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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Ascânio Lopes: Natal do tuberculoso & Minha morte

 
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Natal do tuberculoso

Eu pensei que Papai Noel passasse por aqui
e pus na janela do quarto
meus sapatos inúteis de doente que não mais andará.
Depois rezei. Uma oração feita por mim,
entrecortada pelo arfar do peito e pela tosse rouca.
Pedi uma morte mansa suave
o coração parando, sem aflição, sem dor.
Lá fora os sinos da Missa do Galo
acompanhando minha morte lenta.
E aqui dentro ninguém... o silêncio... o descanso... o mistério...
Mas Papai Noel passou sem nada me dar.
Achou decerto enormes meus sapatos...

— o —

Minha morte

Meus amigos dirão as palavras da amizade.
Meus inimigos dirão as palavras do perdão.
E os indiferentes continuarão indiferentes.
E ela que distante reza baixo por mim,
ela que dirá?

Sua boca dirá nada, mas seus olhos dirão tudo...

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

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Ascânio, o poeta da Verde, coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 — 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

sábado, 26 de julho de 2025

Ascânio Lopes: A casa da família

 
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Olha, minha amiga, nossa
velha casa de família, tão cheia de lembranças.
Neste quarto morreu minha avó,
neste outro casou-se minha avó,
neste outro casou-se minha irmã.
Os nossos pais olham sorrindo
os nossos brinquedos, os mesmos
que eles tinham, há cinquenta anos.
Os mesmos lugares.
O amor de meus pais das elegantes maneiras antigas.
O nosso amor-mocidade, o nosso amor-americano
vibrará nos mesmos luares.
E o mesmo berço
e o velho Cristo.
E o quarto da Ceia.
Até as goteiras são conhecidas.
O velho relógio de parede
que já marcou todas as horas da família.

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

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Ascânio, o poeta da Verde, coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 — 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Joaquim Branco: “Oh Sir, the good die first”

 
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“Oh Sir, the good die first”
(Wordsworth)

          Com este livro sobre Ascânio Lopes, iniciamos uma série sob o título geral de Cataguases Cartazes, focalizando escritores que fazem parte da história da literatura de nossa cidade, de Minas e do Brasil.
          Fomos achar no alto romantismo do inglês Wordsworth o verso definidor (Ó Senhor, os bons morrem primeiro.) do nosso poeta que ainda hoje, lá do final da década de 20, exerce um estranho magnetismo sobre todos que o lêem, especialmente sobre nós, cataguasenses: Ascânio Lopes.
          Entre os esboços da noivinha, a mãe bordando os serões da casa, um passado hoje quase impossível de ser reconstruído, brotam incríveis versos que resistem ao tempo, como se não tivessem sido suficientemente conhecidos por todos os seus conterrâneos e pedissem para ser lidos e relidos pelas gerações mais novas e outras e outras.
          Não existe maior lugar-comum do que dizer que os poetas mortos prematuramente poderiam ter escrito uma obra mais completa e importante, e que sua carreira foi cortada cedo, etc., etc. Mas também não se poderia fazer injustiça maior do que negar a Ascânio — após a releitura de seus poemas — um futuro de autor exponencial dentro da literatura brasileira se a doença não o tivesse levado.
          Se se comparar o Serão do menino pobre com o famoso Infância, de Carlos Drummond de Andrade — seu companheiro e contemporâneo — sobra um saldo qualificativo em favor de Ascânio, já afirmou um crítico.
          De seus poemas vem uma finura, uma leve teia, uma aragem que só se vêem nos artistas especiais, aqueles que chegam, mal têm tempo de deixar o seu recado e se vão rapidamente para algum outro lugar talvez. Mas ninguém os esquece mais.
          Ascânio Lopes foi assim. Sendo introspectivo, liderou um grupo — era o mais velho do quarteto da Revista Verde (os outros: [Rosário] Fusco, [Francisco] Chico [Inácio] Peixoto e Guilhermino Cesar). Do seu canto, silencioso, foi o “motor” do movimento, juntamente com Fusco. Tímido, colocou em verso a sua curta história pessoal. Mas tornou tudo isso de tal maneira universal que transformou-a na sua própria trajetória poética.
          Sua morte em 1929 traçou o fim da Verde como movimento. Cada um foi para o seu canto, mas por outro lado, alguns, felizmente, puderam construir, com o tempo, obras que ficaram registradas, pela sua importância, na história da literatura brasileira.
          A edição deste volume, basicamente constituído pelos textos publicados no suplemento Cataguarte, — editado por mim e publicado no dia 20 de abril de 1997 anexo ao jornal Cataguases — tem como objetivo principal o sentido maior de permanência e registro que têm os livros em relação a revistas e jornais, viando à preservação da história literária de Cataguases e ao conhecimento das gerações futuras de que aqui, nos anos 20, já existia um grande poeta.

