terça-feira, 24 de abril de 2012

O Sessentão de Bacaetava: O Andarilho


Minas e Manos,

Fim-de-semana passada encontrei o Sessentão de Bacaetava caminhando no Parque da Aclimação aqui em Sampa. Inicialmente eu o observei acompanhando-o um tanto à distância. Depois me aproximei. Só o fiz após ele e eu já termos completado alguns "8" nas duas pistas locais: a asfaltada, que rodeia o lago, e a de terra e saibro, inclinada, que serpenteia por debaixo das árvores no interior do bosque.

Aproximação feita, saudações de praxe, e ele me contou estar ultimando preparativos para uma caminhada de onze dias a iniciar-se em Santana do Parnaíba e a ser concluída 243 quilômetros além, em Águas de São Pedro. É o tal do Caminho do Sol.

No começo duvidei da prosa e da proeza. Achei que ele estivesse brincando. No fim, acreditei. Que disposição!

Comecei especulando pra sentir até onde ia sua firmeza de propósito. Argumentei:  Será que suas pernas aguentariam!? É muito tempo andando; estradas e caminhos são irregulares, com pirambeiras e subidas, barrancos e trancos, trilhas tortuosas... Tudo isso tenderia a atrapalhar seus planos.

Sem pestanejar ele informou que já vinha se preparando há mais de seis meses, desde outubro último, quando decidiu ir. De lá pra cá percorrera muito mais que os 240 quilômetros da caminhada, isso aqui na Aclimação e no Parque Ibirapuera além de por ruas e avenidas. Afinal, nem carro tinha. Garantiu-me que já rodara a pé mais de 600 km nestes percursos todos. Como exemplo, citou que só nos "8" aqui do Parque tinha andado mais de 100 km nas últimas cinco semanas.

Ouvi e continuei com meus poréns  e contudos:  E se chover, a probabilidade disso ocorrer não é pequena?! E se pegar uma gripe?! E se o pé sofrer um corte e inchar?! E se surgirem bolhas?! E se...?! Sem socorro ou conforto rápidos, longe da civilização da urbanicéia?!

Ele retrucou:  Nada que uma capucha não resolva. O que poderá ocorrer é que a marcha fique mais lenta, só isso. Se porventura gripar, não faltará um chazinho caseiro à base de plantas que na certa encontrará e saberá recolher nos caminhos por onde for. Pra curar uma bolha ou um possível corte no pé, rubim, manjericão ou alecrim darão um jeito. Homem da roça que foi, entende que tais plantinhas, bem amassadas, reduzem a chance de inflamação e facilitam a cicatrização, tudo conforme o caso.

Insisti:   E o coração, aguenta? Ele respondeu citando Pascal: — "O coração tem razões que a própria razão desconhece".  É, ele me pareceu bem decidido e com respostas na ponta da língua.

Mas o que deu no velhote que resolveu fazer isso agora? Promessa? Prescrição médica? Simples aventura? — Não é bem assim, emendou o Sessentão.

Se bem entendi do que ouvi, o fato é que desde criança ele andava muito por trilhos e trilhas: ora levando almoço pro pai no serviço; ora catando lenha no mato; ora dirigindo-se à cidade, rumo à missa, à escola e aos passeios. Todos esses trajetos eram feitos a pé.

E prosseguiu: ainda adolescente, enquanto a gurizada jogava bola e brilhava no futebol de campo e de salão, ele, que só se arriscava num futebol de botão, se entretia correndo seguidas vezes em torno do campo ou da quadra. 

Já adulto e cidadão urbano, quando em férias, muito caminhou pelas praias. Certa vez, em viagem de cinco dias à Chapada Diamantina no interior baiano, percorreu mais de 70 km por trilhas, escalou rochas, varou rios e cachoeiras, subiu e desceu morros, inclusive andou centenas de metros por cavernas e grutas.

Eu acreditei e lhe desejei boa sorte na caminhada. O Sessentão, que não se considera um andarilho de alta performance, agradeceu com um sorriso e arrematou:  Na volta nos encontraremos, e já fica combinado um relato da proeza. 

Só me resta aguardar o prometido. 

P. da Silva,
aprendiz de andarilho.

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P. da Silva, O Sessentão de Bacaetava, Genésio dos Santos, etecétera, etecétera, etecétera, aprendiz de andarilho e de blogueiro, são uma só pessoa.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Saturnina de Almeida Fagundes: Cartilha do Tatu

(Clique no título acima e leia um pouco sobre a Profª Saturnina de Almeida Fagundes, ou Dona Bidunga, e sua Cartilha do Tatu.)
         
