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Ao embarcar pelas 7 horas da
manhã em Dores do Indaiá, o guarda-freios1 logo despertou minha curiosidade
na plataforma da estação. Com o uniforme de ferroviário da R. M. V., lépido2
e desenvolto3, logo se via que era o guarda-freios. Do trem que
acabara de chegar. São indivíduos necessariamente magros e ágeis, para o ofício
de saltar várias vezes de um carro para outro, de andar por cima dos vagões. O
da estação de Dores estava conversando com a mocinha morena que só sabia rir,
bons dentes! enquanto ele falava com os olhos fixos na sua boca. Fixos não nos
olhos dela, como exige o namoro comum: na boca risonha, grande, úmida. Não
havia uma conversa contínua entre os dois, pois estavam carregando e
descarregando encomendas e bagagens, inclusive minhas grandes malas de amostras,
e o rapaz se dividia entre o serviço e o amor.
O trem sertanejo viera do
fim da linha, cortando o matinho rasteiro dos descampados, e a moça de vestido
de seda vegetal e tamancos bordados, com a sua melhor indumentária4 — logo se via, já o estava esperando na
estação. Não ao trem, mas ao guarda-freios que descera lépido para ela, e um
abraço, e perguntas, e sorrisos. Ela não parava de sorrir enquanto ele
transitava se fingindo importantemente azafamado5, entre os volumes
que iam enchendo o carro de bagagens e as doçuras que vinha falar a ela, parado
de instante a instante, momentos inesquecíveis, como o demonstrava o riso de
bons dentes.
A máquina apitou, outro
abraço, parece até que ela esperava um beijo, de tanto oferecer no riso aquela
boca úmida... Ficou na plataforma agitando o lenço costumeiro, lenço branco de
paz, parecendo um passarinho que queria voar na manhã sertaneja, parecendo um
coração que palpitava desordenadamente; coração branco, me desculpem, mas é o
amor...
As viagens de um viajante
comercial não comportam bota-foras, despedidas, adeuses, salvo de um ou outro
freguês que está atrasado com a Casa e quer nos agradar. Por isto mesmo, pela
razão da nenhuma poesia ou sentimentalidade das minhas viagens, chego quase a
ficar poeta, ao lembrar um lenço palpitando na plataforma, como um coração que
quer voar, para o guarda-freios... Quando eu era moço na profissão, embora não
muito atreito6 a artes de Cupido, ainda acontecia um lenço feminino
às vezes se agitar por mim numa estação qualquer. Mas agora quase que vive de
observações e recordações.
Saímos de Dores e o
guarda-freios, postado7 entre os dois únicos carros de passageiros,
depois de soltar os freios permanecia com os cotovelos sobre a roda, mas apenas
ornamentalmente, pois o trem estava se esforçando para ganhar velocidade. Notei
que logo à saída o rapaz se desinteressara do lenço e do coração que lhe
pertenciam, desviando os olhos pro chão que corria debaixo de seus pés. E agora
estava debruçado, derreado8 sobre a roda, de olhos baixos,
indiferentes. Como não tinha com quem conversar, nem jornais novos para ler,
pois só ia no carro um padre de batina cinzenta e viajante não gosta de batina
de qualquer cor, — fiquei olhando pelo vidro da porta o rapaz,
de uns 25 anos talvez, mulato ou moreno, produto de muitos sangues quentes. De
repente, sorriu de leve, fugitivamente, sorriso que seria uma conclusão de
considerações íntimas especializadas em morenas; sacudiu os ombros — que me importa! —; saiu do lugar e atravessou o meu carro
gingando. Nem todos os seus gestos denunciavam o que lhe ia lá dentro, nem me
pareceram froideanamente9 analisáveis, que já li um pouco de
Freud... mas era certo que os seus pensamentos se prendiam a amores, de um modo
particular e pessoal.
