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quinta-feira, 13 de março de 2025

Reiner Kunze: escrivaninha na janela, e neva


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Pássaros vigiam, a ração mais
do que a consomem

E de novo persisto
inerte

Sua desfeita, de que eu perca tempo
eu rejeito

O silêncio se ajunta em torno de mim,
terra para o poema

Na primavera teremos
versos e pássaros

Reiner Kunze

schreibtisch am fenster, und es schneit

Vögel sichern länger als sie
futter alfuchmen

Und wieder verharre ich
reglos

Euren tadel daß ich zeit vergeude
weise ich zurück

Stille häuft sich an um mich,
die erde fürs gedicht

Im frühling werden wir
verse haben und vögel
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Reiner Kunze, nascido em 1933, alemão de Oelsnitz, Erzgebirge, estudou Filosofia e Jornalismo na Karl-Marx-Universität, em Leipzig, é escritor, tradutor literário, professor e poeta; publicou seus primeiros poemas na tradição do realismo socialista, dos quais mais tarde se distancia; desde adolescente militou no Partido Socialista, tendo sido um dos primeiros proletários a ingressar na universidade, em 1951, e, ao abdicar do seu entusiasmo inicial pela construção do socialismo, sofreu pressões políticas e abandonou o doutorado em 1959; viajou pelos Estados Unidos, América Latina e África, foi professor convidado das cátedras de Poesia das universidades de Munique e Würzburg; suas obras: Sensible Wege. Gedichte (Caminhos sensíveis, 1969), Zimmerlautstärke. Gedichte (Sem incomodar os vizinhos, 1972), Brief mit blauem Siegel. Gedichte (1973), Die Wunderbaren Jahre. Prosa (Os anos maravilhosos, prosa, 1976), Auf eigene Hoffnung. Gedichte (À própria esperança, 1981), Eines jeden einziges Leben. Gedichte (A vida singular de cada um, 1986), Selbstgespräche für andere (Monólogos para outros, 1989), Deckname Lyrik (Codinome Poesia, documentos, 1990), Am Sonnenhang. Tagebuch eines Jahres (prosa autobiográfica, 1993), Ein tag auf dieser erde (Um dia nesta terra, 1998), premiações: Großer Literaturpreis der Bayerischen Akademie der Schönen Künste (Grande Prêmio de Literatura da Academia de Belas Artes da Baviera, 1973), Georg-Büchner-Preis (1977), Georg-Trakl-Preis für Lyrik (Prêmio Georg Trakl de Poesia, 1977), Bayerischer Filmpreis für das Drehbuch zum Film Die wunderbaren Jahre (Prêmio de Cinema da Baviera, pelo roteiro do filme Os Anos Maravilhosos, 1979), Friedrich-Hölderlin-Preis der Stadt Bad Hamburg (Prêmio Friedrich Hölderlin da cidade de Bad Hamburg, 1999), Hans-Sahl-Preis (2001), Thüringer Literaturpreis (Prêmio de Literatura da Turíngia, 2009), etc.; em sua homenagem, Oelsnitz, cidade onde nasceu, criou/fundou o Reiner-Kunze-Preis ein Literaturpreis (Prêmio Reiner Kunze de Literatura), que foi concedido pela primeira vez em 2007.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Reiner Kunze: Como as coisas do barro


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Mas eu junto minhas metades
como um vaso quebrado de barro
(Jan Skácel, carta de fevereiro de 1970)

1
Queríamos ser como as coisas de barro

Existir para aqueles
que às cinco da manhã tomam seu café
na cozinha

Pertencer às mesas mais simples

Queríamos ser como as coisas de barro, feitos
da terra do canteiro

Ainda, que conosco ninguém possa matar

Queríamos ser como as coisas de barro

                                 No meio
                                              de tanto
                                                           aço
                                                                 rodando

