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sábado, 18 de janeiro de 2025

João Alphonsus: O Guarda-freios

 
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          Ao embarcar pelas 7 horas da manhã em Dores do Indaiá, o guarda-freios1 logo despertou minha curiosidade na plataforma da estação. Com o uniforme de ferroviário da R. M. V., lépido2 e desenvolto3, logo se via que era o guarda-freios. Do trem que acabara de chegar. São indivíduos necessariamente magros e ágeis, para o ofício de saltar várias vezes de um carro para outro, de andar por cima dos vagões. O da estação de Dores estava conversando com a mocinha morena que só sabia rir, bons dentes! enquanto ele falava com os olhos fixos na sua boca. Fixos não nos olhos dela, como exige o namoro comum: na boca risonha, grande, úmida. Não havia uma conversa contínua entre os dois, pois estavam carregando e descarregando encomendas e bagagens, inclusive minhas grandes malas de amostras, e o rapaz se dividia entre o serviço e o amor.
          O trem sertanejo viera do fim da linha, cortando o matinho rasteiro dos descampados, e a moça de vestido de seda vegetal e tamancos bordados, com a sua melhor indumentária4 logo se via, já o estava esperando na estação. Não ao trem, mas ao guarda-freios que descera lépido para ela, e um abraço, e perguntas, e sorrisos. Ela não parava de sorrir enquanto ele transitava se fingindo importantemente azafamado5, entre os volumes que iam enchendo o carro de bagagens e as doçuras que vinha falar a ela, parado de instante a instante, momentos inesquecíveis, como o demonstrava o riso de bons dentes.
          A máquina apitou, outro abraço, parece até que ela esperava um beijo, de tanto oferecer no riso aquela boca úmida... Ficou na plataforma agitando o lenço costumeiro, lenço branco de paz, parecendo um passarinho que queria voar na manhã sertaneja, parecendo um coração que palpitava desordenadamente; coração branco, me desculpem, mas é o amor...
          As viagens de um viajante comercial não comportam bota-foras, despedidas, adeuses, salvo de um ou outro freguês que está atrasado com a Casa e quer nos agradar. Por isto mesmo, pela razão da nenhuma poesia ou sentimentalidade das minhas viagens, chego quase a ficar poeta, ao lembrar um lenço palpitando na plataforma, como um coração que quer voar, para o guarda-freios... Quando eu era moço na profissão, embora não muito atreito6 a artes de Cupido, ainda acontecia um lenço feminino às vezes se agitar por mim numa estação qualquer. Mas agora quase que vive de observações e recordações.
          Saímos de Dores e o guarda-freios, postado7 entre os dois únicos carros de passageiros, depois de soltar os freios permanecia com os cotovelos sobre a roda, mas apenas ornamentalmente, pois o trem estava se esforçando para ganhar velocidade. Notei que logo à saída o rapaz se desinteressara do lenço e do coração que lhe pertenciam, desviando os olhos pro chão que corria debaixo de seus pés. E agora estava debruçado, derreado8 sobre a roda, de olhos baixos, indiferentes. Como não tinha com quem conversar, nem jornais novos para ler, pois só ia no carro um padre de batina cinzenta e viajante não gosta de batina de qualquer cor, fiquei olhando pelo vidro da porta o rapaz, de uns 25 anos talvez, mulato ou moreno, produto de muitos sangues quentes. De repente, sorriu de leve, fugitivamente, sorriso que seria uma conclusão de considerações íntimas especializadas em morenas; sacudiu os ombros que me importa! ; saiu do lugar e atravessou o meu carro gingando. Nem todos os seus gestos denunciavam o que lhe ia lá dentro, nem me pareceram froideanamente9 analisáveis, que já li um pouco de Freud... mas era certo que os seus pensamentos se prendiam a amores, de um modo particular e pessoal.
          Foi quando ele passou por mim equilibrando na velocidade o corpo magro, forte, seco, ágil, que eu comecei a desconfiar da importância daquele tipo. Ou melhor, da sua importância como tipo, que entraria desde logo pra minha coleção de lembranças de viagem, no arquivo de memórias somente. Porque eu viajo por obrigação, como meio de vida, mas gosto de fazer umas observaçõezinhas sobre pessoas e paisagens.
          O guarda-freios me impressionou como tipo. É preciso que explique. Indivíduo de meia altura, de estatura mais ou menos igual à minha, fino de corpo, mas visivelmente bem disposto, e sobretudo moço. Sua roupa não apresentava nenhum cuidado especial, uniforme azul desbotado e velho, largo e deselegante; um boné gasto e ensebado posto meio de banda sobre o cabelo crespo, não muito crespo; mas não exageradamente de banda à moda capadócia10. Uma certa distinção no indistinto, compreendem? O rapaz não dava nenhuma atenção a detalhes do vestir e isso não desmerecia a sua condição de galã ferroviário e sertanejo. Tinha a barba por fazer, de uns três dias; mas também isso não o desvalorizava, antes pelo contrário. As gerações antigas eram mais sexuais mais mulherengamente diretas, menos complexas no amor, pelo prestígio que davam aos pelos. Deus fez o homem peludo e raspá-los é ir contra a lei divina da multiplicação dos homens... Aqueles formidáveis bigodões antigos, aquelas barbas solenes, responsáveis por muitas séries de filhos naturais! O amor escanhoado11 é doentio, dessorado12, pervertido, falsificado, etc. É certo que ando cuidadosamente escanhoado; porém, além de não estar em causa o meu aspecto exterior, um viajante comercial barbado talvez não arranje freguês para a Casa: as barbas hoje costumam provocar o ridículo, desde que o cinema americano começou a explorá-las como um elemento cômico por excelência. Mundo decadente de homens que tiram diariamente da cara as insígnias13 pilosas14 dos atributos masculinos! Insígnias antigas da reprodução da espécie, tanto que para marcar o seu celibato15 os padres começaram a fazer a barba. Hoje tudo está mudado. Mas... o guarda-freios é que importa: quero lhes falar somente a seu respeito. O guarda-freios não tinha barbas grandes porque o uso não permite, e era moço, nascido já num mundo escanhoado. Mas teria, logo o percebi uma justificada prevenção contra o barbear-se muito a miúdo16.
