sexta-feira, 31 de maio de 2024

Hölderlin: Deuses andavam outrora

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[traduzido por Antonio Medina Rodrigues]

Outrora deuses, musas senhoris entre os mortais andavam,
E, como tu, sanando e animando, Apolo Infante.
E tu te me afiguras como se um dos celestiais
Para esta vida me enviasse, e assim vou eu, da dona minha
Se me altera a forma, em que eu a cismo e a imagino,
Com amor até na morte; isso dela eu tive e aprendi,

Vivamos eu e tu, com quem eu peno  com quem
Na fé porfio, e um tempo espero mais formoso a vir.
Eis a nós! E se nos anos que hão de vir soubessem
De nós dois, quando vigora o Gênio uma vez mais,
Diriam: “Os amantes exclusivos o seu mundo misterioso
Só deixaram conhecer-se dos divinos.
A quem o efêmero acalenta, a esse breve o cobre a terra.
Contudo, é à luz que os dois se têm voltado, éter acima.
Ao divinal espírito fiéis, e ao fundo amor,
E mansos de espera e dor já vingam sobre a sina”.

Hölderlin

Götter wandelten einst...

Götter wandelten einst bei Menschen, die herrlichen Musen
Und der Jüngling, Apoll, heilend, begeisternd wie du.
Und du bist mir, wie sie, als hätte der Seligen einer
Mich ins Leben gesandt, geh ich, es wandelt das Bild
Meiner Heldin mit mir, wo ich duld’ und bilde, mit Liebe
Bis in den Tod; denn dies lernt’ ich und hab’ ich von ihr.

Laß uns leben, o du, mit der ich leide, mit der ich
Innig und glaubig und treu ringe nach schönerer Zeit.
Sind doch wirs! Und wüßten sie noch in kommenden Jahren
Von uns beiden, wenn einst wieder der Genius gilt,
Sprächen sie: es schufen sich einst die Einsamen liebend
Nur von Göttern gekannt ihre geheimere Welt.
Denn die Sterbliches nur besorgt, es empfängt sie die Erde,
Aber näher zum Licht wandern, zum Aether hinauf
Sie, die inniger Liebe treu und göttlichem Geiste
Hoffend und duldend und still über das Schicksal gesiegt.
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Hölderlin: Canto do Destino e outros cantos, Organização, Tradução e Ensaio de Antonio Medina Rodrigues e Apresentação de Nelson Ascher, edição bilíngue, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão; frequentou a Universidade de Iena; na sua trajetória intelectual, também conviveu e estabeleceu relações com Schiller, Fichte e Goethe; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia); Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; suas obras: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Lima Barreto: Bendito futebol


