quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Genésio dos Santos: infância


minhas irmãs na infância brincavam de casinha, fazer comidinhas, nanar bonecas... essas coisas que diziam ser brinquedo de meninas. dizem isso até hoje.

eu não.
deixava os brinquedos de lado e batalhava guerras imaginárias para conquistar o mundo.

não brinquei de carrinhos nem conquistei o mundo.


São Paulo, 2016   2017

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Genésio dos Santos Ferreira, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SPFolha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Luís Carlos: A Catulo Cearense

A tua Musa, já não mais só tua,
Por ser lírica irmão da água da fonte,
Que, de muito correr sobre o horizonte,
Rola, por fim, no mar, que a perpetua.

Tanto apura a beleza, quando estua
Nas vertigens de luz da tua fronte,
Que a Terra do Brasil faz que desponte
Na glória virgem da beleza nua.

Primeiro trovador entre os primeiros,
O Sol e a Lua são teus dois tinteiros
De tintas velhas de esplendor tão novol

Por isso, eternos, o teu estro encerra
O espírito de sol da nossa terra
E o coração de luar do nosso povo.

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, Preâmbulo de Luís Carlos Junior e Apresentação/Prefácio de Lasinha Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Baudelaire: Epílogo

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[traduzido por Alessandro Zir]

De coração alegre, subo ao topo da montanha
E ali posso contemplar a cidade debaixo do céu,
Hospital, presídio, purgatório, do inferno a sanha,

Onde como a flor floresce uma enormidade sem véu.
Tu sabes bem, oh Satã, que da minha miséria és mestre,
Que é livre de toda vaidade que vou lá colher o fel;

Mas como o velho devasso de um lupanar rupestre,
Quero mais é me perder nessa grande cortesã
Cujo charme infernal a mim atiça como a peste.

Se nos lençóis, preguiçosa, se revira toda manhã,
Pesada, confusa, gripada, ou se às ruas sai exibida
Em trajes noturnos bordados a ouro e com afã.

Te amo, oh capital infame! Prostituta, bandida!
Os prazeres que ofereces são tantos e tais,
Mas incompreendidos todos de vulgares mortais.

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Baudelaire

Épilogue

Le cœur content, je suis monté sur la montagne
D'où l'on peut contempler la ville en son ampleur,
Hôpital, lupanar, purgatoire, enfer, bagne,

Où toute énormité fleurit comme une fleur.
Tu sais bien, ô Satan, patron de ma détresse,
Que je n'allais pas là pour répandre un vain pleur;

Mais comme un vieux paillard d'une vieille maîtresse,
Je voulais m'enivrer de l'énorme catin
Dont le charme infernal me rajeunit sans cesse.

Que tu dormes encor dans les draps du matin,
Lourde, obscure, enrhumée, ou que tu te pavanes
Dans les voiles du soir passementés d'or fin,

Je t’aime, ô capitale infâme! Courtisanes
Et bandits, tels souvent vous offrez des plaisirs
Que ne comprennent pas les vulgaires profanes.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821  1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Alvarenga Peixoto: Chegai, Ninfa, chegai, chegai, pastores, . . . [soneto]

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Chegai, Ninfa, chegai, chegai, pastores,
Qu'inda que esconde Jônia as graças belas,
Márcia corre a cortina das estrelas,
Quando espalha no monte os resplandores.

Debaixo dos seus pés brotam as flores,
Quais brancas, quais azuis, quais amarelas;
E pelas próprias mãos lh'orna capelas,
Bem que invejosa, a deusa dos Amores.

Despe a serra os horrores da aspereza,
E as aves, que choravam até agora,
Acompanhando a Jônia na tristeza,

Já todas, ao raiar da nova aurora,
Cantam hinos em honra da beleza
De Márcia, gentilíssima pastora.