          Como pormenor pessoal e importante, um lenço de seda creme enrolado no pescoço e com as pontas enfiadas numa aliança de ouro no lugar da gravata. As pontas voavam dentro do vento e do pó... Um tipo! O lenço talvez não estivesse com a cor intacta, mas a região é quente e há suor entre nuvens de poeira. A aliança, sim, pareceu-me de ouro legítimo, e devia sê-lo, para definir o tipo, a sinceridade dos seus momentos gloriosos e efêmeros17, pelos menos efêmeros ou simplesmente poéticos dentro do que eu presenciei naquela famosa viagem.
* * *
          Ele tinha voltado para o posto entre os carros, em minha frente, à minha vista através do vidro da porta Na verdade  já quase que me esquecera dele e começava a cochilar quando vozes femininas à beira da linha me fizeram olhar pra fora. Junto das três casas pequenas de uma turma de conserva18 da linha da Oeste, duas moças, ou duas mulheres moças, falavam alto, quase gritavam, ao mesmo tempo que repetiam incessantemente com os braços um cumprimento festivo, tudo para alguém que ia conosco: o guarda-freios! E o guarda-freios lhes correspondia risonho, agitando o braço direito, vozes e gestos no barulho dos truques. As moças ficaram envolvidas na nuvem de pó levantada pelo comboio19. E o rapaz colocou os olhos no chão que corria debaixo dos seus pés, como que se desinteressando delas.
          Ah, os olhos tinham importância: verdes. Moreno, mais talvez mulato, de olhos verdes. Já leram Machado de Assis, um escritor brasileiro que andou muito falado nos jornais por causa do centenário do seu nascimento? Esse escritor tem uma personagem do barulho, uma mulher por nome Capitu, que tinha os olhos de ressaca. Pois o guarda-freios era um homem de olhos de ressaca. Ressaca de amar e não de bebida, para atrair e afundar as pequenas daqueles rincões20... Não estou exagerando, nem gastando tempo com um sujeito qualquer: o tipo tinha alguma coisa de excepcional, que me metia inveja...
          Chegou uma estaçãozinha sem importância e confesso que me decepcionou não ver morena alguma na plataforma à espera do guarda-freios. Nem mesmo depois que o trem parou surgiram mulheres; mas o rapaz, passando junto às janelas do nosso carro, parecia indiferente a essa ausência, começando a conversar sobre coisas vagas com o guarda-chaves21, até que o comboio, como descobrindo de súbito22 a inutilidade daquele estacionamento, se  pôs novamente em marcha.
          Com a continuação da viagem, apontaram numa curva outras três casinholas23 de uma turma de conserva. Quando a composição passou por elas, o que vi satisfez minha impressão a respeito do rapaz. De uma das janelas humildes, a mocinha adolescente muito penteadinha, de vestido alegre e limpo, clara de tez24 e de aspecto, positivamente à espera daquele instante... a mocinha ria doidamente para o nosso guarda-freios que ria também, que ria e passava... E quando o nosso carro passou bem em frente dela, vi-a agitar o braço roliço25 e a mão pequena, no gesto costumeiro de quem promete pancada:
           Ah, diabo!
          Com o melhor semblante26 deste mundo... A adolescente ficou para trás, entre o pó, os meninos e os cachorros em profusão nesses lugares. Logo depois, eis o ar de desinteresse de olhos baixos, ou de distância, do nosso guarda-freios que tornava a transitar pelo carro!
* * *
          Naquela zona do Oeste, o trem costuma demorar mais de uma hora entre duas paradas, tamanhas são as distâncias entre os núcleos de população. Às vezes, “acontece” uma estação e a gente nota que só existem no local as casas dos ferroviários necessários ali; é como se estabelecessem uma interrupção arbitrária27 do percurso, para descansar por uns minutos a locomotiva extenuada28.
          Eu tinha que descer em Bom Despacho. A paisagem de matinho rasteiro, com arbustos retorcidos pelo esforço de arrancar seiva29 daquele chão difícil, a paisagem sem variação e sem elevações sempre me dava sonolência, principalmente naquela manhã, por causa de um pôquer30 mal jogado durante a noite. Cochilava. Mas por felicidade só dormi depois de presenciar uma cena que me encheu as medidas.
          Vi uma casa na beira da linha. Nem sei bem se era ou não casa de ferroviário. Quando o trem se aproximou, vi duas mulheres em atitude de expectativa. Uma já trintona, gorda e desmanchada31, com os braços cruzados por cima dos grandes seios que pertenciam a uma porção de meninos espalhados por ali, tinha um sorriso de simpatia bonachona32 dirigido para o nosso guarda-freios. A outra, uma pequena pra cidade, meio alourada, espigadinha33, sorria igualmente mas de modo diverso, ao vê-lo trafegar triunfante na plataforma. E quando o nosso carro estava bem em frente dela, eis senão quando o rapaz atira o busto para fora rapidamente, com os pés fixos na escada, como se fosse voar sobre a pequena, o malandro! Movimento mesmo de voar, uma projeção do corpo no ar vazio até que os braços presos aos corrimões da escada o puxaram pra trás, agindo tal-qualmente34 a dois cabos elásticos. Ao mesmo tempo a pequena moveu um pouco os braços, descontrolada pelo imprevisto, quase os levantando como se esperasse realmente acolher neles o corpo do voador. Ele ria divertidíssimo; mas a moça não ria, unindo bem ao longo do corpo esguio35 os dois braços caídos como se ainda tivesse dificuldade em dominá-los, com uma expressão de desapontamento sorridente pelo manejo36 que os fizera mover. Por ela percebi que era a primeira vez que o guarda-freios lhe fazia aquela brincadeira. Tinha sido bonito... e poético!
          Despertei em Bom Despacho, onde desembarquei, alheando-me37 do guarda-freios com a preocupação de retirar depressa as minhas malas. Quando embarquei no dia seguinte, já não tive a sua companhia. Talvez estivesse de folga. E quando voltei a fazer aquela zona, nunca mais o vi.
          Um dia, ao ver passar na beira da beira da linha as três casas de uma turma de conserva, me lembrei de perguntar por ele ao chefe de trem. Que fim teria levado o guarda-freios? Expliquei-o como o rapaz que usava um lenço de seda no pescoço, preso por uma aliança. Morrera, me disse o chefe. Facadas. Uma questão de rabo de saia.
          Não tive a mínima surpresa: um homem como aquele não podia viver muito.


