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quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Tobias Barreto: O Gênio da Humanidade


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Sou eu quem assiste às lutas,
Que dentro d’alma se dão;
Que sonda todas as grutas
Profundas do coração:
Quis ver dos céus o segredo;
Rebelde, sobre um rochedo
Cravado, fui Prometeu;
Tive sede do infinito,
Gênio, feliz ou maldito,
A Humanidade sou eu.

Ergo o braço, aceno aos ares,
E o céu se azulando vai;
Estendo a mão sobre os mares
E os mares dizem:  “Passai!…”
Satisfazendo ao anelo
Do bom, do grande e do belo,
Todas as formas tomei:
Com Homero fui poeta,
Com Isaías, profeta,
Com Alexandre fui rei.

Ouvi-me: venho de longe,
Sou guerreiro e sou pastor;
As minhas barbas de monge
Têm seis mil anos de dor:
Entrei por todas as portas
Das grandes cidades mortas,
Aos bafos do meu corcel,
E ainda sinto os ressábios
Dos beijos que dei nos lábios
Da prostituta Babel*.

E vi Pentápolis nua,
Que não corava de mim,
Dizendo ao sol:  “Eu sou tua,
Beija-me… queima-me assim!”
E dentro havia risadas
De cinco irmãs abraçadas
Em voluptuoso furor…
Ânsias de febre e loucura,
Chiando em polpas de alvura,
Lábios em brasas de amor!…

Travei-me em lutas imensas;
Por vezes, cansado e nu,
Gritei ao céu:  “Em que pensas?”
Ao mar:  “De que choras tu?”
Caminho… e tudo o que faço
Derramo sobre o regaço
Da história, que é minha irmã:
Chamem-me Byron ou Goethe,
Na fronte do meu ginete
Brilha a estrela da manhã.

E no meu canto solene
Vibra a ira do Senhor:
Na vida, nesse perene
Crepúsculo interior,
O ímpio diz:  “Anoitece!”
O justo diz:  “Amanhece!”
Vão ambos na sua fé!…
E às tempestades que abalam
As crenças d’alma, que estalam,
Só eu resisto de pé!…

De Deus ao imenso ouvido
A humanidade é um tropel,
E a natureza um ruído
Das abelhas com seu mel,
Das flores com seu orvalho,
Dos moços com seu trabalho
De santa e nobre ambição,
De pensamentos que voam,
De gritos d’alma, que ecoam
No fundo do coração!...

(1866)

(Dias e Noites, Organização Simões,
Rio, 1951, págs. 14/17.)


* Nota do organizador Edgard Cavalheiro:
‘Da prostituta Babel: Conta Hermes Lima que o Padre Fonseca horrorizava-se com vozes como esta do O Gênio da Humanidade: “beijos dados nos lábios da prostituta Babel, Pentápolis nua, polpas de alvura”, e muitas outras. Acudia Tobias: “Sim, senhor. Tudo isso é de provocar um santo horror naqueles que sentem crescer-lhes o órgão da religião sobre as ruínas do órgão do amor”. E, para continuar na briga, explicava que fora a leitura dos livros sagrados que lhe desenvolvera o gosto do “decotado”. (Hermes Lima, Tobias Barreto, pág. 259.)
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Tobias Barreto de Meneses (1839 1889), nascido na ex-Vila de Campos do Rio Real, hoje Tobias Barreto SE, formou-se pela Faculdade de Direito de Recife e foi jurista, professor, crítico, orador, filósofo e poeta; estudou latim e alemão, em ambiente muito intelectualizado conviveu com Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Castro Alves , defendeu o germanismo contra o predomínio da cultura francesa no Brasil; sua contribuição filosófica e científica é lembrada pela contestação às linhas gerais do pensamento jurídico dominante; em Escada PE, com o intuito de reformar as ideias filosóficas, políticas e literárias, fundou o jornal Deutscher Kämpfer (Lutador Alemão), com curta existência e pouca repercussão; escreveu e publicou os poemas O Gênio da Humanidade (1866), A Escravidão (1868), Que Mimo (1874), entre outros, todos reunidos em Dias e Noites (poesias, 1881), além de Ensaios de Filosofia e Crítica (1875), Brasilien wie es ist (1876), Ensaios de Pré-História da Literatura Alemã (1879), Estudos Alemães (1880), etc.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Tobias Barreto: Dúvida

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Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo
e surdo ao brado do universo inteiro...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
tomba por terra o pensamento altivo.

Dizem que o Cristo é filho de Deus vivo
e quem chamam também Deus verdadeiro
veio ao mundo remir o cativeiro
e eu vejo o mundo ainda cativo.

Se os reis são sempre os reis, se o povo ignavo
Não deixou de provar o duro freio,
Da tirania, da miséria, o travo;

se é sempre o mesmo engodo e falso enleio
se o homem chora e continua escravo,
de que foi que Jesus salvar-nos veio?

