quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Célia Reis: Merenda escolar


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          Dona Sônia
          Sim, Rose
          Eu vim dizer pra senhora que não tem tempero pra temperar a comida da merenda.
          Ah, tá! Eu vou encomendar
          Então, é que eu avisei à senhora há duas semanas. Disse que precisava providenciar, pois já tinha pouco e logo acabaria.
          É, eu sei Rose, mas eu me esqueci.
          E agora, dona Sônia? Porque acabou tudo, não tem óleo, nem cebola...
          Ah Rose, faz sem mesmo.
          Mas dona Sônia, outro dia a senhora me mandou fazer o purê de batata com água, porque não tinha leite. E os alunos não comeram, a comida foi todinha para o lixo. Era eu colocar no prato, eles experimentarem aquele purê insosso, aguado e a comida ia direto para o lixo. Me deu tanta dó.
          Ah, Rose, pare com esse sentimentalismo, se jogaram fora é porque não estavam com fome. Essa gente pensa que é quem? Nem tem comida em casa e querem banquete na escola?
          Mas dona Sônia, a situação hoje é pior, acabou até o sal. A senhora já pensou purê de batata sem leite e sem sal? Batata e água? E sem sal?
          É o que tem pra hoje, Rose. Vou tentar não me esquecer de fazer o pedido desses temperos.
          Eu posso pelo menos fazer menos comida, porque eu sei que eles não vão comer e assim diminui o desperdício, dona Sônia.
          Nem pensar, Rose, faça a quantidade certa para todos os alunos da escola, não tem problema que vá para o lixo. Tem problema, pra mim, se não sirvo a merenda. Se eles não comem, o problema é deles.
          Eu fico com vergonha, dona Sônia, de oferecer essa merenda, assim desse jeito para os alunos. Eu faço a comida com gosto, bem temperada, pra eles comerem bem. Muitos alunos só tem essa refeição servida na escola. Eu fico tão feliz quando eles comem, abrem o sorrisão de satisfação e diz: quero mais, tia!
          Tá pensando que é Madre Tereza de Calcutá, Rose? Essa gente não merece tanta consideração não, povo mal acostumado, a culpa disso é desse governo assistencialista. Escola é lugar de estudar, não é restaurante não.
          Mas eles estudam melhor com a barriga cheia, a senhora não acha?
          Acho sim, por isso faça o seu melhor com o que tem, e eles se quiserem estudar de barriga cheia, vão comer o que é servido, nem vão se importar se o purê é feito com água. Que eu saiba esse povo nem sabe o que é leite.
          Mas o governo não manda dinheiro pra senhora comprar o leite pra fazer o purê, dona Sônia?
          Manda sim, Rose, mas eu tenho muitas coisas pra fazer, pra me preocupar, a Secretaria de Educação solicita muitas coisas, e essas são prioridades para mim, afinal eu não posso me indispor com meus superiores. Eu não sou diretora efetiva, Rose, se os meus superiores se aborrecem comigo, perco o meu posto de diretora, e aí terei que voltar pra sala de aula. Deus me livre, aí terei que conviver diariamente com esses alunos mortos de fome.
          Não fala assim dona Sônia. Deus tá vendo.
          Já falei pra você parar com esse sentimentalismo, Rose. Eu estudei, Rose, fiz pedagogia, mesmo achando desnecessário. Mas fiz, tenho o título que me dá o direito de ficar aqui onde estou, no conforto de uma sala, só mandando os outros fazerem. Não preciso fazer o que se deve fazer, basta colocar no papel que foi feito.
          Bom, a senhora é quem sabe, dona Sônia, como disse, a senhora é estudada, e bem por isso deveria ser mais humana. Eu vou lá fazer o purê. Purê de batata com água e sem sal. Nossa mãe! Acho que nem no tempo das senzalas os negros eram tão maltratados.

