segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Charles Baudelaire: O brinquedo do pobre


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[traduzido por Alessandro Zir]

XIX

     Quero dar-lhes a ideia de um divertimento inocente. São tão poucos os jogos livres de culpa! Uma manhã em quem você levante disposto a um passeio descompromissado pelas grandes vias, encha os bolsos dessas invenções baratas (tais como o simples polichinelo de madeira, animado por um único fio, os ferreiros que batem bigorna, o cavaleiro e seu cavalo, cuja cauda é um apito) e, em frente aos cafés, ao pé das árvores, doe-os às crianças desconhecidas e pobres que vier a encontrar. Você verá os olhos delas crescerem desmesuradamente. De início, elas não ousam aceitar; duvidam da própria felicidade. Depois suas mãos agarram decididamente o presente, e elas desaparecem de vista, como gatos que, tendo aprendido a desconfiar dos homens, levam para longe o bocado de comida que lhes é dado.
     Em uma estrada, atrás da grade de um amplo jardim, ao final do qual o sol fazia brilhar imponente a brancura de um charmoso castelo, estava um menino belo e viçoso, vestido em um desses trajes campestres, que são tão garridos.
     O luxo, a despreocupação e os sinais habituais de riqueza conferem tanto charme a essas crianças que se poderia imaginar que elas provém de uma mistura diversa daquela de que são feitos os filhos das classes medíocres e pobres.
     Ao lado dele, jazia sobre o gramado um brinquedo formidável, tão viçoso quanto o dono, envernizado, dourado, vestido de púrpura, coberto de plumas e de lantejoulas. Mas o menino não se importava com seu brinquedo favorito, e eis ao que ele dava atenção:
     Do outro lado da grade, na estrada, entre cardos e urtigas, estava um outro menino, malvestido, magro, sujo de fuligem: um desses pequenos párias cuja beleza poderia ser descoberta por um expectador imparcial, que lhe limpasse da pátina repugnante da miséria, como um olho experimentado adivinha a pintura ideal sob o verniz de um fabricante de carroças.
     Através dessas barras simbólicas separando dois mundos, a estrada e o castelo, o menino pobre mostrava ao menino rico seu próprio brinquedo, que esse examinava avidamente, como se se tratasse de um objeto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo, que o pequeno maltrapilho irritava, agitava e sacudia dentro de uma gaiola, era um rato vivo! Os pais, sem dúvida por uma questão de economia, haviam obtido da própria vida o brinquedo.
     E as duas crianças riam, regozijando-se fraternalmente, com dentes de igual brancura.

Charles Baudelaire

Le joujou du pauvre

     Je veux donner l’idée d’un divertissement innocent. Il y a si peu d'amusements qui ne soient pas coupables!
     Quand vous sortirez le matin avec l'intention décidée de flâner sur les grandes routes, remplissez vos poches de petites inventions à 'un sol, telles que le polichinelle plat mû par un seul fil, les forgerons qui battent l'enclume, le cavalier et son cheval dont la queue est un sifflet, et le long des cabarets, au pied des arbres, faites-en hommage aux enfants inconnus et pauvres que vous rencontrerez. Vous verrez leurs yeux s'agrandir démesurément. D'abord ils n'oseront pas prendre; ils douteront de leur bonheur. Puis leurs mains agripperont vivement le cadeau, et ils s'enfuiront comme font les chats qui vont manger loin de vous le morceau que vous leur avez donné, ayant appris à se défier de l'homme.
     Sur une route, derrière la grille d'un vaste jardin, au bout duquel apparaissait la blancheur d'un joli château frappé par le soleil, se tenait un enfant beau et frais, habillé de ces vêtements de campagne si pleins de coquetterie.
     Le luxe, l'insouciance et le spectacle habituel de la richesse, rendent ces enfants-là si jolis, qu'on les croirait faits d'une autre pâte que les enfants de la médiocrité ou de la pauvreté.
     A côté de lui, gisait sur l'herbe un joujou splendide, aussi frais que son maître, verni, doré, vêtu d'une robe pourpre, et couvert de plumets et de verroteries. Mais l'enfant ne s'occupait pas de son joujou préféré, et voici ce qu'il regardait:
     De l'autre côté de la grille, sur la route, entre les chardons et les orties, il y avait un autre enfant, sale, chétif, fuligineux, un de ces marmots-parias dont un œil impartial découvrirait la beauté, si, comme l’œil du connaisseur devine une peinture idéale sous un vernis de carrossier, il le nettoyait de la répugnante patine de la misère.
     A travers ces barreaux symboliques séparant deux mondes, la grande route et le château, l'enfant pauvre montrait à l'enfant riche son propre joujou, que celui-ci examinait avidement comme un objet rare et inconnu. Or, ce joujou, que le petit souillon agaçait, agitait et secouait dans une boîte grillée, c'était un rat vivant! Les parents, par économie sans doute, avaient tiré le joujou de la vie elle-même.
     Et les deux enfants se riaient l'un à l'autre fraternellement, avec des dents d'une égale blancheur.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

