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terça-feira, 30 de maio de 2023

Dante: Ao coração gentil, de Amor cativo, . . . [soneto]


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Vita nuova, 3

Ao coração gentil, de Amor cativo,
ao qual este meu texto se apresente,
a quem o reescreva e o transparente,
venho saudar, e ao seu Senhor altivo.

Para além da hora terça o tempo esquivo
corria no estelário reluzente,
quando Amor me surgiu subitamente,
e o horror, no seu aspecto, lembro, vivo.

Alegrava-se Amor, pois exibia
meu coração nas mãos: dama formosa
num manto em seu regaço adormecia.

E a despertava, e o coração que ardia
dava Amor de comer à temerosa.
Depois, como chorando, Amor fugia.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 17.07.83

Dante Alighieri

Vita nuova, cap. III

A ciascun’alma presa, e gentil core,
nel cui cospetto ven lo dir presente,
in ciò che mi rescrivan suo parvente
salute in lor segnor, cioè Amore.

Già eran quasi che atterzate l’ore
del tempo che onne stella n’è lucente,
quando m’apparve Amor subitamente
cui essenza membrar mi dà orrore.

Allegro mi sembrava Amor tenendo
meo core in mano, e ne le braccia avea
madonna involta in un drappo dormendo.

Poi la svegliava, e d’esto core ardendo
lei paventosa umilmente pascea:
appresso gir lo ne vedea piangendo

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; suas obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, na qual defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, nos quais pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Dante Alighieri: Inferno, VII, 73 — 96


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[traduzido por Eugenio Mauro]

[ . . . ]

Ele, cujo saber tudo transcende,
fez os céus e lhes deu quem os conduz:
se em toda parte cada parte esplende

é que igualmente lhes reparte a luz;
do mesmo modo pra pompa mundana
designou uma ministra e deu-lhe jus

de ir permutando a riqueza profana
de um pra outro sangue, e de gente em gente,
livre do alcance da cobiça humana.

Logo, uma gente impera, e languescente
fica a outra então conforme o arbítrio dela,
que é oculto como na relva a serpente.

É vão vosso querer controvertê-la:
em seu reino prevê, julga e procede
ela só, como, noutro, outro deus zela.

Sua contínua permutação não cede;
necessidade o giro lhe apressura,
assim sempre aparece quem sucede.

Ela é posta em odiosa conjuntura
mesmo por quem mais deveria louvá-la
com vã calúnia e infundada censura;

mas, beata, não ouve a vossa fala;
co’as outras primas criaturas, leda
gira sua roda, e sua ventura embala.

[ . . . ]

(A Divina comédia, São Paulo, Editora 34, 1998.)

Dante Alighieri

Inferno, VII, 73 — 96

[ . . . ]

Colui lo cui saver tutto transcende,
fece li cieli e diè lor chi conduce
sí, ch’ogne parte ad ogne parte splende,

distribuendo igualmente la luce.
Similemente a li splendor mondani
ordinò general ministra e duce

che permutasse a tempo li ben vani
di gente in gente e d’uno in altro sangue,
oltre la difension d’i senni umani;

per ch’una gente impera e l’altra langue,
seguendo lo giudicio di costei,
che è occulto come in erba l’angue.

Vostro saver non ha contasto a lei:
questa provede, giudica, e persegue
suo regno come il loro li altri dèi.

Le sue permutazion non hanno triegue;
necessità la fa esser veloce;
sí spesso vien chi vicenda consegue.

Quest’è colei ch’è tanto posta in croce
pur da color che le dovrien dar lode,
dandole biasmo a torto e mala voce;

ma ella s’è beata e ciò non ode:
con l’altre prime creature lieta
volve sua spera e beata si gode.

[ . . . ]

(La Divina Commedia, Milão, Ulrico Hoepli, 1987.)
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; suas obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, na qual defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, nos quais pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida, Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença e para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Dante Alighieri: Tão gentil e tão honesta aparenta . . . [soneto]

 
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[traduzido por Sérgio Caponi]

Tão gentil e tão honesta se aparenta
Minha dama quando outro a saúda
Que, trêmula, a língua se torna muda
e o olhar, ao seu, se desalenta.

No louvor que então se lhe acrescenta,
na modéstia que a veste e aveluda,
como benesse que do céu transmuda,
na terra, tal qual milagre, se assenta.

E tão afável se mostra a quem a mira
que o coração abranda-se em doçura
que só conhece quem a experimenta.

Se move os lábios, nele se apresenta
um espírito pleno de brandura
que à alma vai dizendo: “Suspira!”.

