca provocadora de beijos, que aqueles seios túmidos, tentadores de longos contatos carnais, estariam àquela hora reduzidos a uma pasta fedorenta, debaixo de uma porção de terra embebida de gordura.
          Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo e fugaz.
          Abalei-me! Eu que dizia a todo o mundo que amava a vida, eu que afirmava a minha admiração pelas coisas da sociedade eu meditar como um cientista profeta hebraico! Era estranho! Remanescente de noções que se me infiltraram e cuja entrada em mim mesmo eu não percebera! Quem pode fugir a elas?
          Continuando a andar, adivinhei as mãos da mulher, diáfanas e de dedos longos; compus o seu busto ereto e cheio, a cintura, os quadris, o pescoço, esguio e modelado, as espáduas brancas, o rosto sereno e iluminado por um par de olhos indefinidos de tristeza e desejos...
          Já não era mais o retrato da mulher do túmulo; era de uma, viva, que me falava.
          Com que surpresa, verifiquei isso.
          Pois eu, eu que vivia desde os dezesseis anos, despreocupadamente, passando pelos meus olhos, na rua do Ouvidor, todos os figurinos dos jornais de modas, eu me impressionar por aquela menina do cemitério! Era curioso.
          E, por mais que procurasse explicar, não pude.

(Histórias e sonhos — 1920)

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: A autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros ...

sábado, 28 de dezembro de 2024

Lima Barreto: Os grandes tapeceiros

 
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          Em todas as épocas da história, e mesmo da pré-história, tem havido pessoas soberanas e principais que se interessam pelos tapetes.
          Em geral, essa gente gosta mais de capachos, mas não despreza os tapetes.
          Nos baixos relevos assírios, nós vemos o poderoso Senaquerib, não só furando os olhos dos prisioneiros de suas guerras, mas também sacudindo o pó dos tapetes dos seus palácios.
          O terrível Sesóstris, o famoso Ramsés II, conforme hieróglifos de Luxor, ocupava o seu mando com duas coisas principais: examinar os seus carros de guerra e inspecionar os seus depósitos de tapetes.
          Salomão, o voluptuoso Salomão, não podia deixar de apreciar tapetes, tanto assim que no Cântico dos Cânticos, 69, há esta passagem que denuncia bem esse seu gosto:
          “69 E eu farei com as minhas próprias mãos macios tapetes onde os teus meigos pés de gazela irão pisar.”
          Muitos soberanos e príncipes modernos têm seguido o exemplo dos amigos. Gongunhana, quando os portugueses o internaram em Cabo Verde ou em São Tomé, não reclamava nunca comida ou bebida; queria tapetes.
          A Rainha Ranavalo na sua detenção na Argélia, depois de despojada do seu trono de Madagascar, pediu e obteve do governo francês que ficasse a seu lado o seu antigo ministro dos Tapetes, cujo nome não me recordo agora.
          Quando menino conheci, aqui, um príncipe que, embora não sendo nosso, se pode assim considerá-lo pois viveu entre nós e batalhou ao nosso lado. Quero falar do Príncipe Obá II, d’África. Pois bem: o Príncipe Obá era um grande apreciador de tapete. Não podendo comprá-los, fabricava-os com sacos de aniagem que, naqueles tempos, os vendeiros davam de graça e hoje custam os olhos da cara.
          O formidável Cunhambebe*, aquele famoso chefe de coligação dos tamoios que se gabava de lhe correr no corpo o sangue de mais de mil inimigos, esse Cunhambebe deliciava-se com tapetes.
          Os deles eram de peles humanas de incautos cidadãos que esfolava, não com unguentos, mas com facas de fabricação francesa, pois era aliado de piratas normandos.
          Não é, portanto, de admirar que o senhor Epitácio Pessoa, nosso presidente da República e transitoriamente nosso imperador, tenha, ao visitar a Câmara dos Deputados, a fim de preparar o Monroe e ensaiar o parlamento para recepção do rei Alberto; não é de admirar, dizia, ter Sua Excelência se preocupado com tapetes.