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          Não há dúvida alguma que o futebol é uma instituição benemérita cujo rol de serviço ao país vem sendo imenso e parece não querer ter fim.
          Com a citação deles podíamos encher colunas e colunas desta revista, se tanto quiséssemos e para isso nos sobrasse paciência.
          Não é preciso. É bastante elucidativa a enumeração de alguns principais. Um deles, se não o primordial, é ter trazido, para notoriedade das páginas jornalísticas e das festanças e rega-bofes1 dos Césares2 destas bandas, nomes de obscuros cavalheiros, doutores ou não, sequiosos de glória, que, sem ele, não teriam um destaque qualquer, fosse de que natureza fosse.
          Um outro é ter permitido que os trabalhadores de ofícios em que se exige grande força muscular nas pernas e nos pés, tais como: o de caixeiro de bancos, o de empregado em lojas comerciais e em escritórios, o de funcionário público, o de estudante e o de profissional do “desvio”, realizassem as suas respectivas profissões com perfeição e segurança de quem dispõe de poderosos “extensores”3, “pediosos”4, “perônios”5, “tíbias”6 etc. etc.
          Não falemos da gesticulação e falatório dos “torcedores” e “torcedoras”, nem dos soberbos rolos que coroam partidas magistrais.
          Além daqueles ótimos serviços, que citamos, prestados, pelo futebol, à Pátria e à mocidade brasileira de mais de quarenta anos, falemos de um terceiro mais geral de que todos nós brasileiros lhe somos devedores: ele tem conseguido, graças a apostas belicosas7 e rancorosas, estabelecer não só a rivalidade entre vários bairros da cidade, mas também o dissídio8 entre as divisões políticas do Brasil. Haja vista o que se tem passado entre São Paulo e Rio de Janeiro e vice-versa, por causa do jogo de pontapés9 na bola.
          O futebol é eminentemente um fator de dissensão10. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização das turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional. O Correio da Manhã, no seu primeiro suelto11 de 17 de setembro, aludiu ao caso. Ei-lo:
          0 Sacro Colégio do Futebol reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro homens de cor, enfim.
          A Igreja fazia, fez ou faz uma indagação semelhante que tinha o nome, se a minha ignorância não me trai, de processo de puritate sanguinis12. Isto, porém, ela fazia para os candidatos a seu sacerdócio coisa extraordinariamente diversa de um simples habilidoso que sabe, com mestria e brutalidade, servir-se dos pés, como normalmente os homens fazem com as mãos, para jogar bolas de cá para lá, da esquerda para adiante, de trás para frente e vice-versa. O sacerdote é o intermediário entre Deus e os homens; um futebolesco, o que é? Não sei.
          O conchavo13 não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República. Sua Excelência, que está habituada a resolver questões mais difíceis como sejam a cor das calças com que os convidados devem comparecer às recepções de palácios; as regras de precedência, que convém sejam observadas nos cumprimentos a pessoas reais e principescas, não teve dúvida em solucionar a grave questão. Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano. É verdade, aduziu14 ainda, que os estrangeiros possuem os retratos dos nossos senadores, dos nossos deputados, dos nossos lentes e estudantes, dos nossos acadêmicos etc. etc., mas são fatos domésticos com os quais nata têm a ver os estranhos; porém, fez Sua Excelência com ênfase, numa representação nacional, não é decente que tal gente figure. É verdade que o Senado, a Câmara são, mas... não vem ao caso.
          Concordaram todos aqueles esforçados cavalheiros que trabalham “pedestremente”15 pela prosperidade intelectual e pela grandeza material do Brasil; e, como complemento da medida, decidiram nomear uma comissão de antropólogos para examinar os “Enviados Extraordinários e Ministros Plenipotenciários da Pátria”, ao certame de junta-pés, na República Argentina. Sabemos que de tal comissão fazem parte as grandes inteligências arianas16 e ilustres desconhecidos: Senhores Anastácio, Zebedeu Palhano e Juliano Qualquer, doutos todos em várias coisas e também deputados federais.
          A providência, conquanto perspicazmente eugênica17 e científica, traz no seu bojo ofensa a uma fração muito importante, quase a metade, da população do Brasil; deve naturalmente causar desgosto, mágoa e revolta; mas o que se há de fazer? O papel do futebol, repito, é causar dissensões no seio da nossa vida nacional. É a sua alta função social.
          O que me admira é que os impostos, de cujo produto se tiram as gordas subvenções com que são aquinhoadas as sociedades futebolescas e seus tesoureiros infiéis, não tragam também a tisna18, o estigma de origem, pois uma grande parte deles é paga pela gente de cor. Os futeboleiros não deviam aceitar dinheiro que tivesse tão malsinada19 origem. Aceitam-no, entretanto, cheios de satisfação.
          Não foi à toa que Vespasiano disse a seu filho Tito que o dinheiro não tem cheiro. Havia um remédio para resolver esse congesto20 estado de coisas: o governo retirava do doutor Belisário Pena as verbas com que ele socorre as pobres populações rurais, flageladas por avarias endêmicas21 que as dizimam ou as degradam; e punha-as à disposição do futebol.
          Dava-se o seguinte: o futebol ficava mais rico e mais branco; e a gente de cor, de que se compõe, em geral, os socorridos por aquele doutor, acabava desaparecendo pela ação da malária, da opilação22 e outras moléstias de nomes complicados que não sei pronunciar e muito menos escrever.
          O governo, procedendo assim, seria lógico consigo mesmo. Lógico é querer conservar essa gente tão indecente e vexatória, dando-lhes médico e botica23, para depois humilhá-la, como agora, em honra do futebol regenerador da raça brasileira, a começar pelos pés. “Ab Jove principium...”24
            Os maiores déspotas e os mais cruéis selvagens martirizam, torturam as suas vítimas; mas as matam afinal. Matem logo os de cor; e viva o futebol, que tem dado tantos homens eminentes ao Brasil! Viva!

