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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Hermes Fontes: Perfeição

 
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Tanto esforço perdido em ser perfeito!
Em ser superno, tanto esforço vão!
Sonho efêmero; acordo e, junto ao leito,
a mesma inércia, a mesma escuridão.

Vejo, através das sombras, um defeito
em cada cousa, e as cousas todas são,
para os meus olhos rútilos de eleito,
prodígios de impureza e imperfeição!

Fico-me, noite a dentro, insone e mudo,
pensando em ti, que dormes, esquecida
do teu amargurado sonhador…

Ah, Mas, se ao menos, imperfeito é tudo,
salve-se, às mil imperfeições da vida,
a humilde perfeição do meu amor!

(Ciclo de Perfeição — 1914)

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Antologia Nacional — coleção de enxertos dos principais escritores [prosadores e poetas] da língua portuguesa do 20º ao 13º século: Seleção, Apresentação e Prefácio da 1ª edição por Fausto Barreto e Carlos de Laet, Prefácio da 25ª edição por Prof. M. Daltro Santos, Introdução gramatical por Fausto Barreto, 36ª edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público — trabalhou nos Correios e Telégrafos e foi oficial de gabinete do ministro da Viação —; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; como caricaturista, Hermes Fontes atuou no jornal O Bibliógrafo e também no Tagarela e Brasil Moderno; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; sua poesia é de estética simbolista; Hermes Fontes “compôs a letra das músicas Luar de Paquetá e À Beira-Mar com música de Freire Junior gravadas por Vicente Celestino e Orlando Silva”, entre outras composições e gravações; na divulgação de seus textos, Hermes Fontes ainda fez uso dos pseudônimos Léo-zito, Leléo, Léo-Fábio, P. Q. Nino, H. F., F. H., Rems, Rins e Roms; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Hermes Fontes: Suave amargor

 
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Sofrer é o menos, minha suave Amiga;
todos têm sua cruz ou seu cajado
cruz de dor, ou cajado de dever...

Este é sereno; aquele se afadiga:
um, só pelo desejo contrariado,
outro, por esperar, sem nunca obter.

Tudo muda, dirás... Mas, certamente,
não muda a luz: vem sempre do Nascente
para o mesmo calvário de Sol-Pôr!

Sofrer é o menos... A dificuldade
é sofrer sem protesto e sem rancor;
é morrer sem tristeza e sem saudade:

Morrer, de olhos em Deus, devagarinho,
ciciando uma palavra de carinho
aos que vivem sem fé e sem amor...

(A Fonte da Mata — 1930, nas Poesias
Escolhidas [1944], pp. 350-351)

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Antologia Nacional — coleção de enxertos dos principais escritores [prosadores e poetas] da língua portuguesa do 20º ao 13º século: Seleção, Apresentação e Prefácio da 1ª edição por Fausto Barreto e Carlos de Laet, Prefácio da 25ª edição por Prof. M. Daltro Santos, Introdução gramatical por Fausto Barreto, 36ª edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e Telégrafos e foi oficial de gabinete do ministro da Viação ; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; como caricaturista, Hermes Fontes atuou no jornal O Bibliógrafo e também no Tagarela e Brasil Moderno; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; sua poesia é de estética simbolista; Hermes Fontes “compôs a letra das músicas Luar de Paquetá e À Beira-Mar com música de Freire Junior gravadas por Vicente Celestino e Orlando Silva”, entre outras composições e gravações; na divulgação de seus textos, Hermes Fontes ainda fez uso dos pseudônimos Léo-zito, Leléo, Léo-Fábio, P. Q. Nino, H. F., F. H., Rems, Rins e Roms; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Carlos de Laet: Soneto futurista

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Noite. Calor. Concerto nos telhados.
Cubos esferoidais. Gatas e gatos.
Vênus. Graças. Aranhas. Carrapatos.
Melindrosas. Poetas assanhados.

Rabanetes azuis. Sóis encarnados.
Comida no alguidar *. Cuspo nos pratos.
Três rondas a cavalo. Mil boatos.
Prosa sesquipedal. Tropos safados.

Avenida deserta. Bondes. Grama.
Chopes Fidalga. Leite. Pão de ló.
Carros de irrigação. Salpicos. Lama.

Vacas magras. Esfinge. Triste. Só.
Tumor mole. São Paulo. Telegrama.
Dois secretas. Cubismo. Xilindró.

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* Nota de Idel Becker: alguidar: vaso de barro e metal, baixo, em forma de cone truncado e invertido.
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Carlos Maximiliano Pimenta de Laet (1847 1927), nascido no Rio de Janeiro, foi polemista, epigramista, humorista, além de professor, filólogo, homem de imprensa e poeta; bacharel em Letras e formado em Engenharia pela Escola Central (atual Politécnica UFRJ), não seguiu carreira e voltou-se ao magistério e ao jornalismo; trabalhou em diversos periódicos (Diário do Rio, Jornal do Commercio) e também como colaborador e/ou redator na Tribuna Liberal, no Jornal do Brasil, no Jornal do Commercio de São Paulo e na revista Atlântida, nos quais deixou uma vasta produção sobre arte, história, literatura, crítica de poesia e crítica de costumes; escreveu e publicou Poesias (1873), Em Minas (1894), Antologia Nacional (em colaboração com Fausto Barreto, 1895), A Descoberta do Brasil (1900), Heresia Protestante (polêmica com o pastor Álvaro Reis, 1907), e outros títulos; opôs-se ao movimento nascido em São Paulo com a Semana da Arte Moderna de 1922, ironizando e combatendo o Modernismo.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Carlos de Laet: Triste philosophia

Ia Rosa vestir-se, e do vestido
Uma voz se desprende e assim murmura:
“Muitas morremos de uma morte escura,
Por que te envolva sérico tecido!”