Dante Alighieri

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand’ella altrui saluta,
ch’ogne lingua deven, tremando muta,
e li occhi no l’ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d’umiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mòstrasi sì piacente a chi la mira,
che dà per li occhi una dolcezza al core,
che ‘ntender no la può chi no la prova:

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d’amore,
che va dicendo a l’anima: “Sospira!”.

(Vita Nuova XXVI)
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Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, onde defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Dante Alighieri: Um sopro espesso faz crescer na mente . . . [soneto]

 
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[traduzido por Sérgio Caponi]

Um sopro espesso faz crescer na mente
a obscuridade que o amor me inspira.
Doído, indago frequentemente:
“Haverá outro que também delira?”

Pois a amor me assalta subitamente
De forma que quase a minha vida tira.
Restando vivo um espírito, somente,
Que a mente ocupa ao tanger a lira.

Depois me esforço a recobrar o ânimo,
E assim pálido, mas inspirado,
Venho ver-te, crendo que és a cura:

Porém, se meus olhos nos teus arrimo,
um tremor, então, no coração gerado
expulso a alma que em mim perdura.

Dante Alighieri

Spesse fiate vègnonmi a la mente
le oscure qualità ch’Amor mi dona,
e vénnemi pietà sí che sovente
io dico: “Lasso! avvien elli a persona?”;

ch’Amor m’assale subitanamente,
sì che la vita quase m’abbandona:
càmpami uno spirto vivo solamente,
e que’ riman, perché di voi ragiona.

Poscia mi sforzo, ché mi voglio atare;
e così smorto, d’onne valor vòto,
vegno a vedervi, credendo guerire:

e se io levo li occhi per guardare,
nel cor mi si comincia uno tremoto,
chef a de’ polsi l’anima partire.

(Vita Nuova XVI)
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Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, onde defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

domingo, 14 de novembro de 2021

Dante Alighieri: De Amor falam todos os meus pensamentos. . . . [soneto]

 
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[traduzido por Sérgio Caponi]

De Amor falam todos os meus pensamentos.
Por si, são de modo tão distinto
Que se de um quero seu poder, pressinto
que, de outro, o valor nutre seus intentos.

Outro, esperança põe nos sentimentos,
Enquanto de outro vem um choro indistinto.
Só por dó concordam. Se medo sinto,
No coração tremem em seus assentos.

Melhor que não saiba o que dizer
E, calado, nada de nada diga:
Desorientado, perdido de amor,

Se deles quisesse os préstimos recorrer
Melhor seria chamar minha inimiga,
A piedade, e a pôr a meu dispor.

Dante Alighieri

Tutti li miei pensier parlan d’Amore;
e hanno in lor sì gran varietate,
ch’altro mi fa voler sua potestate,
altro folle ragiona il suo valore,

altro sperando m’apporta dolzore,
altro pianger mi fa spesse fiate;
e sol s’accordano in cherer pietate,
tremando di paura che è nel core.

Ond’io non so da qual matera prenda;
e vorrei dire, e non so ch’io mi dica:
così mi trovo in amorosa erranza.

E se con tutti voi fare accordanza,
convènemi chiamar la mia nemica,
madonna la Pietà, che mi difenda.

(Vita Nuova XIII)
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Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, onde defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Dante Alighieri: Não há madeira de nó, assim, tão forte . . . [soneto]

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[traduzido por Sérgio Caponi]

Não há madeira de nó, assim, tão forte
Nem há pedra que, assim, seja tão dura
Que esta que me leva à sepultura,
Com seus olhos, não mudaste a sorte.

Se acaso encontra quem lá aporte,
E não recue desse olhar que fura,
Melhor que morra, que mais não apura
Dessa piedade que, por si, é morte.

Por que tanto poder, assim, se insere
Nos olhos de uma tão cruel senhora
Que não poupa nem mesmo a quem lhe adora?

E opõe ao amor soberba tal
Que aos que mata, não só ignora
Como oculta ainda o que lhes foi fatal.

(Canzoniere, LXV)

Dante Alighieri

E’ non è legno di sì forti nocchi,
nè ancor dura tanto alcuna pietra,
ch’esta crudel, che mia morte perpetra,
non vi mettesse Amor co’ suoi begli occhi.

Or dunque s’ella incontra uom che l’adocchi,
ben gli de’ ’l cor passar, se non s’arretra;
onde ‘l convien morir: ché mai no impetra
mercé ch‘il suo dever pur si spannocchi.

Deh, perchè tanta virtù data fue
agli occhi d’una donna così acerba,
che suo fedel nessuno in vita serba?

Ed è contro a pietà tanto superba,
Che s’ altri muor per lei, nol mira piue,
anzi gli asconde le belezze sue.

