terça-feira, 31 de março de 2026

Da Costa e Silva: A Escalada

 
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Como custa subir esta montanha,
Que ascende para a luz e para a glória
E mais se eleva quanto mais se ganha
Na escalada fantástica, ilusória!...

O espírito a pairar além dos astros,
E em meio da ascensão indefinida,
Vê os aspectos múltiplos da vida
Baixos, distantes, quase que de rastros.

O aflito olhar volvendo de repente
Da eminência da escarpa inacessível,
Contempla tudo que lhe fica em frente
E o que se move abaixo do seu nível:

Céus azuis, vastos, largos e profundos,
Cheios de luz e cheios de mistério,
Na transparência ideal do azul sidéreo
Sustendo a força cósmica dos mundos;

Verdes mares revoltos e bravios,
Com os continentes porfiando em guerra,
Bebendo as veias colossais dos rios,
Na ânsia imortal de avassalar a terra;

Amplos, vagos e claros horizontes,
Onde se perde o sonho de granito
Das colinas, dos cerros e dos montes,
Num anseio infinito de infinito;

Rios caudais de cristalinas águas,
Nascidos nas adustas cordilheiras,
Rolando em catadupa as suas mágoas
No pétreo coração das cachoeiras;

Campos extensos a perder de vista,
Na doce maravilha da paisagem,
Dando a feliz e sugestiva imagem
Dos encantos da vida panteísta;

Brenhas, sertões, florestas seculares,
Selvas escuras, densas, misteriosas,
Coutos de leões, de tigres e jaguares,
Protegidos das árvores umbrosas;

Verdes ilhas em flor que o mar afaga,
Contando os seus marítimos segredos
Na alva espuma que aflora nos rochedos
À cantiga nostálgica da vaga;

Terras selvagens e cidades cultas,
Criações de Deus e maravilhas do homem,
Prodígios que nem mesmo as catapultas
Ciclópicas dos séculos consomem;

Tudo contemplo, enfim, desta eminência
Que a luz do meu espírito domina,
Que eu já nem sei se é humana ou sé divina
Esta febre perpétua de ascendência.

E ainda quero galgar a eterna penha,
Nesta altura onde um Deus eu me suponho,
Que dos mundos que viu do alto desdenha
Porque o mundo é menor do que o seu sonho...

Embora o pasmo do deslumbramento,
Sempre a buscar o termo da subida,
Cismo de olhos absortos para a vida,
Vivendo apenas para o pensamento.

Cismo, admirando tudo que contemplo:
 A terra, o mar, o céu, a imensidade...
Tudo que existe neste grande templo,
Portas abertas para a eternidade...

E fico, então, num êxtase profundo
E a alma bendiz, atônita, surpresa,
O ventre maternal da Natureza,
Tanto mais virgem quando mais fecundo!

(Zodíaco — 1917)

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Da Costa e Silva: Poesias completas — 1885/1985, Edição do Centenário, 3ª edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1985, Editora Nova Fronteira e Instituto Nacional do Livro — Fundação Nacional Pró-Memória, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos crônicas e crítica literária publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Lirio Resende: Exortação a Primeiro de Maio

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O trabalho não é festa,
Enquanto no mundo resta
Uma exploração que empesta,
O bem-estar, a paz geral!
Protestai, trabalhadores;
Fazei rufar os tambores
E marchai contra os horrores
Do maldito capital!

Explorados e premidos
Afinai vossos sentidos
Deixem de ser iludidos!
Há uma nova Luz, olhai!
Quem só quer emancipar,
Deve agir, tem de lutar,
Quer em Terra, quer em Mar,
Vossas forças congregai!

Avante, segui à luta,
Pois que a burguesia estulta,
Vai dirigindo a labuta
No mais torpe barbarismo!...
E se nosso esforço é falho,
Tombaremos no trabalho,
Sem repouso ou agasalho,
Despenhados num abismo!

