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domingo, 24 de março de 2024

Medeiros e Albuquerque: Eu sei, Senhor, que não mereço nada, . . . [soneto]


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Eu sei, Senhor, que não mereço nada,
Mas ponho em tuas mãos, humildemente
Meu coração que sofre. E, resignada,
Minha alma aguarda, confiante e crente.

Quando eu chegar ao termo da jornada
Em que a morte, emboscada, espera a gente,
Tem pena de minh’alma amargurada,
Vê que eu também sou filho e sê clemente

Perdoa-me, meu Deus, se eu sou culpado,
Se tanto crime fiz, tanto pecado,
Que hoje choro contrito... E dá, Senhor,

Que no coro glorioso, que te exalta
No céu profundo, não se sinta a falta
De minha voz — cantando o teu louvor!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; José Joaquim da Costa de Medeiros e Albuquerque (1867 — 1934), pernambucano de Recife, foi funcionário público, jornalista, professor, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo, ensaísta e memorialista; na imprensa usou também os pseudônimos Armando Quevedo, Atásius Noll, J. dos Santos, Max e Rifiúfio Singapura; escreveu e publicou Pecados (poesia, 1889), Canções da decadência (poesia, 1889), Mãe Tapuia (conto, 1900), Poesias 1893 — 1901 (1904), Contos escolhidos (1907), O escândalo (drama, 1910), Marta (romance, 1920), Fim (poesia, 1922), Teatro meu... e dos outros (1923), O assassinato do general (conto, 1926), Por alheias terras (memória, 1931), Laura (romance, 1933), e muitos outros títulos; foi autor da letra do Hino da República; Medeiros e Albuquerque introduziu e tornou conhecidos os simbolistas franceses no Brasil, tendo sido ele próprio um decadentista e um dos precursores do simbolismo na poesia brasileira.

domingo, 8 de outubro de 2023

Medeiros e Albuquerque: Ilusões


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Velas fugindo pelo mar em fora...
Velas... pontos — depois... depois, vazia
A curva azul do mar, onde, sonora,
Canta do vento a triste salmodia.

Partem pálidas, brancas... Vem a aurora
E vem a noite após, muda e sombria...
E, se em porto distante a frota ancora,
É p’ra partir de novo no outro dia...

Assim, as ilusões. Chegam, garbosas,
Palpitam sonhos, desabrocham rosas
Na esteira azul das peregrinas frotas...

Chegam... Ancoram n’alma um só momento:
Logo as velas abrindo, amplas, ao vento,
Fogem p’ra longes solidões remotas...

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; José Joaquim da Costa de Medeiros e Albuquerque (1867 — 1934), pernambucano de Recife, foi funcionário público, jornalista, professor, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo, ensaísta e memorialista; na imprensa usou também os pseudônimos Armando Quevedo, Atásius Noll, J. dos Santos, Max e Rifiúfio Singapura; escreveu e publicou Pecados (poesia, 1889), Canções da decadência (poesia, 1889), Mãe Tapuia (conto, 1900), Poesias 1893 — 1901 (1904), Contos escolhidos (1907), O escândalo (drama, 1910), Marta (romance, 1920), Fim (poesia, 1922), Teatro meu... e dos outros (1923), O assassinato do general (conto, 1926), Por alheias terras (memória, 1931), Laura (romance, 1933), e muitos outros títulos; foi autor da letra do Hino da República; Medeiros e Albuquerque introduziu e tornou conhecidos os simbolistas franceses no Brasil, tendo sido ele próprio um decadentista e um dos precursores do simbolismo na poesia brasileira.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Medeiros e Albuquerque: Soneto Decadente

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Car nous voulons la nuance encore,
Pas la couleur, rien que la nuance.

Paul Verlaine

Morria rubro o sol e mansa, mansamente...
sombras baixando em flocos, lentas, pelo espaço...
Um morrer pungitivo e calmo de inocente:
doces, as ilusões fanadas no regaço.

Passa um cicio leve e suave... Num traço,
ave rápida passa súbita e tremente...
A tristeza, que vem, cinge como um baraço
a garganta: o soluço estaca ali fremente...

Lembranças de pesar... Navio que na curva
do mar, de água pesada e funda e escura e turva,
some-se de vagar das ondas ao rumor...

Ó crepúsculos sós! os exilados sentem
a angústia sem igual de amantes que pressentem
o derradeiro adeus do derradeiro amor!

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Os Sonetos (Antologia — Diversos autores), Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S.A., LR Editores Ltda, São Paulo — SP; José  Joaquim da Costa de Medeiros e Albuquerque (1867 — 1934), pernambucano de Recife, foi funcionário público, jornalista, professor, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo, ensaísta e memorialista; na imprensa usou também os pseudônimos Armando Quevedo, Atásius Noll, J. dos Santos, Max e Rifiúfio Singapura; escreveu e publicou Pecados (poesia, 1889),  Canções da decadência (poesia, 1889), Mãe Tapuia (conto, 1900), Poesias 1893 — 1901 (1904), Contos escolhidos (1907), O escândalo  (drama, 1910), Marta (romance, 1920), Fim (poesia, 1922), Teatro meu... e dos outros (1923), O assassinato do general (conto, 1926), Por alheias terras (memória, 1931), Laura (romance, 1933) e muitos outros títulos; foi autor da letra do Hino da República; Medeiros e Albuquerque introduziu e tornou conhecidos os simbolistas franceses no Brasil, tendo sido ele próprio um decadentista e um dos precursores do simbolismo na poesia brasileira.

sábado, 17 de março de 2018

Medeiros e Albuquerque: Só a Morte

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"Se me desdenhas, sinto que faleço,
De nada mais pode servir-me a vida;
De ti e só de ti me vem, querida,
Todo o alento vital de que careço.

