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[traduzido por José Geraldo
Vieira]
II/15
Bocas de fontes, generosas
bocas,
trazendo sempre o vosso canto puro
pelas golfadas das gargantas roucas:
ó máscaras talhadas no alto muro!
A água, que pelos aquedutos
tensos
vem dos grotões violáceos do Apenino,
a vetustez dos túmulos suspensos
dilui no vosso jorro cristalino.
Vão aparando as conchas quais
marmóreos
ouvidos, sussurrantes maravilhas
da simultânea voz que se propala.
Mas eis que aos pétreos mentos
incorpóreos
chegam criaturas e interceptam bilhas:
então pára de chofre a vossa fala.
(Sonetos a Orfeu, Parte II — 1923)
(Sonetos a Orfeu, Parte II — 1923)

II/15
O Brunnen-Mund, du gebender,
du Mund,
der unerschöpflich Eines, Reines,
spricht, —
du, vor des Wassers fliessendem
Gesicht,
marmorne Maske. Und im
Hintergrund
der Aquädukte Herkunft.
Weither an
Gräbern vorbei, vom Hang des
Apennins
tragen sie dir dein Sagen zu,
das dann
am schwarzen Altern deines
Kinns
vorüberfällt
in das Gefäss davor.
Dies ist das schlafend
hingelegte Ohr,
das Marmorohr, in das du immer
sprichst.
Ein Ohr der Erde. Nur mit sich
allein
redet sie also. Schiebt ein
Krug sich ein,
so
scheint es ihr, dass du sie unterbrichst.
(Sonette an Orpheus, Zweiter Teil: — 1923)
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã
— Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação
e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio
de Janeiro — RJ; Rainer Maria Rilke (1875 — 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef
Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República
Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta
e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início
da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até
o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894),
Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es
Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão
Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas,
1907—1908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids
Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias
de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen
Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas
em francês.