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domingo, 6 de janeiro de 2019

João Cabral de Melo Neto: O sertanejo falando

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A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

2.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.

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João Cabral de Melo Neto

[translated by W. S. Merwin]

The man from up-country talking

The man from up-country disguises his talk:
the words out of him like wrapped-up candy
(candy words, pills) in the icing
of a smooth intonation, sweetened.
While under the talk the core of stone
keeps hardening, the stone almond
from the rocky tree back where he comes from:
it can express itself only in stone.

2.

That’s why the man from up-country says little:
the stone words ulcerate the mouth
and it hurts to speak in the stone language;
those to whom it’s native speak by main force.
Furthermore, that’s why he speacks slowly:
he has to take up the words carefully,
he has to sweeten them with his tongue, candy them;
well, all this work takes time.
____________________
An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; João Cabral de Melo Neto (1920  1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.