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Antologia volume IV — Coletivo Cultural Poesia na Brasa [uma penca de poetas], Apresentação do Coletivo, Prefácio de Flavia Bischain Rosa, 2012, Vila Brasilândia, São Paulo — SP; Célia Reis é historiadora e educadora em escolas públicas de São Paulo; além da foto acima, é o que consta do conto que a autora escreveu para esta Antologia do Coletivo Cultural Poesia na Brasa; em pesquisa googleana, o blogueiro deste Verso e Conversa foi infeliz na busca e mais nada encontrou a respeito da historiadora e educadora Célia Reis, nem acerca do seu texto-conto Merenda escolar; este Verso e Conversa fica no aguardo de possíveis contribuições dos visitadores e leitores, e, já de antemão, agradece; a fotografia de Célia Reis é de autoria da fotógrafa Sonia Bischain.

Edgar Allan Poe: Para Helen (Whitman)

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[traduzido por José Lino Grünewald]

Eu te vi uma vez só uma anos atrás:
Não posso dizer quantas — porém não muitas.
Era uma meia-noite de julho; e lá fora
A lua esférica, tal tua alma, planando,
Procurava um caminho através do céu,
Lá caiu um sedoso-prata, véu de luz,
Com o mormaço, calmaria e sonolência,
Acima dos rostos revolvidos de mil
Rosas que vicejavam num jardim de encanto,
Onde não se agitava o vento, ou só de leve
Caiu nos rostos revolvidos dessas rosas
Que deram, em retribuição ao amorluz,
As almas aromáticas em morte extática 
Caiu nos rostos revolvidos dessas rosas;
Sorriram e morreram no canteiro, encantado
Por ti, e em poesia de tua presença.

Vestida toda em branco, em banco violeta
Eu te vi semi-reclinada; enquanto a lua
Caiu nos rostos revolvidos lá das rosas,
E no teu próprio, revolvido ai, em tristeza!

Foi o Destino, na meia-noite de julho
Foi o Destino (cujo nome é também Tristeza),
Que me parou diante daquele portão
Para aspirar o incenso das rosas em sono?
Nenhum passo ecoou: dormia o odiado mundo,
Menos você e eu apenas (Oh, céu! Oh, Deus!
Como vibro juntando estas duas palavras!)
Menos você e eu apenas. Parei Olhei
E num instante todas as coisas sumiram.
(Ah, lembre-se que esse jardim era encantado!)
O fulgor perolar da lua foi-se embora:
Bancos musgosos e caminhos sinuosos
Flores felizes e as árvores murmurantes

Não mais vistas: os próprios aromas das rosas
Feneceram nos braços dos ares que adoram.
Tudo tudo expirou menos tu menos tu:
Exceto apenas a luz divina em teus olhos
Exceto talvez a alma em teus olhos erguidos.
Eu só via eles eram o mundo pra mim.
Eu só via eles só os via durante horas
Somente os via até que a lua fosse embora.
Que incultos cantos de amor parecem escritos
Sobre as celestiais esferas cristalinas!
Quão escuro um pesar! Mas quão bela a esperança!
Quão silentemente sereno um mar de brios!
Quão ousa uma ambição! no entanto quão profunda
Quão abismal a capacidade de amar!

Mas agora, afinal, Diana sai da vista,
Para um divã oriental de nuvem negra;
E tu, um espectro, entre as árvores tumulares
Te evolaste. Somente os olhos teus ficaram.
Eles não partiriam nunca mesmo foram.
Clareando meu rumo para casa à noite,
Não me deixaram (como as esperanças) desde então,
Eles me seguem levam-me através dos anos
São meus serventes eu porém escravo deles.
Seu ofício é iluminar e estimular
Minha função, salvar-me em sua luz brilhante,
E ser purificado em sua flama elétrica,
Também santificado no seu fogo elísio.
Enchem minha alma de Beleza (Esperança),
E longe estão no Céu estros a quem me ajoelho
Tristes, quietos, vigias de minha noite;
E no meridiano irradiar do dia
Ainda os vejo duas belas cintilantes
Vênus, jamais exterminadas pelo sol.

