____________________
[traduzido
por Paulo Henriques Britto]
Você queria estudar
Os seus astros — os carcereiros
Da sua prisão, o zodíaco. Os planetas
Murmuravam fórmulas babilônicas —
Como os ossos de um xamã. Você temia, com razão,
Que os ossos rugissem muito alto,
Que um ouvido captasse com clareza
O que os ossos sussurravam
Ainda que imersos em carne cálida.
Mas você não precisava calcular
Os graus do seu disruptor do ascendente
Em Áries. Nenhum significado definido — nada mais,
Segundo o livro babilônico,
Que um rosto marcado. Que mágico
Poderia enxergar mais fundo sob a pele?
Para você, bastava olhar
No rosto mais próximo de uma metáfora
Tirada do seu armário ou de seu prato
Ou então do sol, da lua ou dos teixos
Para ver seu pai, sua mãe, ou a mim
A lhe trazer todo o seu Destino.
Horoscope
You wanted to study
Your stars — the guards
Of your prison yard, their zodiac. The planets
Muttered their Babylonish power-sprach —
Like a witchdoctor's bones. You were right to fear
How loud the bones might roar
How clear an ear might hear
What the bones whispered
Even embedded as they were in the hot body.
Only you had no need to calculate
Degrees for your ascendant disruptor
In Aries. It meant nothing certain — no more
According to the Babylonian book
Than a scarred face. How much deeper
Under the skin could any magician peep?
You only had to look
Into the nearest face of a metaphor
Picked out of your wardrobe or off your plate
Or out of the sun or the moon or the yew tree
To see your father, your mother, or me
Bringing you your whole Fate.
____________________
Cartas de aniversário: poemas — Ted Hughes, edição bilíngue, Tradução
de Paulo Henriques Britto e Prefácio de Leonardo Fróes, 1999, Editora Record,
Rio de Janeiro — RJ; Ted
Hughes, ou Edward James Hughes (1930 — 1998), inglês de Mytholmroyd — Yorkshire, cursou o Schofield
Street Junior School,
frequentou o Mexborough Secondary School (mais tarde Grammar School), estudou
inglês no Pembroke College — Cambridge, aprendeu antropologia e
arqueologia, foi poeta, dramaturgo, tradutor, contista e escritor de literatura
infantil; ainda estudante no Pembroke, publicou seus poemas The Little
Boys and the Seasons e Song of the Sorry Lovers nas revistas estudantis Granta
e Chequer; em 1964, fundou a
“literary magazine” Modern Poetry in Translation (MPT), juntamente com
Daniel Weissbort, 1º número editado em 1965: tinha o objetivo de tornar
conhecidos, no ambiente literário britânico, escritores, poetas e obras do
mundo afora; editou e traduziu poemas de Frank Wedekind, García Lorca, Yehuda
Amichai, János Pilinszky, Ovídio, Ésquilo, Racine e Eurípedes; suas
obras: em poesia: The Hawk in
the Rain (O Falcão na Chuva, 1957), Lupercal (1960), Wodwo (1967), From the
Life and Songs of the Crow (O Corvo: Da Vida e das Canções do Corvo, 1970), Moortown
(1978, reeditado acrescido de + poemas em 1979), Birthday Letters (Cartas de
Aniversário, 1998), Howls and Whispers (coletânea de 11 poemas, tiragem de
apenas 100 exemplares, 1998), literatura infantil: The Iron Giant ou The Iron
Man (romance para crianças, O Homem de Ferro, 1968), What Is the Truth? (Qual é
a Verdade?, 1984) e outros títulos em verso, prosa, literatura infantil e
várias peças radiofônicas; recebeu premiações por suas obras: Guardian Prize (1984),
por What Is the Truth? [livro para crianças, Qual é a Verdade?], Forward Poetry
Prize, T. S. Eliot Prize (ambos em 1998) e British Book of the Year award
(1999), pela coletânea de poemas Birthday Letters [Cartas de aniversário], e o Whitbread
Book of the Year (1997), pela tradução de Ovídio (Tales from Ovid [Contos de
Ovídio, ‘trechos de Metamorfose’]); Ted Hughes foi casado com a também poeta
Sylvia Plath, de 1955 a 1963, ano em que Sylvia se suicidou com a cabeça em um
forno a gás ligado (antes havia calafetado a porta do quarto e aberta a janela apesar
da nevasca onde estavam duas crianças [filha e filho dela e de Hughes],
protegendo-as); em 1969, Assia Wevill, companheira de Hughes, também tirou a
própria vida usando o mesmo método: asfixia por um fogão a gás, matando também
sua filha cujo pai era Ted Hughes; em 2009, Nicholas Hughes, filho de Sylvia
Plath e de Ted Hughes, acometido de depressão, sofreu suicídio por enforcamento
[não era casado nem tinha filhos].


