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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

José Martí: Para Aragon em Espanha . . .

 
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[traduzido por Thiago de Mello]

VII.
Para Aragon em Espanha
Tenho no meu coração
Um lugar todo Aragon,
Franco, bravo, fiel, sem sanha.

Se um tolo quiser saber
Porque o tenho, só lhe digo
Que ali tive um bom amigo,
Que ali amei uma mulher.

Ali, na várzea florida,
Da mais heroica defesa,
Para manter o que pensa
A gente se arrisca a vida.

Se um prefeito vem e o aperta
Ou se um rei chucro o ofende,
Põe logo a manta o valente
E morre com a escopeta.

Eu amo a terra amarela
Que banha o Ebro lodoso:
Amo o Pilar azuloso
De Lanuza e de Padilla.

Estimo a quem de um revés
Deita por terra a um tirano.
O estimo se é um cubano,
O estimo se aragonês.

Amo os seus pátios sombrios,
Suas escadas bordadas:
As suas naves caladas
E seus conventos vazios.

Amo essa terra florida,
Muçulmana ou espanhola,
Onde rompeu sua corola
A rosa da minha vida.

(Versos sencillos 1891)

José Martí

Para Aragón, en España, . . .

VII
Para Aragón, en España,
Tengo yo en mi corazón
Un lugar todo Aragón,
Franco, fiero, fiel, sin saña.

Si quiere un tonto saber
Por qué lo tengo, le digo
Que allí tuve un buen amigo,
Que allí quise a una mujer.

Allá, en la vega florida,
La de la heroica defensa,
Por mantener lo que piensa
Juega la gente la vida.

Y si un alcalde lo aprieta
O lo enoja un rey cazurro,
Calza la manta el baturro
Y muere con su escopeta.

Quiero a la tierra amarilla
Que baña el Ebro lodoso:
Quiero el Pilar azuloso
De Lanuza y de Padilla.

Estimo a quien de un revés
Echa por tierra a un tirano:
Lo estimo, si es un cubano;
Lo estimo, si aragonés.

Amo los patios sombrios
Con escaleras bordadas;
Amo las naves caladas
Y los conventos vacíos.

Amo la tierra florida,
Musulmana o española,
Donde rompió su corola
La poca flor de mi vida.

(Versos sencillos 1891)
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Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; José Julián Martin Pérez ou José Martí (1853 1895), nascido em Havana Cuba, estudou no Instituto de Ensino Secundário de Havana, fez Desenho Elementar na Escola Profissional de Pintura e Escultura, também em Havana, e, tendo sido preso, posteriormente, após comutação da pena em troca de exílio na Espanha, formou-se em Direito, Filosofia e Letras nas universidades de Madri e Zaragoza, foi jornalista, escritor, poeta, filósofo, pensador e político revolucionário cubano; depois de ter passado um período em Paris, Nova Iorque, México e Guatemala, retornou à Cuba e participou da criação do Partido Revolucionário Cubano e da organização da Guerra de [18]95 ou Gerra Necessária; por sua participação político-revolucionária sofreu nova detenção, tendo sido outra vez deportado para a Espanha; escreveu seus primeiros poemas por volta dos quinze anos, o soneto “10 de outubro” entre os quais; teve seus artigos e crônicas publicados no La Opinión Nacional, de Caracas Venezuela, La Nación, de Buenos Aires Argentina, e The Liberal Party, do México; em Caracas, fundou a Revista Venezolana, com duração de apenas dois números; em Nova Iorque, criou e publicou a revista infantil The Golden Age; suas obras: em poesia: Edad de oro (1878-1882), Ismaelillo (1881-1882), Versos sencillos (Versos simples, 1891), Flores del destierro (1878-1895), Versos Libres: 1878 — 1882 (publicados postumamemente, 1913), em prosa e outros: Abdala (drama em 1 ato, em versos octossílabos, 1869), El presidio político en Cuba (ensaio, 1871), La Adúltera (drama em versos octossílabos, 1873), Amor con amor se paga (drama em versos, 1875), Amistad funesta (romance, publicado em fascículos no jornal El Latino Americano, de maio a setembro de 1885), Nuestra América (1891) e outros títulos; o poeta “é considerado o precursor do Modernismo na América Latina, movimento literário que explodiria no continente latino-americano com Rubén Darío [poeta nicaraguense]”; José Martí, com algumas prisões e deportações, viveu boa parte de sua vida no exílio.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

José Martí: Já sei: de carne se pode . . . & Cultivo uma rosa branca . . .