          Meu primeiro contato com as letras foi através desta cartilha, a "Cartilha do Tatu". Isso foi nos anos 60 do século e milênio passados, como aluno da Escola Rural da Estação, Vila Isabel, em Itapeva  SP.
          Meu pai foi um "tatu". Assim eram conhecidos os turmeiros ferroviários (trabalhadores braçais) que, debaixo de sol e chuva, cuidavam da manutenção da linha do trem na antiga Estrada de Ferro Sorocabana (ex-Fepasa), hoje extinta.
          A caneta "Bic" é alienígena na primeira imagem abaixo. Àquela época só se usava caneta com pena, tinteiro e mata-borrão. No ensino primário usávamos lápis.
          Sou filho de um "tatu", e tenho dito!

Resultado de imagem para cartilha do tatu



Imagem relacionada
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Genésio dos Santos, aprendiz de blogueiro, é filho de "tatu" e alfabetizado.

sábado, 21 de abril de 2012

Solano Trindade: As Flores


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Roubaram as flores do meu jardim
para o altar dos deuses
e as flores murcharam
ficaram tão feias
que as jogaram
nas águas do mar


Passaram-se os tempos
nasceram novas flores
no meu jardim
Eu tive então
grande alegria de viver


Fui eu quem as plantou
e não os deuses

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Cantares ao meu Povo, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo  SP; Francisco Solano Trindade (1908  1974), negro, ativista, poeta, pintor, folclorista, teatrólogo, viveu no Recife, no Rio deJaneiro, no Embu das Artes; militante das causas do povo negro, ajudou na realização e participou do I Congresso Afro-Brasileiro (Recife, 1934), atuou também no II Congresso (Salvador, 1936); escreveu e publicou Poemas Negros (1936), Poemas de uma Vida Simples (1944), Seis Tempos de Poesia (1960) e Cantares ao meu Povo (1962).

Drauzio Varella: Sou ateu!

Reproduzo texto de Drauzio Varella, médico cancerologista formado pela USP e escritor (Folha de São Paulo, 21.04.2012):

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Intolerância religiosa
     SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.
     A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.
     Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.
     Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.
     Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.
     Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.
     Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?
     Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?
     Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?
     O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.
     Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.
     Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
     O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.
     Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.
     Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.
     Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Solano Trindade: Pau de Sebo

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Pau de sebo
de minha meninice
moleque sobe
escorrega e desce


a vida é um pau de sebo
a gente pra chegar em cima
tem que sujar as mãos

Cruzeiros voando na ponta
do pau de sebo da vida
quem chega ao fim tem aplausos
quem não chega leva vaia
quem chega ao fim tem cruzeiros
quem não chega tem pancada

Muitos não querem subir
no pau de sebo da vida
preferem ficar em baixo
que subir sujando as mãos

Um dia quando o pau apodrecer
os de cima cairão
os de baixo sorrirão...

Pau de sebo
moleque sobe
escorrega e desce
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Cantares ao meu Povo, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo SP; Francisco Solano Trindade (1908 1974), negro, ativista, poeta, pintor, folclorista, teatrólogo, viveu no Recife, no Rio de Janeiro, no Embu das Artes; militante das causas do povo negro, ajudou na realização e participou do I Congresso Afro-Brasileiro (Recife, 1934), atuou também no II Congresso (Salvador, 1936); escreveu e publicou Poemas Negros (1936), Poemas de uma Vida Simples (1944), Seis Tempos de Poesia (1960) e Cantares ao meu Povo (1962).

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Nhô Bentico (Abílio Víctor): Minha viola


Quano a noite chega, triste,
pondo de luto o sertão,
o meu peito num resiste
a sombra da sulidão...
eu pego na minha viola,
consolo o meu coração!

Quano largo do roçado,
unde faço as prantação,
chego no rancho, cansado,
i lembro da devoção...
eu pego na minha viola,
consolo o meu coração!

Arguma veis, cunvidado
pra festa de muchirão,
trabaio mermo dobrado!
mais, na hora da função...
eu pego na minha viola,
consolo o meu coração!

Nas festa de casamento,
nas noitada de São Juão,
guardo tudo os sintimento
das minha recordação...
eu pego na minha viola,
consolo o meu coração!

Si lembro da moreninha
da minha veneração,
que dexô minha casinha
sulitária no sertão...
eu pego na minha viola,
consolo o meu coração!

