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[traduzido por Haroldo de
Campos]
Vita nuova, 3
Ao coração gentil, de Amor cativo,
ao qual este meu texto se apresente,
a quem o reescreva e o transparente,
venho saudar, e ao seu Senhor altivo.
Para além da hora terça o tempo esquivo
corria no estelário reluzente,
quando Amor me surgiu subitamente,
e o horror, no seu aspecto, lembro, vivo.
Alegrava-se Amor, pois exibia
meu coração nas mãos: dama formosa
num manto em seu regaço adormecia.
E a despertava, e o coração que ardia
dava Amor de comer à temerosa.
Depois, como chorando, Amor fugia.
[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 17.07.83
Vita nuova, cap. III
A ciascun’alma presa, e gentil core,
nel cui cospetto ven lo dir presente,
in ciò che mi rescrivan suo parvente
salute in lor segnor, cioè Amore.
Già eran quasi che atterzate l’ore
del tempo che onne stella n’è lucente,
quando m’apparve Amor subitamente
cui essenza membrar mi dà orrore.
Allegro mi sembrava Amor tenendo
meo core in mano, e ne le braccia avea
madonna involta in un drappo dormendo.
Poi la svegliava, e d’esto core ardendo
lei paventosa umilmente pascea:
appresso gir lo ne vedea piangendo
* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro
desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do
jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como
objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e
estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista
Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de
origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de
Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987,
Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Dante Alighieri (1265 — 1321),
nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália],
estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética,
foi político e estadista florentino, escritor e poeta; suas obras: La Vita Nuova
(Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz — provavelmente Beatrice Portinari),
Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari
Eloquentia (prosa, na qual defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto,
deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, nos quais pretendia resumir
todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação
total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia,
dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em
longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo
que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante — educação,
família e opiniões — são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida
Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República
de Florença, para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente
morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade
administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu
no exílio, em Ravenna.