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Ignácio José de Alvarenga Peixoto (1744  1793), nasceu no Rio de Janeiro, poeta, fez seus estudos no Colégio dos Jesuítas, também no Rio, e bacharelou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal, onde também foi juiz; regressando ao Brasil, abandonou a advocacia para dedicar-se à indústria de mineração no vale do Sapucaí, sul de Minas Gerais; participante ativo da Conjuração Mineira, em 1789 foi preso e condenado ao degredo em terras africanas; morreu no exílio, em Angola; escreveu os poemas 'A Dona Bárbara Heliodora', 'A Maria Efigênia', 'Canto Genetlíaco' (1793), 'Estela e Nize', 'Eu Não Lastimo o Próximo Perigo', 'Eu Vi a Linda Jônia', 'Sonho Poético', entre outros; sua poesia, recolhida por Manuel Rodrigues Lapa, inscreve-se entre a dos poetas do Arcadismo e seus sonetos são considerados como alguns dos mais bem acabados daquele período; teve seus poemas publicados em Obras Poéticas de Ignácio José de Alvarenga Peixoto (Garnier, Rio de Janeiro, 1865), em edição de Joaquim Norberto de Souza e Silva.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Baudelaire: O desespero da velha

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[traduzido por Alessandro Zir]

II

               Diante do menino, por todos festejado, por todos paparicado, a velhinha enrugada deteve-se faceira: bela criatura, tão frágil quanto a velha e, como ela, sem dentes nem cabelos.
               E dele a velhinha também se aproximou, querendo agradá-lo com gestos e sorrisos.
               Mas o menino horrorizado se debatia debaixo das carícias da boa senhora decrépita, e fazia a casa toda ressoar com seu alarido.
               A boa velha então se recolheu à solidão que desde sempre a aguardava. Em um canto, repetia a si mesma entre lágrimas:
                Ah! Para nós, mulheres infelizes e velhas, passou a época de ser agradável, mesmo aos inocentes; e aos pequenos que desejamos amar, a esses apavoramos.

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Baudelaire

II

Le désespoir de la vieille

La petite vieille ratatinée se sentit toute réjouie en voyant ce joli enfant à qui chacun faisait fête, à qui tout le monde voulait plaire; ce joli être, si fragile comme elle, la petite vieille, et, comme elle aussi, sans dents et sans cheveux.

Et elle s'approcha de lui, voulant lui faire des risettes et des mines agréables.

Mais l'enfant épouvanté se débattait sous les caresses de la bonne femme décrépite, et remplissait la maison de ses glapissements.

Alors la bonne vieille se retira dans sa solitude éternelle, et elle pleurait dans un coin, se disant: — “Ah! pour nous, malheureuses vieilles femelles, l'âge est passé de plaire, même aux innocents; et nous faisons horreur aux petits enfants que nous voulons aimer!” 
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821  1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Mário de Andrade: Canção

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…de árvores indevassáveis
de alma escura sem pássaros
Sem fonte matutina
Chão tramado de saudades
À eterna espera da brisa,
Sem carinhos... como me alegrarei?

Na solidão solitude,
Na solidão entrei.

Era uma esperança alada,
Não foi hoje mas será amanhã,
Há de ter algum caminho
Raio de sol promessa olhar
As noites graves do amor
O luar a aurora o amor... que sei!

Não solidão, solitude,
Na solidão entrei
Na solidão perdi-me…

O agouro chegou. Estoura
No coração devastado
O riso da mãe-da-lua,
Não tive um dia! uma ilusão não tive!
Ternuras que não me viestes
Beijos que não me esperastes
Ombros de amigos fiéis
Nem uma flor apanhei.

Na solidão, solitude,
Na solidão entrei,
Na solidão perdi-me
Nunca me alegrarei.

(Rio, 22/XII/1940)
Poesias Completas  Livraria Martins Editora 
1955  São Paulo  págs 360  361

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Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna — Apresentação, Seleção e Notas Biobibliográficas de Mário da Silva Brito, 1972, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Mário Raul de Morais Andrade (1893 1945), paulista e paulistano, formou-se em Ciências e Letras e, depois, em Canto no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, ensaísta, folclorista, professor de Música e de Artes e um dos expoentes da Semana de Arte Moderna de 1922 e do Modernismo; escreveu e publicou Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Paulicéia desvairada (1922), A escrava que não é Isaura (1925), Amar, verbo intransitivo (1927), Ensaios sobre a música brasileira (1928), Macunaíma (romance, 1928), Compêndio da história da música (1929), Modinhas imperiais (1930), Música, doce música (1933), Belazarte (1934), Música do Brasil e Poesias (ambos em 1941), O Movimento Modernista (1942), Aspectos da Literatura Brasileira (1943), e tantos outros títulos em verso, prosa e canto; colaborou com os periódicos A Gazeta e O Echo (São Paulo), A Cigarra (São Paulo), Papel e Tinta, Revista do Brasil, Illustração Brasileira, Klaxon, Revista de Antropofagia, Terra Roxa (revistas modernistas, em São Paulo e no Rio de Janeiro), Jornal do Commércio (São Paulo), Diário Nacional (São Paulo), O Estado de São Paulo e em outros veículos informativos e de arte pelo país afora.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Geir Campos: Urgência *