Só tu, minha viola amiga,
que de mim num desraíga,
que de mim tem compaxão,
me persegue in tuda sorte!
I, quem sabe, inté na morte,
servirá de meu caxão...
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Folhas do Mato  versos caipiras, Prefácio de Manoel Cerqueira Leite, 2ª edição aumentada, 1940, Gráfica Sorocabana, Sorocaba — SP; Nhô Bentico e Abílio Soares Víctor (1899  1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato, Versos Humorísticos, Favas de Ingá e Poemas Sertanejos. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Vitor Knijnik: Blog do Demóstenes

Reproduzo de Carta Capital (nº 693, de 18.04.2012) texto de Vitor Knijnik:
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Sobre Mim
Político grego. Considerado por muitos historiadores um dos maiores oradores de todos os tempos. Não parece muito, eu sei, mas em 350 a.C. orador comia gente.
Sobre o Blog
Tentativa patética e econômica de salvar a minha reputação histórica. Quero provar a todos que não tenho negócio algum com Giánnis Katarrákti e que não sou um falso moralista.
Arquivo do blog
2012 (1)
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Outros Blogs do Além
www.blogsdoalem.com.br

DESAMBIGUAÇÃO
          O futebol, o Pepeu Gomes e a Baby do Brasil são pródigos em nos apresentar nomes que desafiam os ouvidos. Deivid, Richarlyson, Arianderson, Dielton, Shayder Zabelê, Nana Shara. É realmente tentador fazer graça com nomes inventados, especialmente quando a grafia tenta emular a sonoridade de um outro idioma. Não acho isso divertido. Cada um que invente a nomenclatura que quiser. Considero muito pior a mania de homenagear as grandes personalidades do passado.
          Por um simples motivo: não há como prever se o rebento honrará o nome que recebeu. Nem todos possuem a sorte de Sócrates, por exemplo. O ícone da filosofia ocidental teve um homônimo brilhando nos gramados e nas letras. Quantas pessoas devem ter se interessado pelo pensamento socrático por causa do jogador. O.k., reconheço que há ocasiões em que a homenagem não causa nenhum arranhão ao homenageado. O jogador Allan Kardec não desonra seu antecessor, mas tampouco aumenta seu nome.
          Mas não vim aqui dissertar a respeito de nomes. Vim, sim, comentar a minha falta de sorte. Nunca figurei entre os mais conhecidos pensadores, filósofos e políticos gregos. Não entrei para esse Olimpo. O grande público ignora minha existência. Eu existo para um pequeno grupo de estudantes e acadêmicos. Portanto, o primeiro e único Demóstenes que a população brasileira conhece é o amigo do Carlos Cachoeira. Vejam que tragédia para a glória de grande orador. É como se as pessoas identificassem o Beethoven como aquele cão são-bernardo e ignorassem o compositor clássico. Na real, é até pior. O cachorro atuava bem.
          Para piorar a situação, há algumas coincidências entre a minha biografia e a de Torres. Tive problemas com a Justiça. Fui condenado por facilitar a fuga de um ministro de Alexandre, o Grande. Trabalhei durante algum tempo como logógrafo, que nada mais é do que redigir discursos para particulares que iam defender suas próprias causas nos tribunais. Algo que o ex-senador do DEM praticou também, só que na via inversa. O Carlos Cachoeira escrevia e o Torres legislava.
          Desculpem o desabafo e a preocupação excessiva com a imagem. É que me encontro em situação complicada. Não sei o que fazer para impedir o eclipse de meu legado. Qualquer esforço para manter a minha ficha limpa pode aumentar ainda mais a confusão. 

Postado por Demóstenes às 8h45                               0 comentários

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Tom Zé: Todos os olhos

É só clicar no linque abaixo e ouvir:

http://www.vagalume.com.br/tom-ze/todos-os-olhos.html


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De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá de dentro da escuridão,
esperando e querendo
que eu seja um herói.
Mas eu sou inocente,
eu sou inocente,
eu sou inocente.
De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo
que eu saiba.
Mas eu não sei de nada,
eu não sei de ná,
eu não sei de ná.
De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando que eu seja um deus
querendo apanhar, querendo que eu bata,
querendo que eu seja um Deus.
Mas eu não tenho chicote,
eu não tenho chicote,
eu não tenho chicó

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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado: o lado esquerdo, o lado do seu coração.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Vladimir Safatle: Jovens de hoje, Golpe de 1964

Reproduzo texto de Vladimir Safatle, pensador do Departamento de Filosofia da USP (Folha de São Paulo, 10.04.2012):