[revista] Careta, Rio [de Janeiro], 25.9.1920
(Coisas do Reino do Jambon 1956)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Na edição deste Lima Barreto: obra reunida volume 3, está grafado "Cunhabembe" [talvez por erro de digitação e/ou falha de revisão]; Cunhambebe ( ? – c. 1555) foi um chefe indígena tupinambá brasileiro.
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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), História e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948), Coisas do Reino do Jambon (coletânea de crônicas, publicação póstuma, 1956) e outros ...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Lima Barreto: Uma vagabunda

 
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          É um caso bem curioso o que te vou contar e que me parece digno de registro. Para muitos parecerá fantástico; mas, como tu sabes, já houve quem dissesse que a realidade é mais fantástica do que imaginamos.
           Dostoiévski?
           Sim; creio que foi ele, embora não afiance que fosse com estas palavras. Sabes bem como são as palavras dele?
           Não; mas estou certo que não lhe trais o pensamento… Enfim! Isso não vem ao caso. Conta lá a história.
           Conto-a a ti com todos os detalhes, para que possas tirar dela todo o profundo sentido que tem. Se tratasse de outro, havia de abreviá-la, transformá-la-ia em anedota; mas, tratando-se de ti, não há nada que seja prolixo para a compreensão de semelhante fato.
          Eles estavam no Campo de Sant’Ana e aquelas cutias sempre ariscas e aquelas saracuras de galinheiro, apesar de tudo, não deixavam de dar um toque selvagem naquele jardim educado.
          O narrador continuou:
           Foi isto há alguns anos passados. Bebia eu muito nesse tempo, muito mesmo porque tinha por divisa ou tudo ou nada. Além disso adotam uma frase não sei de que autor, como complemento da divisa.
           Qual é? perguntou o outro.
           “O burguês bebe champanha; o herói bebe aguardente.”
           Essas duas sentenças cobiçadas deviam dar resultados surpreendentes.
           Deram, como tu sabes, mas eu te quero contar uma que tu não sabes.
           Duvido.
           Pois vais ver.
           Não acredito, pois sei todas as tuas proezas desse tempo.
           Essa proeza, porém, não é minha; é de outro ou de outra.
           Que outra?
           Conheceste a Alzira?
           Sim! Aquela vagabunda que ia à casa do “Guaco”, na rua do Carmo.
           É isso mesmo: aquela vagabunda que ia à casa do “Guaco”, na rua do Carmo. É isso.
           Homem! Pelo modo por que falas, parece que tiveste paixão por ela…
           Não tive paixão, mas sou-lhe grato.
           Por quê?
           Lembras-te bem que ela bebia conosco calistos de “Guaco”.
           Lembro-me bem.
           E que ela tivera um passado de lustre, de opulência, no alto mundanismo?
           Perfeitamente. Contudo, Frederico, eu penso que ela exagerava um pouco.
           É verdade. Aquele caso que ela nos contou de ter perdido uma noite, não sei em que jogo, em São Paulo, oitenta contos, não me parece verossímil; entretanto…
           Não é só isso. Todas as sumidades da República haviam sido seus amantes. Ora, isso não é possível, porquanto muitas delas, quando começaram, eram pobretões que não podiam aspirar a semelhante “objeto de luxo”.
           Tens razão; mas…
           Uma coisa: quando me recordo da Alzira, só me vem à mente o seu famoso chapéu de chuva de alpaca, com que, às vezes, quando embriagada, desancava um qualquer e ia parar no xadrez.
           Eu, quando me vem ela à lembrança, com a sua fisionomia triste, fanada, é com o seu orgulho de ter tido muito dinheiro, por meios tão baixos…
           A observação é boa. Ela não parecia ter dor em recordar os belos dias passados; parecia antes ter prazer… Afinal, que tem ela com a tua história?