(Canzoniere, LXV)
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Poemas da paixão subjacente: Dante Alighieri, Petrarca e Lui Même, edição bilíngue, Prólogos, Notas biográficas e traduções de Sérgio Caponi, 2007, Editora Átomo, Campinas – SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; obra: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, onde defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Dante: É tão gentil e tão honesto o ar . . . [soneto]

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[traduzido por Arduíno Bolivar]

É tão gentil e tão honesto o ar
Da minha Dama, sempre que aparece
E a outrem saúda, que ante ela emudece
Toda língua, e ninguém ousa falar.

Ela se vai sentindo-se louvar,
Vestida de humildade, e até parece
Coisa que lá do Céu à terra desce
A fim de a todos nos maravilhar.

Mostra-se tão graciosa a quem a mira,
Que nos filtra através do olhar no seio,
Um dulçor que só entende quem o prova.

Parece que do seu lábio se mova
Um suspiro suave, de amor cheio,
Que vai dizendo a toda alma: suspira.

Dante Alighieri

Tanto gentile e tanto onesta pare

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand'ella altrui saluta,
ch'ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l'ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente e d'umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dà per li occhi una dolcezza al core,
che 'ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d'amore,
che va dicendo a l'anima: Sospira.
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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, onde defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Farias Brito: Filosofia e Poesia *