domingo, 30 de outubro de 2022

Adalberto Viana: Ego sum!...

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Aos adversários Aureliano Leal e Nuno de Almeida

Sim. Eu sou Anarquista! Eu quero a Liberdade!
Detesto a escravidão! condeno a disciplina!
Eu busco um mundo novo, um mundo de equidade
Onde não haja lei, governo ou guilhotina!

Estimo com fervor toda esta Humanidade!
Não tenho religião, mas tenho uma doutrina!
Palpita no meu ser um sonho de igualdade
E quero realizá-lo à luz que me ilumina!

São belos para mim os grandes precipícios!
Não penso nas prisões, nem temo o potentado!
Minha idéia feliz irá banindo os vícios.

Inspirada no amor com sangue conquistado!
Desejo a Terra Livre! Abaixo os sacrifícios!
Façamos a Anarquia, ó Povo escravizado!

[jornal] Liberdade, 7/1919, p. 1.
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Milton Lopes, no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
     ‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão.
     No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
     Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê — comentava o jornal — as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’;
Edgar Rodrigues, historiador, pesquisador e arquivista, escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
     “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Yara Aun Khoury, historiadora, expõe no Texto/Documento A Poesia Anarquista, em Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História São Paulo, volume 8, Nº 15, setembro de 1987/fevereiro de 1988:
     “... É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”.

sábado, 29 de outubro de 2022

Ide Schloenbach Blumenschein: Brinde Inoportuno

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Tanto tempo guardei esta garrafa intata,
Contendo um vinho bom teu vinho predileto!
Para comemorar, ao teu lado, essa data
Que só a mim recorda o início de um afeto

Que tão pouco durou... Mas, não faz mal, sou grata
Pela tua presença aqui, sob meu teto...
Não importa sentir tua presença abstrata.
(Pois não eras assim, tão frio e circunspecto.)

O passado não volta, eu sei. É simplesmente
Por mera cortesia estares tu presente.
É vazio e glacial teu aperto de mão.

Brindemos, meu amigo, ao teu novo caminho,
Sorvendo calmamente a taça deste vinho
Que guardei tanto tempo, à toa, sem razão...

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa, por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em La menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Lima Barreto: Não as matem


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          Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même*, sobre a mulher.
          O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.
          Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.
          Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.
          Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer.
          Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.
          O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.
          Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.
          De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como é então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?
          Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.
          Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.
          O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.
          Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor.
          Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.
          Deixem as mulheres amar à vontade.
          Não as matem, pelo amor de Deus!

Vida urbana, 27-1-1915


* Nota da edição: Quand-même: ainda que, apesar de tudo.
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Lima Barreto: Crônicas Escolhidas, Apresentação de João Antônio, Coleção Folha de São Paulo, 1995, Editora Ática, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Schlegel: Os romanos sabiam que a espirituosidade é uma faculdade profética; eles a chamavam de faro. [frag.] L 126 & outros fragmentos


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[traduzido por Victor-Pierre Stirnimann]