Vamos todos à conquista,
Do novo sol que se avista,
E muitas léguas não dista,
Do elmo dos altos dos montes!
É o fanal da Liberdade,
Apontando à Humanidade,
Da futura sociedade
Os fraternos horizontes!

Primeiro de Maio é dia
De luta, não de alegria,
Pois que lembra a tirania
Contra os modernos pioneiros!
Dia também de descanso
Para darmos um balanço,
Pois nossos passos no avanço,
Vão prosseguindo ligeiros!

Neste Primeiro de Maio
Redobremos sem desmaio,
Nossa firmeza, e num raio
Mostremos não vacilar!
Que impere o nosso direito!
E tudo que diz respeito,
Para alcançarmos o preito,
Da Liberdade e o Bem-Estar!

(A Razão, 1º/5/1919, p. 9.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro, Renovação, entre outros...).

domingo, 29 de março de 2026

Rubens Rodrigues Torres Filho: Pétalas

 
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Por entre as pétalas de isto, um supremo alguém, que qualquer dia nos diria, elaboradamente em pranto, seu nítido lampejo, tartarugas afogadas, e nisto me oriento, breves acúmulos de faltas, falsas fogueiras espontâneas, giz, cal e jazer inane entrelaçado em lianas funerárias e mundanas, como manda o figurado dos sentidos que eram cinco antes de se multiplicarem pela falta de sentido que era múltipla e sorria por entre os dedos do acaso e os dados que os deduziam, números inumeráveis, sonoras plantas e plenas de vegetal intensidade, graves lirismos registram seu ocо ocular, cavado por cavernas de sentido que por recato encaravam segredos escancarados ou secretas obviedades em mansas concavidades onde espertos se aninhavam, pseudoanimais semióticos que em cisma sinalizavam.

(Novolume: 5 Livros de Poesia, Poemas Novos,
Inéditos, Avulsos e Traduções. São Paulo,
Iluminuras, 1997 © Célia Cavalheiro.)

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigu­es Torres Filho (1942 2023), paulista de Botucatu, formou-se em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, foi poeta, filósofo, professor e tradutor; participou da criação da revista Almanaque: Cadernos de Literatura e Ensaio; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Figura (1987), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu os volumes Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

sábado, 28 de março de 2026

Wisława Szymborska: Campo da fome em Jaslo

 
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[traduzido por Regina Przybycien]

Escreve isto. Escreve. Com tinta comum
em papel comum: não lhes deram comida,
todos morreram de fome. Todos?. Quantos?
É uma grande campina. Quanta grama
coube a cada um? Escreve: não sei.
A história arredonda os esqueletos para zero.
Mil e um é sempre e apenas mil.
Esse um, é como se nunca existisse:
embrião imaginado, berço vazio,
cartilha aberta para ninguém,
ar que ri, grita e cresce,
escada para um vazio que corre para o jardim,
lugar de ninguém na fila.

Estamos nesta campina, onde se fez carne.
Mas ela se cala como uma testemunha comprada.
Ao sol. Verde. Ali perto um bosque,
madeira para mascar, debaixo da casca o que beber —
uma porção diária de vista
enquanto a cegueira não chega. No alto
um pássaro a deslizar pelas bocas à sombra
das asas nutritivas. As mandíbulas se abriam,
dente batia contra dente.
À noite no céu brilhava uma foice
e ceifava o pão sonhado.
Mãos voavam de ícones enegrecidos
segurando cálices vazios.
Na cerca de arame farpado
um homem se contorcia.
Cantava-se com terra na boca. Linda canção
sobre como a guerra atinge direto o coração.
Escreve como aqui há silêncio.
Sim.

(Sal — 1962)

Wisława Szymborska

Obóz głodowy pod Jasłem

Napisz to. Napisz. Zwykłym atramentem
na zwykłym papierze: nie dano im jeść,
wszyscy pomarli z głodu. Wszyscy. Ilu?
To duża łąka. Ile trawy
przypadło na jednego? Napisz: nie wiem.
Historia zaokrągla szkielety do zera.
Tysiąc i jeden to wciąż jeszcze tysiąc.
Ten jeden, jakby go wcale nie było:
płód urojony, kołyska próżna,
elementarz otwarty dla nikogo,
powietrze, które śmieje się, krzyczy i rośnie,
schody do pustki zbiegającej do ogrodu,
miejsce niczyje w szeregu.

