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[traduzido por Renata Cordeiro]
Vossa alma é paisagem escolhida
Que encantam bergamascos com folia,
Laúde, dança e quase entristecida
Máscara, em fantasiosas fantasias.
No modo menor, cantam a harmonia
Do vitorioso amor, da azada vida,
Porém, não se convencem da alegria,
E é no luar a música envolvida,
No luar calmo, triste, mas
formoso,
Que dá sonhos aos pássaros das
árvores,
E mais suspiros de êxtase aos
grandiosos
Jatos d’água, elegantes, entre os
mármores.
Clair de lune *
Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques
Jouant du luth, et dansant, et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.
Tout en chantant sur le mode mineur
L’amour vainqueur et la vie opportune,
Ils n’ont pas l’air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,
Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres
Et sangloter d’extase les jets d’eau,
Les grands jets d’eau sveltes parmi les marbres.
(Fêtes galantes — 1869)
* Nota do blogue Verso e Conversa:
o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página pesquisou e deixa registrado
que Clair de lune é um dos poemas de Verlaine que foram musicados pelo compositor
clássico Claude Debussy (1862 — 1918).
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Pequena
Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa —
Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira
Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Paul
Marie Verlaine (1844 — 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte
(Lycée Condorcet, atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário
público, bacharelou-se em Literatura, foi professor, escritor e poeta; desde cedo escrevia
poemas, inicialmente influenciado pelo parnasianismo; em 1866, estreou em
livros com Poèmes Saturniens, teve sete de seus poemas publicados no Parnasse
Contemporain; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou
a expressão 'poètes maudits' (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época
e de seu convívio — Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... —, grupo ao
qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes
e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos
críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista,
por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente
literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866),
Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans
Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement
(1889), Hombres (poemas eróticos [escritos até 1891], publicação clandestina,
1903) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq
(1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893),
Quinze jours en Hollande (1893) etc.; em 1875, no Reino Unido, Verlaine
lecionou “latim, grego, desenho e francês” no Stickney Grammar School — Boston;
participou da Comuna de Paris sem ter sido atuante nas ruas, teve poemas
musicados pelo compositor Claude Debussy em Ariettes oubliées [‘Canções
esquecidas, ciclo de seis melodias para voz e piano’]; o poeta, que foi casado com
Mathilde Mauté, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e
o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida,
Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se
socorrendo em hospitais públicos.