P.S. A nossa vingança é que os argentinos não distinguem, em nós, as cores: todos nós, para eles, somos macaquitos. A fim de que tal não continue seria hábil arrendar, por qualquer preço, alguns ingleses que nos representassem nos encontros internacionais de futebol.
          Há toda a conveniência em experimentar. Dessa maneira, sim, deixávamos todos de ser macaquitos, aos olhos dos estranhos.

[revista] Careta, 01/10/1921


Notas da edição:
1. Rega-bofes: festas com farturas de comidas e bebidas
2. Césares: governantes
3. Extensores: músculos que estiram um membro
4. Pediosos: músculos do pé
5. Perônios: ossos da perna que ficam ao lado da tíbia, hoje conhecidos como fíbulas
6. Tíbias: ossos longos da perna
7. Belicosas: dispostas para a guerra
8. Dissídio: conflito de interesses ou opiniões, divergência
9. Jogo de pontapés: futebol
10. Dissensão: desentendimento
11. Suelto (esp.): pequeno artigo em que se apresenta o ponto de vista do jornal sobre o assunto de menor importância
12. Puritate sanguinis: pureza de sangue
13. Conchavo: acordo secreto
14: Aduziu: expôs
15. Pedestremente: modestamente
16. Arianas: relativas ao arianismo, teoria popularizada pelo nazismo que afirma a superioridade dos homens brancos e, entre estes, do antigo povo ariano (que se estabeleceram no Industão e iniciaram a civilização indo-europeia)
17. Eugênica: atenta ao melhoramento genético da espécie humana
18. Tisna: mancha
19. Malsinada: infeliz
20. Congesto: congestionado, circulação impedida pelo acúmulo de coisas
21. Endêmicas: doenças que se alastram num povo ou numa região
22. Opilação: denominação dada, no Brasil, à ancilostomíase
23. Botica: farmácia
24. Ab Jove principium (lat.); desde o início
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas, Glossário 'Elenco de nomes, títulos e lugares' e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Cícero França: Hiemal


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Inverno... A natureza em longo pesadelo
Repousa... Os braços nus os pinhais, tristemente,
Levantam para o céu como em supremo apelo
Para que esplenda o sol vivificantemente!

Toda terra é um lençol alvíssimo de gelo...
O frio regela e corta. O sul sopra inclemente.
Sem viço o matagal... Quanto é penoso vê-lo
Sob o açoite do vento a uivar soturnamente!

Desfolhado, a gemer, lembra mastros sem velas
De navios. Há por tudo um silêncio de celas
Conventuais e um torpor  pesados, sufocantes.

Não se ouve um pipilar de pássaro no mato.
E até calou-se a voz sonora do regato,
Que cantava a correr por entre seixos dantes...

(Pedras Brutas, in Necrotério d’Alma, 2ª edição, pág.42.) — [1953]