Cataguases — 1998

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Ascânio, o poeta da Verde [várias autorias], coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Joaquim Branco Ribeiro Filho, nascido em 1940, mineiro e cataguasense, formou-se em Direito pela UERJ — Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em Letras pela FIC — Faculdades Integradas de Cataguases, mestrado em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora — MG e doutorado em Literatura Comparada pela UERJ, além de ter atuado como bancário do Banco do Brasil em várias agências mineiras e no Rio de Janeiro, e ali se aposentado, foi professor universitário, lecionou por 17 anos nas Faculdades Integradas de Cataguases, é poeta, cronista, contista, crítico literário e pesquisador; suas obras: Concreções da fala (poemas, 1969), Consumito (poemas, 1975), Laser para lazer (poemas, 1984), 500 anos do descobrimento da América (1993), O caça-palavras (poemas, 1997), Do pré ao pós-moderno (manual de literatura, 1998), Ascânio, o poeta da Verde ([várias autorias], homenagem a Ascânio Lopes, 1998), Recr(e,i)ações críticas (artigos críticos, 1999), Passagem para a Modernidade (2002), O menino que procurava o reino da poesia (narrativa de ficção, 2005), Verdes Vozes Modernistas (crítica literária, 2006), Totem e as vanguardas dos anos 1960/70 (crítica literária, 2009, 1ª reimpressão, 2013), Janelas de Leitura (vários temas, 2010), Zona de Conflito (poemas, 2024), etc.; colaborou publicando seus textos em jornais e revistas no Brasil (Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Suplemento Literário de Minas Gerais, ...) e no exterior; Joaquim Branco participou de edições dos jornais O Muro, SLD — Suplemento de Literatura e Difusão e Totem; recebeu premiações por sua obra, atualmente reside em Cataguases.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Joaquim Branco: TXT — CLIP

 
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PRS  = prosa
PM   = poema
TXT  = texto
VRS  = verso

          Texto notou os escritos em prosa que se espalhavam sobre sua mesa. O escritor não gostou. Sua PRS hoje soltava uma tinta vermelha e cheirava a álcool. TXT precisava criar uma lauda e meia por dia. Já havia algum tempo que tinha essa obrigação.
          Admirava PMs em prosa nas mãos de um sr. Rimbaud e um tal sr. K tivera PRS rascunhada em papéis e brumas que falavam de muralhas, castelos, ratos e aldeões. Para os melhores VRS escolhera Pessoa, de pessimismo concentrado que levou Carneiro ao suicídio em noite de mágoas parisiense.
          TXT para sondar o PM perguntou: — Um lance de dados, quem escreveu? — Eu sei quem lançou. — Bah! — O Castelo de cartas de Kafka, quem empilhou?
          Teria que escolher palavras que fossem à página como uma matriz ao molde. Era sempre assim, tantas linhas, tantos toques. Um quadro na moldura. Mais do que isto, soldados gutemberguianos parados sobre o próprio chumbo. Mallarmé na ponta do abismo arriscaria: “um lance de dados jamais abolirá o acaso”. A página branca faísca como nunca na rampa de onde os dados vão rolar. Sorte ou azar, teria que ser. Sem opção, ela vai atraindo todas as palavras, conjunções alheias, verbos em substantivos vivos ou em farrapos, esparadrapos com preposições. Farelos de outras categorias mal-saídas da forja. Era iminente o choque. Sintaxe x dicionário.
          Naquele dia o escritor não conseguia equacionar nada. Palavras fugiam rompidas, deslizavam pela beirada lisa do papel ou se escondiam na banda escura de uma folha que tinha a ponta alevantada. TXT não esperava tanto. Pensou: o poema é um lance de dados, a prosa, o vivenciar dos dados na rampa do lançamento. Após o toque no sintetizador de textimagens, TXT viu as palavras chegarem de todos os lados cada vez mais rapidamente. Juntavam-se e subiam na mesa monstros-palavrões que penetravam nos papéis e aderiam aos objetos da sala, num sistema tático de ocupação total. Num instante a sala viu-se invadida por sílabas e letras, palavras e números de vários tamanhos e formatos.
          TXT entrou em parafuso. Sua cabeça doía muito e fundo, mas num certo prazo tudo pareceu estancar, e da tela do vídeo jorrou então um clip-poema, qual uma sinfonia de poder dominador, e TXT dormiu como se aquela máquina fosse capaz de engendrar o sono dentro de sua própria paz.