Foi quando ele passou por
mim equilibrando na velocidade o corpo magro, forte, seco, ágil, que eu comecei
a desconfiar da importância daquele tipo. Ou melhor, da sua importância como
tipo, que entraria desde logo pra minha coleção de lembranças de viagem, no
arquivo de memórias somente. Porque eu viajo por obrigação, como meio de vida,
mas gosto de fazer umas observaçõezinhas sobre pessoas e paisagens.
O guarda-freios me
impressionou como tipo. É preciso que explique. Indivíduo de meia altura, de
estatura mais ou menos igual à minha, fino de corpo, mas visivelmente bem
disposto, e sobretudo moço. Sua roupa não apresentava nenhum cuidado especial,
uniforme azul desbotado e velho, largo e deselegante; um boné gasto e ensebado
posto meio de banda sobre o cabelo crespo, não muito crespo; mas não
exageradamente de banda à moda capadócia10. Uma certa distinção no
indistinto, compreendem? O rapaz não dava nenhuma atenção a detalhes do vestir
e isso não desmerecia a sua condição de galã ferroviário e sertanejo. Tinha a
barba por fazer, de uns três dias; mas também isso não o desvalorizava, antes
pelo contrário. As gerações antigas eram mais sexuais mais mulherengamente
diretas, menos complexas no amor, pelo prestígio que davam aos pelos. Deus fez
o homem peludo e raspá-los é ir contra a lei divina da multiplicação dos
homens... Aqueles formidáveis bigodões antigos, aquelas barbas solenes,
responsáveis por muitas séries de filhos naturais! O amor escanhoado11
é doentio, dessorado12, pervertido, falsificado, etc. É certo que
ando cuidadosamente escanhoado; porém, além de não estar em causa o meu aspecto
exterior, um viajante comercial barbado talvez não arranje freguês para a Casa:
as barbas hoje costumam provocar o ridículo, desde que o cinema americano
começou a explorá-las como um elemento cômico por excelência. Mundo decadente
de homens que tiram diariamente da cara as insígnias13 pilosas14
dos atributos masculinos! Insígnias antigas da reprodução da espécie, tanto que
para marcar o seu celibato15 os padres começaram a fazer a barba.
Hoje tudo está mudado. Mas... o guarda-freios é que importa: quero lhes falar
somente a seu respeito. O guarda-freios não tinha barbas grandes porque o uso
não permite, e era moço, nascido já num mundo escanhoado. Mas teria, logo o percebi
uma justificada prevenção contra o barbear-se muito a miúdo16.
Como pormenor pessoal e
importante, um lenço de seda creme enrolado no pescoço e com as pontas enfiadas
numa aliança de ouro no lugar da gravata. As pontas voavam dentro do vento e do
pó... Um tipo! O lenço talvez não estivesse com a cor intacta, mas a região é
quente e há suor entre nuvens de poeira. A aliança, sim, pareceu-me de ouro
legítimo, e devia sê-lo, para definir o tipo, a sinceridade dos seus momentos
gloriosos e efêmeros17, pelos menos efêmeros ou simplesmente
poéticos dentro do que eu presenciei naquela famosa viagem.
* * *
Ele tinha voltado para o
posto entre os carros, em minha frente, à minha vista através do vidro da porta
Na verdade já quase que me esquecera
dele e começava a cochilar quando vozes femininas à beira da linha me fizeram
olhar pra fora. Junto das três casas pequenas de uma turma de conserva18
da linha da Oeste, duas moças, ou duas mulheres moças, falavam alto, quase gritavam,
ao mesmo tempo que repetiam incessantemente com os braços um cumprimento
festivo, tudo para alguém que ia conosco: — o guarda-freios! E o
guarda-freios lhes correspondia risonho, agitando o braço direito, vozes e
gestos no barulho dos truques. As moças ficaram envolvidas na nuvem de pó
levantada pelo comboio19. E o rapaz colocou os olhos no chão que
corria debaixo dos seus pés, como que se desinteressando delas.
