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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cruz e Sousa: O padre

 
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A João Lopes

Um padre escravocrata!... Horror!

          Um padre, o apóstolo da Igreja, que deveria ser o arrimo dos que sofrem, o sacrário da bondade, o amparo da inocência, o atleta civilizador da cruz, a cornucópia do amor, das bênçãos imaculadas, o reflexo do Cristo...
          Um padre que comunga, que bate nos peitos, religiosamente, automaticamente, que se confessa, que jejua, que reza o  Orate fratres, que prega os preceitos evangélicos, bradando aos que caem surge et ambula.
          Um escravocrata de... batina e breviário... horror!
          Fazer da Igreja uma senzala, dos dogmas sacros leis de impiedade, da estola um vergalho, do missal um prostíbulo...
          Um padre, amancebado com a treva, de espingarda a tiracolo como um pirata negreiro, de navalha em punho, como um garoto, para assassinar a consciência.
          Um canibal que pega nos instintos e atira-os à vala comum da noite da matéria onde se revolvem as larvas esverdeadas e vítreas da podridão moral.
          Um padre que benze-se e reza, instante a instante, que gagueja à frente do cadáver o aforismo de Horácio  Hodie mihi cras tibi.
          Um padre que deixando explosir todas as interjeições da ira, estigmatiza a abolição.
          Ela há de fazer-se malgrado os exorcismos crus dos padres escravocratas; depende de um esforço moral e os esforços morais são, quase sempre, para a alta filosofia, mais do que os esforços físicos o fio condutor da restauração política de um país!...
          O interesse egoístico de um indivíduo não pode prevalecer sobre o interesse coletivo de uma nação, disse-o um moço de alevantado talento, Artur Rocha.
          Não é com a ênfase dogmática do didatismo ou com a fraseologia tecnológica dos cinzelados folhetins de Teófilo Gautier que o trabalho da abolição se fará.
          Mas com a palavra educada, vibrante essa palavra que fulmina profunda, nova, salutar como as teorias de Darwin.
          Com a palavra inflamável, com a palavra que é o raio e dinamite, como o era na boca de Gambetta, a maior concretização do estupendo — depois do sol.
          A palavra que ri... de indignação; um riso convulso... de réprobo, funambulesco... de jogral.
          Um riso que atravessa séculos como o de Voltaire.
          Um riso aberto, franco, eloquentemente sinistro.
          O riso das trevas, na noite do calvário.
          O riso de um inferno... dantesco.
          Ouves, padre?...
          Compreendes, sacerdote?...
          Entendes, apóstolo?...
          Então para que empunhas o chicote e vais vibrando, vibrando, sem compaixão, sem amor, sem te lembrares daquele olhar doce e aflitivo que tinha sobre a cruz, o filho de Maria?...
          O filho de Maria, sabes?!...
          Aquele revolucionário do bem e aquele cordeiro manso, manso como um ósculo da alvorada nas grimpas da montanha, como o luar a se esbater num lago diamantino...
          Lembras-te?!...
          Era tão triste aquilo...
          Não era padre, ó padre?!...
          Não havia naquela suprema angústia, naquela dor cruciante, naquela agonia espedaçadora, as mesmas contorções de uma cólica frenética, os mesmos arrancos informes de um escravo?...
          Não compreendes se açoitares um mísero que for pai, uma desgraçada que for mãe, as bocas dos filhinhos, daquelas criancinhas negras, sintetizando o remorso, o aguilhão da tua consciência, se abrirão nuns gritos desoladores que, como uns bisturis envenenados, trespassar-te-ão as carnes?...
          Não compreendes que de seus olhos, acostumados a paralisarem-se ante o terror, irromperão as lágrimas, esse líquido precioso das alminhas inocentes?!!...
          Pois tu, nunca choraste?!...
          Nunca sentiste os engasgos de um soluço saltarem-te pela garganta, quando te lembras de trocar as tuas magníficas conquistas, os teus manjares especiais, os teus licores dulçorosíssimos pela noite escura, muito escura, onde grasnam surdamente as aves da treva, onde Dante se acentua no Lasciate ogni speranza, onde os espíritos vis desaparecem e os Homeros e Camões e Virgílios surgem e se levantam pelo braço hercúleo da posteridade, pelo fôlego intérmino e secular da História?
          Nunca?!...
          Sim, tu estás comigo, padre!...
          Estás!...
          És bondoso, eu sei, tens a alma tão serena e tão lúcida como uma imagem de N. S. da Conceição.
          Eu sei disso!...
          Olha, quando morreres se é que morres, irás de palmito e capela, na mudez dos justos e as virgens tímidas e cloróticas, entoando grave De profundis, murmurarão lacrimosas:
           Coitado, foi o pai carinhoso das donzelas...
          Requiescat in pace!...
          Que bonito será, não!...
          E depois o céu!
          Sim, porque tu irás para o céu!
          Não crês no céu, padre?
          Pois crê, esses filólogos mentem, têm princípios errôneos e tu, padre, és um sábio...
          Tu és bom...
          Porém... por Deus, como é que vendes a Cristo como um quilo de carne verde no mercado?!...
          Ah! É verdade, és muito pobre, andas com os sapatos rotos, não tens que comer e... és muito caridoso...
          Mas, escuta, vem cá:
          Eu tenho também minhas fantasias; gosto de sonhar às vezes com o azul.
          O Azul!...
          Deslumbro-me quando o sol se atufa no oceano, espadanando os raios purpureados, como flechas de fogo, pela enormidade côncava do espaço; inebrio-me quando a natureza com seu tropicalismo, ergue-se do banho de alvoradas, jorrando nos organismos de ouro o licor olímpico e santo do ideal, as músicas maviosíssimas e puras da inspiração, nos crânios estrelejados!...
          Pois façamos uma cousa:
          Eu escrevo um livro de versos que intitularei:

