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I
Sobre aquele pinheiro aureolado,
De inerte e vegetal melancolia,
Um passarinho, alegre e alvoroçado,
Cantou, cantou, durante todo o dia...
Fiquei-me a ouvi-lo mudo e extasiado...
Mas, por fim, perguntei-lhe: Que alegria,
Se fez, em ti, ó corpo acostumado
À cruz das tuas asas de agonia?
Que descobriste, além, no céu profundo?
Ou que milagre aconteceu no mundo?
Grande coisa decerto adivinhaste...
A aurora revelou-te o seu mistério?
E divina canção de amor etéreo,
À luz, sombra de Deus, alevantaste?
II
E a avezinha serena e confiada,
Num olhar de ternura me envolveu;
E, em sua doce voz iluminada
E tão cheia de graça, respondeu:
Meu canto é luz do sol em mim filtrada;
Vou a cantar... e canta a luz do céu.
E das aves da noite a voz cerrada
É penumbra que nelas se embebeu.
Sonho a perfeita e mística alegria!
Desejo ser a alma da harmonia,
Que toda a terra e todo o espaço inflama!
Quero ser o Infinito e a Eternidade;
Não ser a estrela e ser a claridade;
Ser apenas o Amor, não ser quem ama.
(As
Sombras — 1907)
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A Poesia de Teixeira de Pascoaes — Ensaio
e Antologia, de Jacinto do Prado Coelho, 1945, Atlantida Livraria Editora Ltda.,
Coimbra — Portugal; Teixeira de Pascoaes, pseudônimo de Joaquim Pereira Teixeira
de Vasconcelos (1877 — 1952), português de Amarante, formado em Direito pela Faculdade
de Coimbra — exerceu os ofícios de advogado e juiz por breve período —, foi poeta
e escritor; estreou na literatura publicando Embriões em 1895, tendo sido consagrado
com o lançamento de Sempre em 1898, obra “que simboliza o encontro do poeta consigo
mesmo”; Pascoaes, considerado um “poeta-filósofo”, foi cultor e iniciador do então
denominado “movimento saudosista” nas artes literárias lusitanas; em 1911, no Porto,
ajudou a fundar o grupo Renascença Portuguesa, o qual tinha como objetivo lutar
pela elevação cultural da república portuguesa; fundou a revista Águia, órgão do
grupo Renascença, e a dirigiu até 1917; suas obras: em poesia: Embriões (1895),
Belo, 1ª parte (1896), Belo, 2ª parte (1897), À Minha Alma e Sempre (ambos em 1898), Terra
Proibida (1900), Jesus e Pã (1903), Vida Eterna (1906), As Sombras (1907), Senhora
da Noite (1909), Marãnos (1911), Regresso ao Paraíso (1912), Verbo Escuro (1914),
Elegia da Solidão (1920), Cantos Indecisos (1921), O Pobre Tolo (1924), Últimos
Versos (publicação póstuma, 1953) e outros; em prosa: O
Espírito Lusitano e o Saudosismo (1912), O Génio Português na sua Expressão Filosófica,
Poética e Religiosa (1913), A Arte de Ser Português (1915), À Beira Num Relâmpago
(1916), Os Poetas Lusíadas (conferências, 1919), O Bailado (1921), A Nossa Fome
(1923), Livro de Memórias (autobiografia, 1928), O Homem Universal (1937) ...; biografias
romanceadas: Napoleão (1940), O penitente Camilo Castelo Branco (1942), Santo Agostinho
(1945) etc.