          L 98 Os princípios universalmente válidos da comunicação literária são os seguintes: 1) devemos ter algo que precise ser comunicado; 2) devemos ter alguém a quem possamos comunicá-lo; 3) devemos realmente comunicar, partilhá-lo com esse alguém, e não apenas exprimir-nos a nós mesmos. Do contrário seria preferível calar.
          L 100 A poesia de um é chamada filosófica; a de outro, filológica; a de um terceiro, retórica, e assim por diante. Qual é, afinal, a poesia poética?
          L 101 A afetação nasce não tanto do esforço para ser novo quanto do receio de ser velho.*
          L 102 A vontade de tudo julgar é um grande deslize: ou um pequeno pecado.
          L 117 Poesia só pode ser criticada por poesia. Um juízo artístico que não é, ele próprio, uma obra de arte, seja em seu tema, enquanto exposição da impressão necessária em seu devir, seja por meio de uma bela forma e um tom liberal no espírito das velhas sátiras romanas, não tem, em absoluto, direito de cidadania no reino da arte.
          L 126 Os romanos sabiam que a espirituosidade é uma faculdade profética; eles a chamavam de faro.

Friedrich Schlegel

          L 98 Folgendes sind allgemeingültige Grundgesetze der schriftstellerischen Mitteilung: 1) Man muß etwas haben, was mitgeteilt werden soll; 2) man muß jemand haben, dem man's mitteilen wollen darf; 3) man muß es wirklich mitteilen, mit ihm teilen können, nicht bloß sich äußern, allein; sonst wäre es treffender, zu schweigen.
          L 100 Die Poesie des einen heißt die philosophische; die des andern die philologische; die des dritten die rhetorische, u.s.w. Welches ist denn nun die poetische Poesie?
          L 101 Affektation entspringt nicht so wohl aus dem Bestreben, neu, als aus der Furcht, alt zu sein.
          L 102 Alles beurteilen zu wollen, ist eine große Verirrung oder eine kleine Sünde.
          L 117 Poesie kann nur durch Poesie kritisiert werden. Ein Kunsturteil, welches nicht selbst ein Kunstwerk ist, entweder im Stoff, als Darstellung des notwendigen Eindrucks in seinem Werden, oder durch eine schöne Form, und einen im Geist der alten römischen Satire liberalen Ton, hat gar kein Bürgerrecht im Reiche der Kunst.
          L 126 Die Römer wußten, daß der Witz ein prophetisches Vermögen ist; sie nannten ihn Nase.

* Nota do tradutor Victor-Pierre Stirnimann: Fragmento atribuído a [Friedrich] Schleiermacher [1768 —1834].
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Schlegel  — Conversa sobre a Poesia e outros fragmentos, Tradução, Prefácio e Notas de Victor-Pierre Stirnimann [seleção de fragmentos em edição bilíngue] e Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1994, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Boris Pasternak: Definição de Poesia


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado.
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

1917

Boris Pasternak

Определение поэзии

Это круто налившийся свист,
Это щелканье сдавленных льдинок,
Это ночь, леденящая лист,
Это двух соловьев поединок,

Это сладкий заглохший горох,
Это слезы вселенной в лопатках,
Это с пультов и флейт Фигаро
Низвергается градом на грядку.

Все, что ночи так важно сыскать
На глубоких купаленных доньях,
И звезду донести до садка
На трепещущих мокрых ладонях.

Площе досок в воде духота.
Небосвод завалился ольхою.
Этим звездам к лицу б хохотать,
Ан вселенная место глухое.

1917
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Amadeu Amaral: O Trabalho, Libertador

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Operário e filósofo, Spinosa
lidou com as mãos e o cérebro alapar;
reparando u’a máquina mimosa,
a máquina do mundo ia a estudar.

Adejava-lhe a mão, meticulosa,
lá onde tinha preso o agudo olhar:
voava-lhe a mente na amplidão, à rosa
dos ventos solta, pássaro a voar.

É que o trabalho é educador perfeito:
põe-nos o ser por um caminho estreito;
e de tantas passadas que lá faz,

fica este ser mais livre do que nunca,
pois nenhuma surpresa a idéia trunca,
e ela consigo se conserva em paz.