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[traduzidos por Thiago de Mello]

XXXVI.
Já sei: de carne se pode
Fazer uma flor: se pode
Com o poder do carinho
Fazer um céu e um menino.

De carne se faz também
O escorpião, e também
O verme dentro da rosa
E uma coruja de espanto.

— o —

XXXIX.
Cultivo uma rosa branca
Em julho como em janeiro
Para um amigo sincero
Que me dá sua mão franca.

E para o cruel que me arranca
O coração com que vivo,
Cardo, urtiga, não cultivo:
Cultivo uma rosa-branca.

(Versos sencillos 1891)

José Martí

XXXVI
Ya sé: de carne se puede
Hacer una flor: se puede,
Con el poder del cariño,
Hacer un cielo, ¡y un niño!

De carne se hace también
El alacrán; y también
El gusano de la rosa,
Y la lechuza espantosa.

— o —

XXXIX
Cultivo una rosa blanca
En julio como en enero,
Para el amigo sincero
Que me da su mano franca.

Y para el cruel que me arranca
El corazón con que vivo,
Cardo ni ortiga cultivo;
Cultivo la rosa blanca.

(Versos sencillos 1891)
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Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; José Julián Martin Pérez ou José Martí (1853 1895), nascido em Havana Cuba, estudou no Instituto de Ensino Secundário de Havana, fez Desenho Elementar na Escola Profissional de Pintura e Escultura, também em Havana, e, tendo sido preso, posteriormente, após comutação da pena em troca de exílio na Espanha, formou-se em Direito, Filosofia e Letras nas universidades de Madri e Zaragoza, foi jornalista, escritor, poeta, filósofo, pensador e político revolucionário cubano; depois de ter passado um período em Paris, Nova Iorque, México e Guatemala, retornou à Cuba e participou da criação do Partido Revolucionário Cubano e da organização da Guerra de [18]95 ou Gerra Necessária; por sua participação político-revolucionária sofreu nova detenção, tendo sido outra vez deportado para a Espanha; escreveu seus primeiros poemas por volta dos quinze anos, o soneto “10 de outubro” entre os quais; teve seus artigos e crônicas publicados no La Opinión Nacional, de Caracas Venezuela, La Nación, de Buenos Aires Argentina, e The Liberal Party, do México; em Caracas, fundou a Revista Venezolana, com duração de apenas dois números; em Nova Iorque, criou e publicou a revista infantil The Golden Age; suas obras: em poesia: Edad de oro (1878-1882), Ismaelillo (1881-1882), Versos sencillos (Versos simples, 1891), Flores del destierro (1878-1895), Versos Libres: 1878 — 1882 (publicados postumamemente, 1913), em prosa e outros: Abdala (drama em 1 ato, em versos octossílabos, 1869), El presidio político en Cuba (ensaio, 1871), La Adúltera (drama em versos octossílabos, 1873), Amor con amor se paga (drama em versos, 1875), Amistad funesta (romance, publicado em fascículos no jornal El Latino Americano, de maio a setembro de 1885), Nuestra América (1891) e outros títulos; o poeta “é considerado o precursor do Modernismo na América Latina, movimento literário que explodiria no continente latino-americano com Rubén Darío [poeta nicaraguense]”; José Martí, com algumas prisões e deportações, viveu boa parte de sua vida no exílio.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Vicente Huidobro: Arte poética

 
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[traduzido por Thiago de Mello]

Que o verso seja como chave
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quando os olhos vejam seja criado,
E fique estremecida a alma do ouvinte

Inventa mundos novos e cuida de tua palavra;
O adjetivo quando não dá vida, mata.
Estamos no céu dos nervos.
O músculo se pendura
Como lembrança nos museus.
Mas nem por isso menos força temos:
O vigor verdadeiro
Reside na cabeça

[ . . . ]

(de El espejo de agua — 1916)

Vicente Huidobro

Arte poética

Que el verso sea como una llave
Que abra mil puertas.
Una hoja cae; algo pasa volando;
Cuanto miren los ojos creado sea,
Y el alma del oyente quede temblando.

Inventa mundos nuevos y cuida tu palabra;
El adjetivo, cuando no da vida, mata.
Estamos en el ciclo de los nervios.
El músculo cuelga,
Como recuerdo, en los museos;
Mas no por eso tenemos menos fuerza:
El vigor verdadeiro
Reside en la cabeza.

[Por qué cantáis la rosa, ¡oh Poetas!
Hacedla florecer en el poema;

Sólo para nosotros
Viven todas las cosas bajo el Sol.