Notas da edição: 1. guarda-freios: empregado que vigia e manobra os freios dos trens; 2. lépido: alegre, ágil; 3. desenvolto: desembaraçado; 4. indumentária: roupa; 5. azafamado: muito atarefado; 6. atreito: acostumado; 7. postado: posicionado; 8. derreado: inclinado; 9. froideanamente: à maneira de Freud, o pai da psicanálise; 10. capadócio: da Capadócia (província da Ásia Menor); 11. escanhoado: bem barbeado; 12. dessorado: enfraquecido; 13. insígnia: sinal de distinção, emblema; 14. piloso: que tem pelos; 15. celibato: estado da pessoa que se mantém solteira; 16. a miúdo: com frequência; 17. efêmero: passageiro; 18. turma de conserva: empregados que, nas estradas de ferro, mantêm a linha em bom estado; 19. comboio: conjunto de carros e vagões engatados e movidos por uma locomotiva; 20. rincão: lugar afastado, recanto; 21. guarda-chaves: empregado que vigia e manobra as chaves dos desvios e ramais dos trilhos; 22. de súbito: de repente; 23. casinhola: casa pequena; 24. tez: pele; 25. roliço: arredondado, gordo; 26. semblante: aspecto; 27. arbitrário: casual; 28. extenuado: cansado; 29. seiva: energia, vigor; 30. pôquer: jogo de cartas; 31. desmanchado: desleixado; 32. bonachão: que tem bondade natural; 33. espigado: alto e magro; 34. tal-qualmente: igualmente; 35. esguio: alto e magro; 36. manejo: manobra, artimanha; 37. alhear-se: distrair-se, esquecer-se.
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Contos de João Alphonsus, Apresentação de Ivan Marques e Ilustração de Rogério Coelho, Coleção O Encanto do Conto, 2003, DCL — Difusão Cultural do Livro Ltda., São Paulo — SP;  João Alphonsus de Guimaraens (1901 1944), mineiro de Conceição do Serro, hoje Conceição do Mato Dentro, iniciou seus estudos com professora particular, conclui os estudos primários no Grupo Escolar Dr. Gomes Freire, em Mariana MG, depois estudou no Seminário Arquiepiscopal de Mariana e, mudando-se para Belo Horizonte, fez 2 anos de Medicina, desistiu do curso, formou-se em Direito, foi advogado, funcionário público, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta modernista; trabalhou no Diário de Minas, na companhia dos então jovens literatos Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, Pedro Nava e outros, jornal este “que virou uma espécie de ‘quartel-general’ do Modernismo mineiro.”; publicou seus primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; colaborou com a cataguasense e modernista revista Verde, criada em 1927 por Antonio Mendes e outros companheiros e poetas de Cataguases e região; suas obras: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934), Rola-Moça (romance, 1938), Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos, 1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.