           Estavas fora, lá, para Alagoas. Continuei a frequentar o “Guaco”, onde ia todas as tardes encontrar os companheiros. Ocasionalmente topava com Alzira e pagava-lhe um cálice. As nossas relações eram as mais amistosas possíveis. Ela me contava as histórias de aventuras passadas, quer as de jogo, quer as de amor; e eu as ouvia para aprender a vida com aquela mulher batida pela sorte, pelo infortúnio e pela maldade dos homens. Gostava até da emoção que ela sentia, narrando o seu triunfo, quando, trepada no alto dos carros de Carnaval, era aclamada pelas famílias, nas ruas apinhadas por onde passava. Pelo modo que ela me contava esses episódios, julguei que Alzira nesses dias se supunha resgatada. Talvez tivesse razão…
           Coitada! fez o outro.
           Bem. Como te contava, ia sempre ao “Guaco” e, em certo dia do pagamento, lá fui. Tinha os vencimentos quase intactos na algibeira. Encontrei-a, sentei-me e pedi cerveja. Ela não quis, ficou no seu cálice habitual. Em dado momento, ao passar o proprietário, o Martins tu te lembras dele?
           Pois não.
           Disse-lhe: Martins, vê quanto te devo.
          Ele respondeu e, logo que ele se afastou, Alzira perguntou-me: “Frederico, tens dinheiro?”. Disse-lhe que sim; e ela me pediu: “Podes ‘passar’ cinco mil-réis?”. Não me fiz esperar e dei-lhe uma nota de cinco mil-réis que tinha na algibeira do colete. Ela guardou e continuou a conversa. Veio a hora de sair e de pagar a despesa atual e as passadas. Martins fez a soma e tirei da algibeira da calça o grosso do dinheiro, dando-lhe uma nota que satisfizesse a conta. Logo que o Martins se dirigiu ao balcão, ela me disse ao ouvido: “Tu não podes dar mais cinco mil-réis?”. Disse-lhe peremptoriamente: não! Não teve um momento de hesitação: levantou-se e atirou-me a nota na cara. Foi saindo e descompondo-me baixamente.
           Era muito malcriada.
           Pensei isso e o Martins aconselhou-me a evitá-la, por isso. Um acontecimento posterior, porém, fez-me julgá-la melhor.
           É daí que…
           Vais ouvir: passaram-se meses e, para publicar um livro, meti-me em complicações. Se o livro deu dinheiro eu não sei, porque só perdi com ele; entretanto, fez um sucessozinho; mas, caí de roupas etc. etc. Uma noite estava sentado entre desanimados, como eu, num banco do largo da Carioca, considerando aqueles automóveis vazios, que lhe levam algum encanto. Apesar disso, não pude deixar de comparar aquele rodar de automóveis, rodar em torno da praça, como que para dar ilusão de movimento, aos figurantes de teatro que entram por um lado e saem pelo outro, para fingir multidão; e como que me pareceu que aquilo era um truque do Rio de Janeiro, para se dar ares de grande capital movimentada…  Estava assim, quando me bateram ao ombro: “Oh! Frederiquinho!”.
           Quem era?
           Era a Alzira.
           Queria ela alguma coisa?
           Queria dar-me. Nada mais.
           O quê?
           A passagem do bonde.
           Tu não a tinhas?
           Tinha. Disse-lhe isso até; mas o meu aspecto era da mais completa miséria. Minha roupa estava sebosa, meu chapéu de palha muito sujo, cabeludo, barba velha; e, além de tudo, sobreviera-me uma fraqueza de pálpebras, que me obrigava a usar uns sinistros óculos escuros de mendigo semicego. Apesar da minha recusa, ela insistiu de tal modo, de forma tão cheia de piedade e ternura, que me pareceu uma cruel desfeita não lhe aceitar o cruzado.
           Aceitaste?
           Aceitei.
           Curioso.
           Está aí a vagabunda do “Guaco”, meu caro Chaves.
          Levantaram-se, saíram do jardim e o advento da noite, misteriosa e profunda, era anunciado pelo acender dos lampiões de gás e o piscar dos globos de luz elétrica, naquele magnífico fim de crepúsculo.