El Poeta es un pequeño Dios.]

(El espejo de agua — 1916)
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Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; Vicente García Huidobro Fernández (1893 1948), chileno de Santiago do Chile, foi poeta e escritor de vanguarda estética; o poeta passou boa parte de sua vida na Europa, transitando entre a França e a Espanha e foi um dos promotores da poesia de vanguarda na América Latina; teve participação ativa nas revistas Sic e Nord-Sud, ao lado de Apollinaire e outros; foi o mentor do que passou a se chamar criacionismo poético, e que consistia em buscar a inovação na poesia como uma necessidade e uma obsessão, um paroxismo na procura do novo, um bilinguismo textual; suas obras: Ecos del Alma (1911), La gruta del silencio e Canciones en la noche (ambos em 1913), Pasando y pasando e Las pagodas ocultas (ambos em 1914), Adán e El espejo de agua (ambos em 1916), Horizon carré (1917), Poemas árticos, Ecuatorial, Tour Eiffel e Hallali (todos em 1918), Manifestes (1925), Mio Cid Campeador (1929), Altazor o el viaje en paracaídas (1931), Sátiro, o El poder de las palabras (1939) e tantos outros títulos; Huidobro escreveu algumas de suas obras em francês; em diferentes períodos, colaborou com as revistas de arte Dada (Espanha), Nord-Sud e L’Esprit Noveau (França), Vanity Fair (Estados Unidos) e dirigiu, em conjunto com Tristan Tzara, o caderno literário da revista Feuielle Volante; também participou como fundador e/ou co-fundador das revistas Musa Joven e Azul (Chile), entre outras atividades; escreveu roteiro para o filme cubista Cagliostro, fez crítica de cinema na imprensa argentina, foi conferencista e deu palestras sobre poesia; durante a 2ª Guerra, alistou-se nas tropas aliadas, participou como correspondente de guerra na França, transmitiu crônicas do campo de batalha para A Voz da América; foi militante do partido comunista chileno.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Alfonsina Storni: Tu me queres branca

 
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[traduzido por Thiago de Mello]

Tu me queres alva,
me queres de espumas,
me queres de nácar.
Que seja açucena,
mais que todas, casta.
De perfume tênue.
Corola cerrada.

Nem um raio de lua
filtrado me toque.
Nem uma margarida
minha irmã se diga.
Tu me queres nívea,
tu me queres branca,
tu me queres alva.

Tu, que as minhas taças
tiveste nas mãos,
de frutos e méis
os lábios morados.
Tu, que no banquete
coberto de pâmpanos,
as carnes deixaste
festejando a Baco.
Tu que nos jardins
escuros do Engano
vestindo vermelho
correste ao Estrago.

Tu que no esqueleto
conservas intato
não sei bem por quê,
nem por qual milagre
me pretendes branca
(Deus que te perdoe),
me pretendes casta
(Deus que te perdoe),
me pretendes alva!

Foge para os bosques;
vai para a montanha;
limpa a tua boca;
vive nas cabanas;
toca com as mãos
a terra molhada;
alimenta o corpo
com raiz amarga;
bebe então das pedras;
dorme sobre escarcha;
renova tecidos
com salitre e água;
fala com os pássaros
e alcança a alvorada.
Quando as tuas carnes
te estejam de volta,
e quando nelas tenhas
limpa e profunda a alma
que pelas alcovas
deixaste enredada,
aí então, bom homem,
pretende-me branca,
pretende-me nívea,
pretende-me casta.

(El dulce daño — 1918)

Alfonsina Storni

Tú me quieres blanca

Tú me quieres alba,
me quieres de espumas,
me quieres de nácar.
Que sea azucena
Sobre todas, casta.
De perfume tenue.
Corola cerrada.

Ni un rayo de luna
filtrado me haya.
Ni una margarita
se diga mi hermana.
Tú me quieres nívea,
tú me quieres blanca,
tú me quieres alba.

Tú que hubiste todas
las copas a mano,
de frutos y mieles
los labios morados.
Tú que en el banquete
cubierto de pâmpanos
dejaste las carnes
festejando a Baco.
Tú que en los jardines
negros del Engaño
vestido de rojo
corriste al Estrago.

Tú que el esqueleto
conservas intacto
no sé todavia
por cuáles milagros,
me pretendes blanca
(Dios te lo perdone),
me pretendes casta
(Dios te lo perdone),
¡me pretendes alba!

