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(Indagações em cima de um balanço ou especulações em torno de uma palavra)
De quem é a mão
que balança o balanço?
É de algum gerente
escolhido a dedo
ou de um contador
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De quem é a mão
que balança o balanço?
É de algum gerente
escolhido a dedo
ou de um contador
que, tão gabaritado,
é cheio de diplomas.
Não serão mais mãos?
O que é um balanço
O que é um balanço
e quando ele se faz?
De seis em seis meses?
De ano em ano
ou de quatro em quatro?
ou de quatro em quatro?
Quem lança os dados
que saem no balanço
não comete erros?
A junção das contas
A junção das contas
de todas as áreas
resultam em balanço
ou não resultam nada?
Como se mede um balanço?
Pelo patrimônio?
Por depósitos a vista?
Depósitos a prazo?
Pelo realizável
ou pelo irrealizado?
Pelas exigíveis
ou nada se exige?
O balanço mente?
resultam em balanço
ou não resultam nada?
Como se mede um balanço?
Pelo patrimônio?
Por depósitos a vista?
Depósitos a prazo?
Pelo realizável
ou pelo irrealizado?
Pelas exigíveis
ou nada se exige?
O balanço mente?
Escancaradamente
ou furtivamente?
Quem mente com ele?
Quem balança o balanço
Quem balança o balanço
não balança nunca?
E, se balança, cai?
Será que cai logo?
Cai no mês que vem
Cai no mês que vem
ou daqui a dez anos?
Quem audita o balanço
encontra divergências?
E, se encontra, audita?
E, se encontra, audita?
Ou, se faz-de-conta,
quem audita o auditor?
O balanço tem base?
Tem sombra? Tem rímel,
Tem sombra? Tem rímel,
lábios de batom?
Ele tem maquiagem?
Quem maquia o balanço?
E a oposição
E a oposição
faz o seu balanço?
Boca-no-trombone
ou boca-de-siri?
Balanço tem cor?
Se tem, é azul?
É verde-e-amarelo
ou tá no vermelho?
Se tá no vermelho,
quem balança?
Balança o caixa
que autentica menos
ou quem autentica mais
e adoece por LER?
E quem faz horas extras
faz seu mea-culpa?
Quem trabalha de graça
Balanço tem cor?
Se tem, é azul?
É verde-e-amarelo
ou tá no vermelho?
Se tá no vermelho,
quem balança?
Balança o caixa
que autentica menos
ou quem autentica mais
e adoece por LER?
E quem faz horas extras
faz seu mea-culpa?
Quem trabalha de graça
vê que não adianta:
balança o bancário
balança o bancário
com o desemprego,
a corda arrebenta
a corda arrebenta
do lado mais fraco.
E o lado mais forte
não balança nunca?
Balançam estatais...
Balançam estatais...
e as privadas? Balançam?
Fica como está
ou vai ter CPI?
O balanço é político
O balanço é político
ou é econômico?
É questão nacional
ou cala-te-boca?
E no Banco Central,
E no Banco Central,
ninguém balança?
Tudo como dantes
no quartel de Abrantes.
Este texto-poema, de P. da Silva, foi publicado originalmente no jornaleco Na Moita (abril/1996), um devezenquandário que circulava nas seções da ex-Agência Centro do BB em São Paulo e agências adjacentes, cujos editores interinhos eram Genésio dos Santos e Jorge Nagao, ativistas da palavra; o mesmo poema (sem as estrofes 5, 6, 7, 14, 15 e 16) compôs a pág.22 da Revista if - Informação Financeira (n° 5, abril e maio de 1996, Editora IeA Ltda.) que teve como diretor responsável o economista Carlos Augusto Vidotto; na conjuntura da época, governo FHC, assistiu-se a quebra do Banco Econômico, de matriz baiana, da família Calmon de Sá, e também do Banco Nacional, de matriz mineira, da família Magalhães Pinto; na mesma época também nasceram o Proer e o Proes, dois programas do governo federal: um, o Proer, que incentivava fusões bancárias, socorrendo instituições financeiras privadas em apuros, e, outro, o Proes, que destinava recursos às estatais financeiras estaduais, com o objetivo de reduzi-las, extinguindo-as ou privatizando-as, quiçá saneando-as; ainda, na mesma conjuntura, veio à luz o que ficou conhecido como o "Dossiê da Pasta Rosa": conforme o que foi amplamente divulgado na mídia, tratava-se de um calhamaço, acondicionado numa pasta cor de rosa, que chegou às mãos do então interventor do Banco Central no Banco Econômico, Flávio Barbosa, e onde continha indícios e indicações de que a instituição financeira de matriz baiana, em 1990, patrocinara campanhas de vinte e cinco políticos, particularmente do Nordeste (à época era proibido pessoas jurídicas financiarem campanhas eleitorais); P. da Silva e Genésio dos Santos são um só poeta, um só cronista e uma só pessoa.