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Cícero Marcondes de França (1884 1908), paranaense nascido em Fazendinha, hoje Fazenda Rosal do Cruzeiro, município de Palmas PR, estudou no Colégio Paranaense, consta ter frequentado as Faculdades de Direito de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, mas não chegou a concluir o curso, foi poeta do simbolismo; ainda estudante colegial, escreveu seus primeiros versos e os publicou n’O Estudo, periódico cultural do Colégio; em 1905, já acometido da tuberculose e debilitado há algum tempo, em Curitiba, organizou e lançou o livro Necrotério d’Alma (obra composta por 26 sonetos) e, em União da Vitória, fundou o jornal O Rebate; ainda em 1905, a revista simbolista Stellario, de Curitiba, contou com a colaboração do poeta; consta das escassas notícias e notas biográficas a respeito de Cícero França que, em 1908, já tendo se afastado dos estudos e bastante enfraquecido, o poeta, acompanhado de seu irmão caçula Vespertino França, de doze anos de idade, em viagem de Curitiba com destino a Porto União, na passagem por Ponta Grossa hospedou-se no Hotel Palermo e ali faleceu na noite de 10 de julho; o relato de seu irmão é que conversaram até quase de madrugada e foram dormir: Vespertino, a testemunha do fato, foi a última e “a única pessoa presente nas suas derradeiras horas de vida” e a primeira pessoa que viu o corpo na manhã do dia seguinte; a obra Necrotério d’Alma, que teve uma segunda edição em 1953 (acrescida de Pedras Brutas, póstumo, incluindo outros 27 sonetos), nos revela o poeta simbolista e decadentista e assim também Cícero França é consignado quando citado por estudos e antologias literárias do simbolismo.

terça-feira, 28 de maio de 2024

José María de Heredia: A concha

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[traduzido por Raul Machado]

Por quanto mar gelado, e desde quantos anos,
quem o dirá jamais, róseo e equóreo tesouro?!
a vaga, a correnteza, a enchente e o sorvedouro
te levaram, rolando, em seus golfões insanos?

Hoje, livre, porém, dos vórtices tiranos,
tentas, feliz, dormir sobre as areias de ouro.
Mas o tentas em vão! Pois, largo e imorredouro,
soluça, no teu seio, o choro dos oceanos!

Minh'alma também lembra uma prisão sonora!
E como, forte, em ti, ainda suspira e chora
da antiga voz do mar a música das águas,

assim, no coração, morto de amor por Ela,
surdo e eterno bramir de longínqua procela
ruge em mim o clamor de inesquecíveis mágoas!

José María de Heredia

La conque

Par quels froids Océans, depuis combien d'hivers,
Qui le saura jamais, Conque frêle et nacrée!
La houle sous-marine et les raz de marée
T'ont-ils roulée au creux de leurs abîmes verts?

Aujourd'hui, sous le ciel, loin des reflux amers,
Tu t'es fait un doux lit de l'arène dorée.
Mais ton espoir est vain. Longue et désespérée,
En toi gémit toujours la grande voix des mers.

Mon âme est devenue une prison sonore:
Et comme en tes replis pleure et soupire encore
La plainte du refrain de l'ancienne clameur;

Ainsi du plus profond de ce coeur trop plein d'Elle,
Sourde, lente, insensible et pourtant éternelle,
Gronde en moi l'orageuse et lointaine rumeur.

[Les Trophées — 1893]
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, em Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Lima Barreto: O nacionalismo *


