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domingo, 11 de outubro de 2009

O Espelho SP: O sumiço do Tutu

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(O Espelho SP n° 8  novembro de 1980)

          Tutu sumiu. Da última vez que o vimos estava saindo do Banco no dia vinte passado. De lá para cá já se vão mais de quinze dias e até agora nem sombra dele. E a cidade toda já está sentindo a sua falta. Por isso, eu, Satélio, Sátiro, Ana Rosa e P. da Silva, entre outros, estamos seriamente empenhados em procurá-lo.
          Ficamos sabendo que o seu mano caçula já não se alimenta direito. Não bebe nem come. Está emagrecendo a olhos vistos. É preciso que a sua mãe o faça engolir, meio forçado, uma sopinha de macarrão e um mingau de maizena. E mesmo assim ele só come um pouquinho. Tá se definhando. Já não vai à escola, já não quer brincar. Se não encontrarmos Tutu logo, não sabemos o que será do caçula. Todos os dias estamos saindo às ruas, megafones em punho, gritando: Cadê o Tutu? Tutu, o caçula precisa de você!
          Já estivemos na fila do Pis-Pasep e indagamos dos presentes, mas ninguém soube nos informar o seu paradeiro. Disseram que por ali o Tutu não havia passado. Fazia tempo que não o viam. Consultamos o açougueiro, não sabia do Tutu. O dono do armazém também não. Falamos com o moço da financeira e ele apenas repetiu o que já sabíamos. Que o Tutu estava sumido. E calou-se. Parece que por ordens superiores ele não estava autorizado a dizer mais nada. Do motorista de táxi soubemos que muito raramente ele via o Tutu. Os bancários, esses não souberam informar-nos.
          Na escola onde Tutu estudava, professores e alunos foram unânimes em afirmar que havia muito tempo ele estava faltando, sem justificativa. Não sabiam de maiores detalhes. Lembramos do burburinho no ABC e para lá nos dirigimos. Conversamos com os metalúrgicos que juraram não terem visto o Tutu por aquelas bandas. Mas nos encheram de esperança e nos desejaram boa sorte na busca.
          O lixeiro de nossa cidade não conhece nenhum Tutu nem sabe de quem conheça.
          Nos hospitais e pronto-socorros, falamos com médicos e enfermeiras que informaram não ter o Tutu dado entrada ali. No IML, conversamos com os funcionários. Solícitos, nos acompanharam até uma sala, onde ficam os indigentes, sem identificação. Vimos os corpos, pendurados como carne nos açougues, mas não reconhecemos o Tutu em nenhum deles. Nem tinham a aparência de que algum dia tivessem cruzado com o Tutu. E também, se o tivessem, já não adiantava mais nada. Estavam mortinhos da silva.
          Perto da delegacia perguntamos ao tira, que fez uma cara do tipo não me comprometa e saiu com um comentário:  Sumiu, é?! Será que não foi por problema político? Não o conhecia pessoalmente, mas já vira suas fotos nos arquivos do departamento. Se o encontrasse pelas ruas, sem dúvida o reconheceria.
          Chegamos a ir até Perus. Passamos pelo cemitério e conversamos com o coveiro. Este jurou que se Tutu tivesse sido morto e enterrado com nome falso, certamente ele o teria reconhecido e nos avisado antes de baixá-lo aos sete palmos. Tutu não passara por ali nem como defunto e muito menos vivo.
          Diacho! Por que entranhas se meteu o Tutu? Deu o sumiço e ninguém nos presenteia com uma informação nova.
          Tutu, de onde estiver, volte! Pelamor! O motorista de táxi, o bancário, o metalúrgico, todos o esperam de braços abertos. Chega de andá entafuiado que nem tatu na toca! O Natal está aí! Nós gostamos de você! Gostamos sim!
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Esta crônica foi publicada, originalmente, n'O Espelho  SP (nº 8   novembro de 1980), um jornal direcionado aos funcionários da Ag. Centro do Banco do Brasil, em São Paulo; logo após, foi reproduzida pelo Jornal Movimento, um semanário da imprensa nanica que combatia a ditadura e suas seqüelas; foi também reproduzida em outro jornal sindical, o Idéias! (n° 1, janeiro/1983), dirigido aos funcionários do então Banco Bamerindus, hoje HSBC; por motivos óbvios à época não foi assinada, no entanto, Satélio, Sátiro, Ana Rosa, P.da Silva e Genésio dos Santos são a mesma pessoa e, réus confessos, reconhecem a autoria deste trabalho.