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Fiama Hasse Pais Brandão: Crónicas


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Os falecidos
são essa memória
que depois se evoca

São a narrativa
das suas crónicas
e os extremos actos
de seus cercos
sítios
que a prosa acaso
acolhe lisos

Depois na leitura
tanto quanto ao ler
os mortos se aviltam
se debilitam
há uma maneira segura
de utilizar os feitos
para efeito de futura
vida ou sítio

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Fiama Hasse Pais Brandão (1938 2007), portuguesa e lisboeta, estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora; suas obras: Em cada pedra um voo imóvel (poemas dramáticos e poemas em prosa, 1957), Morfismos (em Poesia 61, 1961), Os Chapéus de Chuva (teatro, 1961), A Campanha (teatro, 1965), Barcas Novas (1967), Novas Visões do Passado (1975), O Texto de João Zorro (Obra poética, 1974), Homenagem à literatura (1976), Área Branca, Melômana (ambas em 1978), Quem move as Árvores (teatro, 1979), Âmago I / Nova Arte (1985), O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (ensaio, 1985), F de Fiama (antologia, 1986), Três Rostos (1989), Epístolas e Memorandos (1989), Teatro-teatro (1990), Obra breve (Obra poética, 1991), Movimento Perpétuo (prosa, 1991), Cântico maior (1995), Sob o olhar de Medeia (prosa, 1998), Cenas Vivas (2000), As Fábulas (2002), Noites de Inês-Constança (2005) etc.; traduziu obras de Bertolt Brecht, Novalis, John Updike, Antonin Artaud, Anton Tchekov e outros; recebeu diversas premiações por sua obra.

domingo, 23 de outubro de 2022

R. J. Hollingdale: O universitário [trecho cap. 3 de Nietzsche, uma biografia]

 
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[traduzido por Maria Luisa de Abreu Lima Paz]

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É também graças a [Paul Jakob] Deussen [1845 1919] que sabemos de um incidente, em fevereiro de 1865, que ganhou certa notoriedade e tem importância em qualquer consideração sobre a posterior insanidade de Nietzsche. Segundo afirma, Nietzsche lhe contou que viajara sozinho a Colônia; um cocheiro o conduziu num passeio pela cidade e, por fim, ele pediu que o levasse a um bom restaurante. Segundo afirma, Nietzsche lhe contou que viajara sozinho a Colônia; um cocheiro o conduziu num passeio pela cidade e, por fim, ele pediu que o levasse a um bom restaurante. Em vez disso, foi levado para um bordel. “De repente me vi rodeado por meia dúzia de figuras com lantejoulas e véus, que me olhavam com expectativa”, dizia Nietzsche. “Fiquei mudo por um instante. Depois, fui instintivamente até um piano que havia na sala como se fosse o único ser vivo ali e toquei alguns acordes. Eles quebraram o encanto e saí correndo.” Na opinião de Deussen, este incidente foi singular na vida de Nietzsche e as palavras mulieram nunquam attigit poderiam se aplicar a ele. Já não se pode concordar com isso, pois temos hoje evidências das quais Deussen não dispunha quando escreveu. É praticamente certo que a doença que vitimou Nietzsche foi uma demência paralítica; isso significa que certamente deve ter contraído sífilis, e a maioria dos que estudam sua vida concorda que ele a contraiu, provavelmente na juventude. [Clarence] Crane Brinton [1898 1968] afirma: “O fato de Nietzsche ter mesmo tido sífilis pode ser considerado comprovado (até onde uma coisa do tipo pode ser comprovada)”; Walter [Arnold] Kaufmann [1921 1980] é mais cauteloso ao afirmar: “Tudo que podemos dizer e todos os tratados médicos sérios e não sensacionalistas sobre o assunto parecem concordar com isto Nietzsche muito provavelmente contraiu sífilis.”. Richard Blunck [1895 1962] reproduz evidências a partir das quais é impossível duvidar de que Nietzsche tenha se tratado de uma infecção sifilítica com dois médicos de Leipzig durante o ano de 1867, embora talvez não tenha sido informado quanto à natureza de sua enfermidade. Como a contraiu ainda é uma questão estritamente especulativa, embora não seja muito difícil deduzir: um jovem na situação de Nietzsche dificilmente teria entrado em contato com a doença em outro lugar que não um bordel. H. W. Brann [ ? ? ] sugere que o poema “Die Wüste wächst” inserido na quarta parte de Zaratustra é uma reminiscência de uma visita a um bordel, baseando sua sugestão em alguns ecos no poema das palavras usadas por Nietzsche para descrever a Deussen sua experiência de fevereiro de 1865; Thomas Mann [1875 1955] supõe que, depois de ter sido levado a um deles contra sua vontade, tenha retornado voluntariamente. Seja como for, as evidências existentes descartam qualquer necessidade de acreditar que Nietsche herdou a insanidade de seu pai e que, portanto, “sempre foi louco”. Pois seu destino estava longe de ser incomum. A sífilis não tinha cura e, por isso, em geral o paciente não era informado de que a contraíra: a consequência era uma vida pontuada de acessos cada vez mais graves de uma “doença misteriosa” que muitas vezes terminava em loucura e morte prematura. Já foi sugerido que Nietzsche possa ter contraído sífilis quando trabalhou como enfermeiro na Guerra Franco-Prussiana, mas a partir das evidências apresentadas por Blunck de que já se tratara da doença em 1867. Torna-se impossível que a tivesse contraído apenas em 1870 e improvável que viesse a ter contato com ela de alguma outra forma que não esta apenas sugerida.