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Marginais do Pomba [diversas autorias], contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Joaquim Branco Ribeiro Filho, nascido em 1940, mineiro e cataguasense, formou-se em Direito pela UERJ — Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em Letras pela FIC — Faculdades Integradas de Cataguases, mestrado em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora — MG e doutorado em Literatura Comparada pela UERJ, além de ter atuado como bancário do Banco do Brasil em várias agências mineiras e no Rio de Janeiro, e ali se aposentado, foi professor universitário, lecionou por 17 anos nas Faculdades Integradas de Cataguases, é poeta, cronista, contista, crítico literário e pesquisador; suas obras: Concreções da fala (poemas, 1969), Consumito (poemas, 1975), Laser para lazer (poemas, 1984), 500 anos do descobrimento da América (1993), O caça-palavras (poemas, 1997), Do pré ao pós-moderno (manual de literatura, 1998), Ascânio, o poeta da Verde ([várias autorias], homenagem a Ascânio Lopes, 1998), Recr(e,i)ações críticas (artigos críticos, 1999), Passagem para a Modernidade (2002), O menino que procurava o reino da poesia (narrativa de ficção, 2005), Verdes Vozes Modernistas (crítica literária, 2006), Totem e as vanguardas dos anos 1960/70 (crítica literária, 2009, 1ª reimpressão, 2013), Janelas de Leitura (vários temas, 2010), Zona de Conflito (poemas, 2024), etc.; colaborou publicando seus textos em jornais e revistas no Brasil (Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Suplemento Literário de Minas Gerais, ...) e no exterior; Joaquim Branco participou de edições dos jornais O Muro, SLD — Suplemento de Literatura e Difusão e Totem; recebeu premiações por sua obra; atualmente reside em Cataguases.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Bapo