O abutre de batina

puros alexandrinos, todos iguais, corretos, com os acentos indispensáveis, com aquele tic da sexta, tipo elzevir, papel melado e ofereço-to, dou-to.
          Prescindo dos meus direitos de autor e tu o assinas!...
          Com os diabos, hás de ter influência no teu círculo.
          Imprimes um milhão de exemplares, vende-os e assim terás loiras para a tua subsistência, porque tu és paupérrimo, padre, e necessitas mesmo de dinheiro, porque tens família, muitos afilhados que te pedem a bênção e precisas dar-lhes no dia de teu santo nome um mimo qualquer.
          Faz isso, mas... não te metas com o abolicionismo; é a ideia que se avigora.
          Talvez digas, mastigando o teu latim:  Primo vivere deinde philosophari.
          Mas é porque tu és míope e os míopes não podem encarar o sol...
          Mas eu dou-te uns óculos, uns óculos feitos da mais fina pele dos negros que tu azorragas...
          Pode ser que a influência animal da matéria excite o espírito e que tu... vejas.
          Pode ser...
          Há cegos de nascença que veem... pelos olhos da alma.
          E se tu és padre e se tu és metafísico... deves ter alma...
          Compreendes?...
          Faz-se preciso que desapareçam os Torquemadas, os Arbues, maceradores da carne, como tu, padre.
          Em vez de prédicas beatíficas, em vez de reverências hipócritas, proclama antes a insurreição...
          Tens dentro de ti, bate-te no peito, nas palpitações da seiva, um coração que eu penso não ser um músculo oco.
          Vibra-o pois, fibra por fibra, se não queres que os meus ditirambos e sarcasmos, quentes, inflamados, como brasas, persigam-te eternamente, por toda a parte, no fundo de tua consciência, como uns outros medonhos Camilos de Zola; vibra-o se não queres que eu te estoure na cabeça um conto sinistro, negro de Edgar Poe.
          É tempo de zurzirmos os escravocratas no tronco do direito, a vergastadas de luz...
          Sejam-te as virtudes teologais, padre, a liberdade, a igualdade e a fraternidade maravilhosa trilogia do amor.
          Unge-te nas claridões modernas e expansivas dessas três veias artérias da verdadeira Filosofia Universal.

[texto publicado em Tropos e Fantasias — 1885]

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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

sábado, 4 de outubro de 2025

Cruz e Sousa: Pacto de Almas *

 
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A Nestor Vítor
Por devotamento e admiração.
12 de outubro de 1897.

I
Para sempre!

Ah! para sempre! para sempre! Agora
não nos separaremos nem um dia...
Nunca mais, nunca mais, nesta harmonia
das nossas almas de divina aurora.