Huye hacia los bosques,
vete a la montaña;
límpiate la boca;
vive en las cabañas;
toca con las manos
la tierra mojada;
alimenta el cuerpo
con raíz amarga;
bebe de las rocas;
duerme sobre escarcha;
renueva tejidos
con salitre y agua:
Habla con los pájaros
y lévate al alba.
Y cuando las carnes
te sean tornadas,
y cuando hayas puesto
en ellas el alma
que por las alcobas
se quedó enredada,
entonces, buen hombre,
preténdeme blanca,
preténdeme nívea,
preténdeme casta.

(El dulce daño — 1918)
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Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; já aos 12 anos, Alfonsina escreveu seus primeiros versos, e, logo depois, como operária em fábrica de gorros, se destacou por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações sociais, engajada nas fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências como atriz em companhia teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias localidades do país; estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda, onde também trabalhou, depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício de professora, colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas, tornando-se dirigente do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora trabalhando em farmácia e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal psicológico”, na empresa Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou com seu primeiro livro (La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações literárias nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino, La Nota, estabeleceu vínculos com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou de saraus, passou a recitar seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância em grupos feministas e socialistas; depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo uso do pseudônimo Tao-Lao; continando no desempenho da atividade de professora, lecionou em várias escolas: Colegio Marcos Paz, Escuela de Niños Débiles del parque Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas, Conservatório de Música y Declamación e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud del rosal (1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com suas atitudes inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a viam como perigosa e, com a publicação do poema La Loba, Alfonsina causou escândalo; recebeu premiações por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada pela cantora Mercedes Sosa (1935 2009); teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

José Martí: A noite é propícia

 
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[traduzido por Thiago de Mello]

A noite é propícia,
Boa amiga dos versos. Quebrantada,
Como a messe sob a trilha, nasce
Pelas horas ruidosas a Poesia.
Para a criação a escuridão convém.
As serpentes, de dia entrelaçadas
Ao pensamento, dormem: as vilezas
Nos causam mais horror vistas às claras,
Deixa o silêncio uma impressão de altura:
Com despudorado império estende
O coração as asas sobre o mundo.
Noite amiga... noite criadora!
Mais que o mar, mais que o céu, mais que o ruído
Dos vulcões e mais do que o tremendo
Tremor de terra, a tua formosura
Sobre o poder da terra se ajoelha.
Pela tarde com passo majestoso
Por sua porta de aço avança a altiva
Natureza e então cala e cobre o mundo
A mais fecunda escuridão da noite.
Surge o vapor perfumado da terra,
Fecham seus bordes as cansadas folhas,
Na azul ramagem ninhos estremecem
Como num cesto de coral,
Na luz do dia, as bárbaras imagens
Defronte do homem, se encolhem, têm medo:
E na taça do crânio dolorido
Estalam as asas rotas dos cisnes
Que morrem da dor da sua brancura.
Oh, como pesam na tristeza da alma
Estas aves crescidas que lhe nascem
E morrem sem voar.
                              Flores de plumas.
Sob esses pobres versos, essas flores,
Flores de funeral! Mas onde a alvura
Poderá, de asa firme, abrir o voo?
Onde não será crime a formosura?

Óleo sacerdotal as frontes unge
Quando começa o silêncio da noite:
E como rainha que se senta, brilha
A majestade humana acurralada.
Vibra o amor, gozam as flores, se abre
Ao beijo de um criador que cruza
A sazonada mente: o frio invita
A divindade e envolve o mundo inteiro
A solidão perfeita, mãe do verso.

(Versos libres — 1878 [publicados postumamente em 1913])

José Martí

La noche es la propicia

                        La noche es la propicia
amiga de los versos. Quebrantada,
como la mies bajo la trilla, nace
En las horas ruidosas la Poesía.
A la creación la oscuridad conviene
Las serpientes, de día entrelazadas
al pensamiento, duermen: las vilezas
nos causan más horror, vistas a solas.
Deja el silencio una impresión de altura:
y con imperio pudoroso, tiende
por sobre el mundo el corazón sus alas.
¡Noche amiga, noche creadora!:
más que el mar, más que el cielo, más que el ruído
de los volcanes, más que la tremenda
convulsión de la tierra, tu hermosura
sobre la tierra la rodilla encorva.
A la tarde con paso majestuoso
por su puerta de acero entra la altiva
naturaleza, calla, y cubre al mundo,
la oscuridad fecunda de la noche:
surge el vapor de la fresca tierra,
Pliegan sus bordes las cansadas hojas;
y en el ramaje azul tiemblan los nidos.
Como en un cesto de coral, sangrientas,
en el día, las bárbaras imágenes
frente al hombre, se estrujan: tienen miedo:
y en la taza del cráneo adolorido
crujen las alas rotas de los cisnes
que mueren del dolor de su blancura.
¡Oh, cómo pesan en el alma triste
estas aves crecidas que le nacen
y mueren sin volar!
                              ¡Flores de plumas
bajo los pobres versos, estas flores,
flores de funeral! ¿Donde, lo blanco
podrá, segura el ala, abrir el vuelo?
¿Dónde no será crimen la hermosura?