Ah, os olhos tinham importância: verdes. Moreno, mais
talvez mulato, de olhos verdes. Já leram Machado de Assis, um escritor
brasileiro que andou muito falado nos jornais por causa do centenário do seu
nascimento? Esse escritor tem uma personagem do barulho, uma mulher por nome
Capitu, que tinha os olhos de ressaca. Pois o guarda-freios era um homem de
olhos de ressaca. Ressaca de amar e não de bebida, para atrair e afundar as
pequenas daqueles rincões20... Não estou exagerando, nem gastando
tempo com um sujeito qualquer: o tipo tinha alguma coisa de excepcional, que me
metia inveja...
Chegou uma estaçãozinha sem importância e confesso que me decepcionou
não ver morena alguma na plataforma à espera do guarda-freios. Nem mesmo depois
que o trem parou surgiram mulheres; mas o rapaz, passando junto às janelas do
nosso carro, parecia indiferente a essa ausência, começando a conversar sobre
coisas vagas com o guarda-chaves21, até que o comboio, como
descobrindo de súbito22 a inutilidade daquele estacionamento,
se pôs novamente em marcha.
Com a continuação da viagem, apontaram numa curva outras
três casinholas23 de uma turma de conserva. Quando a composição
passou por elas, o que vi satisfez minha impressão a respeito do rapaz. De uma
das janelas humildes, a mocinha adolescente muito penteadinha, de vestido
alegre e limpo, clara de tez24 e de aspecto, positivamente à espera
daquele instante... a mocinha ria doidamente para o nosso guarda-freios que ria
também, que ria e passava... E quando o nosso carro passou bem em frente dela,
vi-a agitar o braço roliço25 e a mão pequena, no gesto costumeiro de
quem promete pancada:
— Ah,
diabo!
Com o melhor semblante26 deste mundo... A
adolescente ficou para trás, entre o pó, os meninos e os cachorros em profusão
nesses lugares. Logo depois, eis o ar de desinteresse de olhos baixos, ou de
distância, do nosso guarda-freios que tornava a transitar pelo carro!
* * *
Naquela zona do Oeste, o trem costuma demorar mais de uma
hora entre duas paradas, tamanhas são as distâncias entre os núcleos de
população. Às vezes, “acontece” uma estação e a gente nota que só existem no
local as casas dos ferroviários necessários ali; é como se estabelecessem uma
interrupção arbitrária27 do percurso, para descansar por uns minutos
a locomotiva extenuada28.
Eu tinha que descer em Bom Despacho. A paisagem de matinho
rasteiro, com arbustos retorcidos pelo esforço de arrancar seiva29
daquele chão difícil, a paisagem sem variação e sem elevações sempre me dava
sonolência, principalmente naquela manhã, por causa de um pôquer30 mal
jogado durante a noite. Cochilava. Mas por felicidade só dormi depois de
presenciar uma cena que me encheu as medidas.
Vi uma casa na beira da linha. Nem sei bem se era ou não
casa de ferroviário. Quando o trem se aproximou, vi duas mulheres em atitude de
expectativa. Uma já trintona, gorda e desmanchada31, com os braços
cruzados por cima dos grandes seios que pertenciam a uma porção de meninos
espalhados por ali, tinha um sorriso de simpatia bonachona32
dirigido para o nosso guarda-freios. A outra, uma pequena pra cidade, meio
alourada, espigadinha33, sorria igualmente mas de modo diverso, ao
vê-lo trafegar triunfante na plataforma. E quando o nosso carro estava bem em
frente dela, eis senão quando o rapaz atira o busto para fora rapidamente, com
os pés fixos na escada, como se fosse voar sobre a pequena, o malandro!
Movimento mesmo de voar, uma projeção do corpo no ar vazio até que os braços
presos aos corrimões da escada o puxaram pra trás, agindo tal-qualmente34
a dois cabos elásticos. Ao mesmo tempo a pequena moveu um pouco os braços,
descontrolada pelo imprevisto, quase os levantando como se esperasse realmente
acolher neles o corpo do voador. Ele ria divertidíssimo; mas a moça não ria,
unindo bem ao longo do corpo esguio35 os dois braços caídos como se
ainda tivesse dificuldade em dominá-los, com uma expressão de desapontamento
sorridente pelo manejo36 que os fizera mover. Por ela percebi que
era a primeira vez que o guarda-freios lhe fazia aquela brincadeira. Tinha sido
bonito... e poético!