(Histórias e sonhos — 1920)

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: A autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros ...

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Lima Barreto: Os médicos e o espírita


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          O caso de ter a Saúde Pública multado um médium espírita muito estimado em Botafogo, pelo fato de receitar remédios homeopáticos a clientes que o procuravam, fazendo isto de forma mais amplamente desinteressada, provoca um exame que sinto tê-lo de fazer muito perfunctoriamente1 sobre a mentalidade geral dos nossos médicos.
          De todos os nossos doutores, o médico, com muitas exceções, é o mais estreito em descortino2 intelectual e o é tanto mais quanto mais famoso é. Fora do campo de sua atividade mental, ele não enxerga nada que possa merecer consideração e muito menos que possa reagir sobre as suas teorias particulares, senão para tirar delas o valor absoluto que a limitação intelectual dos nossos grandes esculápios3 lhes empresta.
          Objetivos à outrance4, eles como que recebem o fato bruto e não o preparam pela análise, pela abstração e por outros processos lógicos para se incorporar ao pensamento abstrato, à ciência, enfim.
          Se fossem físicos, diriam que a vara em parte mergulhada n’água está quebrada, se astrônomos, que o sol gira em torno da terra; etc. etc.
          Não admitem, já não direi uma crítica do conhecimento, mas uma simples crítica do poder e da verdade do que nos dizem os nossos sentidos.
          Além dessa lamentável miopia mental, juntam a vaidade dos medíocres, que podem ser celebridades e ocupar altos cargos oficiais, e enchem-se de uma presunção profissional e uma vaidade pessoal que os levam a tomar atitudes de grão-sacerdotes e de infalibilidade papal.
          Por vaidade, não querem que se diga que a medicina propriamente é uma “arte”. Como, sendo como ela o é, os diminuísse de alguma forma; e, por presunção, para não se nivelarem com toda a gente que escreve, inventaram uma geringonça5 pseudoclássica, com a qual redigem os seus laboriosos tratados. Duros e desdenhosos com os seus subalternos não formados, eles levam esse espírito de superioridade sobre o resto dos homens, a sua presunção de inerrância6, o sentimento do direito divino que lhes dá a carta, para as leis que elaboram ou projetam, favorecendo-os em tudo e outorgando-lhes todos poderes e autoridades, deixando para os demais não formados migalhas e deveres humilhantes.
          Preferia ser subordinado ao oficial do Exército, bem entendido mais truculento que houvesse do que ao médico mais melífluo7 nas salas de Botafogo ou nos desvãos8 do Municipal, que se conheça.
          A medicina é importante atividade intelectual, mas não é a única importante e não chegou a tal ponto de perfeição que os médicos tenham na cabeça ou nos livros as leis que regem as moléstias e a sua cura e a organização do Universo.
          Se eles fossem verdadeiramente cientistas haviam de ter dúvidas e nunca tentariam estabelecer na Terra a ditadura dos médicos, porque esta só seria válida se a medicina fosse uma verdade perfeitamente e completamente estabelecida.
          Entretanto, aqui e acolá, as suas doutrinas estão sujeitas à caução9 ou se baseiam em outros dados científicos que, por uma pequena descoberta de amanhã, em disciplina muito afastada da arte de Hipócrates10, podem ser deitadas por terra.
          Os médicos, os nossos, porém, não querem ver isso e arrotam a infalibilidade do laboratório, como se este não fosse, em última análise, ótica, física, cujas leis amanhã podem ser derrogadas11 ou mesmo revogadas.
          Demais, essas odiosas medidas, consignadas12 no tal Código Negro, que a Saúde Pública ultimamente expediu, só visam os pobres, os desgraçados e os sem proteção...
          Esse código é bem uma demonstração da limitação intelectual e sentimental do geral dos nossos médicos. Posto em prática, com todo o rigor e honestidade, ele poria o presidente da república, os congressistas e os juízes sob o guante13 do mais modesto funcionário da Saúde Pública. Ele cria em teoria a medicocracia ou o que outro nome tenha.
          O governo, o único de uma classe que é lógico consigo mesmo, é a teocracia, porque é de supor que os sacerdotes conheçam os secretos desígnios de Deus sobre os homens e os seus destinos; mas os de outra qualquer que não possuem semelhante sabedoria é ilógica14 e sem sentido.
          Os médicos não querem saber disso e se arrogam ou se quiseram arrogar o direito de dirigir os engenheiros encarregados das obras de saneamento, de dirigir os políticos no governo dos povos, de substituir as mães no acalentar os filhos, de vestir o amor dos sexos com o auxílio da duvidosa reação de Wasserman15 etc. etc.
