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sábado, 10 de janeiro de 2015

João Cabral do Melo Neto: A Lição da Poesia

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1.
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2.
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da ideia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3.
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis 
 naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar. *



* Nota dos Organizadores: O trabalho poético do escritor vai contra os princípios do espontaneísmo romântico. Sob esse aspecto, há um “antilirismo” que dá origem dialeticamente a um novo lirismo depurado de sua tradição eminentemente subjetivista.
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João Cabral de Melo Neto — Literatura Comentada, seleção de textos por José Fulaneti de Nadai, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por Samira Youssef Campedelli e Benjamin Abdala Junior, 1982, Editora Abril, São Paulo — SP; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.