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          De um tempo a esta parte, vejo em todo o lugar falar-se em nacionalismo.
          Não leio nunca o que os jornais trazem encabeçados com este título ou outro aparentado e só suspeito o que seja pelo que dizem os adversários dos tais nacionalistas.
          A coisa me chamou a atenção quando se tratou do tal negócio dos navios; eu, porém, tinha uma opinião a respeito, tão internacionalista e tão nacionalista que nem dessa feita fiquei sabendo só certo do que se tratava com tal palavra.
          Uma coisa, porém, vi logo: que entrava no novo jacobinismo: a política.
          Ora, nada tendo eu com semelhante senhora, não era da minha conta meter o bedelho onde não era chamado.
          Entretanto, não pude continuar nessa atitude, pois não abro um jornal que não venha um artigo, um tópico, uma alusão ao nacionalismo.
          Vejo-me obrigado a ter uma opinião a respeito e, como os próceres da ideia não a definam por palavras ou por atos, vejo-me na contingência de fazer suposições.
          Em certas ocasiões, penso que os nacionalistas desejam a proibição da entrada de estrangeiros no Brasil; mas, imediatamente, acho isto um absurdo. Não é possível tal coisa hoje, em que a concepção de humanidade vai cada vez mais dominando a de pátria.
          A princípio, a serviço das religiões com tendências universais, aproveitada pelos exploradores políticos e comerciais, com auxílio de filantropos e missionários desinteressados da ideia de humanidade, tende a se purificar, ficar leiga acima de seitas e religiões, para ligar todos os homens na Terra e, em qualquer parte desta, não separá-los, consequentemente, por este ou aquele acidente secundário.
          Ora, sendo assim, o Brasil sendo ainda um grande deserto, o nosso nacionalismo de não querer entrada de estrangeiros era uma estreiteza e um regresso.
          Pensei mais dias após que bem podia ser que não fosse isto; que eles, os nacionalistas, admitissem a entrada de imigrantes, mas não os quisessem em cargos públicos.
          Era outro absurdo, porquanto a própria lei, mediante regras que estabelece, consente que os naturalizados possam chegar até o senador da República.
          Imaginei em seguida que os nacionalistas não quisessem os estrangeiros no comércio ou na indústria, mas era antiliberal tentar impedir ou cercear a atividade de um dado cidadão numa profissão, em que nada entra de secreto e onde não se precisa nenhuma manifestação misteriosa de ancestralidade nacional.
          Julguei ainda que eles pretendessem impedir que os estranhos mandassem as suas economias para a Europa. Era outro absurdo, porque todos os governos do Brasil, federal, estaduais, municipais, orgulham-se em anunciar que vão pagar tantos e tantos milhares de francos ou libras aos seus credores na Europa.
          Outros nacionalistas há que gritam contra a carestia da vida e a atribuem aos estrangeiros, mais aos humildes, isto é, aos vendeiros açougueiros.
          Era também essa suposição que me fazia descrer do tal nacionalismo. Esses humildes negociantes querem ganhar dinheiro, e muito, o que está nos moldes das pequenas crenças do nosso tempo, em que se prega explícita ou implicitamente o amor do lucro, do ganho, da fortuna, devendo se alcançar esta seja como for. O vendeiro, o açougueiro etc. são tão criminosos como os nossos patrícios que encarecem o açúcar quando o vendem em grosso, e outros artigos de produção nacional.
          Aí, não há brasileiro, nem chinês, há o espírito da nossa época, que é o de domínio da cobiça e da cupidez. É preciso extraí-lo da nossa inteligência como da dos demais povos e, então, a vida será outra.
          A bem dizer, a carestia atual entre nós é fabricada por aquela gente que de há muito se pôs além e acima do ideal de pátria, é a gente da finança que vai até as funestas guerras para ganhar dinheiro e todo o nosso nacionalismo contra ela é vão e ridículo. Para derrubá-la é preciso abalar e modificar ideais e sentimentos; e é coisa que nunca foi obtida por clubes de meninotes mais ou menos eloquentes e elegantes.
          O nacionalismo pode ser literário e artístico, isto é, consistir na cultura da língua, das antiguidades, das tradições, das lendas, da história, do folclore, das manifestações intelectuais passadas, mas este, que é obra de estudiosos e artistas, não pede clubes de piqueniques, nem se incomoda que os navios dos outros sejam vendidos a este ou aquele.
          Trabalha em silêncio e apresenta a quem gostar os seus estudos e as suas produções, pouco se importando com quem é ou deixa de ser presidente da República.
          O mal estar da nossa vida não vem da massa geral de estrangeiros, tão necessitada como a maioria dos nacionais; vem da injustiça das relações econômicas entre pobres e ricos.
          Cessem elas, que o mundo será um paraíso e a pátria ficará quase sempre sendo para cada qual o lugar em que nasceu.


* Nota do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa: Assinado por Lima Barreto. Publicado em Voz do Povo, 9 mar. 1920.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

domingo, 26 de maio de 2024

Goethe: À lua *

 
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[traduzido por Paulo Quintela]

De novo enches bosque e vale
De bruma luzente, calma,
Também libertas, afinal,
Toda a minh’alma;

Sobre os meus campos estendes,
Como um bálsamo, a vista,
Como amigo que com ternura olhasse
Meu tudo que o contrista.

