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[traduzido por Alessandro Zir]
XIX
Quero dar-lhes a ideia de um divertimento inocente. São tão poucos os
jogos livres de culpa! Uma manhã em quem você levante disposto a um passeio
descompromissado pelas grandes vias, encha os bolsos dessas invenções baratas (tais
como o simples polichinelo de madeira, animado por um único fio, os ferreiros
que batem bigorna, o cavaleiro e seu cavalo, cuja cauda é um apito) e, em
frente aos cafés, ao pé das árvores, doe-os às crianças desconhecidas e pobres
que vier a encontrar. Você verá os olhos delas crescerem desmesuradamente. De
início, elas não ousam aceitar; duvidam da própria felicidade. Depois suas mãos
agarram decididamente o presente, e elas desaparecem de vista, como gatos que,
tendo aprendido a desconfiar dos homens, levam para longe o bocado de comida
que lhes é dado.
Em uma estrada, atrás da grade
de um amplo jardim, ao final do qual o sol fazia brilhar imponente a brancura
de um charmoso castelo, estava um menino belo e viçoso, vestido em um desses trajes
campestres, que são tão garridos.
O luxo, a despreocupação e os
sinais habituais de riqueza conferem tanto charme a essas crianças que se poderia
imaginar que elas provém de uma mistura diversa daquela de que são feitos os
filhos das classes medíocres e pobres.
Ao lado dele, jazia sobre o
gramado um brinquedo formidável, tão viçoso quanto o dono, envernizado, dourado,
vestido de púrpura, coberto de plumas e de lantejoulas. Mas o menino não se importava
com seu brinquedo favorito, e eis ao que ele dava atenção:
Do outro lado da grade, na
estrada, entre cardos e urtigas, estava um outro menino, malvestido, magro, sujo
de fuligem: um desses pequenos párias cuja beleza poderia ser descoberta por um
expectador imparcial, que lhe limpasse da pátina repugnante da miséria, como um
olho experimentado adivinha a pintura ideal sob o verniz de um fabricante de
carroças.
Através dessas barras
simbólicas separando dois mundos, a estrada e o castelo, o menino pobre
mostrava ao menino rico seu próprio brinquedo, que esse examinava avidamente,
como se se tratasse de um objeto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo, que
o pequeno maltrapilho irritava, agitava e sacudia dentro de uma gaiola, era um
rato vivo! Os pais, sem dúvida por uma questão de economia, haviam obtido da própria
vida o brinquedo.
E as duas crianças riam, regozijando-se
fraternalmente, com dentes de igual brancura.
Le joujou du pauvre
Je veux donner l’idée d’un divertissement innocent. Il y a si peu
d'amusements qui ne soient pas coupables!
Quand vous sortirez le matin avec l'intention décidée de flâner sur les
grandes routes, remplissez vos poches de petites inventions à 'un sol, — telles que le polichinelle plat mû par
un seul fil, les forgerons qui battent l'enclume, le cavalier et son cheval
dont la queue est un sifflet, — et le long des cabarets, au pied des arbres, faites-en hommage aux
enfants inconnus et pauvres que vous rencontrerez. Vous verrez leurs yeux
s'agrandir démesurément. D'abord ils n'oseront pas prendre; ils douteront de
leur bonheur. Puis leurs mains agripperont vivement le cadeau, et ils
s'enfuiront comme font les chats qui vont manger loin de vous le morceau que
vous leur avez donné, ayant appris à se défier de l'homme.
Sur une route, derrière la grille d'un vaste jardin, au bout duquel
apparaissait la blancheur d'un joli château frappé par le soleil, se tenait un
enfant beau et frais, habillé de ces vêtements de campagne si pleins de
coquetterie.
Le luxe, l'insouciance et le spectacle habituel de la richesse, rendent
ces enfants-là si jolis, qu'on les croirait faits d'une autre pâte que les
enfants de la médiocrité ou de la pauvreté.
A côté de lui, gisait sur l'herbe un joujou splendide, aussi frais que
son maître, verni, doré, vêtu d'une robe pourpre, et couvert de plumets et de
verroteries. Mais l'enfant ne s'occupait pas de son joujou préféré, et voici ce
qu'il regardait:
De l'autre côté de la grille, sur la route, entre les chardons et les
orties, il y avait un autre enfant, sale, chétif, fuligineux, un de ces
marmots-parias dont un œil impartial découvrirait la beauté, si, comme l’œil du
connaisseur devine une peinture idéale sous un vernis de carrossier, il le nettoyait
de la répugnante patine de la misère.
A travers ces barreaux symboliques séparant deux mondes, la grande route
et le château, l'enfant pauvre montrait à l'enfant riche son propre joujou, que
celui-ci examinait avidement comme un objet rare et inconnu. Or, ce joujou, que
le petit souillon agaçait, agitait et secouait dans une boîte grillée, c'était
un rat vivant! Les parents, par économie sans doute, avaient tiré le joujou de
la vie elle-même.
Et les deux enfants se riaient l'un à l'autre fraternellement, avec des
dents d'une égale blancheur.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas
em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda
Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre
— RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 — 1867), francês e parisiense, estudou no
Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da
Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato;
considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como
um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou
profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas
obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860),
O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