Ia toucar-se, e escuta-se um gemido
Do marfim que as madeixas lhe segura:
“Por dar-te o afeite desta minha alvura,
Jaz na selva meu corpo sucumbido!”

Põe um colar, e a pérola mais fina:
“Para pescar-me, quantos párias, quantos
Padeceram no mar, lúgubres sortes!”

E Rosa chora: “Oh! desditosa sina!
Todo sorriso é feito de mil prantos,
Toda vida se tece de mil mortes!”

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Poesias Selectas (vários autores) — Compiladores: Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data *, Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Carlos Maximiliano Pimenta de Laet (1847 1927), nascido no Rio de Janeiro, foi polemista, epigramista, humorista, além de professor, filólogo, homem de imprensa e poeta; bacharel em Letras e formado em Engenharia pela Escola Central (atual Politécnica UFRJ), não seguiu carreira e voltou-se ao magistério e ao jornalismo; trabalhou em diversos periódicos (Diário do Rio, Jornal do Commercio) e também como colaborador e/ou redator na Tribuna Liberal, no Jornal do Brasil, no Jornal do Commercio de São Paulo e na revista Atlântida, nos quais deixou uma vasta produção sobre arte, história, literatura, crítica de poesia e crítica de costumes; escreveu e publicou Poesias (1873), Em Minas  1894), Antologia Nacional (em colaboração com Fausto Barreto, 1895), A Descoberta do Brasil (1900), Heresia Protestante (polêmica com o pastor Álvaro Reis, 1907), e outros títulos; opôs-se ao movimento nascido em São Paulo com a Semana da Arte Moderna de 1922, ironizando e combatendo o Modernismo.

* Nota: neste Poesias Selectas, em sua primeira página em branco, há um manuscrito com autógrafo e a data 16.2.923.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Carlos de Laet: Tarde. Avenida. Gente. Braços nus. (soneto futurista)

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Tarde. Avenida. Gente. Braços nus.
Pequenotas. Decotes. Almofadas.
Futuristas. Alvear. Doces. Coalhadas.
Deputados. Carniças. Urubus.

O Graça. A claque. O Futurismo. Nada.
Taxi. Bonde. Encontro. Cataprús!
Assistência. Meninos. Pouca luz.
Muita prosa. O Futuro. Pataquada.

Céu verde. Mar de leite. Estrela preta.
Mais graça. Mais topete. Lábio azul.
Osório. O velho Alves. A chupeta.

Aranha. Avô. Avó. Ave. Taful!
Ligação. Beira-mar. Potoca. Peta.
Telefone. Afinal, setenta sul... *


* Nota do Organizador: 70  Sul era outrora o número do Hospício Nacional (do Rio de Janeiro) no catálogo telefônico.
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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Carlos Maximiliano Pimenta de Laet (1847 1927), nascido no Rio de Janeiro, foi polemista, epigramista, humorista, além de professor, filólogo, homem de imprensa e poeta; bacharel em Letras e formado em Engenharia pela Escola Central (atual Politécnic UFRJ), não seguiu carreira e voltou-se ao magistério e ao jornalismo; trabalhou em diversos periódicos (Diário do Rio, Jornal do Commercio) e também como colaborador e/ou redator na Tribuna Liberal, no Jornal do Brasil, no Jornal do Commercio de São Paulo e na revista Atlântida, nos quais deixou uma vasta produção sobre arte, história, literatura, crítica de poesia e crítica de costumes; considerado ' "pimenta" das mais cáusticas' no mundo literário, nos conta R. Magalhães Junior que o poeta fez uso de muitos pseudônimos, entre eles 'Sic', em O Cruzeiro  jornal que circulou no Império, 'Cosme Peixoto', no tempo do governo Floriano, e 'Cosme de Morais', no tempo do governo Prudente; escreveu e publicou Poesias (1873), Em Minas (1894), Antologia Nacional (em colaboração com Fausto Barreto, 1895), A Descoberta do Brasil (1900), Heresia Protestante (polêmica com o pastor Álvaro Reis, 1907), e outros títulos; opôs-se ao movimento nascido em São Paulo com a Semana da Arte Moderna de 1922, ironizando e combatendo o Modernismo.

sábado, 31 de maio de 2014

Hermes Fontes: A Formiga

Fausto Barreto E Carlos De Laet - Antologia Nacional
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E dizer-se que não tens nervos, ó nervosa
ó vibrátil, sutil, minúscula formiga!
Dizer que não tens alma! E haverá quem o diga,
se o teu exemplo toda gente o imita e glosa?!

Tão pequenina és tu, e, astuta e laboriosa,
arrastas uma folha — e a arrastada te abriga...
E o requinte que pões em roer o grão da espiga?
E a perícia em bordar as pétalas da rosa?

Passas, eu me pergunto onde o melhor motivo:
se — Atlas — erguer nas mãos e nos ombros a Esfera,
se — formiga — arrastar um ramo nutritivo;

Ou — sonhador que a própria angústia retempera — 
dia e noite viver, qual dia e noite vivo,
ao peso imaterial de uma triste quimera...
Microcosmo, 1919

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Antologia Nacional, por Fausto Barreto e Carlos de Laet, 36a. edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro  RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888  1930), sergipano de Buquim, bacharel pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, foi poeta, um dos fundadores do jornal Estréia (1904) e colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, entre outros periódicos de sua época; obra poética: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922) etc.