Ecos de dias alegres e sombrios
Ferem-me o coração.
Vagueio assim entre alegria e dor
Por esta solidão.

Corre, corre, amado rio!
Minha alagria acabou;
Como tu, passaram beijos e gracejos,
E a lealdade passou.

Pois não tive outrora eu já
A preciosa graça?!
Oh! o martírio de não poder ‘squecer,
Saber que tudo passa!

Corre, rio, sussurrante pelo vale,
Sem parar, noites e dias!
Corre múrmuro, ensina ao meu cantar
Secretas melodias.

Quando em noites de inverno
Bravejante desbordas,
Ou quando o esplendor da primavera
Com teu murmúrio acordas!

Feliz aquele que do mundo vão
Sem ódio deixa a luta,
E aperta um amigo ao coração
E com ele desfruta.

O que, sem que o homem sequer saiba
Ou nisso atente,
Através do labirinto da alma
Erra à noite, silente.

Goethe

An den Mond

Füllest wieder Busch und Tal
Still mit Nebelglanz
Lösest endlich auch einmal
Meine Seele ganz;

Breitest über mein Gefild
Lindernd deinen Blick,
Wie des Freundes Auge mild
Über mein Geschick.

Jeden Nachklang fühlt mein Herz
Froh- und trüber Zeit,
Wandle zwischen Freud’ und Schmerz
In der Einsamkeit.

Fließe, fließe, lieber Fluß!
Nimmer werd’ ich froh;
So verrauschte Scherz und Kuß
Und die Treue so.

Ich besaß es doch einmal,
was so köstlich ist!
Daß man doch zu seiner Qual
Nimmer es vergißt!

Rausche, Fluß, das Tal entlang,
Ohne Rast und Ruh,
Rausche, flüstre meinem Sang
Melodien zu!

Wenn du in der Winternacht
Wütend überschwillst
Oder um die Frühlingspracht
Junger Knospen quillst.

Selig, wer sich vor der Welt
Ohne Haß verschließt,
Einen Freund am Busen hält
Und mit dem genießt,

Was, von Menschen nicht gewußt
Oder nicht bedacht,
Durch das Labyrinth der Brust
Wandelt in der Nacht.

([1789]1798 [?])

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: À lua (An den Mond). Diz Kühnemann que esta é ”a mais perfeita canção de língua alemã”. Trata-se da versão definitiva, incluída no conjunto denominado Lieder, de poesia que Goethe publicou pela primeira vez em 1789, a partir da tragédia de uma jovem que se suicidou no rio Ilm tendo à mão um exemplar do Werther. Goethe escreveu os versos para uma música de Kayser, enviando-os uns e outra a Charlotte von Stein, que modificou a poesia. Goethe retomou-a para fazer a versão final, cujos versos incluem trechos sugeridos pela amiga. Nasceu, assim, uma nova canção, “tão espontânea e tão autêntica, como a primeira, e artisticamente mais perfeita” (P. Quintela). Musicada por Schubert, Zelter, Fibich, Reichardt, Romberg e outros.
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Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sábado, 25 de maio de 2024

Helmut Heissenbüttel: debate de cátedra


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

para max
em seu 60º aniversário

o primeiro não acha que
o segundo não acredita
o terceiro crê que
o segundo que não
o quarto não se manifesta
o quinto não acha
o terceiro esquece que não
o quarto nada
o sexto diz
o primeiro não contradiz
o sétimo diz
o oitavo
o nono
o sexto se manifesta
o quarto nada
o sétimo acredita
o terceiro também crê
o quinto manifesta que não se
o nono não contradiz que
o quinto crê em algo
o terceiro não crê que
o quinto também não
o segundo não se manifesta
o quinto não acha
o nono manifesta
o quinto manifesta que
o primeiro que também
o segundo crê
o terceiro não esqueceu
o segundo não acha
o quarto não diz
o quinto não esqueceu que
o terceiro manifesta algo
o quarto acha
o sexto manifesta que nada se
o primeiro não fala sobre o fato de que
o sétimo
o oitavo esqueceu que nada
o sexto diz
o quarto diz
o sétimo acha
o terceiro não
o quinto
o nono não se compromete
o quinto que não
o terceiro não crê
o quinto não esqueceu
o segundo manifesta que não se
o quinto que
o nono não diz
o quinto não crê que
e assim vai