Jesteśmy na tej łące, gdzie stało się ciałem.
A ona milczy jak kupiony świadek.
W słońcu. Zielona. Tam opodal las
do żucia drewna, do picia spod kory
porcja widoku codzienna,
póki się nie oślepnie. W górze ptak,
który po ustach przesuwał się cieniem
pożywnych skrzydeł. Otwierały się szczęki,
uderzał ząb o ząb.
Nocą na niebie błyskał sierp
i żął na śnione chleby.
Nadlatywały ręce z poczerniałych ikon
z pustymi kielichami w palcach.
Na rożnie kolczastego drutu
chwiał się człowiek.
Śpiewano z ziemią w ustach. Śliczna pieśń
o tym, że wojna trafia prosto w serce.
Napisz, jaka tu cisza.
Tak.

(Sól 1962)
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Wisława Szymborska: Um amor feliz [poemas], bilíngue — Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, 1ª edição, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wołanie do Yeti (Chamando por Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

sexta-feira, 27 de março de 2026

William Carlos Williams: Primavera e o mais

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

A caminho do hospital de isolamento
sob as vagas de nuvens mosqueadas
de azul que chegam impelidas
do nordeste um vento frio. Além, o
ermo de extensos campos lamacentos
pardos de erva ressequida, em pé ou aparada

nesgas de água parada
dispersão de árvores altas

Ao longo do caminho todo, ruivos, roxos
bifurcados, erectos, ramalhudos
os arbustos e arvoredos com
folhas de vide, pardas, mortas a seu pé
sem vides

Sem vida aparente, a vagarosa
e tonta primavera se aproxima

Eles entram o novo mundo nus,
friorentos, inseguros de tudo,
salvo que entram. À sua volta sempre
o vento frio, já conhecido

Hoje a relva, amanhã a tesa folha
espiralada da cenoura brava
Um por um os objetos se definem
Mais depressa: luz, perfil de folha

Eis agora porém a hirta dignidade da
entrada Entanto, a mudança profunda
acometeu-os: arraigados, eles
aferram-se ao chão e começam a acordar

(Primavera e o mais 1923)

William Carlos Williams

Spring and all

By the road to the contagious hospital
under the surge of the blue
mottled clouds driven from the
northeast a cold wind. Beyond, the
waste of broad, muddy fields
brown with dried weeds, standing and fallen

patches of standing water
the scattering of tall trees

All along the road the reddish
purplish, forked, upstanding, twiggy
stuff of bushes and small trees
with dead, brown leaves under them
leafless vines

Lifeless in appearance, sluggish
dazed spring approaches

They enter the new world naked,
cold, uncertain of all
save that they enter. All about them
the cold, familiar wind

Now the grass, tomorrow
the stiff curl of wildcarrot leaf
One by one objects are defined
It quickens: clarity, outline of leaf

But now the stark dignity of
entrance Still, the profound change
has come upon them: rooted, they
grip down and begin to awaken

(Spring and all —  1923)
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An early martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938), The Wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — Books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (A música do deserto e outros poemas, 1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Jean Richepin: Homem, cruel, tem cuidado! . . .

 
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[traduzido por Ary de Mesquita]

Do “Nivose”

Homem, cruel, tem cuidado!
Pois não vês espedaçado
O nosso corpo aos teus pés?
Cessa tuas investidas,
Somos pobres margaridas,
Mas tu não ouves, quem és?!

Eu sou aquele coitado,
Que, em tempos de namorado,
A vossa astúcia traiu;
Morrei, mentiroso bando,
Foi vossas pét’las contando
Que minha amante mentiu!

