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Como
custa subir esta montanha,
Que ascende
para a luz e para a glória
E mais se
eleva quanto mais se ganha
Na
escalada fantástica, ilusória!...
O
espírito a pairar além dos astros,
E em meio
da ascensão indefinida,
Vê os
aspectos múltiplos da vida
Baixos,
distantes, quase que de rastros.
O aflito
olhar volvendo de repente
Da
eminência da escarpa inacessível,
Contempla
tudo que lhe fica em frente
E o que
se move abaixo do seu nível:
Céus
azuis, vastos, largos e profundos,
Cheios de
luz e cheios de mistério,
Na
transparência ideal do azul sidéreo
Sustendo
a força cósmica dos mundos;
Verdes
mares revoltos e bravios,
Com os
continentes porfiando em guerra,
Bebendo
as veias colossais dos rios,
Na ânsia
imortal de avassalar a terra;
Amplos,
vagos e claros horizontes,
Onde se
perde o sonho de granito
Das
colinas, dos cerros e dos montes,
Num
anseio infinito de infinito;
Rios
caudais de cristalinas águas,
Nascidos
nas adustas cordilheiras,
Rolando
em catadupa as suas mágoas
No pétreo
coração das cachoeiras;
Campos
extensos a perder de vista,
Na doce
maravilha da paisagem,
Dando a
feliz e sugestiva imagem
Dos
encantos da vida panteísta;
Brenhas,
sertões, florestas seculares,
Selvas
escuras, densas, misteriosas,
Coutos de
leões, de tigres e jaguares,
Protegidos
das árvores umbrosas;
Verdes ilhas
em flor que o mar afaga,
Contando os
seus marítimos segredos
Na alva
espuma que aflora nos rochedos
À cantiga
nostálgica da vaga;
Terras selvagens
e cidades cultas,
Criações de
Deus e maravilhas do homem,
Prodígios
que nem mesmo as catapultas
Ciclópicas
dos séculos consomem;
Tudo contemplo,
enfim, desta eminência
Que a luz
do meu espírito domina,
Que eu já
nem sei se é humana ou sé divina
Esta febre
perpétua de ascendência.
E ainda
quero galgar a eterna penha,
Nesta altura
onde um Deus eu me suponho,
Que dos
mundos que viu do alto desdenha
Porque o
mundo é menor do que o seu sonho...
Embora o
pasmo do deslumbramento,
Sempre a
buscar o termo da subida,
Cismo de
olhos absortos para a vida,
Vivendo apenas
para o pensamento.
Cismo,
admirando tudo que contemplo:
— A
terra, o mar, o céu, a imensidade...
Tudo que
existe neste grande templo,
Portas abertas
para a eternidade...
E fico,
então, num êxtase profundo
E a alma
bendiz, atônita, surpresa,
O ventre
maternal da Natureza,
Tanto mais
virgem quando mais fecundo!
(Zodíaco —
1917)
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Da Costa e
Silva: Poesias completas — 1885/1985, Edição do Centenário, 3ª edição revista e
anotada por Alberto da Costa e Silva, 1985, Editora Nova Fronteira e Instituto Nacional
do Livro — Fundação Nacional Pró-Memória, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco
Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela
Faculdade de Recife — PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda,
exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos
literários — o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o
próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela
poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns
meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à
escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas
publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os
“preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife — PE, fez
matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por
força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no
serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis
do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em
Direito e se formou em 1913; teve seus textos — crônicas e crítica literária —
publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o
Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas
[MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi
co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos
entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de
Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora
(1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias
Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido
como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino
do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia
Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino,
frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e
contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se
deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]”
e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente
perturbada”.