Despertei em Bom Despacho, onde desembarquei, alheando-me37
do guarda-freios com a preocupação de retirar depressa as minhas malas. Quando
embarquei no dia seguinte, já não tive a sua companhia. Talvez estivesse de
folga. E quando voltei a fazer aquela zona, nunca mais o vi.
Um dia, ao ver passar na beira da beira da linha as três
casas de uma turma de conserva, me lembrei de perguntar por ele ao chefe de
trem. Que fim teria levado o guarda-freios? Expliquei-o como o rapaz que usava
um lenço de seda no pescoço, preso por uma aliança. Morrera, me disse o chefe.
Facadas. Uma questão de rabo de saia.
Não tive a mínima surpresa: um homem como aquele não podia
viver muito.
Notas da edição: 1. guarda-freios: empregado que vigia e
manobra os freios dos trens; 2. lépido: alegre, ágil; 3. desenvolto:
desembaraçado; 4. indumentária: roupa; 5. azafamado: muito atarefado; 6.
atreito: acostumado; 7. postado: posicionado; 8. derreado: inclinado; 9.
froideanamente: à maneira de Freud, o pai da psicanálise; 10. capadócio: da
Capadócia (província da Ásia Menor); 11. escanhoado: bem barbeado; 12.
dessorado: enfraquecido; 13. insígnia: sinal de distinção, emblema; 14. piloso:
que tem pelos; 15. celibato: estado da pessoa que se mantém solteira; 16. a
miúdo: com frequência; 17. efêmero: passageiro; 18. turma de conserva:
empregados que, nas estradas de ferro, mantêm a linha em bom estado; 19.
comboio: conjunto de carros e vagões engatados e movidos por uma locomotiva;
20. rincão: lugar afastado, recanto; 21. guarda-chaves: empregado que vigia e
manobra as chaves dos desvios e ramais dos trilhos; 22. de súbito: de repente;
23. casinhola: casa pequena; 24. tez: pele; 25. roliço: arredondado, gordo; 26.
semblante: aspecto; 27. arbitrário: casual; 28. extenuado: cansado; 29. seiva:
energia, vigor; 30. pôquer: jogo de cartas; 31. desmanchado: desleixado; 32.
bonachão: que tem bondade natural; 33. espigado: alto e magro; 34.
tal-qualmente: igualmente; 35. esguio: alto e magro; 36. manejo: manobra,
artimanha; 37. alhear-se: distrair-se, esquecer-se.
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Contos de João
Alphonsus, Apresentação de Ivan Marques e Ilustração de Rogério Coelho, Coleção
O Encanto do Conto, 2003, DCL — Difusão Cultural do Livro Ltda., São Paulo —
SP; João Alphonsus de Guimaraens (1901 —
1944), mineiro de Conceição do Serro, hoje Conceição do Mato Dentro, iniciou
seus estudos com professora particular, conclui os estudos primários no Grupo
Escolar Dr. Gomes Freire, em Mariana — MG, depois estudou no Seminário
Arquiepiscopal de Mariana e, mudando-se para Belo Horizonte, fez 2 anos de
Medicina, desistiu do curso, formou-se em Direito, foi advogado, funcionário
público, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta modernista;
trabalhou no Diário de Minas, na companhia dos então jovens literatos Carlos
Drummond de Andrade, Emílio Moura, Pedro Nava e outros, jornal este “que virou
uma espécie de ‘quartel-general’ do Modernismo mineiro.”; publicou seus
primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; colaborou com a cataguasense e
modernista revista Verde, criada em 1927 por Antonio Mendes e outros
companheiros e poetas de Cataguases e região; suas obras: Galinha Cega (contos,
1931), Totônio Pacheco (romance, 1934), Rola-Moça (romance, 1938), Pesca da
Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos, 1943), Contos e Novelas (1965);
teve obras premiadas.