Edgar Allan Poe

To Helen (Whitman)

I saw thee once once only years ago:
I must not say how many but not many.
It was a July midnight; and from out
A full-orbed moon, that, like thine own soul, soaring,
Sought a precipitate pathway up through heaven,
There fell a silvery-silken veil of light,
With quietude, and sultriness, and slumber,
Upon the upturn’d faces of a thousand
Roses that grew in an enchanted garden,
Where no wind dared to stir, unless on tiptoe
Fell on the upturn'd faces of these roses
That gave out, in return for the love-light,
Their odorous souls in an ecstatic death
Fell on the upturn'd faces of these roses
That smiled and died in this parterre, enchanted
By thee, and by the poetry of thy presence.

Clad all in white, upon a violet bank
I saw thee half reclining; while the moon
Fell on the upturn'd faces of the roses,
And on thine own, upturn'd alas, in sorrow!

Was it not Fate, that, on this July midnight
Was it not Fate, (whose name is also Sorrow,)
That bade me pause before that garden-gate,
To breathe the incense of those slumbering roses?
No footstep stirred: the hated world an slept,
Save only thee and me. (Oh, Heaven! oh, God!
How my heart beats in coupling those two words!)
Save only thee and me. I paused I looked
And in an instant all things disappeared.
(Ah, bear in mind this garden was enchanted!)
The pearly lustre of the moon went out:
The mossy banks and the meandering paths,
The happy flowers and the repining trees,

Were seen no more: the very roses' odors
Died in the arms of the adoring airs.
All — all expired save thee save less than thou:
Save only the divine light in thine eyes
Save but the soul in thine uplifted eyes.
I saw but them they were the world to me.
I saw but them saw only them for hours
Saw only them until the moon went down.
What wild heart-histories seemed to he enwritten
Upon those crystalline, celestial spheres!
How dark a wo!, yet how sublime a hope!
How silently serene a sea of pride!
How daring an ambition! yet how deep
How fathomless a capacity for love!

But now, at length, dear Dian sank from sight,
Into a western couch of thunder-cloud;
And thou, a ghost, amid the entombing trees
Didst glide away. Only thine eyes remained.
They would not go they never yet have gone.
Lighting my lonely pathway home that night,
They have not left me (as my hopes have) since.
They follow me they lead me through the years
They are my ministers yet I their slave.
Their office is to illumine and enkindle —
My duty, to be saved by their bright light,
And purified in their electric fire,
And sanctified in their elysian fire.
They fill my soul with Beauty (which is Hope),
And are far up in Heaven the stars I kneel to
In the sad, silent watches of my night;
While even in the meridian glare of day
I see them still two sweetly scintillant
Venuses, unextinguished by the sun!

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página deixa exposto que o poema To Helen foi escrito para Mrs. Sarah Helen Whitman (1803 — 1878), poeta e ensaísta.
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Edgar Allan Poe (1809 1849), norte-americano nascido em Boston Massachusetts, foi escritor, contista, romancista, poeta, crítico literário, conferencista e editor; Poe, órfão de mãe e com o pai abandonando a família, foi acolhido por família rica, o que lhe possibilitou boa educação; ingressou na Universidade de Virgínia, se destaca em Línguas Românicas antigas e modernas (neolatinas); envolveu-se com mulheres, bebidas e jogos, se endividou, saiu da faculdade, engajou-se no exército, de onde foi expulso por indisciplina; escreveu abundantemente e publicou seus textos em uma diversidade de jornais e revistas, ganhou diversos prêmios; foi colaborador no jornal Messenger, de Richmond, no qual chegou a ser editor; também foi editor associado da revista Burton’s Gentleman’s Ma­gazine e da Graham’s, além de ter tido acesso e contribuído em outros periódicos; Edgar Allan Poe, escrevendo contos de terror, policiais e de mistério, é tido como inaugurador de um novo gênero e estilo na literatura, sendo considerado figura expoente do romantismo americano e tendo influenciado e inspirado muitos escritores Melville, Conan Doyle, Agatha Christie, Chesterton, Jorge Luis Borges e outros; suas obras: em poesia, Tamerlane and other Poems (1827), Al Aaraaf (1829), The City in the Sea (1831), Silence (1840), Lenore (1843), The Raven (O Corvo, 1845), A Dream Within a Dream (1849), Annabel Lee (1849), The Bells (1849), em prosa, contos, Berenice (1835), The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher, 1839), The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos da Rua Morgue, 1841), The Pit and the Pendulum (O Poço e o Pêndulo, 1842), The Gold-Bug (O Escaravelho de Ouro, 1843), The Black Cat (O Gato Preto, 1843), The Cask of Amontillado (O Barril Amontillado, 1846), The philosophy of composition (A Filosofia da Composição ensaio-análise do poema O Corvo, 1846), e outros textos em verso e prosa.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Rocha Miranda: Escrevendo barras