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                    A poesia não é somente o verso, nem mesmo principalmente o verso. Ao contrário pode-se sustentar, com muito fundamento, que o verso vai em decadência crescente e tende a desaparecer. E por mais que pareça à primeira vista extraordinário, é isto o que entre muitas outras cousas se explica como uma das conseqüências gerais da descoberta da Imprensa.
                    De fato, o que deu origem ao verso foi a necessidade que tinha a antigüidade de reduzir a linguagem a uma forma mais própria para facilitar a tradição oral das idéias. Ora, o verso conserva-se na memória com muito mais facilidade que a prosa, e o pensamento transmite-se de geração em geração muito mais prontamente por meio do verso que por meio da prosa; por isto era o verso que mais convinha aos antigos na falta de um sistema aperfeiçoado de escrita; e é assim que se explica o extraordinário desenvolvimento que teve primitivamente o verso, sendo que era em verso que entre os primeiros povos se escrevia tudo, história, legislação, ciência. Daí os grandes poemas didáticos, como as epopéias homéricas. Mas hoje  com a 1 descoberta da Imprensa, ao verso sucede o livro que é a objetivação material das idéias, ou em outros termos, o pensamento gravado em bronze, o verso já não tem mais razão de ser e só pode explicar-se como arte auxiliar da música. É assim que se explica, por um lado o descrédito em que têm caído e a má vontade mesma com que são, por via de regra, recebidos pelos homens de letras especialmente e pelo povo em geral, os livros de versos; e por outro lado, o desenvolvimento crescente do romance que é a forma literária destinada a substituir o poema. Laboram, porém, em grande confusão aqueles que partem da decadência do verso para a condenação da poesia.
                    Não é, pois, do verso, nem mesmo da poesia em sua acepção comum, mas da poesia em sua significação mais ampla, que vou tratar, e, assim compreendida, a poesia é eterna, porque nasce da essência mesma da natureza. "É tudo o que é belo", na frase decisiva de Lange, e forma com a filosofia e a ciência, a tríplice cadeia do espírito humano, sendo que é com estes três elementos  ciência, poesia e filosofia  que há de ser constituída a religião do futuro.
                    Entramos, porém, no estudo analítico do fato.
                    Estudando os diversos elementos que concorrem para a determinação dos atos humanos e observando a marcha da humanidade através da história, vê-se, claramente, que dois princípios subjetivos fundamentais, combinados com uma multiplicidade infinita de causas objetivas, presidem o desenvolvimento do homem, desde o obscuro habitante das cavernas até os brilhantes filhos da civilização hodierna. Tais são: o interesse e a paixão. Esses dois princípios combinados dão em resultado a necessidade; e tal é a grande força motora a que são devidas todas as obras, todas as grandes conquistas da atividade humana. As nossas necessidades podem ser reduzidas a duas ordens: necessidades físicas e necessidades intelectuais ou morais. Das necessidades físicas nascem os esforços tendentes à apropriação do universo, os quais têm por fim o desenvolvimento físico do indivíduo. As necessidades intelectuais dão lugar  aos esforços tendentes ao conhecimento das coisas, ao aperfeiçoamento indefinido da inteligência, a estas grandes manifestações do pensamento: a ciência, a religião, a filosofia.
                    Tal é, com efeito, o grande campo em que se exerce a atividade humana; e a história inteira não tem outro fim senão registrar as conquista do espírito 2, já relativas à satisfação das necessidades intelectuais. Mas ao lado das necessidades físicas e intelectuais coloca-se outra ordem de necessidades, as necessidades estéticas. O homem não precisa apenas 3 de conhecer e dominar as forças da natureza: admira e precisa de traduzir sua admiração; sente e precisa manifestar seu sentimento. Em virtude de suas necessidades intelectuais observa atentamente o espectro 4 do mundo e desta observação eleva-se ao conhecimento das leis que regulam a marcha das coisas; põe-se depois, por força de suas necessidades físicas, em luta com as forças da natureza, e dominando-as, para o que se serve dos conhecimento já adquiridos pela experiência quotidiana, transforma estas mesmas forças em utilidades, assegurando assim a conservação e o desenvolvimento da vida.
                    Há, porém, além desta esfera em que gira a atividade humana, outra ordem de fatos ainda mais elevada. esforçando-se pela apropriação e conhecimento do universo, sucede que o homem encontra sempre e por toda a parte, embaraços de toda a sorte e dificuldades de toda a parte 5, no exercício de suas faculdades. Vem primeiro o sentimento da própria fraqueza em face da soberania inalterável da natureza. Depois há uma infinita complexidade nos fatos da sociedade e vivemos, continuamente, no meio de lutas contínuas e intermináveis. Nestas condições, o homem, cercado de dúvidas, rodeado de incertezas, na grandeza, nos gozos, bem como na miséria e no sofrimento e, em qualquer situação, tendo sempre diante dos olhos o espetáculo maravilhoso do mundo, sente agitar-se dentro de si um elemento desconhecido que o transporta: entusiasma-se 6, suspira, enlouquece e chora.
                    A história é, sem dúvida, uma série de lutas intelectuais e de lutas físicas ou econômicas; mas é também e ao mesmo tempo uma série de lutas emocionais: e a lágrima, o sentimento, o entusiasmo, o amor não deixam de exercer poderosa influência sobre a vida e sobre os destinos do homem.
                    Werther, suicidando-se por não lhe ter sido permitido o amor de Carlota, não foi o produto híbrido de uma imaginação doentia, porém um símbolo vivo da humanidade.
                    Dante afogando-se em um oceano de luz, depois de haver passado pelos sombrios horrores do inferno; Dante afagando a imaginação e inundando as profundezas d'alma com a deliciosa perspectiva da felicidade celeste, depois de haver feito sentir os horrores do inferno; Dante, dominado por uma só idéia que o inflamava, a idéia de Beatriz, confundindo-se com a idéia mesma da humanidade; Dante, o profundo Dante, com seu admirável poema, não foi um simples exercício de metrificação, o produto de um longo e paciente trabalho, porém os mais elevados paroxismos, os últimos delírios, a profundeza, o transcendentalismo do amor.
                    Quem foi que no meio das grandes agitações da sociedade, entre a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, o sorriso e a lágrima, em face das grandes lutas da humanidade, tendo em vista os incompreensíveis arcanos do coração e as produções admiráveis do pensamento alguma vez não sentiu-se poeta? Há momentos em que um só homem concentra em si a totalidade das emoções que constituem a vida da humanidade: é quando uma grande idéia revoluciona o seu ser.


(Transcrito de Finalidade do Mundo
por Marques Rebelo, Antologia
 Escolar  Brasileira,  pp. 136 — 138,
1ª ed. MEC, 1967)


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Notas das Organizadoras:
* Conferido com Farias Brito, Finalidade do Mundo, Estudos de Filosofia e Teleologia Naturalista, 2a. edição, 2 volumes, primeiro volume, Rio de Janeiro, 1957, pp. 113 - 116;
quando depois da em vez de com a;
2  já relativa à satisfação das necessidades físicas, omitido pelo antologista;
3 somente em vez de apenas;
espetáculo em vez de espectro;
ordem em vez de parte;
6 canta, omitido pelo antologista.
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Antologia de Antologias — prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo  SP; Raimundo de Farias Brito (1862 1917), cearense de São Benedito, formado em Direito pela Faculdade de Recife PE, é das figuras mais representativas do pensamento filosófico brasileiro; atuou como advogado e promotor, foi secretário de estado no governo do Ceará, lecionou na Faculdade de Direito de Belém do Pará e foi professor de Lógica no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro; escreveu Cantos Modernos (poesia, 1889), Finalidade do Mundo (filosofia, 3 volumes, 1894/1899/1905), A Verdade como Regras das Ações (filosofia, 1905) etc.