Oleo sacerdotal unge las sienes
quando el silencio de la noche empieza:
y como reina que se sienta, brilla
la majestad del hombre acorralada.

Vibra el amor, gozan las flores, se abre
al beso de un creador que cruza
la sazonada mente: el frío invita
a la divinidad; y envuelve al mundo
la casta soledad, madre del verso.

[Flores del destierro, 1878-1895]
(Versos libres — 1878 [publicados postumamente em 1913])
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Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; José Julián Martin Pérez ou José Martí (1853 1895), nascido em Havana Cuba, estudou no Instituto de Ensino Secundário de Havana, fez Desenho Elementar na Escola Profissional de Pintura e Escultura, também em Havana, e, tendo sido preso, posteriormente, após comutação da pena em troca de exílio na Espanha, formou-se em Direito, Filosofia e Letras nas universidades de Madri e Zaragoza, foi jornalista, escritor, poeta, filósofo, pensador e político revolucionário cubano; depois de ter passado um período em Paris, Nova Iorque, México e Guatemala, retornou à Cuba e participou da criação do Partido Revolucionário Cubano e da organização da Guerra de [18]95 ou Gerra Necessária; por sua participação político-revolucionária sofreu nova detenção, tendo sido outra vez deportado para a Espanha; escreveu seus primeiros poemas por volta dos quinze anos, o soneto “10 de outubro” entre os quais; teve seus artigos e crônicas publicados no La Opinión Nacional, de Caracas Venezuela, La Nación, de Buenos Aires Argentina, e The Liberal Party, do México; em Caracas, fundou a Revista Venezolana, com duração de apenas dois números; em Nova Iorque, criou e publicou a revista infantil The Golden Age; suas obras: em poesia: Edad de oro (1878-1882), Ismaelillo (1881-1882), Versos sencillos (Versos simples, 1891), Flores del destierro (1878-1895), Versos Libres: 1878 — 1882 (publicados postumamemente, 1913), em prosa e outros: Abdala (drama em 1 ato, em versos octossílabos, 1869), El presidio político en Cuba (ensaio, 1871), La Adúltera (drama em versos octossílabos, 1873), Amor con amor se paga (drama em versos, 1875), Amistad funesta (romance, publicado em fascículos no jornal El Latino Americano, de maio a setembro de 1885), Nuestra América (1891) e outros títulos; o poeta “é considerado o precursor do Modernismo na América Latina, movimento literário que explodiria no continente latino-americano com Rubén Darío [poeta nicaraguense]”; José Martí, com algumas prisões e deportações, viveu boa parte de sua vida no exílio.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

José Martí: Meu reizinho

 
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[traduzido por Thiago de Mello]

Os persas têm
Um rei sombrio
Os hunos foscos
Um rei altivo,
Um rei ameno
Têm os iberos;
Rei tem o homem,
Rei amarelo
Mal vão os homens
Com seu domínio!
Mas eu vassalo
De outro rei vivo,
Um rei desnudo
Banco e roliço:
Seu cetro um beijo!
Meu prêmio um mimo!
Oh! Como uns áureos
Reis, os divinos
De terras mortas,
Dos povos idos

Quando te fores,
Leva-me, filho!
Toca-me a fronte
Teu cetro onímodo,
Unge-me servo,
Servo submisso:
Não me cansarei
De me ver ungido!
Te juro lealdade,
Oh, meu reizinho!
Seja meu dorso
Teus pavês, filho;
Passa em meus ombros
O mar sombrio:
Morra ao te pôr
Em terra vivo:
Mas se amar pensas
Esse amarelo
Que é rei dos hiomens,
Morre comigo!
Viver impuro?
Não vivas, filho!

