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Era um
Caeté, que vagava
Na
terra que Deus lhe deu,
Onde
Pátria, esposa e filhos
Ele
embalde defendeu!…
É
este… pensava ele,
O meu
rio mais querido;
Aqui
tenho às margens suas
Doces
prazeres fruído…
Aqui,
mais tarde trazendo
N’alma
triste, acerba dor,
Vim
chorar as praias minhas
Na
posse de usurpador!
Que de
invadi-las
Não
satisfeito,
Vinha
nas matas
Ferir-me
o peito!
Ferros
nos trouxe,
Fogo,
trovões,
E de
cristãos
Os
corações
E
sobre nós
Tudo
lançou!
De
nossa terra
Nos
despojou!
Tudo
roubou-nos,
Esse
tirano,
Que
povo diz-se
Livre
e humano!
Filho
se diz
De
Deus Potente
De
quem profana
A obra
ingente!
Ó
terra de meus pais, ó Pátria minha!
Que
seus restos guardando, viste de outros
Longo tempo
a bravura disputar
Ao feroz
estrangeiro a Pátria nossa,
A nossa
liberdade, os frutos seus!...
Recolhe
o pranto meu, quando dispersos
Pelas vastas
florestas tristes vagam
Os poucos
filhos teus à morte escapos,
Ao jugo
de tiranos opressores,
Que em
nome do piedoso céu vieram
Tirar-nos
estes bens que o céu nos dera!
As
esposas, a filha, a paz roubar-nos!...
Trazendo
d'Além-mar as leis, os vícios,
Nossas
leis e costumes postergaram!
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(A
lágrima de um caeté, 1849)
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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142
poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André
Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Nísia Floresta
Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto (1810 —
1885), ou Dionísia Pinto Lisboa, ou Dionísia Freire Lisboa, ou Dionísia Freire
Pinto, ou Dionísia Gonçalves Pinto Freyre, nascida em Papari [atual Nísia
Floresta], Capitania da Paraíba [atual Rio Grande do Norte], militante feminista
e abolicionista, foi educadora, escritora, tradutora, jornalista, ensaísta e
poetisa atuante nas letras, no jornalismo e nos movimentos sociais de sua época;
de sua biografia, com lacunas, consta ter sido a “primeira voz feminista, no
Brasil, a se erguer contra os preconceitos da sociedade patriarcal, em relação
à mulher.”; Dionísia casou-se aos treze anos [tido como normal e usual à época],
em poucos meses largou o casamento, foi repreendida pela família, voltou a
morar com os pais e recebeu a proteção da mãe; em 1824, partindo com a família
rumo a Pernambuco, residiu em Goiana, Olinda e Recife; ainda de sua biografia,
consta a sugestão de que tomara contato com seus primeiros estudos em Goiana —
PE, antes, Dionísia obtivera conhecimento de estudos iniciais através de seu
pai, advogado e homem culto, visto que em Papari, onde a poeta nasceu, não
havia escola; em Recife, conhece Manuel Augusto de Faria Rocha, estudante de
Direito, de quem se apaixona e a ele se une sem formalidades legais em 1828, teve
filhos, mudam-se para Porto Alegre [1832], “dedica-se ao magistério, e escreve
artigos para a imprensa”, enviúva, ali permanecendo por quatro anos; posteriormente,
já morando no Rio de Janeiro, fundou o Colégio Augusto, um colégio para moças, cujo
nome é “em provável homenagem ao seu companheiro” que morrera no sul, colégio presidido
por ela enquanto permaneceu no Brasil; em 1849, Nísia segue para a Europa, reside em Paris, Roma e Florença, passa
a viver lá e cá, e vem a morrer em Rouen — França, em 24.04.1885; em suas
atividades literárias a poeta, feminista e abolicionista fez uso de muitos
pseudônimos: Telezilla, Telesila, B. A., Une Brésiliene, Quotidiana Fidedigna e
Nísia Floresta — este último acabou por prevalecer e assim permanece conhecida
até hoje; de seus traços biobibliográficos, ainda consta ter sido em Olinda e/ou
Recife que a poeta feminista tomou contato com o mundo intelectual literário, leu
clássicos portugueses e, em 1831, estreou na imprensa com a publicação de
artigos que relatavam a posição social feminina em várias culturas, numa
sequência de trinta números do Espelho das Brasileiras — jornal destinado às
senhoras pernambucanas, de propriedade do tipógrafo francês Adolphe Émile de
Bois Garin; a poeta falava o idioma francês e também conhecia o inglês e, aos
28 anos de idade (1838), em anúncio de jornal, disse “ser professora particular
de latim, francês e italiano”; suas obras: Direito das mulheres e injustiça dos
homens * (por atribuição da autora, tradução livre de Vindication of the rights
of woman, publicação de 1792, de autoria de Mary Wollstonecraft, inglesa (1832),
Conselhos à minha filha (coleção de ensaios, 1842 e em 1845, ora acrescidos de 40 pensamentos em
versos), Daciz ou A jovem completa (1847), Fany ou O modelo das donzelas (romance,
episódio da Revolução dos Farrapos no RS, 1847), Discurso que às suas educandas
dirigia Nísia Floresta Brasileira Augusta (1847), A lágrima de um Caeté (poema
de 712 versos, editado sob o pseudônimo Telezila, 1849), Dedicação a uma amiga
(dois volumes, 1850), Consigli a mi figlia (1858), Conseils à ma fille (1859), Opúsculo
humanitário (coleção de artigos sobre emancipação feminina, 1853), Páginas de
uma vida obscura (1855), A Mulher (1859), Paris (1867), Trois ans en Italie,
suivis d’un voyage en Grèce (1870). Le Brésil (1871), Fragments d’un ouvrage
inèdit: notes biographiques (1878) e outra incontável quantidade de fragmentos,
“cujo manuscrito talvez permaneça com algum notário, em Rouen [França]”; teve obras traduzidas para o francês e o italiano, A lágrima de um Caeté, por exemplo, recebeu uma edição italiana, pela tradução do escritor florentino Ettore Marcucci, Le lagrime d'un Caeté (1860).
* Nota do blogue Verso e Conversa: A
respeito de Direito das mulheres e injustiça dos homens, o atrevidíssimo
aprendiz de blogueiro desta página expõe o seguinte:
“Por muito tempo considerou-se que a obra fosse uma adaptação livre de A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft, pois a própria Nísia havia dito que nela se inspirara, mas estudos de Pallares-Burke (1995) e Oliveira & Martins (2012) demonstraram que Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens é na verdade uma tradução integral de La femme n'est pas inferieure a l'homme — Traduit de l’Anglois, publicado em 1750, por sua vez uma tradução de Woman Not Inferior to Man — by Sophia, A Person of Quality (1739), de uma escritora que só assina como Sophia. A identidade desta Sophia tem sido debatida, surgindo várias proposições: lady Mary Wortley Pierremont, lady Sophia Fermor, Philippe-Florent de Puisieux ou Madeleine d'Ansant de Puisieux.” [extraído de wikipedia, fr.wikisource.org e commons.wikimedia.org]