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A que não veio e viria
seria acaso Maria,
a de cabelos de noite
e pensamentos de dia
abrindo ao mais triste escuro
o seu clarão de alegria. 

Seria talvez Maria
a que viria e não veio
com seu samburá vazio
e o seu espírito cheio
de cores para ajudar
a fazer bonito o feio.

A dos cabelos de noite
e pensamentos de dia
talvez sentisse que o mundo
assim não a entenderia:
urgente mudar o mundo
para que venha Maria!

GEIR CAMPOS

Urgence

[versão para o francês: Olga Savary]

Celle que n’ est pas venue et que viendrait
serait par hasard Marie,
celle des cheveux de nuit
et pensées de jour
ouvrant au plus triste obscur
sa lueur de joie.

Ce serait peut-être Marie
celle qui viendrait et qui n’est pas venue
avec son panier vide
et son esprit plein
de couleurs pour aider
à rendre beau ce qui est le laid.

Celle des cheveux de nuit
et de pensées de jour
peut-être qu’ elle sentirait que le monde
ne le comprendrait pas ainsi:
c’ est urgent de changer le monde
pour que vienne Marie!


Nota da edição:
* Poema compilado por Henrique Alves/Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilingue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França;  Geir Nuffer Campos (1924 — 1999), nascido em São José do Calçado — ES, formado em Direção Teatral (FEFIERJMEC, Rio de Janeiro), mestre e doutor em Comunicação Social (UFRJ), foi piloto da marinha mercante, professor universitário, poeta, jornalista, tradutor e ativista cultural; deixou-nos extensa obra e de grande valor; escreveu e publicou Rosa dos rumos (poesia, 1950), Arquipélago (poesia, 1952), Coroa de sonetos (1953), Da Profissão do Poeta (1956), Canto Claro e poemas anteriores (1957), Operário do Canto (1959), O Gato Ladrão (teatro infantil, 1959), O Sonho de Calabar (teatro, 1959), A verdadeira história da Cigarra e da Formiga (teatro infantil, 1960), Carta aos Livreiros do Brasil (ensaio, 1960), Cantigas de acordar mulher (1964), Rúben Dário, Poeta Participante (ensaio, 1967), Édipo-Rei, de Sófocles (teatro, 1967), Castro Alves ou o Canto da Esperança (teatro, 1972), Diz que sim & Diz que não, de Brecht (teatro, 1977), Canto de Peixe e Outros Cantos (1977), O Vestíbulo (conto, 1979), Tradução e Ruído na Comunicação Teatral (ensaio, 1981), Conto & Vírgula (1982), Pequeno Dicionário de Arte Poética (dicionário, 1960 e diversas outras edições), O que é Tradução (1986), etc etc etc, além de participação em muitas antologias poético-literárias; traduziu textos de Rilke, Kafka, Daniel Defoe, Brecht, Walt Whitman e outros autores.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Alvarenga Peixoto: Eu vi linda Jônia e, namorado, . . . [soneto]

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Eu vi a linda Jônia e, namorado,
Fiz logo voto eterno de querê-la;
Mas vi depois a Nise, e é tão bela,
Que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se, neste estado,
Eu não sei distinguir esta daquela?
Se Nise agora vir, morro por ela,
Se Jônia vir aqui, vivo abrasado.

Mas ah! que esta me despreza, amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E aquela me não quer, por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me destes laços:
Ou faze destes dois um só semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços!