          Como todos os iniciados, eles se julgam acima dos defeitos, vícios ou o que quer que seja que atribuem aos outros...
          Quando foi por ocasião da morte do doutor Francisco de Castro, houve quem dissesse que o notável professor havia morrido de peste bubônica16.
          A Saúde Pública de então suspeitou isso, tanto que mandou verificar o óbito. O Senhor Azevedo Sodré e outros médicos de sua roda ficaram indignados com a coisa, impediram a entrada do médico da higiene federal e houve um começo de “bate-boca” científico, como dizem eles.
          Consta isto dos jornais do tempo. Pode ser verificado.
          De forma que, para o doutíssimo Sodré e seus amigos, o doutor Francisco de Castro era um mestre excepcional que não podia ser vitimado por uma moléstia que atinge o comum dos mortais. Curiosa sabedoria!
          Com mais paciência e tempo aos médicos que tanto gostam de gritar: são fatos! Podia apresentar mais fatos para demonstrar a contradição que eles revelam nas aplicações de suas severas e infalíveis teorias. Para os demais, principalmente os miseráveis, todo o rigor é pouco, é preciso mesmo o vexame e a brutalidade; mas, para os fartos, especialmente os médicos notáveis, não há necessidade energias despóticas, porque, a esses, os morbus17 terríveis não atingem. A moléstia é como a fome: só alcança os pobres, os sem dinheiro. Concordo em parte.
          Se assim é, o que o bom senso, embora eu não seja dele grande adepto, está a mostrar é que nós nos devemos preocupar principalmente em acabar com a miséria, com a pobreza, e não aumentá-las com impostos e com ostentações munificentes18 de sultões, de vizires e de paxás19, para depois transformar a miséria e a epidemia, criarmos luxuosas repartições encarregadas de espalhar paliativos20, com apoio de medidas tirânicas e vexatórias21.
          Essas ligeiras considerações, porém, levaram-me longe e abandonei o caso do médium espírita.
          De que acusam esse homem? De indicar remédios homeopáticos que lhe são indicados pelos espíritos dos mortos, cujas comunicações ele pode receber, devido a isto ou àquilo.
          Há nisto, em primeiro lugar, o fato acessível ao exame de todos nós, que é o dos medicamentos homeopáticos. A doutrina vigente entre os magnatas médicos é que a homeopatia não cura, não tem nenhum poder terapêutico; os seus medicamentos são água pura, água de pote.
          Não me trato pela homeopatia, mas noto que os médicos que assim se fazem, depois de severos estudos e em idade de madureza intelectual, adotam a homeopatia. Haja em vista o doutor Licínio Cardoso, os falecidos Meireles, Murtinho e Nerval de Gouveia. Tais exemplos, se não me fazem mudar da minha habitual medicina, dão-me direito em não aceitar sobre a doutrina médica de Hahnemann22 o julgamento desdenhoso da quase totalidade dos nossos médicos.
          Há, além, no caso do Senhor Inácio Bittencourt, um fato de fé, de crença, sobre o qual os médicos da Saúde Pública não podem possuir nenhuma competência oficial para discutir, para negar ou aceitar.
          Se os medicamentos que o Senhor Bittencourt indica são inócuos e ele os indica em virtude de uma certa crença religiosa, não se pode encontrar em semelhante ato matéria para multa, por infração, ou processo por crime.
          Isto tudo só pode existir no procedimento do médium para quem o julgar através da vaidade e da presunção dos nossos profissionais da medicina.
          Eles se esquecem que nós vivemos, no dizer de Renan, de velhas crenças que estão sendo abaladas, entre as quais está o poder a certeza certa da ciência.
          Ela talvez possa ser assim considerada, enquanto Ciência; mas, deixando o seu campo abstrato para aplicações práticas, periclita23 muito o seu império; e quem sabe disto não pode querer dominar os outros ou excomungá-los, em nome de Deus tão vacilante.

[revista] A. B. C., 19/03/1921

Lima Barreto

Notas da edição:
1. Perfunctoriamente: superficialmente
2. Descortino: perspicácia
3. Esculápios: médicos
4. À entrance (fr.): exagerados
5. Geringonça: linguagem vulgar
6. Inerrância: que não pode errar
7. Melífluo: suave, doce
8. Desvãos: recantos escondidos
9. Caução: cautela, precaução
10. Arte de Hipócrates: referência à medicina
11. Derrogadas: alteradas
12. Consignadas: estabelecidas
13. Guante: mão de ferro, autoridade despótica
14. É ilógica: deveria ser “são ilógicos”
15. Wassermann: referência ao teste de Wassermann, exame de sangue para diagnosticar a sífilis
16. Peste bubônica: doença transmitida pelo rato preto
17. Morbus: moléstias
18. Munificentes: generosas
19. Sultões, vizires e paxás: nobres da antiga Pérsia
20. Paliativos: tratamentos que fornecem alívio, de duração variável
21. Vexatórias: que envergonham
22. Hahnemann: médico alemão (1755 — 1843), criador do método homeopático para tratamento das doenças
23. Periclita: corre perigo
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.