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R. J. Hollingdale
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Nietzsche — uma biografia: R. J. Hollingdale, Tradução de Maria Luisa de Abreu Lima Paz e Prefácio da edição revisada de Little Venice, 1ª edição, 2015, Edipro, São Paulo — SP; Reginald John “RJ” Hollingdale (1930 2001), britânico nascido em Streatham, distrito londrino, Inglaterra, autodidata, aos 16 anos abandonou a Bec Grammar School, Totting, tornou-se jornalista, foi biógrafo e tradutor de filosofia e literatura alemã; trabalhou em um jornal de Croydon, bairro londrino, foi subeditor no The Guardian e crítico no The Times Literary Supplement; mesmo sem formação universitária foi eleito presidente de uma sociedade acadêmica e atuou como professor visitante na University of Melbourne, Australia; suas obras: Nietzsche: The Man and his Philosophy (Nietzsche: O homem e sua filosofia,biografia, 1965 e edição revisada, 1999), Thomas Mann: A Critical Study (biografia, 1973), A Nietzsche Reader (1978), Western Philosophy: An Introduction (1994) ...; traduziu Essays and Aphorisms, selections from Parerga and Paralipomena, by Arthur Schopenhauer (1973), Electives Affinities, by Goethe (1978), Tales of Hoffmann, by E. T. A. Hoffmann (1982), Aphorisms, by Georg Christoph Lichtenberg (1990), além de várias obras de Nietzsche.

sábado, 22 de outubro de 2022

Charles Baudelaire: Os olhos dos pobres

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[traduzido por Alessandro Zir]