(Ismaelillo — 1881—1882)

José Martí

Mi reyecillo

Los persas tienen
Un rey sombrío;
Los hunos foscos
Un rey altivo;
Un rey ameno
Tienen los íberos;
Rey tiene el hombre,
Rey amarillo:
¡Mal van los hombres
Con su dominio!
Mas yo vassalo
De otro rey vivo,
Un rey desnudo,
Blanco y rollizo:
Su cetro un beso,
Mi premio un mimo!
Oh! cual los áureos
Reyes divinos
De tierras muertas,
De pueblos idos
¡Cuando te vayas,
Llévame, hijo!
Toca en mi frente
Tu cetro omnímodo:
Úngeme siervo,
Siervo sumiso:
¡No he de cansarme
De verme ungido!
¡Lealtad te juro,
Mi reyecillo!
Sea mi espalda
Pavés de mi hijo:
Pasa en mis hombros
El mar sombrío:
Muera al ponerte
En tierra vivo:
Mas si amar piensas
El amarillo
Rey de los hombres,
¡Muere conmigo!
¿Vivir impuro?
¡No vivas, hijo!

(Ismaelillo — 1881—1882)

Dedicatoria *

     Hijo:
     Espantado de todo, me refugio en ti.
     Tengo fe en el mejoramiento humano, en la vida futura, en la utilidad de la virtud, y en ti.
     Si alguien te dice que estas páginas se parecen a otras páginas, diles que te amo demasiado para profanarte así. Tal como aquí te pinto, tal te han visto mis ojos. Con esos arreos de gala te me has aparecido. Cuando he cesado de verte en esa forma, he cesado de pintarte. Esos riachuelos han pasado por mi corazón.
     ¡Lleguen al tuyo!

* Nota apensa na edição, pelo tradutor Thiago de Mello: (De Ismaelillo, livro que o Poeta escreveu para o seu filho. Vale a pena gravar nestas páginas as palavras com as quais Martí lhe oferece os versos:
     Filho:
     Espantado de tudo, me refugio em ti.
     Tenho fé no melhoramento humano, na vida futura, Na utilidade da virtude – e em ti.
     Se alguém te diz que estas páginas se parecem a outras páginas, responde que te amo demasiado para te profanar assim. Tal como aqui te pinto, assim te viram meus olhos. Com esses arreios de gala me apareceste. Quando cessei de ver a tua forma, deixei de pintar. Esses riachos passaram pelo meu coração.
     Que eles cheguem ao teu!)
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Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; José Julián Martin Pérez ou José Martí (1853 1895), nascido em Havana Cuba, estudou no Instituto de Ensino Secundário de Havana, fez Desenho Elementar na Escola Profissional de Pintura e Escultura, também em Havana, e, tendo sido preso, posteriormente, após comutação da pena em troca de exílio na Espanha, formou-se em Direito, Filosofia e Letras nas universidades de Madri e Zaragoza, foi jornalista, escritor, poeta, filósofo, pensador e político revolucionário cubano; depois de ter passado um período em Paris, Nova Iorque, México e Guatemala, retornou à Cuba e participou da criação do Partido Revolucionário Cubano e da organização da Guerra de [18]95 ou Gerra Necessária; por sua participação político-revolucionária sofreu nova detenção, tendo sido outra vez deportado para a Espanha; escreveu seus primeiros poemas por volta dos quinze anos, o soneto “10 de outubro” entre os quais; teve seus artigos e crônicas publicados no La Opinión Nacional, de Caracas Venezuela, La Nación, de Buenos Aires Argentina, e The Liberal Party, do México; em Caracas, fundou a Revista Venezolana, com duração de apenas dois números; em Nova Iorque, criou e publicou a revista infantil The Golden Age; suas obras: em poesia: Edad de oro (1878-1882), Ismaelillo (1881-1882), Versos sencillos (Versos simples, 1891), Flores del destierro (1878-1895), Versos Libres: 1878 — 1882 (publicados postumamemente, 1913), em prosa e outros: Abdala (drama em 1 ato, em versos octossílabos, 1869), El presidio político en Cuba (ensaio, 1871), La Adúltera (drama em versos octossílabos, 1873), Amor con amor se paga (drama em versos, 1875), Amistad funesta (romance, publicado em fascículos no jornal El Latino Americano, de maio a setembro de 1885), Nuestra América (1891) e outros títulos; o poeta “é considerado o precursor do Modernismo na América Latina, movimento literário que explodiria no continente latino-americano com Rubén Darío [poeta nicaraguense]”; José Martí, com algumas prisões e deportações, viveu boa parte de sua vida no exílio.