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Tô na Barra Funda truta escrevendo as barras
lá na Sapopemba parça nóis se esbarra
Barra, Barrabás quase que o sangue jorra
Burro é homem só com o berro, sem ele o cu se borra

Gata borralheira no Princesa Izabel
Uma preta é pedra e uma foda é um pel
Torre de chopp no shopping como fosse torre Eifel
Só que em Paris o sabor é trufa, São Paulo é só fel

Uns nos bancos dos réus, outros no Banco Central
a dor que fere a alma sara no sarau
Todo inferno astral aqui parece místico
Ponto de prostituição também é ponto turístico

É São Paulo, cê tá ligado
rico é executivo, pobre é executado
No turismo paulista eu sou o guia perfeito
Conheço os guetos do centro e o epicentro dos gueto

Pecado capital, pecado nas capitais
olha os capitães matando nos matagais
Moda escravagista dentro do metrô
Lembra navio negreiro, visual retrô

No mundo tenho marra, no caos ou na farra
nada me amarra, caminho eu não erro
Vou escrevendo barras, a vida é uma barra
quero barra de ouro e não barra de ferro

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Poetas do Sarau Suburbano — Volume 2, (vários autores), Organizador: Alessandro Buzo, Prefácio de César Tralli, Posfácio I de Kamau e Posfácio II de Rashid MC, 2013, Edições Suburbano Convicto, São Paulo — SP; MC Rocha Miranda, nascido em 1987, paulista e paulistano, morador do Sapopemba, Zona Leste, é músico, rapper, poeta e participante do grupo Q. I. Alforria e do coletivo/banca Audácia; em 1997 ouviu os Racionais MC, já conhecia Gabriel o Pensador, e aí a coisa foi andando...; em 2014 estreou em projeto solo o álbum Pra 5ª Categoria Também Ser 5 Estrelas, com produções de Tico Pro, Hadji Suinara, Nefasto e Rincon Sapiência, lançado pela South2East Recordz.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Wallace Stevens: O rei do sorvete


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[traduzido por Décio Pignatari]

Chame o enrolador de grandes charutos,
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passado.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.

Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 24.06.84

Wallace Stevens

The emperor of ice-cream

Call the roller of big cigars,
The muscular one, and bid him whip
In kitchen cups concupiscent curds.
Let the wenches dawdle in such dress
As they are used to wear, and let the boys
Bring flowers in last month's newspapers.
Let be be finale of seem.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Take from the dresser of deal,
Lacking the three glass knobs, that sheet
On which she embroidered fantails once
And spread it so as to cover her face.
If her horny feet protrude, they come
To show how cold she is, and dumb.
Let the lamp affix its beam.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Harmonium (1923, 1931)

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; suas obras: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), Transport to summer (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos Williams e Marianne Moore.

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Torquato Neto: era um pacato cidadão de roupa clara . . .