XXVI

     Ah! Quer saber por que hoje eu a odeio? Pois será certamente mais difícil a você entender do que a mim explicar. Você é, creio eu, o melhor exemplo que se pode encontrar de impermeabilidade feminina.
     Passamos juntos um dia inteiro, que me pareceu curto. Fizemos um ao outro a promessa de compartilhar todos os nossos pensamentos, a promessa de que nossas almas, a partir de então, formariam uma só: um sonho que, afinal, de original não tem nada, exceto que, sendo sonhado por todos os homens, não é realizado por nenhum.
     À noite, um pouco cansada, na esquina de um novo boulevard, você quis sentar-se em frente a um novo café, ainda cheio de entulho, mas já dando mostras de seus esplendores inacabados. O café luzia. O próprio gás exibia o entusiasmo de uma inauguração, e iluminava com todas as suas forças as paredes  ofuscantes de tão brancas, a superfície deslumbrante dos espelhos, o dourado das molduras, das cornijas, os pajens bochechudos arrastados pelos cães que traziam à coleira, as damas sorridentes empunhando falcões, as ninfas e as deusas carregando frutas, empadas e animais de caça sobre a cabeça, as Hebes e os Ganimedes oferecendo, de braços estendidos, a pequena ânfora de creme bavaroise ou o obelisco bicolor de sorvetes misturados; a mitologia e a história a serviço da glutonaria.
     Logo à nossa frente, na calçada, estava plantado um bravo homem, de cerca de quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazendo por uma das mãos um menino pequeno, e carregando no outro braço um serzinho frágil demais para andar por si só. Ele cumpria a função de ama, levando os filhos para tomar um ar em plena noite. Todos maltrapilhos. Os três rostos eram extraordinariamente sérios, e os seis olhos contemplavam fixamente o café novo, com a mesma admiração, em nuances que divergiam apenas pela idade.
     Os olhos do pai diziam:
      Como é belo! Como é belo! Parece que o ouro todo deste pobre mundo veio se depositar nessas paredes.
     Os olhos do menino pequeno:
      Como é belo! Como é belo! Mas é um lugar onde só podem entrar pessoas que não são como nós.
     Quanto aos olhos do menor, sua fascinação era tanta que não exprimiam senão uma alegria estúpida e profunda.
     Os compositores de canções dizem que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. A canção tinha razão naquela noite, no que diz respeito a mim. Aquela família de olhos me enternecia e, além disso, eu sentia um pouco de vergonha dos nossos copos e das nossas garrafas, maiores que nossa sede. Eu buscava, minha cara, com meu olhar também o seu, para aí ler o meu pensamento; eu mergulhava nos seus olhos tão belos e estranhamente doces, nos seus olhos verdes, habitados pelo Capricho e pela Lua, quando você me disse:
      Não suporto essa gente de olhos escancarados como porteiras! Será que você poderia pedir ao proprietário que os afastasse daqui?
     Tal é a dificuldade de entendimento, meu caro anjo, tal é a incomunicabilidade do pensamento, mesmo entre os que se amam!

Charles Baudelaire

Les yeux des pauvres

     Ah! vous voulez savoir pourquoi je vous hais aujourd’hui. Il vous sera sans doute moins facile de le comprendre qu’à moi de vous l’expliquer; car vous êtes, je crois, le plus bel exemple d’imperméabilité qui se puisse rencontrer.
     Nous avions passé ensemble une longue journée qui m’avait paru courte. Nous nous étions bien promis que toutes nos pensées nous seraient communes à l’un et à l’autre, et que nos deux âmes désormais n’en feraient plus qu’une; un rêve qui n’a rien d’original, après tout, si ce n’est que, rêvé par tous les hommes, il n’a été réalisé par aucun.
     Le soir, un peu fatiguée, vous voulûtes vous asseoir devant un café neuf qui formait le coin d’un boulevard neuf, encore tout plein de gravois et montrant déjà glorieusement ses splendeurs inachevées. Le café étincelait. Le gaz lui-même y déployait toute l’ardeur d’un début, et éclairait de toutes ses forces les murs aveuglants de blancheur, les nappes éblouissantes des miroirs, les ors des baguettes et des corniches, les pages aux joues rebondies traînés par les chiens en laisse, les dames riant au faucon perché sur leur poing, les nymphes et les déesses portant sur leur tête des fruits, des pâtés et du gibier, les Hébés et les Ganymèdes présentant à bras tendu la petite amphore à bavaroises ou l’obélisque bicolore des glaces panachées; toute l’histoire et toute la mythologie mises au service de la goinfrerie.
     Droit devant nous, sur la chaussée, était planté un brave homme d’une quarantaine d’années, au visage fatigué, à la barbe grisonnante, tenant d’une main un petit garçon et portant sur l’autre bras un petit être trop faible pour marcher. Il remplissait l’office de bonne et faisait prendre à ses enfants l’air du soir. Tous en guenilles. Ces trois visages étaient extraordinairement sérieux, et ces six yeux contemplaient fixement le café nouveau avec une admiration égale, mais nuancée diversement par l’âge.
     Les yeux du père disaient: «Que c’est beau! que c’est beau! on dirait que tout l’or du pauvre monde est venu se porter sur ces murs.» Les yeux du petit garçon: «Que c’est beau! que c’est beau! mais c’est une maison où peuvent seuls entrer les gens qui ne sont pas comme nous.» Quant aux yeux du plus petit, ils étaient trop fascinés pour exprimer autre chose qu’une joie stupide et profonde.
     Les chansonniers disent que le plaisir rend l’âme bonne et amollit le cœur. La chanson avait raison ce soir-là, relativement à moi. Non-seulement j’étais attendri par cette famille d’yeux, mais je me sentais un peu honteux de nos verres et de nos carafes, plus grands que notre soif. Je tournais mes regards vers les vôtres, cher amour, pour y lire ma pensée; je plongeais dans vos yeux si beaux et si bizarrement doux, dans vos yeux verts, habités par le Caprice et inspirés par la Lune, quand vous me dites: «Ces gens-là me sont insupportables avec leurs yeux ouverts comme des portes cochères! Ne pourriez-vous pas prier le maître du café de les éloigner d’ici?»
     Tant il est difficile de s’entendre, mon cher ange, et tant la pensée est incommunicable, même entre gens qui s’aiment!
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Victor Hugo: O Morcego