 
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          Bapo era a água, o rio, a chuva, o fiozinho cristalino que fluía no tanque do fundo da chácara, quase um pequeno lago de margens recobertas de musgo. Se, de manhã cedo, passeando no jardim, via o orvalho brilhando nos tinhorões, largava a mão da empregada, corria para eles, desajeitado, os braços tentando o equilíbrio dos passos inseguros. Possivelmente, idealizava coisas durante o percurso, porque ia de testa enrugada, compenetrado, martelando monossílabos incompreensíveis. Puxava as folhas carnudas, sacudia-as violentamente e as gotas lhe borrifavam o rosto, entrecortando-lhe em arrepios a respiração, já de si ofegante do esforço e da alegria da descoberta sempre renovada. Um repelão mais forte largava-lhe nos dedos inábeis pedaços de folhas. Esmagava-as, meticuloso. Examinava-as, atento, procurando as gotas irisadas que haviam fugido. Então, num sorriso meio de desdém, meio de desaponto, indagava da criada:
          — Bapo?
          — É água, sim, mas larga isso aí. Você está se molhando todo.
          Não percebia a censura inútil. Olhava outra vez para os tinhorões, olhava para a ama e confirmava, gravemente:
          — Bapo!
          Era como se dissesse: “Está vendo como eu já conheço as coisas?”
          Um dia, ganhou um peixinho de cauda com véu ondulante. Jogaram-no no tanque. E Bapo ficou sendo também aquele pequeno e vivo ludião vermelho.
          Era um desses peixinhos lindos de aquário, habituados à transparência de sua bola de cristal. Esta, agora vazia e empeirada, estava num canto da sala, pois tiveram medo de que algum gesto estouvado das crianças a derrubasse, molhando tudo, estragando os móveis e os tapetes. Só isso preocupava. Não pensavam que Bapo também poderia morrer. Passando-o, assim, para o tanque, acabaram-se para ele as coisas coloridas e familiares que via através da lente deformadora de seu aquário. Acabou-se a areia fina e clara do fundo, onde se deitava, morta e decorativa, uma minúscula estrela-do-mar. Que mundo escuro e feio, aquele onde o atiraram! Esbarrava nas paredes de lodo e, deste, partículas em suspensão entravam-lhe na boca, que as expelia em seu constante movimento de fole. O menino ria:
          — Papá?
          — Bapo está com fome, sim. Joga um pedacinho de pão para ele.
          As migalhas caíam em chuva na superfície da água e Bapo, assustado, escondia-se sob as folhas das ninfeias, enquanto um cardume de barrigudinhos vorazes disputavam os fragmentos de pão que flutuavam um momento e logo desciam, levíssimos, pontilhando de branco o fundo do lago.
          De tarde, vinha não se sabe donde, aparecia, encarapitada numa pedra da margem, uma sapa gorda com um sapinho colado às costas. Não fosse o latejar constante do papo, que gargarejava de tempo em tempo um soído rouquenho, e a gente diria que eram bichos de louça. O sapo velho rondava, escondido nas folhagens e, às vezes, como que desatado por uma mola, caía, de um pulo, na água e, em pernadas de nadador, atravessava para o outro lado do tanque. Bapo, medroso, se esgueirava para o emaranhado de hastes e raízes.
          Passava dias sumido. Ninguém mais se lembrava de vê-lo ou de jogar-lhe comida. Só o menino insistia no seu amor pelo peixinho e ousava avançar mais perto da água para descobri-lo. A empregada repreendia-o e afastava-o para longe. Ele teimava:
          — Bapo!
          — Bapo foi-se embora. Não chega lá, não. Você está ficando muito levado!
          E o menino repetia, fazendo com as mãozinhas um gesto desolado:
          — Foi bó!
          Arisco, mal sentia um vento mais leve encrespando o lago, Bapo refugiava-se. E só a cauda, seda esgarçada, permanecia de fora, debaixo de alguma folha.
          Um dia, numa manhã de julho, sentiu que não podia locomover-se. Era como se a água houvesse virado um bloco de gelo, prendendo-o. Tudo tão frio, tão escuro! Mais escuro pela cerração que cobria a superfície do tanque. O corpo perdera a flexibilidade e só a custo se contraía sem direção. Era uma pequena alga que as águas levassem. Recurvara-se em “s”, sinuoso e hirto.
          Certa tarde — quanto tempo depois? —, deram com ele engastalhado no talo de uma ninfeia, como uma flor vermelha. As guelras batiam, ritmando o incessante abrir e fechar da boca. De vez em quando, buscava libertar-se em contrações bruscas e inúteis.
          Desvencilharam-no com um pedaço de pau e puxaram-no para a margem, como uma coisa, como um papel amarrotado que estivesse boiando no tanque. Algumas escamas haviam perdido os reflexos dourados e esfiapavam, formando manchas maceradas. Talvez o tivesse bicado algum bicho ou, então, se houvesse ferido nas bordas ásperas de cimento. Talvez também que, indefeso e doente, o houvessem beliscado outros peixes.
          Quando o agarraram, ainda tentou fugir às mãos, que o seguravam e que, rápidas, o tiraram fora d’água, ligando-o entre duas talas de madeira. Bapo chiava convulsamente:
          — Fiu! Fiu! Fiu!
          O menino, aflito, apontava para o pobre corpo ferido e aleijado:
          — Dodói! Dodói!
          Soltaram-no de novo. E Bapo foi descendo lentamente, lentamente, como um esquifezinho, até mergulhar no lodo a pequenina cabeça vermelha.
          Quando o tiraram dali, estava morto.

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Marginais do Pomba [diversas autorias], contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 — 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito — UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Ascânio Lopes: Os guardas e o pastor & O tecelão

 
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Os guardas e o pastor

          Os homens de sobrecenho carregado, vestidos de bronze, passaram na estrada com o rumor de espadas pesadas, batendo nos selins de prata e o som seco das ferraduras dos cavalos, batendo nas pedras e o estrídulo soar dos clarins e o pesado e compassado ruído dos tambores.
          Todo vale os ouviu, menos o pastor que estava entretido em guiar seu gado para o curral.
          Ele só tinha ouvidos para as coisas humildes e só enxergava as coisas quotidianas.

— o —

O tecelão

A mão do tecelão é leve
e breve, e traça iluminuras
de fios, como riscos
suaves e ligeiros
das aves
no ar.

Enquanto outros pensam
em glórias, desejam
palácios,
riquezas,
o tecelão
sonha com
teares pujantes e
tecidos fantásticos.