sábado, 30 de novembro de 2024

João Alphonsus: Galinha Cega

 
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          Na manhã sadia, o homem de barbas poentas1, entronado na carrocinha, aspirou forte. O ar passava lhe dobrando o bigode ríspido como a um milharal. Berrou arrastadamente o pregão2 molengo:
           Frangos BONS E BARATOS!
          Com as cabeças de mártires obscuros enfiadas na tela de arame os bichos piavam num protesto. Não eram bons. Nem mesmo baratos. Queriam apenas que os soltassem. Que lhes devolvessem o direito de continuar ciscando no terreiro amplo e longe.
           Psiu!
          Foi o cavalo que ouviu e estacou, enquanto o seu dono terminava o pregão. Um bruto homem de barbas brancas na porta de um barracão chamava o vendedor cavando o ar com o braço enorme.
          Quanto? Tanto. Mas puseram-se a discutir exaustivamente os preços. Não queriam por nada chegar a um acordo. O vendedor era macio. O comprador brusco.
           Olhe esta franguinha branca. Então não vale?
           Está gordota3… E que bonitos olhos ela tem. Pretotes4… Vá lá!
          O homem de barbas poentas entronou-se de novo e persistiu em gritar pela rua que despertava:
           Frangos BONS E BARATOS!
          Carregando a franga, o comprador satisfeito penetrou no barracão.
           Olha, Inácia, o que eu comprei.
          A mulher tinha um eterno descontentamento escondido nas rugas. Permaneceu calada.
           Olha os olhos. Pretotes…
           É.
           Gostei dela e comprei. Garanto que vai ser uma boa galinha.
           É.
          No terreiro, sentindo a liberdade que retornava, a franga agitou as penas e começou a catar afobada os bagos de milho que o novo dono lhe atirava divertidíssimo.
* * *
          A rua era suburbana, calada, sem movimento. Mas no alto da colina dominando a cidade que se estendia lá embaixo cheia de árvores no dia e de luzes na noite. Perto havia moitas de pitangueiras a cuja sombra os galináceos podiam flanar5 à vontade e dormir a sesta.
          A franga não notou grande diferença entre a sua vida atual e a que levava em seu torrão natal distante. Muito distante. Lembrava-se vagamente de ter sido embalaiada com companheiros mal-humorados. Carregavam os balaios a trouxe-mouxe6 para um galinheiro sobre rodas, comprido e distinto, mas sem poleiros. Houve um grito lá fora, lancinante7, formidável. As paisagens começaram a correr nas grades, enquanto o galinheiro todo se agitava, barulhando e rangendo por baixo. Rolos de fumo rolavam com um cheiro paulificante8. De longe em longe as paisagens paravam. Mas novo grito e elas de novo a correr. Na noitinha sumiram-se as paisagens e apareceram fagulhas. Um fogo de artifício como nunca vira. Aliás ela nunca tinha visto um fogo de artifício. Que lindo, que lindo.        Adormecera numa enjoada madorna9
          Viera depois outro dia de paisagens que tinham pressa. Dia de sede e fome.
          Agora a vida voltava a ser boa. Não tinha saudades do torrão natal. Possuía o bastante para sua felicidade: liberdade e milho. Só o galo é que às vezes vinha perturbá-la incompreensivelmente. Já lá vinha ele, bem elegante, com plumas, forte, resoluto. Já lá vinha. Não havia dúvida que era bem bonito. Já lá vinha… Sujeito cacete10.
          O galo có, có, có có, có, có rodeou-a, abriu a asa, arranhou as penas com as unhas. Embarafustaram11 pelo mato numa carreira doida. E ela teve a revelação do lado contrário da vida. Sem grande contrariedade a não ser o propósito inconscientemente feminino de se esquivar, querendo e não querendo.
* * *
           A melhor galinha, Inácia! Boa à beça12!
           Não sei por quê.
           Você sempre besta! Pois eu sei…
           Besta! besta, hein?
           Desculpe, Inácia. Foi sem querer. Também você sabe que eu gosto da galinha e fica me amolando.
           Besta é você!
           Eu sei que eu sou.
* * *
          Ao ruído do milho se espalhando na terra, a galinha lá foi correndo defender o seu quinhão13, e os olhos do dono descansaram em suas penas brancas, no seu porte firme, com ternura. E os olhos notaram logo a anormalidade. A branquinha era o nome que o dono lhe botara bicava o chão doidamente e raro alcançava um grão. Bicava quase sempre a uma pequena distância de cada bago de milho e repetia o golpe, repetia com desespero, até catar um grão que nem sempre era aquele que visava.
          O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, ai… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava.
          Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra.
          Foi assim que, certa madrugada, quando abriu os olhos, abriu sem ver coisa alguma. Tudo em redor dela estava preto. Era só ela, pobre, indefesa galinha, dentro do infinitamente preto; perdida dentro do inexistente, pois que o mundo desaparecera e só ela existia inexplicavelmente dentro da sombra do nada. Estava ainda no poleiro. Ali se anularia, quietinha, se fanando14 quase sem sofrimento, porquanto a admirável clarividência dos seus instintos não podia conceber que ela estivesse viva e obrigada a viver, quando o mundo em redor se havia sumido.
          Porém, suprema crueldade, os outros sentidos estavam atentos e fortes no seu corpo. Ouviu que as outras galinhas desciam do poleiro cantando alegremente. Ela, coitada, armou um pulo no vácuo e foi cair no chão invisível, tocando-o com o bico, pés, peito, o corpo todo.
          As outras cantavam. Espichava inutilmente o pescoço para passar além da sombra. Queria ver, queria ver! Para depois cantar.
          As mãos carinhosas do dono suspenderam-na do chão.
          A coitada está cega, Inácia! Cega!
           É.
          Nos olhos raiados15 de sangue do carroceiro (ele era carroceiro) boiavam duas lágrimas enormes.
* * *