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Eu conheço-te bem, eu te vi nos meus sonhos,
Pássaro triste; vejo em vão os tristonhos
Círculos desiguais de teus voos hostis;
Trazes dos duendes a mensagem de naufrágios;
Vai que para temer os teus negros presságios,
Eu nunca fui culpado e nunca fui feliz.

Espera enfim que a virgem, a mim sempre jungida,
Que como um anjo o céu mandou a minha vida,
Tenha-me coroado de minuto e minuto;
Tu voltarás então, turbando o meu festim,
Feliz a desdobrar as asas sobre mim,
Como dois véus de luto.

Irmão do mocho fúnebre e do xofrango ávido,
Juntando o agrifólio atro ao nenúfar que é lívido,
Os filhos de Satã vão te invocando absortos;
Emigra deste lar que o meu peito respira;
Tua garra não toque a minha lira,
Pois poderá por certo despertar os mortos.

À noite se os demônios dançam no céu que assombra,
Segues o coro mágico errando pela sombra.
O hino infernal te chama, torvo morcego langue,
Foge! um doce perfume sai das flores de brasas.
Foge! é preciso às tuas asas
O ar da tumba natal como o vapor do sangue.

O que te traz a mim? Tu vens destas colinas
Em que a lua passeia sobre as brancas ruínas?
Sua fronte é tal tu, sombria e sem palor.
Teus olhos na sua rota hesitante
Seguiram o farol de meu fogo distante?
Chamada pela glória, é assim que vem a dor.
Surges de alguma torre onde a vertigem passa,
Anão bizarro e cruel que nos montes esvoaça
Dá as luzes do charco o seu aéreo rubor,
Ri pelo ar, dos pinheiros vai curvando os cismos,
Cada noite, girando à borda dos abismos,
Atira para o abismo um pálido viajor?

Em vão em volta o teu voo que marcha e plana
Semeia odor de tumba e de poeira humana;
Teu aspecto incomoda mas sem assustar,
Foge, antes que eu entregue, sombrio, amanhã,
O teu corpo veloso, de transparência vã,
De quem o pastor adorna o seu soturno lar.

Crianças brincando com teu dente furioso
Uma virgem virá, tremulante e curiosa,
Com seu riso a assustar com seu dorido açoite
E o dia te verá pelo céu exilado,
A mil felizes pássaros juntado
Buscar em vão em voo cego e grave a noite.

Victor Hugo

La chauve-souris

[Ode cinquième]

Oui, je te reconnais, je t'ai vu dans mes songes,
Triste oiseau! mais sur moi vainement tu prolonges
Les cercles inégaux de ton vol ténébreux;
Des spectres réveillés porte ailleurs les messages;
Va, pour craindre tes noirs présages;
Je ne suis point coupable et ne suis point heureux!

Attends qu'enfin la vierge, à mon sort asservie,
Que le ciel comme un ange envoya dans ma vie,
De ma longue espérance ait couronné l'orgueil;
Alors tu reviendras, troublant la douce fête,
Joyeuse, déployer tes ailes sur ma tête,
Ainsi que deux voiles de deuil!