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

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Ascânio, o poeta da Verde [várias autorias], coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 — 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Rosário Fusco: Uma sombra na janela

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          De repente, a janela do apartamento se iluminou. Vagarosamente, como quem espreita uma fera no seu fojo. David se ergue da cama. Consulta a carteira que traz no bolso. Acende um fósforo para ver melhor. E, repetindo, precisamente, os gestos e as atitudes do órfão, promove a ligação projetada apesar do adiantado da hora. Ouviu, perfeitamente, o som da campainha tinindo, mais ou menos surda, no silêncio. O coração pulsava-lhe. Aqueles segundos, certamente, multiplicavam-se por mil. Foi o primeiro a falar, num ciclo.
          — David.
          Descansando o fone, em obediência à disposição recomendada pela outra voz, que parecia apreensiva e nervosa, David ficou pasmo como adivinhava ter chegado naquele instante (“Chegou agora? Também acabo de chegar.”). Mas, certamente, não poderia encontrar-se “no mesmo lugar”, ao dia seguinte. Continha-se para não repetir o telefonema, a fim de esclarecer as condições do próximo encontro, quando a janela fronteira abriu-se, com estrépito, para fora, a persiana estendida, formando um ângulo reto com a parede.
          Agachado, David não tinha forças para mover-se. Ficava ali, sem poder pensar, preso ao assoalho. Depois, intermitentemente, aos arrancos, o mesmo ruído da persiana foi crescendo e eis que, subitamente, pára. Certamente, com a janela agora escancarada, ela se exibira para o boa-noite costumeiro, executando uma leve inclinação de cabeça, antes da luz se apagar. Com as mãos apoiadas no peitoril da janela, David, de cócoras, ergue-se, pouco a pouco, de maneira que somente com meia cabeça à mostra, pudesse ver todo o quarto, na intimidade habitual aos seus olhos. Tinha certeza que não fizera nenhuma ligação errada? E se a nova função do aparelho se iniciava tão promissora, por que não podia levantar-se, completamente, de uma só vez? Pacientemente, suspendia-se — as pernas vergadas sob o peso do corpo. Agora, a luz se extinguia. Seria capaz de jurar ter ouvido o ruído do próprio comutador, acionado pela ponta de um dedo. E revia as mãos que atenderam ao telefone, as mesmas, aliás, que escolhiam discos, cumprimentavam com força e teriam, há pouco, apagado as luzes da alcova. Por elas, entrava no quarto.
          Mas, por que, de súbito, o vulto dela, normalmente esguio, se elastecera tanto? E eis que, encorajado pelo mistério da imprevista metamorfose, pôs-se, num salto, de pé. Sem a iluminação elétrica não poderia vê-la nitidamente. Mas ouviu que começava a discutir alto (era a mesma voz do telefone), acaloradamente, com alguém que, debruçado na janela, parecia alheio a tudo. Depois, como a sombra se movesse, devagar — de certo para recolher-se à escuridão da peça — percebeu-lhe, pela curva que a ponta acesa traçou no espaço escuro, o gesto de quem lança fora o cigarro.
          Uma sensação estranha apoderava-se de David. Se pudesse raciocinar, todas as indicações que recolhia — se consideradas minuciosamente — levá-lo-iam a concluir, de modo inequívoco, que ela, aquela noite, abrigava um homem no quarto. E este homem a enervara, fosse quem fosse. Suas palavras foram de cólera e explodiam como uma bomba de imprecações dissonantes na consciência de David. Contudo, destinava-se ao marido.
          Mas se era humana aquela sombra desenhada na janela, cuja forma não enganava, por que traria ela tão grandes cornos?

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Marginais do Pomba (diversos autores), contos, crônicas  & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 — 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJ—RJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; o romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Celina Ferreira: Humor negro

 
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                    Da varanda de seu apartamento contemplava o mar, respirando a brisa com o cheiro habitual de maresia. Estava tenso. Ou melhor, vivia tenso. O simples farfalhar das folhagens assustava-o.
                    Seu cérebro começou a derreter-se, caindo em gotas oleosas sobre o vaso de antúrios e escorrendo, sinuosamente, pelo piso de cerâmica.
                    Ergueu-se, desesperado, os olhos para o céu.
                    — Que piada suja é essa, pô!
                    E Deus que nunca se importou com a fome na Etiópia ou com a tortura na América Latina, riscou um trovão no céu e descartou-se mais uma vez de seu remorso.