Jean Richepin

X

«Homme aux yeux cruels, prends garde!
Tu nous écrases! Regarde
Nos cadavres sous tes pas.
Tu pleures et tu t’irrites.
Nous sommes les marguerites.
Pitié! Mais tu n’entends pas.

Si, je vous entends, menteuses.
Ô peuple d’entremetteuses,
Sois-tu donc anéanti!
Mourez sous mes mains brutales!
C’est en comptant vos pétales
Que ma maîtresse a menti.»

(Les Caresses [groupement: Nivôse], 1877)
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Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Auguste-Jules Richepin, ou Jean Richepin (1849 1926), franco-argelino nascido em Medeia Argélia, à época departamento francês no norte da África, teve seus primeiros aprendizados escolares no Lycée Charlesmagne, estudou e diplomou-se em Literatura na École Normale Supérieure, ambos em Paris, foi poeta, romancista, dramaturgo, marinheiro, estivador, porteiro, professor ...; em 1870-1871, voluntariou-se e participou da Guerra franco-pruissiana; em 1873, estreou como ator e dramaturgo com a peça L'Étoile e, já frequentador do Quartier Latin a Montmartre, bairros parisienses, sua vida boêmia e marginal acabou por inspirá-lo na criação das primeiras e provocativas poesias, as quais, já na estréia com sua obra La chanson de Gueux (poemas, 1876), tal como o ocorrido com Baudelaire (na publicação de Fleurs du Mal), lhe renderam uma condenação à prisão, além do pagamento de 600 francos de multa, pelo fato de alguns dos poemas terem sido considerados ofensivos e terem causado escândalo social; suas obras: coleções de poemas: Chanson des gueux (1876), Les Caresses (groupements: Floréal, Thermidor, Brumaire et Nivôse, 1877), Les Blasphemes (1884), La Mer (1886), Les Litanies de la mer (1894), Mes Paradis (1894), La Bombarde (1899), Poèmes durant la guerre: 1914-1918 (1919), Les Glas (1922) ..., romances: Les Morts bizarres (1876), Madame André (1878), La Glu (1881), Le Pave (1883), Miarka la fille à l'ours (1883), Les braves gens (1886), Césarine (1888) ..., e peças teatrais: Nana Sahib (drame en vers en 7 tableaux, 1883), Le Chemineau (drame en 5 actes, 1897), etc.; o poeta também compôs textos para músicos, colaborou em vários jornais, pertenceu à Académie Française (Academia Francesa); um “viajante incansável”, andejou por Londres, viajou pela Itália, Espanha, Alemanha, Escandinávia, Norte da África, ocasiões em que proferia conferências e redigia artigos para a imprensa parisiense.

Goethe: A rosinha do campo

 
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[traduzido por ‘frei’ Pedro Sinzig]

O rapaz viu florescer
No campo a rosinha,
Nova e galante a valer;
Correu, p'ra de perto a ver;
Viu-a tão lindinha.
Rosa, minha flor gentil!
Rosa mimosinha!

Disse-lhe: "Vou te apanhar,
Ó fragrante rosa!"
Ela disse: "Eu sei picar,
Que em mim sempre hás de pensar,
Na flor espinhosa!"
Rosa, minha flor gentil!
Rosa mimosinha!

E o selvagem a arrancou,
A débil rosinha!
Destemida ele o picou,
Mas, mais forte, ele a levou,
A pobre florzinha!
Rosa, minha flor gentil!
Rosa mimosinha!

Goethe

Heidenröslein

Sah ein Knab ein Röslein stehn,
Röslein auf der Heiden,
War so jung und morgenschön,
Lief er schnell, es nah zu sehn,
Sah’s mit vielen Freuden.
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.

Knabe sprach: Ich breche dich,
Röslein af der Heiden!
Röslein sprach: Ich steche dich,
Dass du ewig denkst an mich,
Und ich will’s nicht leiden.
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.