A voz do céu pode vibrar sonora
ou do Inferno a sinistra sinfonia,
que num fundo de astral melancolia
minh'alma com a tu'alma goza e chora.

Para sempre está feito o augusto pacto!
Cegos serenos do celeste tato,
do Sonho envoltos na estrelada rede.

E perdidas, perdidas no Infinito
as nossas almas, no Clarão bendito,
hão de enfim saciar toda esta sede...

II
Longe de tudo

É livres, livres desta vã matéria,
longe, nos claros astros peregrinos
que havemos de encontrar os dons divinos
e a grande paz, a grande paz sidérea.

Cá nesta humana e trágica miséria,
nestes surdos abismos assassinos
termos de colher de atros destinos
a flor apodrecida e deletéria.

O baixo mundo que troveja e brama
só nos mostra a caveira e só a lama,
ah! só a lama e movimentos lassos...

Mas as almas irmãs, almas perfeitas,
hão de trocar, nas Regiões eleitas,
largos, profundos, imortais abraços!

III
Alma das almas

Alma das almas, minha irmã gloriosa,
divina irradiação do Sentimento,
quando estarás no azul Deslumbramento,
perto de mim, na grande Paz radiosa?!

Tu que és a lua da Mansão de rosa
da Graça e do supremo Encantamento,
o círio astral do augusto Pensamento
velando eternamente a Fé chorosa;

Alma das almas, meu consolo amigo,
seio celeste, sacrossanto abrigo,
serena e constelada imensidade;

entre os teus beijos de etereal carícia,
sorrindo e soluçando de delícia,
quando te abraçarei na Eternidade?!

(Últimos Sonetos — 1905)


* Nota de Andrade Muricy: GT [jornal Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro — RJ], 22 mar. 1898.
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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

sábado, 16 de agosto de 2025

Cruz e Sousa: Sempre... e sempre * [soneto]

 
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A M. B. Augusto Varela

Sempre se amando, sempre se querendo.
(Oliveira Paiva)

De longe ou perto, juntas, separadas,
olhando sempre os mesmos horizontes,
presas, unidas nossas duas frontes
gêmeas, ardentes, novas, inspiradas;

vendo cair as lágrimas prateadas,
sentindo o coro harmônico das fontes,
sempre fitando a cúspide dos montes
e o rosicler das frescas alvoradas;

sempre embebendo os límpidos olhares
na claridão dos humildes luares,
no loiro sol das crenças se embebendo,

vão nossas almas brancas e floridas
pelo futuro azul das nossas vidas,
sempre se amando, sempre se querendo.

(Obra Completa: Cruz e Sousa, [O Livro Derradeiro:
cambiantes, outros sonetos, campesinas, dispersas,
‘entre os quais, 32 inéditos, além de 35 peças dispersas]


* Nota de Andrade Muricy: JC [Jornal Comércio, Desterro ‘hoje Florianópolis’], 11 jun. 1885.
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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina e Guilherme] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Cruz e Sousa: [Quando eu partir]* que eterna e que infinita . . . [soneto]

 
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Quando eu partir, que eterna e que infinita
há de crescer-me a dor de tu ficares;
quanto pesar e mesmo que pesares,
que comoção dentro desta alma aflita.

Por nossa vida toda sol, bonita,
que sentimento, grande como os mares,
que sombra e luto pelos teus olhares
onde o carinho mais feliz palpita…

Nesse teu rosto da maior bondade
quanta saudade mais, que atroz saudade…
quanta tristeza por nós ambos, quanta,

quando eu tiver já de uma vez partido,
ó meu amor, ó meu muito querido
amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa!

(Obra Completa: Cruz e Sousa, [O Livro Derradeiro:
cambiantes, outros sonetos, campesinas, dispersas,
‘entre os quais, 32 inéditos, além de 35 peças dispersas]


* Notas de Andrade Muricy: OM [O Moleque, Desterro ‘hoje Florianópolis’], nº 24, 31 mai. 1885, sob o nº IV. Assinado: “Coriolano Scevola”; Var.: JC [Jornal Comércio, Desterro], 29 mai. 1886, sob o título “Esfuminhamentos”.
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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina e Guilherme] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

domingo, 4 de maio de 2025

Cruz e Sousa: Dor negra

 
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E como os Areais eternos sentissem
fome e sentissem sede de flagelar,
devorando com as suas mil bocas
tórridas todas as rosas da Maldição e
do Esquecimento infinito, lembraram-se,
então, simbolicamente da África!