Helmut Heissenbüttel

Podiumdiskussion

für max
zu seinem 60. Geburtstag

der erste meint nicht daß
der zweite glaubt nicht
der dritte glaubt daß
der zweite daß nicht
der vierte äußert sich nicht
der fünfte meint nicht
der dritte vergißt daß nicht
der vierte nichts
der sechste sagt
der erste widerspricht nicht
der siebente sagt
der achte
der neunte
der sechste äußert sich
der vierte nichts
der siebente glaubt
der dritte glaubt auch
der fünfte äußert daß sich nicht
der neunte widerspricht nicht daß
der fünfte glaubt an etwas
der dritte glaubt nicht daß
der fünfte auch nicht
der zweite äußert sich nicht
der fünfte meint nicht
der neunte äußert
der fünfte äußert daß
der erste daß auch
der zweite glaubt
der dritte hat nicht vergessen
der zweite meint nicht
der vierte sagt nicht
der fünfte hat nicht vergessen daß
der dritte äußert etwas
der vierte meint
der sechste äußert daß sich nichts
der erste spricht nicht davon daß
der siebente
der achte hat vergessen daß nichts
der sechste sagt
der vierte sagt
der siebente meint
der dritte nicht
der fünfte
der neunte verspricht
sich nichts
der fünfte daß nicht
der dritte glaubt nicht
der fünfte hat nicht vergessen
der zweite äußert daß sich nicht
der fünfte daß
der neunte sagt nicht
der fünfte glaubt nicht daß
und so weiter
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Helmut Heissenbüttel (1921 1996), alemão de Rüstringen, cresceu em Wilhelmshaven, sede de uma base naval do norte da Alemanha, e em Papenburg, foi soldado na Segunda Guerra Mundial, em 1941 feriu-se gravemente, teve o braço esquerdo amputado e foi dispensado como inválido; ainda em 1941 e em plena guerra, iniciou os estudos de Arquitetura, Germanística e História da Arte, em Dresden, Leipzig e Hamburgo; trabalhou como consultor editorial, foi redator do programa literário “Rádio Essay” da Süddeutscher Rundfunk em Stuttgart (de 1959 a 1981), editou a revista literária Hartmanntrße 14, a partir de 1981, viveu como escritor freelance em Borsfleth; participou do Grupo 47, círculo de literatos de língua alemã que, entre 1947 e 1967, se reunia com o objetivo de reconstruir a literatura de língua alemã no pós-guerra; foi membro da Academia Alemã de Língua e Poesia, em Darmstadt, Academia Livre de Artes de Hamburgo e Academia de Artes de Berlim (Ocidental); suas obras: Kombinationen. Gedichte 1951-1954 (1954), Topographien. Gedichte 1954-1955 (1956), Das Textbuch (Livro didático 1, 2, 3, 4 e 5, entre 1960-1965), Über Literatur (1966), Zwei oder drei Porträts (peça radiofônica, 1970), Marlowes Ende (peça radiofônica, 1971), Das Durchhauen des Kohlhaupts. Gelegenheitsgedichte und Klappentexte. Projekt Nr. 2. (Projeto nº 2. O Decepar o Repolho, 1973) e muitos outros títulos; premiações: Lessing-Preis der Freien und Hansestadt Hamburg (1956), Georg-Büchner-Preis (Prêmio Georg Büchner, 1969), Bundesverdienstkreuz Erster Klasse (1979), Österreichischer Staatspreis für europäische Literatur (Prêmio do Estado Austríaco para a Literatura Européia, 1990)...