Und der wilde Knabe brach
’s Röslein auf der Heiden;
Röslein wehrte sich und stach,
Half ihm doch kein Weh und Ach,
Musst es eben Leiden.
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quarta-feira, 25 de março de 2026

Agrippa d’Aubigné: Vamos fazer, Diana, o jardim cultivado: . . . [soneto]

 
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Vamos fazer, Diana, o jardim cultivado:
Vós sereis guardiã e dama, eu, lavrador.
Fornecereis o campo, e darei o labor,
Para sermos por ele os dois dignificados.

Nossos olhos serão por flores deleitados,
De um verde-flóreo, sendo o canteiro senhor
Das sementes, e só meus olhos, regador,
E seus zéfiros, meus suspiros inflamados;

Nele, podereis ver lindezas mil, floridas:
Lis, cravos, rosas, sem espinhos, margaridas,
A ancólia e o amor-perfeito, e mais tarde escolher

Depois da flor da espera, as frutas adoçadas
Pelo tempo, e deixar a renda partilhada:
A mim todo o labor, a vós todo o prazer.

Agrippa d'Aubigné

Nous ferons, ma Diane, un jardin fructueux

Nous ferons, ma Diane, un jardin fructueux:
J'en serai laboureur, vous dame et gardienne.
Vous donnerez le champ, je fournirai de peine,
Afin que son honneur soit commun à nous deux.

Les fleurs dont ce parterre éjouira nos yeux
Seront vert-florissant, leurs sujets sont la graine,
Mes yeux l'arroseront et seront sa fontaine,
Il aura pour zéphyrs mes soupirs amoureux;

Vous y verrez mêlés mille beautés écloses,
Soucis, oeillets et lys, sans épines les roses,
Ancolie et pensée, et pourrez y choisir

Fruits sucrés de durée, après des fleurs d'attente,
Et puis nous partirons à votre choix la rente:
A moi toute la peine, et à vous le plaisir.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Theodore Agrippa D’Aubigné (1552 1630), francês de Saint-Maury de Saintonge, comuna de Pons, teve educação “esmerada”, desde criança já lia o francês e também o latim, o grego e o hebraico, foi poeta satírico, soldado e cronista; após a morte do pai em 1563, estudou em Paris e em Genebra; consta de sua biografia ter mostrado seu valor tanto na guerra quanto nos conselhos da política; com a coroação de Henrique de Navarra como rei da França, Agrippa D’Aubigné foi nomeado governador em Maillezais Vendéia e, “não podendo mais empunhar as armas, empunhou a pena e escreveu suas duas obras capitais”: História Universal e Os Trágicos, duas criações que “foram condenadas a ser queimadas”, o que fez com que o poeta não mais se sentisse seguro na França [Paris] e voltasse para Genebra; após seu segundo casamento, em 1623, “levou uma vida reservada, ocupando-se em revisar e completar as suas obras e publicar novos poemas.”; escreveu e publicou Os Trágicos (Les Tragiques, poema épico satírico composto por sete livros, 1616), A Primavera do Senhor d’Aubigné ou Hecatombe a Diana, 1568 — 1575 (Printemps, L'Hécatombe à Diane, uma centena de sonetos, mais estrofes e odes, publicação póstuma, 1874), História Universal de 1550 a 1601 (Histoire Universsele, 1616 1618), Confissão do Muito Católico Senhor de Sancy (Confession du Sieur de Sancy, publicação póstuma, 1660), As Aventuras do Barão de Faeneste (Les Aventures du baron de Faeneste, publicado entre 1617 e1630), Pequenas obras mistas do Senhor de Aubigné (Petites Oeuvres Mêlées du sieur d’Aubigné — Meditações sobre os Salmos, poesia religiosa, epigramas, 1630), Sua Vida aos Filhos (Sa Vie à ses enfants, obras da velhice, póstumo, 1729); Agrippa D’Aubigné é tido como um dos maiores autores barrocos da França, sua obra “foi redescoberta no século XIX, período do Romantismo, notadamente por Victor Hugo e Sainte-Beuve.”