Sanguinolento e negro, de lavas e de trevas, de torturas e de lágrimas, como o estandarte mítico do Inferno, de signo de brasão de fogo e de signo de abutre de ferro, que existir é esse, que as pedras rejeitam, e pelo qual até mesmo as próprias estrelas choram em vão milenariamente?!
          Que as estrelas e as pedras, horrivelmente mudas, impassíveis, já sem dúvida que por milênios se sensibilizaram diante da tua Dor inconcebível, Dor que de tanto ser Dor perdeu já a visão, o entendimento de o ser, tomou decerto outra ignota sensação da Dor, como um cego ingênito que de tanto e tanto abismo ter de cego sente e vê na Dor uma outra compreensão da Dor e olha e palpa, tateia um outro mundo de outra mais original, mais nova Dor.
          O que canta Réquiem eterno e soluça e ulula, grita e ri risadas bufas e mortais no teu sangue, cálix sinistro dos calvários do teu corpo, é a Miséria humana, acorrentando-te a grilhões e metendo-te ferros em brasa pelo ventre, esmagando-te com o duro coturno egoístico das Civilizações, em nome, no nome falso e mascarado de uma ridícula e rota liberdade, e metendo-te ferro em brasa pela boca e metendo-te ferros em brasa pelos olhos e dançando e saltando macabramente sobre o lodo argiloso dos cemitérios do teu Sonho.
          Três vezes sepultada, enterrada três vezes: na espécie, na barbaria e no deserto, devorada pelo incêndio solar como por ardente lepra sidérea, és a alma negra dos supremos gemidos, o nirvana negro, o rio grosso e torvo de todos os desesperados suspiros, o fantasma gigantesco e noturno da Desolação, a cordilheira monstruosa dos ais, múmia das múmias mortas, cristalização d'esfinges, agrilhetada na Raça e no Mundo para sofrer sem piedade a agonia de uma Dor sobre-humana, tão venenosa e formidável, que só ela bastaria para fazer enegrecer o sol, fundido convulsamente e espasmodicamente à lua na cópula tremenda dos eclipses da Morte, à hora em que os estranhos corcéis colossais da Destruição, da Devastação, pelo Infinito galopam, galopam, colossais, colossais, colossais...

(edição póstuma, Evocações — 1898)

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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Cruz e Sousa: Doença psíquica *

 
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Que mal vos fez a vida, ó serenos filósofos, para o encherdes do mais negro Pessimismo, como de uma treva noturna e dolorosa e de um rio de sangue eternamente caudaloso?!
          Para ti, Shopenhauer, a existência é a materialidade, o alimento, para ti, é apenas a necessidade de prevalecer na luta, a força para a função dos órgãos nervosos, a bem de que se propague a espécie: enquanto que para outros, ó sombrios monges do Pensamento, o alimento é a lascívia, a lascívia da Carne, que fazia, desde os romanos, a carne viçosa e rica.
          Basta, para ti, que o estômago metodicamente funcione, na normalidade cronométrica de um relógio, a fim de que tenhas a positiva segurança de que subsiste aos vermes e à seca dissecação dos fenômenos da natureza.
          No entanto, para outros, o sentimento palatal educado, gozando o requinte das iguarias faustosas, de incomparáveis gourmandises, as vaporosas luminosidades de dourados vinhos, apenas, bastam para que os sonhos sejam felizes e o sorriso seja alegre.
          Para esses, os alimentos, como no Oriente o fumo, tem insubstituíveis encantos, voluptuosas graças de viver, que afilam, acendem a imaginação, fazem abrir e flamejar por todos os pontos do mundo, infinitamente, os mais inauditos sóis do espírito.
          Neles, é um fluido, um alado perfume de úmidas bocas purpúreas de rosa, de níveos colos cor de camélia, de veludosos seios, macios com a alva plumagem fresca de um pássaro real; um amoroso ansiar de etéreos olhos de estrelas, atravessando em visão, claros e pesados de luz, com o brilho aceso e ardente de preciosas e raras pedrarias, a quase extinta noite remota das recordações.
          Para ti, Shopenhauer, os seres orgânicos não têm senão o caráter essencial da consciência vital e representam no mundo, funcionalmente, o mesmo valor dos elementos inorgânicos, químicos e físicos da terra.
          Assim, a pedra, o fogo, o ar, a água, são tantas forças complexas da vida como o homem ou labore pelo psiquismo, num século de livros, sob o complicado aparelho da ciência ou, simplesmente, ame, seja fator da evolução humana, dando a forma do Amor ao princípio genesíaco da sensualidade.
          Por isso, ó egrégio magnificente filósofo alemão, eu, que no entanto sinto e percebo a sua radiante e clara verdade, que brilha e fere como as arestas agudas de um cristal, verdade aceita pelos homens sob a nebulosa denominação de Pessimismo, eu tenho tédio, profundo, supremo, e inesgotável tédio, vendo que a vida orgânica é toda ela adstrita à matéria, e que apenas, para ser feliz, nada mais é preciso do que ter a estrutura de um forte e belo animal, premunido de garras para o assalto, de dentes para devorar e com a regular circulação do sangue para o equilíbrio do coração e do cérebro.