Soeur du hibou funèbre et de l'orfraie avide,
Mêlant le houx lugubre au nénuphar livide,
Les filles de Satan t'invoquent sans remords;
Fuis l'abri qui me cache et l'air que je respire;
De ton ongle hideux ne touche pas ma lyre,
De peur de réveiller des morts!

La nuit, quand les démons dansent sous le ciel sombre,
Tu suis le choeur magique en tournoyant dans l'ombre.
L'hymne infernal t'invite au conseil malfaisant.
Fuis! car un doux parfum sort de ces fleurs nouvelles;
Fuis, il faut à tes mornes ailes
L'air du tombeau natal et la vapeur du sang.

Qui t'amène vers moi? Viens-tu de ces collines
Où la lune s'enfuit sur de blanches ruines?
Son front est, comme toi, sombre dans sa pâleur.
Tes yeux dans leur route incertaine
Ont donc suivi les feux de ma lampe lointaine?
Attiré par la gloire, ainsi vient le malheur!

Sors-tu de quelque tour qu'habite le Vertige,
Nain bizarre et cruel, qui sur les monts voltige,
Prête aux feux du marais leur errante rougeur,
Rit dans l'air, des grands pins courbe en criant les cimes,
Et chaque soir, rôdant sur le bord des abîmes,
Jette aux vautours du gouffre un pâle voyageur?

En vain autour de moi ton vol qui se promène
Sème une odeur de tombe et de poussière humaine;
Ton aspect m'importune et ne peut m'effrayer.
Fuis donc, fuis, ou demain je livre aux yeux profanes
Ton corps sombre et velu, tes ailes diaphanes,
Dont le pâtre conteur orne son noir foyer.

Des enfants se joueront de ta dent furieuse;
Une vierge viendra, tremblante et curieuse,
De son rire craintif t'effrayer à grand bruit;
Et le jour te verra, dans le ciel exilée,
À mille oiseaux joyeux mêlée,
D'un vol aveugle et lourd chercher en vain la nuit!
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Victor Hugo: Cartas, Teatro, Poesia — Volume IV [peça Os Burgraves], Tradução de Hilário Correia e [Odes e Baladas], Introdução, Seleção de Traduções e Traduções de Jamil Almansur Haddad, 1960, Editora das Américas, São Paulo — SP; Victor-Marie Hugo (1802 1885), francês de Besançon, fez seus primeiros estudos no Seminário de Los Nobles de Madri e no Liceu Luis le Grand de Paris, foi poeta, escritor e dramaturgo do Romantismo francês; compôs poemas desde muito jovem e aos quinze anos foi premiado em concurso de poesia da Academia Francesa; em 1822 integrou-se ao Romantismo e logo tornou-se porta voz deste movimento; em 1825, liderando um grupo de jovens escritores, criou o Cenáculo; o poeta lutou contra Napoleão III e, quando este se tornou imperador, recusou a anistia e foi para o exílio em Bruxelas, Guernsey e Jersey; obras: Bug Jargal (novela, 1820), Odes et Poésies Diverses (1822), Odes et Ballades (1826), Cromwell (drama, cujo prefácio foi considerado o Manifesto do Romantismo contra o Classicismo, 1826), Marion de Lorme (peça teatral  censurada, 1829), Les Orientales (poesias, 1829), Hernani (peça teatral, representando o fim do Classicismo, 1830), Notre Dame de Paris (romance histórico, 1831), Lucrèce e Marie Tudor (dramas, 1833), Littérature et Philosophie Mêlées e a novela Claude Gueux (ambas em 1834), Chants du Crépuscule (1835), Les Voix Intérieures (poesias, 1837), Les Rayons et les Ombres (poesias, 1840), Les Burgraves (teatro, 1843), Les Misérables (1845-1861) Os Castigos (1853), As Contemplações (1856), O Homem que Ri (1869) e outros títulos; Victor Hugo também foi estadista, elegendo-se  deputado da Assembléia Nacional e, depois, elegendo-se senador.