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sexta-feira, 5 de abril de 2024

Afonso Celso: Na fazenda

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Dorme a fazenda. Uniformes,
Com seu inclinado teto,
Têm as senzalas o aspecto
De um bando d’aves enormes.

Os cães, no pátio encoberto,
Repousam de orelha erguida;
São como oásis de vida
Da escuridão no deserto.

De vagos tons uma enfiada
Com o torpor luta e vence-o;
É no burel do silêncio
Franja sonora bordada.

Às vezes, da porta estreita
Sai um chorar de criança,
Chamando a mãe que descansa
Morta do afã da colheita.

Talvez no infantil assombro
Já se lhe antolhe mais tarde:
— O eito enquanto o sol arde,
E o peso da enxada ao ombro.

Os cães levantam-se a meio,
Geme a criança um momento
E, a pouco e pouco, em lamento
Sucumbe o isolado anseio.

Longe, na sombra perdido,
Há no perfil de um oiteiro
Algo de estranho guerreiro
Da cota de armas vestido.

Ao lado reduz a linha
De extensa e alvacenta estrada,
Como a lâmina da espada
Que lhe saltou da bainha.

E o disco da lua nova
No lar azul das esferas,
De nuvens que lembram feras,
Como um réptil sai da cova.

Ondula no espaço o fumo
De algum incêndio invisível;
Chora a criança impassível
Prossegue a noite em seu rumo.

(Rimas de outrora, 1894)

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A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI [antologia poética: 81 autores e autoras, 221 poemas] — Organização e Introdução de Alexei Bueno, 1ª edição, 2022, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Celso de Assis Figueiredo Junior (1860 — 1938), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco), foi político do Império, professor, jornalista, historiador, contista e poeta; com o advento da República, acompanhou o pai — Visconde de Ouro Preto — no exílio, afastando-se da vida política; no retorno ao país, dedicou-se ao magistério e ao jornalismo: no magistério, exerceu a cátedra de Economia Política na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, e, no jornalismo, por mais de 30 anos divulgou seus artigos no Jornal do Brasil, no Correio da Manhã, e nos periódicos A Tribuna Liberal, A Semana, Renascença e Almanaque Garnier; escreveu e publicou Prelúdios (poesias, 1876), Devaneios (1877), Um ponto de interrogação (1879), Poenatos (1880), Rimas de outrora (1891), Vultos e Fatos (1892), O Imperador no Exílio (1893), Trovas de Espanha (1898), Aventuras de Manuel João (1899), Porque me ufano do meu país (1900), Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905), etc.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Afonso Celso: Anjo Enfermo

Os versos iniciais do soneto abaixo, os retive na memória desde meus verdes tempos de ginásio em Iperó — SP, nos idos anos 60 do século e milênio passados. Não retivera o título do poema nem o autor.Só bem recentemente, pesquisando em sebos, o localizei neste livro e, como uma partícula do meu processo histórico de aprendizado escolar, imediatamente o adquiri. 
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Geme no berço enferma a criancinha,
Que não fala, não anda e já padece...
Penas assim cruéis por que as merece
Quem mal entrando na existência vinha?!

Ó melindroso ser, ó filha minha,
Se os céus ouvissem a paterna prece
E a mim o teu sofrer passar pudesse,
Gozo me fora a dor que te espezinha.

Como te aperta a angústia o frágil peito!
E Deus, que tudo vê, não ta extermina,
Deus que é bom, Deus que é pai, Deus que é perfeito...

Sim... é pai, mas a crença no-lo ensina:
— Se viu morrer Jesus, quando homem feito,
Nunca teve uma filha pequenina!...

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Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros — Seleção e Organização de Edgard Rezende, Segunda Série, Primeira Edição, 1950, Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Celso de Assis Figueiredo (1860 — 1938), mineiro de Ouro Preto, político do Império, professor, jornalista, historiador e poeta, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco) e, com o advento da República, acompanhou o pai — Visconde de Ouro Preto — no exílio, afastando-se da vida política; no retorno ao país, dedicou-se ao magistério e ao jornalismo; no magistério, exerceu a cátedra de Economia Política na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, e, no jornalismo, por mais de 30 anos divulgou seus artigos no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã; escreveu e publicou: Prelúdios (poesias, 1876), Devaneios (1877), Um ponto de interrogação (1879), Poenatos (1880), Rimas de outrora (1891), Vultos e Fatos (1892), O Imperador no Exílio (1893), Trovas de Espanha (1898), Aventuras de Manuel João (1899), Porque me ufano do meu país (1900), Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905), etc.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Afonso Celso: Alegrias

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Muita vez à janela desta casa,
Que um velho triste, solitário habita.
De avezinhas um par, asa com asa,
Faz, a trinar, idílica visita.

Quanta graça, que encanto se extravasa
Do par sobre a janela, onde saltita!
Mas... um toque... um rumor... ou que lhe apraza
E para além o par se precipita.

Oh! alegrias minhas, semelhantes
Sois  àquelas fugazes visitantes,
Frágeis, aladas, tímidas, sutis...

De alentos enfeitais meu desalento:
Quero reter-vos, faço um movimento,
Desamparais-me, rápidas fugis!...
 fevereiro de 1905,
 Da Renascença

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Antologia Brasileira — Seleta em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por Eugenio Werneck, 30ª edição, atualizada, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Celso de Assis Figueiredo Junior (1860 — 1938), mineiro de Ouro Preto, foi político do Império, professor, jornalista, historiador e poeta; formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco) e, com o advento da República, acompanhou o pai — Visconde de Ouro Preto — no exílio, afastando-se da vida política; no retorno ao país, dedicou-se ao magistério e ao jornalismo; no magistério, exerceu a cátedra de Economia Política na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, e, no jornalismo, por mais de 30 anos divulgou seus artigos no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã; escreveu e publicou Prelúdios (poesias, 1876), Devaneios (1877), Um ponto de interrogação (1879), Poenatos (1880), Rimas de outrora (1891), Vultos e Fatos (1892), O Imperador no Exílio (1893), Trovas de Espanha (1898), Aventuras de Manuel João (1899), Porque me ufano do meu país (1900), Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905), etc.