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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Olavo Bilac: A Velhice

 
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O neto

Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?

Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apóia a um bordão:
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?

Por que é tão triste o seu rosto;
Tão trêmula a sua voz;
Vovó, qual é seu desgosto;
Por que não ri como nós?

A avó

Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!

Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!

O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma bênção de Deus!

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Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta, e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; colaborou em jornais, como a Gazeta de Notícias [que publicou seu primeiro poema, o soneto Nero], e em outros periódicos da época, como as revistas A Imprensa, A Leitura, Branco e Negro, Brasil—Portugal e Atlântida; suas obras: Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916), Tarde (poesias, publicação póstuma, 1919) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira; juntamente com os poetas Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, veio a formar o que ficou conhecido como a Tríade Parnasiana; no Rio de Janeiro e em São Paulo, estudou Medicina e Direito sem no entanto concluir nenhum dos cursos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Cruz e Sousa: Domus Aurea

 
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De bom amor e de bom fogo claro
Uma casa feliz se acaricia...
Basta-lhe luz e basta-lhe harmonia
Para ela não ficar ao desamparo.

O Sentimento, quando é nobre e raro,
Veste tudo de cândida poesia...
Um bem celestial dele irradia,
Um doce bem, que não é parco e avaro.

Um doce bem que se derrama em tudo,
Um segredo imortal, risonho e mudo,
Que nos leva debaixo da sua asa.

E os nossos olhos ficam rasos d'água,
Quando, rebentos de uma oculta mágoa,
São nossos filhos todo o céu da casa.

([Últimos Sonetos — 1905])

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Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

domingo, 19 de outubro de 2025

Eugênio de Castro: Acorda cedo como os passarinhos . . . [soneto]

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[A minha filha Violante]

Acorda cedo como os passarinhos,
E vem logo, direita, à minha cama;
Sacode-me com jeito, por mim chama
E abre-me os olhos com os seus dedinhos.

Estremunhado, zango-me. - "Beijinhos,
Não quer beijinhos?" com voz d'ouro exclama;
Da minha ira empalidece a chama,
E, acarinhando-a, pago os seus carinhos.

Senhor! que amor de filha tu me deste!
Dá-lhe um caminho brando e sem abrolhos,
Dá-lhe a Virtude por amparo e guia;

E destina também, ó Pai celeste,
Que a mão com que ela agora me abre os olhos,
Seja a que há de fechar-m’os algum dia!

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Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, cursou Letras em Lisboa, exerceu o ofício de pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra, ali também trabalhou como Secretário e lecionou Letras, foi escritor, poeta e “autor dramático”; ainda estudante já publicara livros de poesia (Cristalização e Morte, Canção de Abril, Jesus de Nazaré, Per Umbram e Horas Tristes); após formado, em viagem para Paris tomou contato com as novidades do Simbolismo e de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês; em 1890 publicou Oaristos, o qual, por seu prefácio revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; suas obras: Cristalização e Morte e Canção de Abril (ambas em 1884), Jesus de Nazaré (1885), Per Umbram (1887), Horas Tristes (1888), Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias e Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.

domingo, 12 de outubro de 2025

Olavo Bilac: O Tempo

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Sou o tempo que passa, que passa,
Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida!

A correr, de segundo em segundo,
Vou formando os minutos que correm....
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que nascem e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos...
Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos
Formo um século, e passo adiante.

Trabalhai, porque a vida é pequena,
E não há para o Tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

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Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; colaborou em jornais, como a Gazeta de Notícias [que publicou seu primeiro poema, o soneto Nero], e em outros periódicos da época, como as revistas A Imprensa, A Leitura, Branco e Negro, Brasil—Portugal e Atlântida; suas obras: Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916), Tarde (poesias, publicação póstuma, 1919) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira; juntamente com os poetas Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, veio a formar o que ficou conhecido como a Tríade Parnasiana; no Rio de Janeiro e em São Paulo, estudou Medicina e Direito sem no entanto concluir nenhum dos cursos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Baptista Cepellos*: Maternidade

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Sob uma latada amena,
Onde a folhagem se entrança
A luz se infiltra serena,
Como um olhar de criança...

Lili, graciosa pequena,
Numa rede se embalança,
Mais ligeira que uma pena.
Mais linda que uma esperança,

E, nesse grato abandono,
Com voz monótona e incerta,
Convida os olhos ao sono...

E, mãe que adora o seu filho,
Entre os bracinhos aperta,
Uma boneca... de milho!

Os Bandeirantes (1911, H. Garnier,
Rio de Janeiro — RJ)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (crônicas, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.