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era um pacato cidadão de roupa clara
seu terno, sua gravata lhe caíam bem
seu nome, que eu me lembre, era ezequias
casado, vacinado e sem ninguém.
brasileiro e eleitor, seu ezequias
reservista de terceira e com família
três filhos, prestações e alguns livros
(enciclopédias e biografias).
era uma pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
cumpria seus deveres, trabalhava
chegava cedo, em casa de madrugada
lutando pelo pão de cada dia.
era um pacato cidadão de roupa clara
e todo dia passava e me dizia
que o mundo estava andando muito mal
eu perguntava por que, eu perguntava
seu ezequias nunca me explicava
apenas repetia
lá dentro do seu puro tropical
este mundo vai seguindo muito mal
este mundo, meu filho, vai seguindo muito mal.
ah, seu ezequias!
que pena, que desastre, que tragédia
que coisa aconteceu naquele dia
seu ezequias, ah, seu ezequias
saiu do emprego e foi tomar cachaça
e apenas de manhã voltou pra casa
batendo na mulher, xingando os filhos
seu ezequias, ah, seu ezequias
era um pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
e agora é a vergonha da família.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

domingo, 27 de agosto de 2023

Débora Garcia: Ópera das pedras


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          A luz amarela da televisão iluminava o rosto daquelas duas criaturas, sentadas uma ao lado da outra, mas separadas por um imenso e silencioso abismo.
          No sofá, João como sempre, estava roncando. Sua rotina de trabalho na obra era pesada, exaustiva. Distraída, Dona Jurema lembrou-se de seus meninos, do tempo em que aquele barraco era pequeno para tanta gente. No fundo dos seus pensamentos, ouvia ao longe, o barulho dos meninos aprontando, e o velho atrás, brigando com os coitadinhos.
          Suspirou profundamente de tristeza A vida foi tão dura comigo pensava. Mas religiosa que era, logo buscava conforto para a revolta que parecia jorra-lhe garganta fora como um vômito incontrolável Deus não dá um fardo maior do que a gente pode carregar Dizia a si mesma num processo de autoconvencimento. O casal teve seis filhos. Desses, quatro não vingaram, morreram ainda pequeninos, vítimas das precárias condições de moradia, alimentação e saneamento básico. O mais velho morreu assassinado aos treze anos devido às más companhias. E Josenildo, o único que vingou, sumiu no mundo, ninguém sabia de seu paradeiro há anos. Ao se lembrar de seu filho, o coração de Dona Jurema se enchia de ódio, ódio de João, de sua brutalidade e ignorância que a afastou de seu menino.
           Acorda, acorda bicha, acorda pra cuspí que a vida num tá fácil não. Cê num qué ficá locona? Fumô várias pedra minha ontem? Agora ti vira, dá teus pulos, dá o cu, faz o que tu quisé, mas ti vira! Ti vira que num sô santa pra fazê caridade tá me entendendo?
          Sem saber ao certo onde estava, abriu os olhos com dificuldade, em meio ao lixo, à sujeira, e àquele exército de zumbis do qual era um soldado.
           Já vô porra! Já vô! Disse levantando com dificuldade.
           Como é mesmo teu nome bicha?
           Geni.
          Que nome de guerra é esse heim? Que nome de guerra de merda é esse heim, bicha? É por isso que tu num arranja nem boquete a um real! Todo o grupo caiu na risada.
           Vê se num fode! Já não basta essa porra desses policial vim acabá com a nossa paz, agora você vai ficar me tirando? Só porque tô chegando agora?
           É, a vida num é fácil... Quem disse que ia sê fácil!? Tem que sê batizada pra entrá pro grupo! Agora abre o jogo, que porra é essa de Geni?
           É a Geni do Chico Buarque.
           Xiiiii gente, num é que a bicha é culta? Há, há, há...
          A líder do grupo deu seguimento ao ritual de batismo de Geni, que a todo o momento era ridicularizada, não somente por seu nome, mas por suas formas esqueléticas. Risadas medonhas cortavam o silêncio das ruas abandonadas da Luz.
