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Ligado com aspérrimas algemas
Ao rígido penedo;
Com um agudo cravo de diamante
O peito traspassado;
Convulso o rosto, e tinto em negro sangue,
Que brota da ferida,
As sonoras pancadas do martelo,
Com que bate Vulcano
Nas cavernas do Cáucaso retumbam:
Porém constante e forte
Não geme Prometeu; antes acusa
A Júpiter de ingrato:
Inocente se julga; à força ímpia
Não cede do tirano.
Assim, assim, a mísera pobreza,
A contrária fortuna
Deve imóvel sofrer uma alma grande,
Ó Sousa esclarecido!
Varra o credor soberbo a pobre casa
Co desabrido alcaide;
Dorme no duro chão tão descansado,
Como no leito brando,
O intrépido varão, que do destino
Prova os fatais revezes.
Coa dourada carroça o mole eunuco
O pise ou atropele,
Não lhe inveja a riqueza. Que outrem lavre.
Nas ribeiras do Tejo
Cos malhados bezerros longa terra,
Não lhe acorda a cobiça.
Vente embora do Sul; caindo, açoite
Ao negro mar que brada,
O pluvial Arcturo; a vara creste
Do podado bacelo
Espessa chuva de árida saraiva;
Nada lhe abala o peito.
Enroscada no braço macilento
A venenosa serpe
Chegue ao seio cruel a triste inveja;
E a pérfida mentira
Cos titubantes beiços o crimine,
Rirá no cadafalso.
Só dos delitos pode o vil remorso
Mudar-lhe a cor serena
Do tranquilo semblante: a mão potente
De quem o fez só teme.
Os homens não receia, que a virtude
O coração lhe anima;
E a consciência sã, a fé intacta,
Os austeros costumes.
Não fantásticas honras isto ensinam.
Assim douram a morte
Os Uticenses, Régulos, os Mários,
Apesar do sepulcro.
Sobre as asas do tempo assim passaram
As letárgicas ondas
Do rio sonolento. Assim c'roado
De gangéticas palmas,
O destemido Castro n'alta serra,
Que templo foi de Cíntia,
Retirado vivia; a mão invicta,
Terror e glória d'Ásia,
Os silvestres arbustos cultivava,
Subjugando a vaidade.
"Passe à gineta o tímido guerreiro,
Que com as armas limpas
Da batalha fugiu espavorido;
Porque do sangue antigo
A árvore apresenta. Ainda que honrado,
O desvalido mostre
As roxas cicatrizes das feridas
Que sofreu pela pátria,"
Dizia o grande Castro. O lisonjeiro
Estudando o segredo
De agradecer desprezos, não se afaste
Da sala do ministro.
Ali dourando o sol os altos montes
Na madrugada veja;
Ali o deixe a lua, que vermelha
No horizonte metida,
Estende os frouxos raios pelas ondas;
Se com pública fraude
Ao miserável órfão a capela
Subnegar-lhe pretende.
Aspire à beca o julgador iníquo,
Que aos olhos da justiça
Roubou a santa venda, que equilibra
Nas vendidas balanças
Os dourados delitos. Sofra, e busque
A vergonhosa cena
Da súbita catástrofe o privado,
Que o rosto não conhece
Da clara fama, da imortal memória,
Da honra, e da virtude.
Mas qual Marpézia rocha, um peito forte
Não roga, não se abate.
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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até
o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições
de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Pedro António Correia Garção (1724 — 1772), português
de Lisboa, também conhecido pelo pseudônimo de Coridon Erimateu, foi poeta e um
dos fundadores e presidente da Arcádia Lusitana; escreveu poesias, epístolas, comédias,
dissertações e orações em defesa dos novos princípios da língua e da poesia portuguesa,
além de duas peças em verso, Teatro Novo e Assembléia ou Partida; foi funcionário
do Estado português e trabalhou na Gazeta de Lisboa; por ter-se incompatibilizado
com o Marquês de Pombal, foi preso em 1775 e veio a morrer na prisão; suas obras
foram publicadas postumamente: Obras Poéticas (1778), Obras Poéticas de P. A. Correia
Garção (1888), Obras Completas (1957).