          Religiosamente, pela manhãzinha, ele dava milho na mão para a galinha cega. As bicadas tontas, de violentas, faziam doer a palma da mão calosa. E ele sorria. Depois a conduzia ao poço, onde ela bebia com os pés dentro da água. A sensação direta da água nos pés lhe anunciava que era hora de matar a sede; curvava o pescoço rapidamente, mas nem sempre apenas o bico atingia a água: muita vez, no furor da sede longamente guardada, toda a cabeça mergulhava no líquido, e ela a sacudia, assim molhada, no ar. Gotas inúmeras se espargiam16 nas mãos e no rosto do carroceiro agachado junto do poço. Aquela água era como uma bênção para ele. Como a água benta, com que um Deus misericordioso e acessível aspergisse todas as dores animais. Bênção, água benta, ou coisa parecida: uma impressão de doloroso triunfo, de sofredora vitória sobre a desgraça inexplicável, injustificável, na carícia dos pingos de água, que não enxugava e lhe secavam lentamente na pele. Impressão, aliás, algo confusa, sem requintes psicológicos e sem literatura.
          Depois de satisfeita a sede, ele a colocava no pequeno cercado de tela separado do terreiro (as outras galinhas martirizavam muito a branquinha) que construíra especialmente para ela. De tardinha dava-lhe outra vez milho e água, e deixava a pobre cega num poleiro solitário, dentro do cercado.
          Porque o bico e as unhas não mais catassem e ciscassem, puseram-se a crescer. A galinha ia adquirindo um aspecto irrisório de rapace17, ironia do destino, o bico recurvo, as unhas aduncas18. E tal crescimento já lhe atrapalhava os passos, lhe impedia de comer e beber. Ele notou mais essa miséria e, de vez em quando, com a tesoura, aparava o excesso de substância córnea19 no serzinho desgraçado e querido.
          Entretanto, a galinha já se sentia de novo quase feliz. Tinha delidas20 lembranças da claridade sumida. No terreiro plano ela podia ir e vir à vontade até topar a tela de arame, e abrigar-se do sol debaixo do seu poleiro solitário. Ainda tinha liberdade o pouco de liberdade necessário à sua cegueira. E milho. Não compreendia nem procurava compreender aquilo. Tinham soprado a lâmpada e acabou-se. Quem tinha soprado não era da conta dela. Mas o que lhe doía fundamente era já não poder ver o galo de plumas bonitas. E não sentir mais o galo perturbá-la com o seu có-có-có malicioso. O ingrato.
* * *
          Em determinadas tardes, na ternura crescente do parati21, ele pegava a galinha, após dar-lhe comida e bebida, se sentava na porta do terreiro e começava a niná-la com a voz branda, comovida:
           Coitadinha da minha ceguinha!
           Tadinha da ceguinha…
          Depois, já de noite, ia botá-la no poleiro solitário.
* * *
          De repente os acontecimentos se precipitaram
* * *
           Entra!
           Centra22!
          A meninada ria a maldade atávica23 no gozo do futebol originalíssimo. A galinha se abandonava sem protesto na sua treva à mercê dos chutes. Ia e vinha. Os meninos não chutavam com tanta força como a uma bola, mas chutavam, e gozavam a brincadeira.
          O carroceiro não quis saber por que é que a sua ceguinha estava no meio da rua. Avançou como um possesso com o chicote que assoviou para atingir umas nádegas tenras. Zebrou24 carnes nos estalos da longa tira de sola. O grupo de guris se dispersou em prantos, risos, insultos pesados, revolta
* * *
           Você chicoteou o filho do delegado. Vamos à delegacia.
* * *
          Quando saiu do xadrez, na manhã seguinte, levava um nó na garganta. Rubro de raiva impotente. Foi quase que correndo para casa.
           Onde está a galinha, Inácia?
           Vai ver.
          Encontrou-a no terreirinho, estirada, morta! Por todos os lados havia penas arrancadas, mostrando que a pobre se debatera, lutara contra o inimigo, antes deste abrir-lhe o pescoço, onde existiam coágulos de sangue…
          Era tão trágico o aspecto do marido que os olhos da mulher se esbugalharam de pavor.
           Não fui eu não! Com certeza um gambá!
           Você não viu?
           Não acordei! Não pude acordar!
          Ele mandou a enorme mão fechada contra as rugas dela. A velha tombou nocaute25, mas sem aguardar a contagem dos pontos escapuliu para a rua gritando: Me acudam!
* * *
          Quando de novo saiu do xadrez, na manhã seguinte, tinha açambarcado26 todas as iras do mundo. Arquitetava vinganças tremendas contra o gambá. Todo gambá é pau-d’água27. Deixaria uma gamela28 com cachaça no terreiro. Quando o bichinho se embriagasse, havia de matá-lo aos poucos. De-va-ga-ri-nho. GOSTOSAMENTE.
          De noite preparou a esquisita armadilha e ficou esperando. Logo pelas 20 horas o sono chegou. Cansado da insônia no xadrez, ele não resistiu. Mas acordou justamente na hora precisa, necessária. A porta do galinheiro, ao luar leitoso, junto à mancha redonda da gamela, tinha outra mancha escura que se movia dificilmente.
* * *
          Foi se aproximando sorrateiro, traiçoeiro, meio agachado, examinando em olhadas rápidas o terreno em volta, as possibilidades de fuga do animal, para destruí-las de pronto, se necessário. O gambá fixou-o com os olhos espertos e inocentes, e começou a rir:
           Kiss! kiss! kiss!
          (Se o gambá fosse inglês com certeza estaria pedindo beijos. Mas não era. No mínimo estava comunicando que houvera querido alguma coisa. Comer galinhas por exemplo. Bêbado.)
          O carroceiro examinou o bichinho curiosamente. O luar, que favorece os surtos29 de raposas e gambás nos galinheiros, era esplêndido. Mas apenas tocou-o de leve com o pé, já simpatizado:
           Vai embora, seu tratante!
          O gambá foi indo tropegamente30. Passou por baixo da tela e parou olhando para a lua. Se sentia imensamente feliz o bichinho e começou a cantarolar imbecilmente, como qualquer criatura humana:
           A lua como um balão balança!
          A lua como um balão balança!
          A lua como um bal...
          E adormeceu de súbito debaixo de uma pitangueira.