          Em meio à confusão de lembranças, Josenildo ouviu distante a voz de sua mãe, que vivia cantarolando as músicas de Chico Buarque enquanto cuidava da casa. Dona Jurema conheceu o cantor na casa de uma granfina, onde trabalhava como diarista. Era apaixonada pelo coroa de olhos azuis, de voz feia mas afinada. Sempre ouvia a música Geni e o Zepelim, gostava da historinha, que não entendia direito, mas achava bonitinha.
          Desnorteado, lentamente Josenildo levou a mão à cabeça. Meteu os dedos entre os cabelos embaraçados e tocou no couro, uma grande cicatriz. A marca de um dia inesquecível, o dia em que virou Geni. Tinha então dezesseis anos, e com tão pouca idade já carregava o fardo de ser gay, nordestino e favelado. Todos os dias eram gozações no colégio e repressão em casa. Seu João era violento e impiedoso. Vô te dá uma coça pra tu aprendê a sê homi, cabra sem vergonha! Dizia seu João com a cinta em punho, todas as vezes que Josenildo em algum momento de descontração esboçava qualquer trejeito que indicasse um comportamento homossexual, ou quando ouvia nos bares, nas rodas de amigos, alguma insinuação sobre a orientação sexual de seu filho. Por vezes Josenildo teve vontade de se matar, por vezes tentou, mas não teve sucesso. Por isso, morria aos poucos, a cada dia, a cada humilhação sofrida.
          Certa noite, quando voltava da escola, foi surpreendido por um grupo de meninos encapuzados. Ficou parado, apavorado, sem saber o que fazer.
           E então, bichinha, onde você pensa que vai? Tentou correr num corre não, agora você vai ter o que gosta. Vai ser nossa mulherzinha, como sempre quis. É... A gente sabe o que você quer..., quer uma pica no meio do seu cu. Agora você vai ter várias... E riram, riram do desespero de Josenildo.
          Quando tentou correr levou uma forte pancada na cabeça e desmaiou. Acordou com a dor de um corpo violentado. Um após o outro, noite adentro, eles se divertiram até cansar. Por diversas vezes perdeu o sentido, saiu do corpo como uma forma de não presenciar aquela cena, na qual era protagonista. Deixaram-no nos fundos do seu barraco, amordaçado, imobilizado. O sol nascia, o cheiro do esgoto que sempre o incomodara não fazia qualquer diferença. Tudo parecia sem sentido, somente uma imensa dor, no corpo e na alma. Por quê? Por quê? No barraco, Dona Jurema, como de costume, ouvia Chico Buarque e cantarolava Geni e o Zepelim, sua música predileta. Encolhido e amordaçado, reduzido à sua impotência diante da situação em que estava, Josenildo passou a ouvir aquela cantiga melancólica. Passou a prestar atenção na letra da música, e se sentiu dentro da história. Ele era Geni, feita pra apanhar, boa de cuspir, apedrejada desde sempre. Resignou-se e assumiu a sua identidade, a sua condição de estar no mundo. Decidida, Geni partiu numa nuvem fria, em seu Zepelim, ora prateado, ora negro, como a escuridão. Não disse uma palavra à mãe ou ao pai , Dizer o que? Pra que? Pra quem?...
           Hei! Tá onde heim? Anda, anda bicha, faz teus corre se não quiser que eu estrague a sua cara! Disse a líder do grupo, encostando uma navalha no rosto de Geni, que saiu correndo para buscar uma forma de quitar sua dívida.
          No local, uma emissora de televisão transmitia uma reportagem sobre a situação dos dependentes de crack. Geni passou em frente a uma das câmeras. Imediatamente Dona Jurema reconheceu seu filho, aliás, o que sobrou dele. Seus olhos se encheram de lágrimas, o coração, disparou.
           João! João, acorda homi! Vi Josenildo... É ele! Ele tá lá... Lá na cracolândia!
          Sem esboçar nenhum sentimento, João abriu os olhos lentamente Não conheço nenhum Josenildo. Fechou os olhos. A televisão continuou a tagarelar. Dona Jurema sangrou por dentro, pediu a Deus pela vida de seu filho. O silêncio voltou a imperar, e as pedras, continuaram a atingir Geni enquanto fugia em seu Zepelim.

