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sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Jarid Arraes: Esperança Garcia

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Foi no século dezoito
Que este caso aconteceu
No estado Piauí
A mudança que se deu
E marcando nossa história
Esperança apareceu.
Pelos padres jesuítas
Ela foi escravizada
Esperança era mulher
Que vivia maltratada
Mas sua personalidade
Era alma de indomada.
Quando estava com os padres
Esperança se casou
E chegou a ter um filho
Que profundamente amou
Com seu marido vivia
Mas então tudo mudou.
Pois o Marquês de Pombal
Foi os padres expulsar
E a escrava Esperança
Acabou-se por passar
Ao governo do Estado
Que lhe mandou transportar.
Da Fazenda Algodões
Esperança foi tirada
Foi parar em Nazaré
Onde foi escravizada
E já nesse novo canto
Com dureza era espancada.
Separada do marido
Só o filho carregava
Mas a pobre da criança
Todo dia que apanhava
E por isso a Esperança
Muito mais se revoltava.
Acontece que Esperança
Tinha aprendido a ler
Ensinada pelos padres
Tinha jeito de escrever
Foi aí que decidiu
Uma carta conceber.
No dia 6 de setembro
Sua carta foi mandada
Com palavras de apelo
E linguagem explicada
Esperança que pedia
Por urgente salvaguarda.
O presidente da província
Foi quem leu o documento
Que continha em suas linhas
A denúncia do momento
Pois a dor de Esperança
Vinha de seu sofrimento.
Nessa carta ela dizia
Que vivia a apanhar
Uma vez sendo jogada
Com intento de matar
Foi caindo do sobrado
Mas se deu para escapar.
O seu filho, tão pequeno
Também era maltratado
O feitor da tal fazenda
Era um homem endiabrado
Que batia sem ter pena
Por qualquer caso furado.
Outra filha também tinha
Que queria batizar
Disse que era uma criança
Mas a fé era exemplar
E a religião cristã
Ela estava a professar.
E falou de outras mulheres
Querendo se confessar
Que do mesmo jeito dela
Precisavam de contar
Seus pecados escondidos
Para o padre perdoar.
Porque lá onde ela estava
Não se tinha a confissão
Nem batismo e nem missa
Que era assim religião
E Esperança argumentava
Que isso era confusão.
Foi usando desses pontos
Seu exemplo de esperteza
Por fazer da fé cristã
Argumento de clareza
Para ver se conseguia
Do governo uma presteza.
Afinal, o que diria
Para o branco convencer?
Se a gente escravizada
Não podia merecer
A menor das gentilezas
Para em paz sobreviver?
Não se sabe o desfecho
Se sequer foi respondida
Mas sem dúvida nenhuma
Era tão fortalecida
A coragem de Esperança
Que se tornou conhecida.
Porque no Brasil passado
O escravo era excluído
Sem saber ler e escrever
Sem poder ser instruído
Caso alguém fosse enfrentar
Acabava perseguido.
Era crime muito grave
Ensinar escravo a ler
Pela lei que existia
Era o jeito de viver
E seria muito preso
Quem fosse contradizer.
Luiz Mott foi o homem
Que essa carta encontrou
Quando estava em Portugal
Esse historiador
Resgatou o documento
E assim o publicou.
É por isso que Esperança
Na História se mantém
Porque teve essa coragem
E porque foi muito além
Não ficou só em silêncio
E mostrou que era alguém.
Se você não conhecia
Essa história inspiradora
Peço que também espalhe
Porque é transformadora
A verdade de Esperança
Essa grande lutadora.
São inúmeras mulheres
Que peitaram toda luta
Enfrentando o racismo
E com garra na labuta
Construíram um caminho
Sempre com a mente astuta.
Por causa dessas mulheres
Hoje temos liberdade
É por isso que me orgulho
Da minha ancestralidade
Preservar é um prazer
E responsabilidade.

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Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis Jarid Arraes, Prefácio de Jaqueline Gomes de Barros, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz São Paulo SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018) e Redemoinho em dia quente (contos, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, 2019), além de dezenas de livretos de literatura de cordel e cordéis para o público infantil; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres, foi colunista da revista Fórum e passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018).