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Mal nos conhecemos
inauguramos a palavra “amigo”!
“Amigo” é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que
se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão!
“Amigo” (recordam-se, vocês
aí,
escrupulosos detritos?)
“amigo” é o contrário de
inimigo!
“Amigo” é o erro corrigido,
não o erro perseguido,
explorado,
é a verdade partilhada,
praticada.
“Amigo” é a solidão derrotada!
“Amigo” é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo
fértil,
“amigo” vai ser, é já uma
grande festa!
(No Reino da Dinamarca — 1958)
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A lua no cinema e outros
poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz,
Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP;
Alexandre O’Neill (1924 — 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os
estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na
Previdência — ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação
Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do
ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e
por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos
distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista
Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des
Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa,
que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem
ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes
atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas,
esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas,
publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e
legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo
lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento
e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras:
Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado
(1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na
ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979),
Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As
Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim
(crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador
de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo
Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor;
recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma
italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o
Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a
Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da
ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo
tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.