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Antologia volume IV — Coletivo Cultural Poesia na Brasa [uma penca de poetas], Apresentação do Coletivo, Prefácio de Flavia Bischain Rosa, 2012, Vila Brasilândia, São Paulo — SP; Débora Garcia da Silva, paulista e paulistana do Bairro de Itaquera — Zona Leste, formada assistente social pela UNESP Universidade Estadual Paulista, é poetisa, compositora, cantora, atriz, gestora cultural e palestrista; atua na Associação Cultural Literatura no Brasil, em Suzano SP, um canal de incentivo à formação de novos leitores e escritores e de divulgação do trabalho dos escritores locais; participação em antologias: Antologia Cadernos Negros, números 34 e 35 (Quilombhoje, 2011 e 2012), Antologia Erês e Heranças (Quilombhoje, 2012), Antologia & Coletânea Coletivo Perifatividade Volume 2 (2012); produções em áudio e audiovisual: O menino e o Livro (curta metragem, Buriti Filmes, 2010), DVD CenoPoesiaMusicada Marginal (Coletivo Cultural Marginaliaria, 2011), CD de Literatura Volume I e Vídeo Literatura Volumes II e III (Assoc. Cultural Literatura no Brasil, 2011, 2013 e 2014), Documentário Vidas de Carolina (Instituto Criar de Cinema, TV e Novas Mídias, 2013); projetos culturais: Poesia Cantada & Música Declamada (música e poesia, desde 2012), Cenas, prosas e versos de Carolina (teatro e audiovisual, 2014), Carolina — a jóia da favela (teatro, 2014); Coroações — Aurora de poemas (2014) é seu primeiro livro publicado; a poetisa atua em saraus pela paulicéia e é idealizadora do Sarau das Pretas.

sábado, 26 de agosto de 2023

Ana Cristina Cesar: Algazarra


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a fala dos bichos
é comprida e fácil:
miados soltos
na campina;
águias
hidráulicas
nas pontes;
na cozinha
a hidra espia
medrosas as cabeças;
enguias engolem
sete redes
saturam de lombrigas
o pomar;
no ostracismo
desorganizo
a zooteca
me faço de engolida
na arena molhada do sal
da criação;
o coração só constrói
decapitado
e mesmo então
os urubus
não comparecem;
no picadeiro seco agora
só patos e cardápios
falam ao público
sangrento
de paixões;
da tribuna
os gatos se levantam
e apontam
o risco
dos fogões.

[Inéditos e Dispersos — 1985]

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação pela UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de ingressar na faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio estudou na Richmond School for Girls, em Londres; na Inglaterra, também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado; foi professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo também conhecida como poesia marginal da década de 1970.

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Goethe: Pensamentos noturnos

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[traduzido por Décio Pignatari]

Tão belas na rútila luz soberana,
Guia do navegante aflito, sem norte
(E sem recompensa, divina ou humana),
Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte,
Sem jamais amar e sem saber do amor!
Tangendo, incansáveis, as horas eternas
Na ronda do tempo das vastas esferas,
Vocês vão cumprindo percursos sem conta.
Mas eu, se nos braços dela permaneço,
Da noite que passa e de vocês me esqueço.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 13.04.86

Goethe

Nachtgedanken

Euch bedaur’ ich, unglücksel’ge Sterne,
Die ihr schön seyd und so herrlich scheinet,
Dem bedrängten Schiffer gerne leuchtet,
Unbelohnt von Göttern und von Menschen:
Denn ihr liebt nicht, kanntet nie die Liebe!
Unaufhaltsam führen ew’ge Stunden
Eure Reihen durch den weiten Himmel.
Welche Reise habt ihr schon vollendet,
Seit ich weilend in dem Arm der Liebsten
Euer und der Mitternacht vergessen!

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.