(A Alvorada, 14/8/1921, p.3)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Tobias Barreto de Meneses  (1839 — 1889), nascido na ex-Vila de Campos do Rio Real, hoje Tobias Barreto  SE, formou-se pela Faculdade de Direito de Recife e foi jurista, professor, crítico, orador, filósofo e poeta; estudou latim e alemão, em ambiente muito intelectualizado  conviveu com Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Castro Alves , defendeu o germanismo contra o predomínio da cultura francesa no Brasil; sua contribuição filosófica e científica é lembrada pela contestação às linhas gerais do pensamento jurídico dominante; em Escada  PE, com o intuito de reformar as ideias filosóficas, políticas e literárias, fundou o jornal Deutscher Kämpfer (Lutador Alemão), com curta existência e pouca repercussão; escreveu e publicou O Gênio da Humanidade (poesia, 1866), A Escravidão (poesia, 1868), Que Mimo (poesia, 1874), Ensaios de Filosofia e Crítica (1875),  Brasilien wie es ist (1876), Ensaios de Pré-História da Literatura Alemã (1879), Estudos Alemães (1880), Dias e Noites (1881), entre outros títulos.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Tobias Barreto: Amar

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Amar é fazer o ninho,
Que a duas almas contém,
Ter medo de estar sozinho,
Dizer com lágrimas: vem,
Flor, querida, noiva, esposa…
Cabemos na mesma lousa…
Julieta, eu seu Romeu;
Correr, gritar: onde vamos?
Que luz! que cheiro! onde estamos?
E ouvir uma voz: no céu!

Vagar em campos floridos
Que a terra mesma não tem;
Chegarmos loucos, perdidos,
Onde não chega ninguém…
E, ao pé de correntes calmas,
Que espelham virentes palmas,
Dizer-te: senta-te aqui;
E além, na margem sombria,
Ver uma corça bravia,
Pasmada olhando pra ti!

Resultado de imagem para tobias barreto de menezes
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Páginas de Ouro da Poesia Brasileira (vários autores) — Seleção e Prefácio de Alberto de Oliveira, H. Garnier, Livreiro Editor, 1911, Rio de Janeiro — RJ; Tobias Barreto de Meneses (1839 1889), nascido na ex-Vila de Campos do Rio Real, hoje Tobias Barreto SE, formou-se pela Faculdade de Direito de Recife e foi jurista, professor, crítico, orador, filósofo e poeta; estudou latim e alemão, em ambiente muito intelectualizado conviveu com Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Castro Alves , defendeu o germanismo contra o predomínio da cultura francesa no Brasil; sua contribuição filosófica e científica é lembrada pela contestação às linhas gerais do pensamento jurídico dominante; em Escada PE, com o intuito de reformar as ideias filosóficas, políticas e literárias, fundou o jornal Deutscher Kämpfer (Lutador Alemão), com curta existência e pouca repercussão; escreveu e publicou O Gênio da Humanidade (poesia, 1866), A Escravidão (poesia, 1868), Que Mimo (poesia, 1874), Ensaios de Filosofia e Crítica (1875), Brasilien wie es ist (1876), Ensaios de Pré-História da Literatura Alemã(1879), Estudos Alemães (1880), Dias e Noites (1881), entre outros títulos.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Tobias Barreto: A um Juiz da Escada

Poesia Romantica Antologia 1965
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Considerando que as flores
Existem para o nariz,
E as mulheres para os homens,
Na opinião do juiz;

Considerando que as moças,
Ariscas como a perdiz,
Devem ter seu perdigueiro,
Na opinião do juiz;

Considerando que a gente
Não pode viver feliz
Sem fazer seu namorico,
Na opinião do juiz;

Amemos todos, amemos,
É Cupido quem o diz;
Pois namoro não é crime,
Na opinião do juiz

Tobias Barreto


Nota do Organizador:
A poesia supra foi muito usada em paródias e ataques políticos: lembro-me de tê-la visto, quando criança, em jornal do interior paulista, de muitos anos antes com aquela finalidade. Na edição príncipe, uma nota esclarece que o magistrado de Escada (PE) despronunciara um réu de crime sexual, entre outras razões porque considerava não ser crime o namoro...
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Poesia Romântica — Antologia, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos (vários autores), 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Tobias Barreto de Meneses (1839  1889), nascido na ex-Vila de Campos do Rio Real, hoje Tobias Barreto  SE, formou-se pela Faculdade de Direito de Recife e foi jurista, professor, crítico, orador, filósofo e poeta; estudou latim e alemão; em ambiente muito intelectualizado conviveu com Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Castro Alves , defendeu o germanismo contra o predomínio da cultura francesa no Brasil; sua contribuição filosófica e científica é lembrada pela contestação às linhas gerais do pensamento jurídico dominante; em Escada PE, com o intuito de reformar as ideias filosóficas, políticas e literárias, fundou o jornal Deutscher Kämpfer (Lutador Alemão), com curta existência e pouca repercussão; escreveu e publicou O Gênio da Humanidade (poesia, 1866), A Escravidão (poesia, 1868), Que Mimo (poesia, 1874), Ensaios de Filosofia e Crítica (1875), Brasilien wie es ist (1876), Ensaios de Pré-História da Literatura Alemã (1879), Estudos Alemães (1880), Dias e Noites (1881), entre outros títulos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.