2
Seremos como os cacos
das coisas de barro nunca mais
um todo, talvez
um brilho
no vento

Reiner Kunze

Wie die dinge aus ton

Aber ich klebe neube hälften zusammen
Wie ein zerschlagener topf aus ton *.
(Jan Skácel, brief vom februar 1970)

1
Wir wollten sein wie dinge aus ton

Dasein für jene,
die morgens um fünf ihren kaffee trinken
in der küche

Zu den einfachen tischen gehören

Wir wollten sein wie die dinge aus ton, gemacht
aus erde vom acker

Auch, daß niemand mit uns töten kann

Wir wollten sein wie die dinge aus ton

                                Inmitten
                                   soviel
                                                rollenden
                                                       stahls

2
Wir werden sein wie die scherben
der dinge aus ton: nie mehr
ein ganzes, vielleicht
ein aufleuchten
im wind

* Nota dos tradutores: Além de citar a carta de Jan Skácel, o poema se refere à derrocada da Primavera de Praga por meio da imagem final do “brilho no vento”, que evoca o poema “O vento de nome “Jaromír”, de Skácel, traduzido por Kunze em 1961. Esse poema versa sobre um país sacudido por um pé-de-vento alegre e potente, além de carrear novos sentidos ao nome “Jaromír” no contexto de 1968. Originalmente, trata-se de uma homenagem ao poeta naturalista tcheco Jaromír Tomeček. Contudo, em tcheco, a palavra “jaro” significa primavera e “mír”, paz. Ver a relação intertextual com o poema “Com E, em Vřesice”.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Reiner Kunze, nascido em 1933, alemão de Oelsnitz, Erzgebirge, estudou Filosofia e Jornalismo na Karl-Marx-Universität, em Leipzig, é escritor, tradutor literário, professor e poeta; publicou seus primeiros poemas na tradição do realismo socialista, dos quais mais tarde se distancia; desde adolescente militou no Partido Socialista, tendo sido um dos primeiros proletários a ingressar na universidade, em 1951, e, ao abdicar do seu entusiasmo inicial pela construção do socialismo, sofreu pressões políticas e abandonou o doutorado em 1959; viajou pelos Estados Unidos, América Latina e África, foi professor convidado das cátedras de Poesia das universidades de Munique e Würzburg; suas obras: Sensible Wege. Gedichte (Caminhos sensíveis, 1969), Zimmerlautstärke. Gedichte (Sem incomodar os vizinhos, 1972), Brief mit blauem Siegel. Gedichte (1973), Die Wunderbaren Jahre. Prosa (Os anos maravilhosos, prosa, 1976), Auf eigene Hoffnung. Gedichte (À própria esperança, 1981), Eines jeden einziges Leben. Gedichte (A vida singular de cada um, 1986), Selbstgespräche für andere (Monólogos para outros, 1989), Deckname Lyrik (Codinome Poesia, documentos, 1990), Am Sonnenhang. Tagebuch eines Jahres (prosa autobiográfica, 1993), Ein tag auf dieser erde (Um dia nesta terra, 1998), premiações: Großer Literaturpreis der Bayerischen Akademie der Schönen Künste (Grande Prêmio de Literatura da Academia de Belas Artes da Baviera, 1973), Georg-Büchner-Preis (1977), Georg-Trakl-Preis für Lyrik (Prêmio Georg Trakl de Poesia, 1977), Bayerischer Filmpreis für das Drehbuch zum Film Die wunderbaren Jahre (Prêmio de Cinema da Baviera, pelo roteiro do filme Os Anos Maravilhosos, 1979), Friedrich-Hölderlin-Preis der Stadt Bad Hamburg (Prêmio Friedrich Hölderlin da cidade de Bad Hamburg, 1999), Hans-Sahl-Preis (2001), Thüringer Literaturpreis (Prêmio de Literatura da Turíngia, 2009), etc.; em sua homenagem, Oelsnitz, cidade onde nasceu, criou/fundou o Reiner-Kunze-Preis ein Literaturpreis (Prêmio Reiner Kunze de Literatura), que foi concedido pela primeira vez em 2007.