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Ignácio José de Alvarenga Peixoto (1744  1793), nasceu no Rio de Janeiro, poeta, fez seus estudos no Colégio dos Jesuítas, também no Rio, e bacharelou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal, onde também foi juiz; regressando ao Brasil, abandonou a advocacia para dedicar-se à indústria de mineração no vale do Sapucaí, sul de Minas Gerais; participante ativo da Conjuração Mineira, em 1789 foi preso e condenado ao degredo em terras africanas; morreu no exílio, em Angola; escreveu os poemas 'A Dona Bárbara Heliodora', 'A Maria Efigênia', 'Canto Genetlíaco' (1793), 'Estela e Nize', 'Eu Não Lastimo o Próximo Perigo', 'Eu Vi a Linda Jônia', 'Sonho Poético', entre outros; sua poesia, recolhida por Manuel Rodrigues Lapa, inscreve-se entre a dos poetas do Arcadismo e seus sonetos são considerados como alguns dos mais bem acabados daquele período; teve seus poemas publicados em Obras Poéticas de Ignácio José de Alvarenga Peixoto (Garnier, Rio de Janeiro, 1865), em edição de Joaquim Norberto de Souza e Silva.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Glauco Mattoso: Soneto da Imortalidade [787]

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O cara, se é político, o poder
cobiça, é claro. Além, porém, da grana,
fascina alguns aquilo que na humana
vaidade faz cosquinha: alguém os ler.

A esses, escritor não basta: crer
a si mesmo “imortal” é o que os ufana.
Entrar pra Academia acham bacana:
que sexo usar fardão dá mais prazer.

Não falta puxa-saco que os eleja:
qualquer discurso vale como “a obra”,
e o chá lhes é servido de bandeja.

Se a crítica o talento a um deles cobra,
medíocre poesia o autor despeja
da mão dalgum “fantasma” que se dobra.

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As Mil e Uma Línguas — Série Mattosiana, Volume 3, 2008, Dix Editorial — Annablume, São Paulo — SP; Glauco Mattoso, ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta, ensaísta, ficcionista e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas, na USP São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil — de 1977 a 1981 (compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições Trote, Rio de Janeiro RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São Paulo SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Panacéia  Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, Rotten Records, São Paulo SP), O que é: Poesia Marginal (ensaio, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O que é: Tortura (ensaio, 1984, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo SP) etc etc etc, e bota etecétera nisso; colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos literários, e ainda colabora; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Gustavo Santiago: Símbolo

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Eu sei de uma velhinha de cem anos,
Ou talvez mais,
Que ainda tem sonhos, ainda tem ideais,
Ainda se nutre de ilusões e enganos.

Mora no vão de uma floresta,
À beira-rio,
E, seja inverno ou seja estio,
Anda-lhe sempre o coração em festa.

É cega, já não vê, de tanta cousa
Que viu por este mundo.
Nos seus olhos, porém, foi tão gloriosa
A luz , e o seu poder foi tão fecundo,
Que ainda agora,
Naquela noite escura,
A doce criatura
Parece contemplar risonha a aurora.

Na trama de um tecido original,
De pura fantasia,
Trabalha dia a dia,
Sem rival;
E não cai folha ou passa grão de areia,
Que a não sinta desperta trabalhando
No seu tear,
A cantar:
É a aranha a tecer a sua teia,
É a lua sonâmbula sonhando!

(Biblioteca Nacional de Obras Célebres,
 Vol. XXII, pág. 11.176)
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, por Andrade Muricy, (Coleção de Literatura Brasileira 12), 1973, Ministério de Educação e Cultura Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Gustavo Santiago (1872 —  ? ), nascido no Rio de Janeiro, fez parte de seus estudos em Portugal, foi advogado, jornalista e poeta; escreve Andrade Muricy sobre o poeta: “Dentre os grupos em que se dividiu a grei simbolista, após a morte de Cruz e Sousa, mestre incontestado, Gustavo Santiago conviveu sobretudo com o que se formara em torno de Nestor Vitor, e em que figuravam, entre outros, Oliveira Gomes, Silveira Neto, Tibúrcio de Freitas e Maurício Jubim.”; obras publicadas: Saudades (poema, 1892), O Cavaleiro do Luar (poema, 1901), Pássaros Brancos, versos de 1892 — 1898 (1903), Pelo Norte (1906), além de crônicas, crítica literária e contos publicados em jornais e revistas da época; foi diretor do periódico político-literário A Página; faleceu no Rio de Janeiro.