* Nota de Andrade Muricy: NO [jornal Novidades, Rio de Janeiro — RJ], 26 mar. 1892.
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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

sábado, 19 de abril de 2025

Cruz e Sousa: Umbra

 
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Volto da rua.
          Noite glacial e melancólica.
          Não há nem a mais leve nitidez de aspectos, porque nem a lua, nem as estrelas, ao menos, fulgem no firmamento.
          Há apenas uma noite escura, cerrada, que lembra o mistério.
          Faz frio…
          Cai uma chuva miúda e persistente, como fina prata fosca moÍda e esfarelada do alto…
          À turva luz oscilante dos lampiões de petróleo, em linha, dando à noite lúgubres pavores de enterros, veem-se fundas e extensas valas cavadas de fresco, onde alguns homens ásperos, rudes, com o tom soturno dos mineiros, andam colocando largos tubos de barro para o encanamento das águas da cidade.
          A terra, em torno dos formidáveis ventres abertos, revolta e calcárea, com imensa quantidade de pedras brutas sobrepostas, dá ideia da derrocada de terrenos abalados por bruscas convulsões subterrâneas.
          Instintivamente, diante dessas enormes bocas escancaradas na treva, ali, na rigidez do solo, sentindo na espinha dorsal, como uma tecla elétrica onde se calca de repente a mão, um desconhecido tremor nervoso, que impressiona e gela, pensa-se fatalmente na Morte…

(Missal — poemas em prosa, 1893)

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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861  1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina e Guilherme] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras através de Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Cruz e Sousa: Grandeza oculta & Voz fugitiva

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Grandeza oculta

Estes vão para as guerras inclementes,
Os absurdos heróis sanguinolentos,
Alvoroçados, tontos e sedentos
Do clamor e dos ecos estridentes.

Aqueles para os frívolos e ardentes
Prazeres de acres inebriamentos:
Vinhos, mulheres, arrebatamentos
De luxúrias carnais, impenitentes.

Mas Tu, que na alma a imensidade fechas,
Que abriste com teu Gênio fundas brechas
No mundo vil onde a maldade exulta,

Ó delicado espírito de Lendas!
Fica nas tuas Graças estupendas,
No sentimento da grandeza oculta!

— o —

Voz fugitiva

Às vezes na tu'alma que adormece
Tanto e tão fundo, alguma voz escuto
De timbre emocional, claro, impoluto
Que uma voz bem amiga me parece.

E fico mudo a ouvi-la como a prece
De um meigo coração que está de luto
E livre, já, de todo o mal corruto *,
Mesmo as afrontas mais cruéis esquece.

Mas outras vezes, sempre em vão, procuro
Dessa voz singular o timbre puro,
As essências do céu maravilhosas.

Procuro ansioso, inquieto, alvoroçado,
Mas tudo na tu'alma está calado,
No silêncio fatal das nebulosas.


* Nota de Adriano da Gama Kury: No manuscrito e nas várias edições se lê corrupto; a despeito disso, a rima com luto (no manuscrito lucto) aconselha a forma corruto, igualmente usual.
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Cruz e Sousa — Últimos Sonetos, Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e Notas por Adriano da Gama Kury, 5ª edição revista, 2013, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central [do Brasil]; foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).