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Marginais do Pomba (diversos autores), contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Celina Ferreira (1928 — 2012), mineira de Cataguases, foi professora, assistente social, jornalista e poeta; mudando-se para Belo Horizonte, atuou como assistente social, lecionou no SENAI e, aos 27 anos, mudando-se para o Rio de Janeiro, trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e foi redatora na TV Tupi; obras: Poesia de ninguém (1954), Nave incorpórea (1955), Mundo Encantado (1957), A Princesa Flor-de-Lótus (literatura infantil, 1958), Poesia cúmplice (1959), Hoje poemas (1967), Espelho convexo (1973), Papagaio gaio: poeminhas (literatura infantil, 1998) ... e participação em antologias; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Celina Ferreira: Patética

 
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                    Jandira convivia há muitos anos com a sua depressão. E exigia sempre um milagre para sair do túnel. A primeira vez foi o namorado escaldante. Anos depois, uma filosofia japonesa que alternava zen-budismo, cristianismo, Freud e reflexo condicionado.
                    Qualquer escorregão levava Jandira de volta ao fundo do poço. Então foi a vez das ondas alfas com as técnicas de relaxamento e um curso especial denominado A Cura pela Fé.
                    De outra feita, um vendedor de estante ensinou-lhe a usar a bio-energia. Anos depois, fizeram-lhe uma limpeza espiritual, num terreiro de candomblé.
                    Finalmente, com três anos de psicanálise, depois de desencaminhar seu analista, perdeu a fé em tudo e em todos. Em desespero de causa, aliciada por um motorista de táxi, engajou-se nas fileiras da esquerda festiva. Foi pior!
                    Sem Deus e sem subterfúgio, sem acreditar sequer no comunismo, Jandira tomou de uma só vez uma porção inumerável de comprimidos para dormir.
                    E nunca mais acordou.

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Marginais do Pomba (diversos autores), contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Celina Ferreira (1928 — 2012), mineira de Cataguases, foi professora, assistente social, jornalista e poeta; mudando-se para Belo Horizonte, atuou como assistente social, lecionou no SENAI e, aos 27 anos, outras vez de mudança, agora para o Rio de Janeiro, trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e foi redatora na TV Tupi; obras: Poesia de ninguém (1954), Nave incorpórea (1955), Mundo Encantado (1957), A Princesa Flor-de-Lótus (literatura infantil, 1958), Poesia cúmplice (1959), Hoje poemas (1967), Espelho convexo (1973), Papagaio gaio: poeminhas (literatura infantil, 1998) ... e participação em antologias; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Ascânio Lopes: As sete trombetas misteriosas

 
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          Aquilo foi apertando meu peito enfermo e meus pobres pulmões carunchados. O ar faltava. De repente, percebi que eu estava diminuindo, diminuindo, até que ficara apenas uma rodilha de dores.
          O quarto e o leito lavrado desapareceram e eu ficara imóvel no ar, onde ia adormecer para sempre. Súbito soaram sete trombetas a arrebentarem meus ouvidos com o seu clangor misterioso. Olhei para o alto e sete bruxas de mãos dadas brincavam numa ciranda infernal. E do meio da roda foi crescendo, terrivelmente, um esqueleto branco, todo branco. As bruxas asquerosas desligaram as mãos findando a ciranda e então vi perfeitamente que o esqueleto era a Morte. E ela vinha vindo de foice como nas gravuras, lentamente para mim. A minhalma ficou pequenina. Gritei covardemente:
          — Não! Não quero morrer. Não posso morrer! Tenho ainda muita coisa a escrever!
          As bruxas riram grotescamente e uma delas sentenciou alvarmente: a glória é ilusão!
          — Eu ainda não vi a vida, covardes! — gritei.
          Mas a Morte inexorável já me alcançara. E as bruxas rodeavam-me. Seus braços viscosos e nojentos ansiavam tocar-me. Mas a foice do esqueleto já ia dar-me o golpe.
          Gritei no último desespero:
          — Não! Não me leves! Eu não posso deixá-la!
          E gritei o nome do meu amor. Imediatamente uma mão branca que eu conhecia bem afugentou as bruxas que foram praguejando horrivelmente. A morte sumiu-se. Acordei tremendo. Alguém enxugava o suor frio da minha testa. E perguntou-me:
          — Você estava sonhando comigo, meu amor?


* Nota deste atrevido aprendiz de blogueiro: o texto As sete trombetas misteriosas constou da última edição da revista modernista Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929, in memoriam, edição esta inteiramente dedicada a Ascânio Lopes, que morrera bem jovem, em 10 de janeiro daquele ano; este texto é considerado o único conhecido, em prosa, escrito pelo jovem poeta.
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Marginais do Pomba (diversos autores), contos, crônicas  & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 — 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (em conjunto com Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.