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sábado, 2 de junho de 2012

Vitor Knijnik: Blog do Saussure

Reproduzo de Carta Capital (nº 700, de 06.06.2012) texto de Vitor Knijnik:
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Sobre mim
Sou considerado o pai da linguística moderna. Responsável direto por aqueles longos textos dos cadernos culturais que você tem preguiça de ler.
Sobre o blog
Aqui falarei um pouco de estilística, sintaxe, lexicologia, semântica, fonética e outros assuntos igualmente urgentes.
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MSG P/ VC
Meu interesse pelo internetês surgiu pela observação da maneira como um amigo se despedia nos e-mails: abs, Fulano de tal. No início imaginei tratar-se de uma piada cifrada. O brincalhão, na minha suposição, usava a referência de um conhecido sistema de freios para avisar que sua missiva parava por ali. Logo depois entendi que se tratava da forma internética da palavra abraço. esse é um problema do semiologista. Nunca pensamos no significado mais evidente. Temos essa mania de especular. É o que eu chamo de encher linguística.

Esse simples episódio despertou minha curiosidade pela língua praticada nos chats, sms e e-mails. Recolhi farto material e pus-me a estudar, como um filólogo do presente, a fim de estar apto a decifrar diálogos como esse:

 Blz?
— Blz
— Qq to aki
— Tb
— Vqv
— Tks
— Bjs
— Bjs
— Sdss
— :-)

Pessoas com mais de 154 anos, como eu, têm sérias dificuldades com essas contrações e abreviaturas. Por isso, peço licença aos mais jovens, fluentes no idioma, para traduzir aqui esse pequeno recorte de uma troca de sms(s).

— Está tudo beleza com você?
— Sim, está tudo beleza comigo.
— Qualquer urgência ou problema, estou disponível. Não hesite em chamar-me.
— Eu também estou disponível, caso você necessite de algo.
— Vamos que vamos, nesse ritmo e com otimismo.
— Muito obrigado em inglês.
— Beijos.
— Beijos.
— Tenho saudades de você.
— Essa declaração me faz sorrir.

Os guardiões da norma culta torcem o nariz para essas transformações. Outros acreditam que esses modernos hieroglifos caminham a passos largos para a consagração pelo uso, botando fim a uma longa ditadura da palavra. E logo, logo, serão candidatos à norma formal. De minha parte, tenho uma opinião bem definida. Eu penso que \o/.

Postado por Saussure às 8h45                                     0 comentários

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vitor Knijnik: Blog do Marco Polo

Reproduzo de Carta Capital (n.683, de 08.02.2012) texto de Vitor Knijnik: 
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Sobre Mim
Mercador, embaixador, explorador e escritor.
E dizer que comecei por baixo, trabalhando
numa confecção, costurando jacarés em camisas.
Daí a alcunha Marco Polo.
Sobre o Blog
O Mark sugeriu que eu transformasse este espaço
numa Timeline. Mas preferi ficar no modelo antigo.
Esta é a minha afã page.
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          FACEBOOKISTÃO, UM
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FACEBOOKISTÃO, UM LUGAR PARA CURTIR
          Visitei terras e culturas diferentes. Percorri boa parte do Oriente Médio e da Ásia. Travei contato com diversos povos. Fui um dos primeiros ocidentais a percorrer a Rota da Seda, em busca de um tecido que, ao ser rasgado, se transformasse em elogio. Sou cartão platinum em quase todas as companhias. Por isso, posso dizer de cadeira: não há lugar no mundo como o Facebookistão.
          Esse país, de paisagem branca e azul, congrega mais de 800 milhões de pessoas. Um em cada 13 habitantes do planeta vive lá. Dentro de suas fronteiras falam-se algo em torno de 70 idiomas. Não incluindo aí o novo léxico pictórico, tipo \o/ , :) , :( etc.
          A população é essencialmente linda, bem-sucedida, de gosto refinado, preocupada com a justiça social, o meio ambiente e os animais. É um povo muito receptivo. Cada pessoa tem por volta de 130 amigos. A maioria só convive mesmo com uns 4 desses 130. Mesmo assim estão sempre abertos a novas solicitações, não sem antes olhar o álbum de fotos do pretendente, é claro.
          O ambiente é democrático, apesar de ser uma monarquia absoluta. O monarca, de apenas 28 anos, pode não só fazer as leis, como também excluir qualquer pessoa que estiver, inclusive, andando na linha. Em breve, o rei, como muitos outros governantes, venderá a nação para o mercado financeiro através de um IPO.
          Nesse estranho país, protesta-se contra reacionários, insensíveis, fofoqueiros, sertanejos, funkeiros, homofóbicos, racistas, corruptos, fúteis, ditadores, mal-educados. O efeito dessas vozes dentro do território é inócuo, uma vez que ninguém lá possui tais defeitos. É muito comum no Facebookistão as pessoas protestarem também contra a falta de privacidade de seus dados. Poucos têm paciência de ler atentamente as cláusulas que regem o uso das informações fornecidas. Estes preferem usar o tempo para relatar publicamente como anda sua digestão ou expor as fotos da operação de fimose.
          A principal atividade é a postagem. Todo dia, a população publica mais de 250 milhões de fotos. A cada 20 minutos, 10 milhões de comentários são escritos, 2 milhões de perfis são atualizados e 1 milhão de links são compartilhados. Que trabalho terão os cientistas sociais do futuro.
          A moeda de troca é o like. Trocam-se likes por mais likes. O que no fim das contas não faz a economia produzir valor. A não ser para o monarca, que, com esse intenso tráfego de gentilezas, vende com mais facilidade os espaços publicitários aos anunciantes.
          Quando conto essas coisas, as pessoas pensam que estou inventando ou que fiquei louco, acham que é mais uma viagem de Marco Polo.
          Enfim, se você se interessou em visitar, saiba que, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, entrar para essa comunidade especial é simples. Basta apresentar seu nome, um e-mail e a data de nascimento. Esses dados nem precisam ser verdadeiros. Entrar é facílimo, difícil mesmo é sair.
Postado por Marco Polo às 8:45                                                               O comentários