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Honrar o país
            Aqueles que hoje desafiam a mudez do esquecimento e dizem, em voz alta, onde moram os que entraram pelos escaninhos da ditadura brasileira para torturar, estuprar, assassinar, sequestrar e ocultar cadáveres honram o país.
          Quando a ditadura extorquiu uma anistia votada em um Congresso submisso e prenhe de senadores biônicos, ela logo afirmou que se tratava do resultado de um "amplo debate nacional". Tentava, com isto, esconder que o resultado da votação da Lei da Anistia fora só 206 votos favoráveis (todos da Arena) e 201 contrários (do MDB). Ou seja, os números demonstravam uma peculiar concepção de "debate" no qual o vencedor não negocia, mas simplesmente impõe.
          Depois desse engodo, os torturadores acreditaram poder dormir em paz, sem o risco de acordar com os gritos indignados da execração pública e da vergonha. Eles criaram um "vocabulário da desmobilização", que sempre era pronunciado quando exigências de justiça voltavam a se fazer ouvir.
          "Revanchismo", "luta contra a ameaça comunista", "guerra contra terroristas" foram palavras repetidas por 30 anos na esperança de que a geração pós-ditadura matasse mais uma vez aqueles que morreram lutando contra o totalitarismo. Matasse com as mãos pesadas do esquecimento.
          Mas eis que estes que nasceram depois do fim da ditadura agora vão às ruas para nomear os que tentaram esconder seus crimes na sombra tranquila do anonimato.
          Ao recusar o pacto de silêncio e dizer onde moram e trabalham os antigos agentes da ditadura, eles deixam um recado claro. Trata-se de dizer que tais indivíduos podem até escapar do Poder Judiciário, o que não é muito difícil em um país que mostrou, na semana passada, como até quem abusa sexualmente de crianças de 12 anos não é punido. No entanto eles não escaparão do desprezo público.
          Esses jovens que apontam o dedo para os agentes da ditadura, dizendo seus nomes nas ruas, honram o país por mostrar de onde vem a verdadeira justiça. Ela não vem de um Executivo tíbio, de um Judiciário cínico e de um Legislativo com cheiro de mercado persa. Ela vem dos que dizem que nada nos fará perdoar aqueles que nem sequer tiveram a dignidade de pedir perdão.
          Se o futuro que nos vendem é este em que torturadores andam tranquilamente nas ruas e generais cospem impunemente na história ao chamar seus crimes de "revolução", então tenhamos a coragem de dizer que esse futuro não é para nós.
          Este país não é o nosso país, mas apenas uma monstruosidade que logo receberá o desprezo do resto do mundo. Neste momento, quem honra o verdadeiro Brasil é essa minoria que diz não ao esquecimento. Essa minoria numérica é nossa maioria moral.

Edgard Rezende: Do Soneto

Resultado de imagem para Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — de Edgard Rezende, Casa Editora Vecchi
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Quanta graça na sua forma de ouro fino, quanto brilho no requintado lavor das suas rimas diamantinas, quanta elegância na sua síntese de jóia minúscula e fidalga da mais alta aristocracia espiritual!

Foi Girard de Bourneuil, trovador francês da província de Limousin, o criador do soneto, no século XIII. Girard morreu em 1278, sem conhecer e talvez mesmo sem imaginar as glórias fadadas a esse lindo produto do seu espírito, que havia de imortalizar tantos nomes e constituir relíquias de tantas literaturas.

Coube a Petrarca fazê-lo florir na Itália, passando-se em seguida a Portugal, à Espanha, ao mundo inteiro, para voltar depois, no século XVI, triunfante, à sua pátria, à França.

Gênero preferido e cultivado por quase todos os grandes poetas, tornou-se popular e por isso mesmo a forma poética que mais tem sofrido em mãos inexperientes. Difícil, a despeito das aparências, tem comprometido muitas intenções boas, não só de principiantes, como até de poetas já feitos...

"Le venin du scorpion est dans sa queue et le merite du sonnet dans son dérnier vers" *, disse Théophile Gautier.

Além de ser o mais difícil dos gêneros poéticos 
 "dos poemas de forma fixa é o soneto o mais usado em todas as línguas e o que mais se presta a todos os gêneros literários, desde o épico até o humorístico" (Manuel do Carmo, "Consolidação das Leis do Verso", São Paulo, 1919).

"O soneto para ser belo, diz ainda o mesmo autor, deve obedecer ao modelo tradicional do paralelismo das duas rimas dos quartetos, dos dois tercetos bem destacados e do conceito no último verso, fechando o poema".

