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terça-feira, 26 de agosto de 2025

Augusto dos Anjos: Sonetos I [a meu Pai doente], II [a meu Pai morto] e III

 
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I

A meu Pai doente

Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!

II

A meu Pai morto

Madrugada de Treze de Janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o!” deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

III

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Microrganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

(Eu — 1912)

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transferiu-se para a capital da Paraíba, passou a dar aulas particulares e foi nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, mudou-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assumiu o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, foi nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continuou a dar aulas particulares de Português, Francês, Inglês, Grego, Latim; seus poemas, e alguma prosa, foram publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio, Nonevar, A União, todos da Paraíba, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Augusto dos Anjos: Solitário

 
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Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio, e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
Velho caixão a carregar destroços

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

(Eu — 1912)

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; seu primeiro soneto, Saudade, escrito certamente em 1899, foi publicado no Almanaque do Estado da Paraíba para o ano de 1900;  em 1908, recém-formado, transferiu-se para a capital do estado, passou a dar aulas particulares e foi nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, mudou-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assumiu o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, foi nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continuou a dar aulas particulares de Português, Francês, Inglês, Grego, Latim; seus poemas, e alguma prosa, foram publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio, Nonevar, A União, todos da Paraíba, e Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Augusto dos Anjos: Anseio

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Que sou eu, neste ergástulo das vidas
Danadamente, a soluçar de dor?!
Trinta trilhões de células vencidas,
Nutrindo uma efeméride inferior.

Branda, entanto, a afagar tantas feridas,
A áurea mão taumatúrgica do Amor
Traça, nas minhas formas carcomidas,
A estrutura de um mundo superior!

Alta noite, esse mundo incoerente
Essa elementaríssima semente
Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal...

Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,
E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto
Não poder dar-lhe vida material!

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

terça-feira, 25 de julho de 2023

Augusto dos Anjos: O Lupanar

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Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!

É o afrodístico leito do hetairismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Augusto dos Anjos: O Lázaro da Pátria

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Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de úlceras e antrazes.

Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes.

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefantíase dos dedos…
Há um cansaço no Cosmos… Anoitece.

Riem as meretrizes no Casino,
E o Lázaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Augusto dos Anjos: Na augusta solidão dos cemitérios . . . [soneto]

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N’augusta solidão dos cemitérios,
Resvalando nas sombras dos ciprestes,
Passam meus sonhos sepultados nestes
Brancos sepulcros, pálidos, funéreos.

São minhas crenças divinais, ardentes
Alvos fantasmas pelos merencórios
Túmulos tristes, soturnais, silentes,
Hoje rolando nos umbrais marmóreos,

Quando da vida, no eternal soluço,
Eu choro e gemo e triste me debruço
Na lájea fria dos meus sonhos pulcros,

Desliza então a lúgubre coorte.
E rompe a orquestra sepulcral da morte,
Quebrando a paz suprema dos sepulcros.

[1901]

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Augusto dos Anjos: Noli Me Tangere

 
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A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!

Eu sou, por conseqüência um ser monstruoso!
Em minha arca encefálica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!

Agregados anômalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais funéreas…

Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

terça-feira, 2 de maio de 2023

Augusto dos Anjos: Apóstrofe à Carne

 
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Quando eu pego nas carnes do meu rosto.
Pressinto o fim da orgânica batalha:
Olhos que o húmus necrófago estraçalha,
Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...

E o Homem negro e heteróclito composto,
Onde a alva flama psíquica trabalha,
Desagrega-se e deixa na mortalha
O tato, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!

Carne, feixe de mônadas bastardas,
Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,
A dardejar relampejantes brilhos,

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda,
Que eu tenho de deixar para os meus filhos!

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

domingo, 23 de abril de 2023

Augusto dos Anjos: Senectude precoce

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Envelheci. A cal da sepultura
Caiu por sobre a minha mocidade...
E eu que julgava em minha idealidade
Ver inda toda a geração futura!

Eu que julgava! Pois não é verdade?!
Hoje estou velho. Olha essa neve pura!
Foi saudade? Foi dor? Foi tanta agrura
Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade!

Sei que durante toda a travessia
Da minha infância trágica, vivia,
Assim como uma casa abandonada.

Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas...
Sei que na infância nunca tive auroras,
E afora disto, eu já nem sei mais nada!

[1905]

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

terça-feira, 4 de abril de 2023

Augusto dos Anjos: André Chénier

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Na real magnificência dos gigantes
Grave como um lacedemônio harmoste
André Chénier ia subir ao poste
A que Luís XVI subira dantes!

Que a sua morte a homem nenhum desgoste
E incite o heroísmo das nações distantes!...
Por isso, ele, a morrer, canta vibrantes
Versos divinos que arrebatam a hoste.

Não há quem nele um só tremor denote!
Continua a cantar, a alma serena...
Mas, de repente, pressentindo a lousa,

Batendo com a cabeça no barrote
Da guilhotina, diz ao povo: "É pena!
Aqui ainda havia alguma cousa..."

[1905]

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

domingo, 12 de março de 2023

Augusto dos Anjos: Monólogo de uma Sombra


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“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras…
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papiros
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
O metafisicismo de Abidarma
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as cousas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa úbiqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
Engrenagem de vísceras vulgares
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!…
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo…
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta…
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que, tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam…
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssirna existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca…
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
Á condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
O homicídio nas vielas mais escuras,
O ferido que a hostil gleba atra escarva,
O último solilóquio dos suicidas
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases…
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

sábado, 6 de março de 2021

Chacal: Ser ou não ser: eis o que acho

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quando te vejo
dois olhos orelhas
nariz boca bochecha
eu me olho em ti

de repente num relance
somos um mesmo ser olhando

quanto te encontro
braços pernas
barriga umbigo
eu me espanto contigo

pelo tempo de um relâmpago
somos dois seres se entreolhando

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Boa companhia — poesia (vários autores), Apresentação de Ferreira Gullar, 2003, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Chacal, nascido em 1951, pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, carioca, é poeta, cronista, letrista e produtor cultural; literariamente, o poeta, que foi aluno de Comunicação Social da UFRJ, veio à luz com os grupos dos anos 70, denominados Geração Mimeógrafo e Poesia Marginal, e que se esparramavam por Sampa, Rio de Janeiro, Brasília, Bahia, Minas e outras praças; tais grupos se viam esquecidos ou marginalizados pela imprensa, editoras e estudiosos da literatura; Chacal é tido como um dos precursores daquelas gerações; em 1971, em edição mimeografada de cem exemplares, publica seu primeiro livro, Muito Prazer, Ricardo, depois reeditado como Muito Prazer (1997); colaborou com a revista Navilouca, junto aos poetas Waly Salomão e Torquato Neto; escreveu crônicas para os jornais Correio Braziliense, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil, foi letrista parceiro de compositores e músicos Jards Macalé, Lulu Santos, Moraes Moreira; bibliografia: Drops de Abril (1983), Comício de Tudo (crônicas, 1986), Letra Elétrika (1994) Posto Nove (1998), A Vida é curta pra ser pequena (2002), Belvedere (2007), Uma História à margem (romance autobiográfico, 2010), Tudo e mais um pouco (2016) etc.; o poeta, que também trabalhou com grupos teatrais, escreveu, para eles, Aquela Coisa Toda, Recordações do Futuro ...