Só a morte é possível, se perdida
Eu vir tua afeição. Nenhum apreço
Darei a tudo mais, se o que mereço
É teu desprezo, em paga à minha lida."

Ela não respondeu... Por fim, notando
Que contra a sorte é inútil que se teime
Resolvi não morrer. E tão tranqüilos

Foram os meus dias, que eu me rio quando
Penso no que ontem vi: ontem pesei-me
E achei, num mês, que eu engordei três quilos!

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Sonetos de Amor & Desamor (vários autores), Organização de Ivan Pinheiro Machado e Notas de Sergio Faraco, Coleção L&PM Pocket, vol. 1095, 2016, Porto Alegre — RS; José Joaquim da Costa de Medeiros e Albuquerque (1867 — 1934), pernambucano de Recife, foi funcionário público, jornalista, professor, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo, ensaísta e memorialista; na imprensa usou também os pseudônimos Armando Quevedo, Atásius Noll, J. dos Santos, Max e Rifiúfio Singapura; escreveu e publicou Pecados (poesia, 1889),  Canções da decadência (poesia, 1889), Mãe Tapuia (conto, 1900), Poesias 1893 — 1901 (1904), Contos escolhidos (1907), O escândalo (drama, 1910), Marta (romance, 1920), Fim (poesia, 1922), Teatro meu... e dos outros (1923), O assassinato do general (conto, 1926), Por alheias terras (memória, 1931) Laura (romance, 1933), e muitos outros títulos; foi autor da letra do Hino da República; Medeiros e Albuquerque introduziu e tornou conhecidos os simbolistas franceses no Brasil, tendo sido ele próprio um decadentista e um dos precursores do simbolismo na poesia brasileira.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Medeiros e Albuquerque: Proclamação Decadente *

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(Carta escrita por um poeta
 a 20 de Floréal,
 sendo Verlaine profeta
e Mallarmé — deus real.)

Poetas,
               são tempos malditos
os tempos em que vivemos...
Em vez de estrofes há gritos
de desalentos supremos.

Se alguns, dentre vós, cantando
nos banquetes ergue a taça,
sente convulsa, pesando,
a mão fria da Desgraça!

O Sorriso é tredo aborto
de algum soluço contido,
à beira dos lábios morto,
pelo Escárnio repelido.

E o Pranto — se o Pranto ardente
banha uma face sombria —
vem do excesso do pungente
riso mordaz de Ironia.

Que resta? Todas as crenças...
todas as crenças morreram!
Ficaram sombras imensas,
onde lumes explenderam...

Que resta? a Dúvida horrível
os sonhos todos crestou-nos...
A Natureza impassível
só conta invernos e outonos.

Se, pois, na Glória, inda crerdes,
há de enganar-vos a Glória!
Murcham-se os louros mais verdes
nas folhas éreas da História...

Os Poetas do Sentimento,
que pintam a sua idade,
vão morrer do Esquecimento
na profunda soledade.

e neste tempo em que o Homem
se altera e diferencia,
breves os cantos se somem
na indiferença sombria.

Pode a Música somente
do verso nas finas teias
conservar no tom fluente
tênue fantasma de ideias;

porque é preciso que todos
no vago dessa moldura
sintam os estos mais doudos
da emoção sincera e pura;

creiam achar no que apenas
é tom incerto e indeciso
dos seus sorrisos e penas
o anseio exato e preciso.

Que importa a Ideia, contanto
que vibre a Forma sonora,
se da Harmonia do canto
vaga alusão se evapora?
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Poetas,
                eu sei que, sorrindo,
zombam de nós os descrentes,
— Deixai! Ao pé deste infindo
ruir de Ilusões ardentes,

nós, entre os cantos sagrados,
que só tu, Poesia! animas,
passaremos embuçados
em áureos mantos de rimas!



* Nota do Organizador: Esta Proclamação não é apenas decadente; a partir da décima estrofe contém teoria simbolista, positiva e clara. É portanto, uma poesia pioneira.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; José Joaquim da Costa de Medeiros e Albuquerque (1867 — 1934), pernambucano de Recife, foi funcionário público, jornalista, professor, contista, poeta, ensaísta, romancista, teatrólogo, memorialista e orador; na imprensa usou também os pseudônimos Armando Quevedo, Atásius Noll, J. dos Santos, Max e Rifiúfio Singapura; escreveu e publicou Pecados (poesias, 1889), Canções da decadência (poesias, 1889), Mãe Tapuia (contos, 1900), Poesias 1893 — 1901 (1904), Contos escolhidos (1907), O escândalo (drama, 1910), Marta (romance, 1920), Fim (poesias, 1922), Teatro meu... e dos outros (1923), Poemas sem Versos (poesia em prosa, 1924), O assassinato do general (conto, 1926), Por alheias terras (memória, 1931) Laura (romance, 1933), e muitos outros títulos; foi autor da letra do Hino da República; Medeiros e Albuquerque introduziu e tornou conhecidos os simbolistas franceses no Brasil, tendo sido ele próprio um decadentista e um dos precursores do simbolismo na poesia brasileira.