(Galinha Cega, contos — 1931)


Notas da edição: 1. poento: poeirento; 2. pregão: grito de vendedor ambulante; 3. gordota: diminutivo de gorda; 4. pretote: diminutivo de preto; 5. flanar: andar sem rumo; 6. a trouxe-mouxe: desordenadamente; 7. lancinante: agudo, intenso; 8. paulificante: enjoada; 9. madorna: sonolência; 10. cacete: impertinente; 11. embarafustar: adentrar confusamente; 12. à beça [grafado à bessa no original]: em qrande quantidade; 13. quinhão: parte; 14. fanar: murchar; 15. raiado: congestionado, vermelho; 16. espargir: espalhar; 17. rapace: que rouba; 18. adunco: em forma de gancho; 19. córneo: duro como corno (chifre); 20. delido: apagado; 21. parati: cachaça; 22. centrar: lançar a bola; 23. atávico: de nascença; 24. zebrar: cobrir de listras; 25. tombar nocaute: cair (referência ao boxe); 26. açambarcar: concentrar; 27. pau d’água: bêbado; 28. gamela: vasilha de madeira ou barro; 29. surto: aparecimento, ataque; 30. ir tropegamente: andar com dificuldade.
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Contos de João Alphonsus, Apresentação de Ivan Marques e Ilustração de Rogério Coelho, Coleção O Encanto do Conto, 2003, DCL — Difusão Cultural do Livro Ltda., São Paulo — SP; João Alphonsus de Guimaraens (1901 1944), mineiro de Conceição do Serro, hoje Conceição do Mato Dentro, iniciou seus estudos com professora particular, conclui os estudos primários no Grupo Escolar Dr. Gomes Freire, em Mariana MG, iniciou estudos no Seminário Arquiepiscopal de Mariana e, mudando-se para Belo Horizonte, estudou 2 anos de Medicina, desistiu do curso, formou-se em Direito, foi advogado, funcionário público, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta modernista; trabalhou no Diário de Minas, na companhia dos então jovens literatos Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, Pedro Nava e outros, jornal este “que virou uma espécie de ‘quartel-general’ do Modernismo mineiro.”; publicou seus primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; colaborou com a cataguasense e modernista revista Verde, criada em 1927 por Antonio Mendes e outros companheiros e poetas de Cataguases e região; suas obras: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934), Rola-Moça (romance, 1938), Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos, 1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