Para Banville, com muita razão, as rimas devem parecer 
 "surpresas de se encontrarem, mas contentes do seu encontro". De fato assim é: no soneto, por excelência, deve ser cuidada a rima:  espontânea, harmoniosa, sons diversos, palavras indispensáveis à inteligência da frase, e sempre que possível categoria gramatical diferente, para a mais agradável "surpresa" a que se refere Banville.

No feliz conceito de F. Loliée: "Le sonnet, quand il s'adapte exactement à une idée complete, simple et precise quand il conserve en meme temps l'unité de pensée et le mouvement lyrique, peut étre une vraie criation d'art" **.

Emperrado, porém, nas rígidas correntes clássicas, que lhe não davam a mínima liberdade, revoltou-se ele, muito conseguindo com a lógica e asseada quebra dos primitivos grilhões. Falando a respeito, diz-nos Arnaldo Nunes: "O soneto, porém, não ficou na rigidez clássica. Evoluiu, tomou elasticidade, tanto na forma como no fundo: 
 pode dispensar o fecho; adquiriu o enjambement; tornou-se lícito variar nas rimas, uma vez dispostas com uniformidade. Neste caso (da uniformidade das rimas) há exceções, às vezes boas. Mas é muito difícil não comprometer o ritmo. Isto não quer dizer que tenha ficado mais fácil. Nem mais fácil nem mais difícil. É preciso é saber fazê-lo, ser artista e poeta, tecer a redoma e ter alguma cousa para colocar dentro dela..."

Sim, o que é preciso é ser artista e poeta, pois o soneto, dí-lo Alberto de Oliveira: "... vive ainda, entraja-se um dia ou outro com certo apuro, como aldeão que aos domingos põe a sua melhor roupa de ver a Deus, mas o mais das vezes quando aparece é maltrapilho e vulgar".

Sim, repitamos, o que é preciso é ser artista e poeta; saber fazer o soneto e ter alguma cousa para colocar dentro dele...

Enquanto houver poesia, o soneto há de ser imortal!...



* "O veneno do escorpião está em sua cauda, o mérito do soneto no seu último verso".
** "O soneto, quando se encaixa com exatidão a uma idéia completa, simples e precisa, quando se mantém ao mesmo tempo a unidade de pensamento e o movimento lírico, pode ser uma verdadeira obra de arte".
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros
Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro RJ; Edgard Rezende (1918  ?  ), paraense nascido em Belém, poeta, cronista, ensaísta, crítico, biógrafo e jornalista, estudioso e divulgador da poesia, escreveu e publicou diversas obras: Araçá contos e crônicas (1940, Rio de Janeiro), Os Mais Belos Sonetos Brasileiros florilégio (1ª ed., 1945; 2ª ed., 1947, Rio de Janeiro), O Brasil que os Poetas Cantam (1946, Rio de Janeiro), Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros (1950, 2ª série, 1ª edição, Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro RJ) etc.

domingo, 8 de abril de 2012

Vera Lúcia de Oliveira: Pedido

o pai raivou me botou pra fora
só vim para pedir um quilo de arroz
um pouco de feijão não incomodo
não quero ver o menino
ele agora tem outra família outra casa
eu fico feliz que ele possa crescer
sem saber que eu sou a mãe dele
No coração da boca (2006)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 80, Seleção e Prefácio de Ricardo Vieira Lima, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2010, São Paulo  SP; Vera Lúcia de Oliveira, paulista de Cândido Mota, nascida em 1958, poeta, tradutora, ensaísta e professora, reside na Itália, onde ensina Literaturas Portuguesa e Brasileira na Universidade Salento, em Lecce; formada em Letras pela UNESP e em Línguas e Literaturas Estrangeiras pele Universitá degli Studi di Perugia, na Itália, onde também doutorou-se em Línguas e Literaturas Ibéricas e Ibero-americanas pela Universitá degli Studi di Palermo; é autora de numerosos trabalhos sobre poetas contemporâneos, publicados em revistas brasileiras, portuguesas e italianas; escreveu A Porta Range no Fim do Corredor (Scortecci, São Paulo  SP, 1983), Geografie d'Ombra (Fonèma, Veneza, 1989), Tempo de Doer / Tempo di Soffrire (Pellicani Editore, Roma, 1998), Poesia, Mito e Storia nel Modernismo Brasiliano (Guerra Edizione, Perugia, 2000), No Coração da Boca (2006), Entre as Junturas dos Ossos (2006) etc.; a autora recebeu diversas premiações literárias por seus escritos, e seus poemas têm sido traduzidos e divulgados em países como Estados Unidos, Espanha, Portugal e Argentina, além da divulgação na Itália, onde vive, e no Brasil, sua terra de origem.