João Alphonsus: A pedra no caminho

 
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          Este poeta mineiro, nascido à sombra do pico do Cauê, na antiga cidade de Itabira, hoje de Presidente Vargas, é uma das figuras mais discutidas pró e contra da poesia nacional. Em torno de alguns dos seus poemas chegaram a formar deliciosos equívocos dos choques das gerações, como por exemplo a respeito de “No meio do caminho”:

          No meio do caminho tinha uma pedra
          tinha uma pedra no meio do caminho
          tinha uma pedra
          no meio do caminho tinha uma pedra.

          Nunca me esquecerei desse acontecimento
          na vida de minhas retinas tão fatigadas.
          Nunca me esquecerei que no meio do caminho
          tinha uma pedra
          tinha uma pedra no meio do caminho
          no meio do caminho tinha uma pedra.

          Me lembro bem de que esses versos, publicados em Belo Horizonte por volta de 1925, causaram funda irritação entre os intelectuais que detinham a liderança da tabela, como se diz em linguagem esportiva. Desde os gramáticos, revoltados com o emprego do verbo “ter” pelo impessoal “haver”: não se devia dizer: “tinha uma pedra”, brasileirismo grosseiro, erro crasso de português; e sim “havia” uma pedra no meio do caminho. Mas ao o literato repelia o verso e se irritava com a falta de significação do que estava pronunciando: uma pedra no caminho, um desaforo! Nem sentido, nem poesia... Não se lhe poderia responder mesmo porque o literato recusaria lições que devia procurar a chave do poema no cansaço mental, no desânimo, no desalento que ressumbra dos versos quase desesperados na sua incapacidade expressional, monotônica do poeta “incapaz e frágil diante da vida” (como disse Mário de Andrade a respeito desse poema, na Revista Nova, em março de 1931).

          Há tempos alguém se lembrou de transformar em sonetos, ou em versos rimados e metrificados, algumas poesias modernistas. Eu aconselharia a esses vates incompreensíveis e até molestos sobretudo inartísticos que fornecessem aos leitores (aos do Jornal do Comércio, por exemplo) sempre uma réplica assim, de cada uma das suas malsinadas obrinhas. Os seus livros seriam assim organizados: numa página, o futurismo, para satisfazer aos que impam de apreciadores sutis de hermetismos poéticos; na outra página, o passadismo, ao alcance de qualquer apreciador da arte cada vez mais viva quanto mais velha... Para mostrar como isso seria praticável, vou fornecer aqui um soneto interpretativo daquele poema da pedra. A sério, já se vê. Preencho os claros ou os escuros do poema com as necessidades da métrica e da rima, que às vezes forçam a imagens ou expressões nem sempre muito justas (além de que, sou um poeta conscientemente aposentado):

         No meio do caminho sem sentido
          Em que a minha retina se cansava,
          Em face ao meu espírito perdido
          Naquela lassidão estranha e escrava,

          No meio do caminho sem sentido,
          Só uma pedra... Nada mais se achava!
          Que tudo se perdeu no amortecido,
          Morto marasmo de vulcão sem lava...

          Que tudo se perdeu na estrada infinda...
          Só a pedra ficou sob o meu passo
          E na retina se conserva ainda!

          Nem coração, furor, ódio, carinho,
          Nada restou senão este cansaço,
          A pedra, a pedra, a pedra no caminho!

(João Alphonsus, “A pedra no caminho”.
Folha da Manhã, São Paulo, 25.10.1942.)

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Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; João Alphonsus de Guimaraens (1901 1944), mineiro de Conceição de Mato Dentro, iniciou seus estudos em Mariana MG e, mudando-se para Belo Horizonte, concluiu a graduação em Direito, foi advogado, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta modernista; publicou seus primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; fundou a revista Verde, em parceria com Antonio Mendes e outros companheiros; bibliografia: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934), Rola-Moça (romance, 1938), A Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos, 1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.

domingo, 30 de setembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: O Soneto que Explicava a Pedra

Enfim, tinha uma pedra

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do  caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Drummond, 
Alguma Poesia, 1930)

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Carlos Drummond de Andrade:  Vamos ver o soneto de João Alfhonsus. Mas você mesma é que o lerá.

Lya Cavalcanti:  "No meio do caminho sem sentido
em que a minha retina se cansava,
em face ao meu espírito perdido
naquela lassidão estranha e escrava,

no meio do caminho sem sentido,

só uma pedra... Nada mais restava!
Que tudo se perdeu no amortecido,
morto marasmo de vulcão sem lava...

Que tudo se perdeu na estrada infinda...

Só a pedra ficou sob o meu passo
e na retina se conserva ainda!

Nem coração, furor, ódio, carinho,

nada restou senão este cansaço,
a pedra, a pedra, a pedra no caminho!"

Drummond:  Pois é. Quando este soneto saiu na Folha da Manhã, de São Paulo, em 25 de outubro de 1942, pensei, candidamente, que estava resolvido o problema de incompreensão pública relativa aos meus versinhos da pedra. Que nada. Os leitores procuraram João Alphonsus para felicitá-lo: "Seu soneto está ótimo. Entende-se perfeitamente. Mas o tinha uma pedra no meio do caminho, isso, faça-me o favor, só dando com a pedra no bestunto do poeta." De sorte que João Alphonsus, em vez de me ajudar, me atrapalhou ainda mais. Pouca gente estava a par da poesia avançada que se fazia na Europa, daí um motivo a mais para condenar um suposto produto poético muito menos escandaloso do que, por exemplo, o poema de Aragon, divulgado exatamente na mesma época, 1925. Esse poema consistia em repetir 19 vezes em sete linhas a palavra persienne, sem pontuação. Só no final aparecia um ponto de interrogação. E Aragon, que me conste, não era doido. Mas eu era.

Lya:  Todos nós somos um pouco. Ou somos mais do que parecemos.

Drummond:  Talvez. Mas o que mais me tocou nessa longa história de um poema que não chega a ser poema foi o que ouvi de uma amiga, e amiga que se tornou tal precisamente por causa dele. Posso dar o nome dessa pessoa, que já não vive: Lúcia Branco. Pianista notável, depois formadora de pianistas como Artur Moreira Lima, Lúcia era culta e sensível. Detestava cordialmente minha pedra no caminho. Para distrair um garoto, seu sobrinho, que estava doente, ela repetia a cantilena do "tinha uma pedra", e esperava tirar disto um efeito cômico, que fizesse o menino rir. Ele não riu e observou: "A senhora acha isso engraçado? Eu acho sério, me faz sentir uma coisa..." Não explicou que coisa era, mas Lúcia deixou de se divertir com a pedra e passou a me distinguir com sua simpatia, porque eu havia despertado aquela reação no garoto.

Lya:  Valeu a pena.

Drummond:  Valeu. Ganhei uma amiga de qualidade excepcional. Mas valeu também por outro motivo. Meu calhau continuou despertando ecos contraditórios, na maioria hostis. De todas as zombarias, de todo o barulho produzido por ele, tirei a lição evidente. O renome literário pode fundar-se nas circunstâncias mais caprichosas e menos relevantes. Passei boa parte da vida apontado como autor de um único poema de dez linhas (ou versos?) tido por pura maluquice, principalmente por pessoas de juízo que nunca o leram, pois ele corria de boca em boca deturpado, com palavras a mais ou a menos. Uma coisinha escrita aos 21 anos era o corpo de delito que decidiu o julgamento. Se na juventude eu houvesse cometido um assassinato e fugido para a Guiana Holandesa, meu crime estaria prescrito no fim de tanto tempo, mas para delito poético não havia prescrição. O lado negativo seria triste se não houvesse o lado compensatório das pessoas que, para surpresa minha, mesmo não achando nenhuma obra de arte na pedra, começaram a gostar de mim porque viam no poeminha alguma coisa que bulia com elas, como a representação paisagística  pobre paisagem  de um sentimento de frustração, obstrução, inviabilidade, experimentado por elas. Ganhei um prêmio que não fizera por alcançar e, mesmo, que não merecia. O caso de Lúcia Branco.

Lya:  Modéstia, charminho...

Drummond:  Não. O que há de mais importante na literatura, sabe? é a aproximação, a comunhão que ela estabelece  entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta para isso. Somos contemporâneos de Shakespeare e de Virgílio. Somos amigos pessoais deles. Se alguém perto de mim falar mal de Verlaine, eu o defendo imediatamente; todas as misérias de sua vida são resgatadas pela música de seus versos. Como defenderia um amigo pessoal. Um dia, a pintora Maria Teresa Vieira me disse uma coisa linda: que tem inúmeros amantes noturnos, de Van Gogh a Fernando Pessoa. O maior prêmio de Estocolmo ou dos Estados Unidos não vale o telegrama de amor que alguém desconhecido, e que não conheceremos nunca, nos manda lá do Pará porque leu uma coisa nossa e ficou comovido e rendido. O telegrama não é para nós, é para a nossa vaidade. É uma voz do coração e do espírito, solta no ar, que nos atinge e repercute em nós. Dito assim, fica meio grandiloquente, mas não sei dizer melhor, você entenderá. Quem já sentiu isso compreende sem explicação. Funciona. É. E constitui uma das grandes alegrias da vida. Palavra, música, arte de todas as formas: essas coisas têm sua magia. Ai de quem não a sente.

Tempo Vida Poesia - Confissões No Rádio
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Tempo Vida Poesia  confissões no rádio  Carlos Carlos Drummond de Andrade, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro  RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974), Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981), Boca de Luar, crônicas (1984), Tempo Vida Poesia confissões no rádio (1986); e tantos outros...